11.4.05

Canção De Uma Sombra

Ah, se não fosse a névoa da manhã
E a velhinha janela, onde me vou
Debruçar, para ouvir a voz das cousas
Eu não era o que sou.

Se não fosse esta fonte, que chorava,
E como nós cantava e secou...
E este sol, que eu comungo, de joelhos,
Eu não era o que sou.

Ah, se não fosse este luar, que chama
Os espectros à vida, e se infiltrou,
Como fluido mágico, em meu ser,
Eu não era o que sou.

E se a estrela da tarde não brilhasse;
E se não fosse o vento, que embalou
Meu coração e as nuvens, nos seus braços,
Eu não era o que sou.

Ah, se não fosse a noite misteriosa
Que os meus olhos de sombras povoou,
E de vozes sombrias meus ouvidos,
Eu não era o que sou.

Sem esta terra funda e fundo rio,
Que ergue as asas e sobe, em claro voo;
Sem estes ermos montes de arvoredos,
Eu não era o que sou.

(Teixeira de Pascoaes)

1 comentário:

Mendes Ferreira disse...

Sem esta terra macia eu seria outro.quem sabe mais solar.talvez o lugar do esquecimento.talvez o outro lado da ilha...