14.4.05

Digo Não À Cegueira

Vinde, vinde todos
e apreciai o que vos trago:
a natureza num bago,
a vida vivida nos lodos.
Bago de arroz, marabunta,
mais a sede, miséria e agonia,
acompanham-na dia a dia,
na existência defunta
de quem à vida se atém,
mesmo que recolha o desdém
daqueles que com ele se cruzam.
É que no cego fingimento
de quem vendo nada vê,
e não sabendo o porquê
de tamanha vilania,
vão despontando na hipocrisia
de um mundo já estragado,
(disso não se dando conta)
onde a ira e a cobiça
cohabitam lado a lado!
Pobre daquele que alma tem
hoje mais que ninguém,
por ver sua existência perdida
entre os cinismos da vida.
Lutando vai-se fazendo
órfão, cada vez mais órfão
num mundo cada vez mais cão,
onde a palavra irmão
todo o sentido perdendo,
se aplica sómente
àqueles que de facto o são!
Para ti meu irmão vou vivendo,
para ti que me queres como tal!
Para os filhos, no exemplo de que a vida
não é necessáriamente brutal,
e que só vale ao ser vivida
tomando todos por igual!
Aos outros, em cada momento
reservado lhes está o amor,
refúgio último da dor
que assola o pensamento!


(João Fernandes)

1 comentário:

Mendes Ferreira disse...

e dizer sim à claridade não é correr o risco de ficar cego para sempre? falta-nos o tempo de descobrir a exacta medida entre a luz e a sombra entre o que não é rasgão e o que é certeza. Boa noite.