13.4.05

NOCTURNO

Eram, na rua, passos de mulher.
Era o meu coração que os soletrava.
Era, na jarra, além do malmequer,
espectral o espinho de uma rosa brava...

Era, no copo, além do gim, o gelo;
além do gelo, a roda de limão...
Era a mão de ninguém no meu cabelo.
Era a noite mais quente deste verão.

Era, no gira-discos, o Martírio
de São Sebastião, de Debussy...
Era, na jarra, de repente, um lírio!
Era a certeza de ficar sem ti.

Era o ladrar dos cães na vizinhança.
Era, na sombra, um choro de criança...

(David Mourão-Ferreira)

2 comentários:

Mendes Ferreira disse...

O DMF foi um amigo especial.Curioso este chegar aqui a este nocturno...Leu "um amor feliz?"........o mundo é tão diverso e quase belo,nem que seja por um só momento.Boa noite.

Anónimo disse...

Faço minhas as palavras de Mendes Ferreira.Doce memória dos meus anos...