
15.12.09
Contemplação
Sonho de olhos abertos, caminhando
Não entre as formas já e as aparências,
Mas vendo a face imóvel das essências,
Entre idéias e espíritos pairando...
Que é o mundo ante mim? fumo ondeando,
Visões sem ser, fragmentos de existencias...
Uma névoa de enganos e impotências
Sobre vácuo insondável rastejando...
E d'entre a névoa e a sombra universais
Só me chega um murmúrio, feito de ais...
É a queixa, o profundíssimo gemido
Das coisas, que procuram cegamente
Na sua noite e dolorosamente
Outra luz, outro fim só presentido...
(Antero de Quental)
Sonho de olhos abertos, caminhando
Não entre as formas já e as aparências,
Mas vendo a face imóvel das essências,
Entre idéias e espíritos pairando...
Que é o mundo ante mim? fumo ondeando,
Visões sem ser, fragmentos de existencias...
Uma névoa de enganos e impotências
Sobre vácuo insondável rastejando...
E d'entre a névoa e a sombra universais
Só me chega um murmúrio, feito de ais...
É a queixa, o profundíssimo gemido
Das coisas, que procuram cegamente
Na sua noite e dolorosamente
Outra luz, outro fim só presentido...
(Antero de Quental)
Questões de agendamento político Pessoais....
A clarividencia cristalina de Antonio Vitorino ontem na RTP1 permitíu compreender (aos mais distraídos) que o país é governado por agendas políticas muito pessoais (não confundir com nacionais). De acordo com o reputado comentador, Cavaco Silva não tem condições de "ir à guerra" com o actual executivo, porque se lhe apresenta um segundo mandato para executar e qualquer clivagem institucional representa um sério risco na gestão da imagem política e concomitantes votos na urna. Percebe-se claramente o à vontade de Jorge Sampaio quando lidou com Pedro Santana Lopes: aquele já estava no ultimo mandato e não poderia ser reeleito.
14.12.09
Se a oposição continuar a fazer o seu papel - o ser oposição - para o qual foi aliás votada, o governo ameaça com uma saída antecipada. Chantagem política baixa.
Resta perguntar: quem tem medo de ir a votos ? O primeiro a ter medo irá ceder. É esta a política actual do governo e do PS. Mas será esta a polítca que interessa a Portugal ? Certamente que não.
"A Pátria não se discute"
É uma imensa trapalhada tudo o que o PS e o governo pretendem passar, como mensagem política. O país não tem condições de responder a aumentos de receitas orçamentais e necessita, urgentemente, de ver reduzida a sua participação no despautério em que se transformou a despesa pública. O governo tem de reduzir a despesa pública; o problema, uma vez mais afirmo, situa-se ao nível da dívida pública que é monstruosa, e acaso suceda um aumento das taxas de juro, o serviço da dívida será um pesadelo para este pequeno país. A verdade é que estamos falidos técnicamente.
Por outro lado, não existe nenhuma tramoia, nenhuma conspiração política da esquerda à direita: existe sim uma conspiração do governo socialista, que pretende governar em minoria como se dispusesse de uma maioria confortável, tentando convencer o povo de que sem o PS e Sócrates não há solução para Portugal e que a oposição, de forma intencional e maleficamente pensada, tenta acabar com essa solução única.
O PS ganhou as eleições com minoria relativa e aceitou formar governo; cabe aos portugueses "lerem" correctamente a situação do país e as desculpas esfarrapadas que se lhes apresentam.
O governo tem uma responsabilidade: governar. A oposição tem uma obrigação: não defraudar os votantes. Uns e outros têm de cumprir com a sua obrigação.
Pretender que os partidos da oposição estão coligados de forma imprópria e estranha é surrealista, porque iria contra os respectivos programas (já o afirmei antes).
Igualmente e de forma equivalente, ganhar as eleições não obrigava o PS a formar governo. Se o programa do PS e a sua política (a de Sócrates e o seu estilo de governação) obrigava a uma maioria absoluta tinham dito, sem margem para dúvidas ao eleitorado, que só seriam governo acaso dispusessem de maioria absoluta.
À regras que têm de ser cumpridas. A governação não se faz através de exercícios nas "paralelas" nem nas "argolas" (de jogadas parelelas e argoladas estamos fartos). A governação faz-se de frente, sem temores e sem apego ao poder; faz-se com profundo sentido nacional. A Pátria não se discute.
Ver as imagens de Berlusconi ferido, sangrando, mostram uma outra imagem, uma outra visão: a loucura imediata que se apossa de alguns, manipulados por outros, que através da palavra incitam à acção criminosa. Os problemas são muitos, os problemas sociais graves, mas o pior dos cenários é traçado pela manipulação dos signos que passam pela linguagem utilizada cirurgicamente, e que é interpretada por cada um à sua maneira e de acordo com o seu próprio equilíbrio intelectual e emocional. As pessoas são viradas umas contra as outras e, espera-se, haverá sempre alguém que deixa de pensar de forma clara para se emocionar numa atmosfera de discurso colectivo ou que fica a remoer a emoção e age posteriormente.
Os valores são desrespeitados e a democracia vira-se contra ela própria, criando os mecanismos que permitem que seja vilipendiada.
Aquela visão sangrenta é comparável ao fim dos tempos.
E vem de trás, não é nova, só aumenta no risco.
10.12.09
A verdade recompensa, mesmo quando é MÁ....
Qual é a razão que nos impede de querer ouvir más notícias ? As más notícias são "más" porque mostram claramente falhas detectadas no sistema, e ninguém gosta de admitir que falhou.
Contudo, as más notícias providenciam uma informação preciosa: que existem problemas que têm que ser resolvidos antes que se tornem maiores. Assim, perante os líderes (sejam políticos ou empresariais) dever-se-á apresentar os problemas mal eles surjam e estes deverão recompensar quem assim o faz.
Este princípio é válido, totalmente válido, para a governação.
Um país informado reage positivamente perante os problemas e recompensa os seus dirigentes, ao contrário de um país enganado que, num jogo de "faz de conta", se deixa enlear pelas tropelias das mentiras e, quando se dá conta, já é tarde para "emendar a mão". Neste último e dantesco cenário um país deverá punir severamente os seus líderes políticos.
Quanto mais cedo os problemas são conhecidos, mais cedo poderemos utilizar mecanismos de reacção, utilizando os recursos mais apropriados.
Hoje é a Grécia que se discute. Amanhã, mesmo amanhã será Portugal. Quantos mais países na União Europeia estão falidos ? Quantos mais ?
7.12.09
À falta de ideias não se chama maioria oposicionista, chama-se falta de ideias...
O Ministro Jorge Lacão vem falar em medidas propostas pelo PSD (alterações orçamentais) incompatíveis com as finanças do estado, alegando falta de responsabilidade de estado por parte deste partido.
o bom do Dr. Antonio Vitorino vem especular sobre uma maioria absoluta de oposição, contrária aos interesses do governo e do estado, vincando em simultâneo o papel não-conciliador do Presidente da República e colocando-o perante um desafio difícil (como se a actuação até ao momento de Cavaco Silva tivesse algo a ver, mesmo infimamente, com o papel que Sampaio desempenhou no derrube do governo Santana Lopes).
Ambos esquecem o mais importante e o que é de facto fundamental: nem é possível ao PSD fazer passar as alterações que bem entende porque não tem maioria parlamentar; bem como não é possível considerar, sequer em tese, que quatro partidos tão distintos, no pensamento e no espectro político, se entendam com tanta facilidade (ir do BE até ao CDS ainda é uma viagem e tanto).
Se o que o PSD defende (orçamentalmente) merecer a maioria da votação na Assembleia da República, então estaremos perante medidas que não chocam qualquer dos eleitorados desses quatro partidos e, assim sendo, são clara vontade da maioria dos cidadãos votantes, ou seja, são bem ou mal as medidas que a maioria dos portugueses quer ver a funcionar no terreno.
Igual raciocínio é válido para todas as iniciativas parlamentares socialistas e chumbadas pelos restantes partidos representados no hemiciclo: a maioria dos portugueses não se revê nessas medidas.
É uma enorme falsidade pretender que há uma maioria oposicionista.
O que existe é um governo e um primeiro-ministro que não sabem que medidas adoptar perante este país transformado num pantano; faltam as ideias e os objectivos; falta a vontade de mudar atitudes e práticas despesistas; falta humildade para encarar a realidade: este é um país muito pobre.
Perante a ausencia de ideias e perspectivas, baseada a governação na demagogia, despesismo e autoritarismo autista é fácil para esta oposição tão heterogénea entender-se na Assembleia da República.
A solução existe mas requer coragem, verdade e sacrifícios: uma política nacional de carácter social, com investimentos virados para a valorização do cidadão e das condições essenciais ao bem-estar social, com uma política económica encarada como ferramenta e não um fim.
2.12.09
A mentira é válida...o aproveitamento político não....(no pensar do "poder")
Ficámos hoje a saber, pelo sound bite que nos chegou da Assembelia da República, que nesta república das bananas não é importante determinar se o Primeiro-Ministro (PM) mentíu na Assembleia da República (ao fim e ao cabo a Assembleia Nacional) quando em Junho de 2009 disse nada saber sobre o negócio Prisa/PT, mas sim se a líder da oposição tinha utilizado informação que prefigure fuga de informação para fazer combate político, nessa data, chamando-o de "mentiroso".
Num país onde o PM pode mentir impunemente sem que ninguém questione a sua idoneidade para exercer o cargo, penso que até se deveria ir mais longe; não só utilizar as fugas de informação como publicar tudo o que se sabe e se pode provar.
28.11.09
27.11.09
As Maiorias Negativas (para quem?)
A resultante verbal, por parte do Ministro das Finanças, outros Ministros e máquina socialista, da votação contrária aos interesses do governo na Assembleia da República foi má e dissonante, a mostrar desespero, se atentarmos na recente propaganda política que o mesmo se tem encarregado de difundir:
(1) Afinal sempre havia aumento da carga fiscal com o novo Codigo Contributivo; de acordo com as contas do Ministro das Finanças, o atraso na entrada em vigor do diploma acarreta uma perca de receita fiscal de 80 milhões de euros. Estimo que fosse bem mais que isso, mas os 80 milhões já chegam para provar o ponto de vista;
(2) A preocupação não está centrada na redução da despesa pública mas no aumento da receita fiscal. O curioso é que o aumento da receita para uns (o estado) representa um aumento de despesa para os outros (as empresas). No estado em que as empresas se encontram já é necessária muita coragem para se ser empresário; aumentando a carga fiscal começa a assumir laivos de insanidade. O dinheiro que se liberta na actividade económica não dá para tudo. Como é que vai ser quando os juros que incidem sobre a divída pública aumentarem, por via dos ratings manhosos a que Portugal se vai sujeitando? Aumentam-se os impostos até quando? Creio que não há a mínima noção do limite para esse aumento, caso contrário já se estaria numa política de contenção extrema na despesa pública não produtiva, e de alavancagem da economia através do aligeirar da pressão fiscal sobre os contribuintes.
(Repito que os défices não são todos maus. Maus são aqueles que temos);
(3) O Pagamento Especial por Conta (PEC) nunca deveria ter sido criado. Foi uma péssima invenção de Manuela Ferreira Leite com custos insuportáveis para as empresas, todas elas, independentemente da dimensão, e não passou de um expediente menor na capacidade de controlar o défice, porque saíu de um raciocínio obtuso identico ao do Ministro das Finanças actual: onde é que vamos buscar mais dinheiro ? (assim mesmo, da forma mais singela possível);
(4) A desculpa de que o défice de 2010 está descontrolado é bacoca e insustentável; sem nenhuma das medidas novas e com o PEC a funcionar o défice de 2009 já está descontrolado. Qual a diferença em relação a 2010? Ah... a diferença está no endividamento externo que está em cima do total do PIB, ou seja, em valor absoluto 100% do Produto Interno Bruto (PIB) nacional, em contagem crescente diária e com juros crescentes (em virtude do aumento do risco que a dívida externa da República representa).
Nasceu entretanto uma outra adjectivação política nacional: a maioria negativa.
Lindo: maioria negativa.
Os gurus do marketing político não se podem queixar com falta de trabalho.
As terminologias políticas nascem como cogumelos.
Assistimos à invenção das maiorias negativas (data para anotar). Mas onde está essa maioria negativa na perspectiva do governo? (a) na Assembleia da República, resultado do sufrágio directo transformado em votos, ou (b) no número de partidos que concorrem aos respectivos votos? E para quem? (a) para o partido do governo ou (b) para o país?
Se respondeu (a) e (a) tem uma clara percepção da realidade política nacional.
Se respondeu (a) e (b) ou é um indefectível socialista ou ainda procura o seu lugar ao sol.
Se acaso respondeu (b) e (a) é um caso claro de dependencia socrática, de bajulador encartado.
24.11.09
Há que mudar o pensamento político e social em Portugal....
Avizinham-se tempos ainda mais difíceis.
O desemprego em Portugal está nos 13% actualmente mas pior, existe um desemprego estrutural que não irá ficar abaixo dos 8%.
As soluções de quem tem a responsabilidade de governar ou não existem, ou são irresponsáveis. Perdeu-se o sentido de estado, no seu significado mais directo, puro e duro: perdeu-se o sentido das coisas.
Não existe uma consciencia social, impedindo a existencia de politicas sociais que obrigam a perspectivar politicas economicas focadas em objectivos sociais.
Quem governa não o sabe fazer, enredando-se em problemas e confundindo estes com as soluções. Exemplo: o investimento publico deveria ser todo canalizado para a educação, a saúde, a justiça e a modernização da maquina fiscal e do estado (desburocratização e redução da despesa precisam-se urgentemente).
Os impostos são elevados mas a falácia perpetua-se: não se é capaz de reduzir a despesa do estado (a dívida pública per se, consome o que já não temos) como ainda se garante por palavras o que não se pratica por actos: o aumento da carga fiscal por efeito do novo Código Contributivo é inegável. Como o é o aumento do défice em 2009, muito mal explicado pelo Ministro das Finanças que, uma vez mais, através de linguagem falaciosa quis dizer o impossível; que em Março de 2009 não era possível prever o estado da economia em Dezembro do mesmo ano.
O défice não vai ser de 8%; o défice em 31 de Dezembro de 2009 vai ser de 9,4%.
O crescimento da despesa pública faz-se a um ritmo de 50 milhões de euros diários. É a grande loucura, em estilo político medíocre, economicamente paupérrimo e objectivamente suicidário.
O governo está mal e vai mal; acabaram-se as veleidades de pretender que se está a fazer alguma coisa (nunca se esteve, foi sempre de mal a pior mas iam-se escondendo as mazelas) e as cicatrizes da má condução política e económica das ultimas décadas estão aí com toda a força.
O problema nacional não é conjuntural, é estrutural. Com ou sem crise o problema estava aí; a crise internacional acelerou o processo.
Não conseguimos fazer, não sabemos fazer. Não temos uma cultura de seriedade, de trabalho, de conhecimento e de humildade. Não estudamos, não nos questionamos, nunca temos dúvidas e raramente nos enganamos.
É este o nosso drama; somos pobres de espírito e não sabemos tirar proveito das nossas melhores qualidades porque nos afundamos nos nossos piores vícios: somos arrogantes na forma como encaramos a vida e os outros.
Admitimos que existem uns que tudo têm que suportar, enquanto para outros só existem direitos naturais (quase divinos).
Fazemos do engano uma escola, da mentira uma virtude.
E a oposição não vai melhor.
Nada a esperar do que aí vem do PSD. Dois cenários possíveis numa realidade indisfarçável: mais do mesmo (Aguiar Branco) ou menos de mais para um partido oposicionista (Passos Coelho) que está, indelevelmente, fragmentado (como venenosamente - mas de forma séria - e cheio de oportunidade Marcelo Rebelo de Sousa fez notar).
A política nacional foi canibalizada por várias gerações muito fraquinhas, muito pouco preparadas, enredadas em questões pessoais e problemas partidários (que passaram sempre por preocupações pessoais) que não lhes permitiram conhecer e participar, de forma activa, na vida e problemas das sociedades modernas e, em particular, dos problemas da sociedade portuguesa.
Uma rede de estradas, uns mini-computadores e um ou dois investimentos de referencia são foguetório que não dão para um país viver.
Estamos a pagar uma factura demasiado elevada e que não merecíamos. Ninguém pedíu as nacionalizações em 1975.
Ninguém referendou a descolonização e a forma como foi conduzida.
Ninguém requereu as reformas educativas nem a facilidade de acesso ao crédito.
Ninguém percebeu a necessidade de acabar com empresas nacionais viáveis (Mague, Siderurgia, Lisnave, CUF, para citar só algumas) e substituir durante anos - para esconder o Sol com a peneira - o empregador privado pelo empregador Estado.
Ninguém pedíu uma integração galopante e profunda na União Europeia (a integração na CEE era desígnio antigo que data de 1961).
Ninguém imaginou que estivessemos a ser colonizados em 2009 por Angola, com todos os riscos inerentes a esse processo.
Ninguém quis que o nosso principal parceiro a Grã-Bretanha (GB) perdesse influencia política e económica (que historicamente sempre teve) e fosse substituído, durante muitos anos pela França, assim como ninguém quer agora estar dependente nas nossas exportações quase a 30% do mercado espanhol e a quase 80% do mercado europeu.
Novas ideias políticas são mais do que necessárias; são fundamentais.
Arejar a política nacional é fundamental.
O bafio que se sente quando olhamos para o conjunto de partidos políticos com assento parlamentar, só encontra equivalente na vergonhosa condução dos interessses nacionais. Um e outra têm de ser limpas, arejadas repito, levadas por caminhos sérios e pensados para o bem-estar que todos merecemos.
Muito poucos delapidaram o património de milhões. E continuam a delapidar.
Muito poucos, como sempre, iludiram uns milhões com promessas inviáveis. E continuam a iludir prometendo o que sabem não poder cumprir.
Muito poucos são os que necessitam ser substituídos. E terão de o ser.
Serem muito poucos apresenta uma vantagem; são todos conhecidos.
Resta empreender o movimento de substituição.
Novas caras, novas ideias, seriedade, motivação e empenho.
Acima de tudo pensar Portugal e os portugueses (os que cá estão e os que estão fora de Portugal).
Novas políticas e novas formas de encarar a política. Menor dependencia do pensamento atávico político e social nacional; arrojo, criatividade, desempenho máximos são absolutamente necessários.
Acreditar em Portugal é fundamental.
Acreditar que é possível mudar é fundamental.
Participar da mudança é fundamental.
A inacção explora primeiro e mata de seguida.
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