13.6.11

Ministério das Finanças: a obrigatória latitude de pensamentos

A viagem faz-se a uma velocidade considerável. Em economia o tempo é uma medida de aceleração. Quando o tempo gasto para tomar decisões ultrapassa o razoável, as decisões por melhores que sejam já não servem, porque o tempo se encarregou de alterar o cenário económico. Por várias razões de lógica pura, mas acima de tudo por esta, a nível económico é melhor uma má decisão que uma não decisão. Depois, acresce que as decisões são passíveis de emendar, rasurar e substituir. O tempo não se substitui; esgota-se.

A viagem é difícil: o próximo ministro das finanças vai precisar de encarar o que é possível, e não o que é desejável. É desejável que Portugal liquide toda a dívida que contraiu, quer a pública quer a privada. Vale, no seu somatório, 245% do PIB. É desejável mas não é possível. Como é que Portugal vai pagar de capital 2,45 vezes o que produz em todo o seu território, acrescido dos juros da dívida? Não vai. A menos que a economia cresça a 8% ao ano. É possível? Nem em sonhos. Portugal não tem condições de crescer a uma taxa destas. Nunca cresceu. Não crescendo a economia definhará inevitavelmente para todos os portugueses, que verão o seu poder de compra reduzido drasticamente, e durante muitas décadas.

As ideias feitas, os discursos supostamente sofisticados, os pareceres do politicamente correcto terão de ser arrumados na gaveta, ad aeternum. O tempo é de acção, de ideias novas e de coragem feito. A teimosia não tem lugar no horizonte nacional: a sensatez, a par da capacidade de alterar o status quo da política nacional e a forma como se encara a União Económica e Monetária será fundamental. Já não se trata de ser europeísta ou euro céptico: essas são designações e discussões guardadas para períodos de crescimento económico e países ricos. Assim como não são tempos de luxos, como a discussão em torno de políticas mais ou menos liberais: pura e simplesmente o país não se pode dar ao luxo de ser liberal. Nem se pode dar ao luxo de reivindicações sindicais descontextualizadas (e aqui cabem todas). E, por favor, não privatizem tudo a eito, porque há sectores que não podem ser privatizados. E porque o país necessitará mais que nunca, de ter ao seu alcance, activos que sirvam de colaterais.
Este país, o nosso país, está falido: quando são aos milhares os desempregados qualificados (não contando com cursos inventados a que ninguém reconhece utilidade); quando num só ano, 2010, emigram mais de trinta mil portugueses, todos mão-de-obra qualificada, o país de origem falíu. O país de origem é o nosso. Estes são indicadores pesados e que não deixam dúvidas.
É absolutamente necessário encarar de frente a realidade que nos espera, e esperar que a economia consiga cumprir não é realidade, é miríade.
Não temos qualquer hipótese de pagar o que pedimos emprestado, nem agora nem nunca.
Formar um governo onde esta linha de pensamento não caiba é coertar a sua capacidade de acção e a sua agilização, perante problemas sérios que irão estar ao virar da esquina.
O ministro das finanças precisa de ter a seu lado assessores que cubram todo o espectro do pensamento económico e defendam todas as posições possíveis; precisa de ter equipas, desde o primeiro dia, a trabalhar em todos os cenários possíveis, incluindo o cenário do incumprimento.
Portugal tem de chegar primeiro aos problemas e não sistematicamente atrasado, como a Grécia; não assumir as rédeas implica ser conduzido, mal, no nosso futuro, que se casa com o nosso destino.

A viagem, felizmente, não é feita totalmente às escuras. Felizmente a Grécia vai à frente. Um anos depois vemos em que situação se encontra este país e aquilo que vemos não nos agrada. Uma Grécia de mão estendida, conduziu o país a uma situação de bancarrota e de extrema dependência, cada vez mais longe da solução europeia. O regresso ao dracma far-se-á, obrigatoriamente, mas não no respeito do timing grego, tão só no interesse dos economicamente fortes, quando estes estiverem a coberto de qualquer surpresa, depois de estudarem aturadamente os cenários. E no dia em que chegarem à óbvia conclusão que os mercados já aceitam, com alívio, a saída da Grécia da zona euro, seguir-se-á Portugal, de forma rápida.
A isto chama-se ser empurrado. Há uma outra forma de sair: a negociada. Mas para atingir esta solução, assim que ela se mostrar necessária (na minha opinião já lá estamos), o trabalho de casa tem de estar feito. Não basta bradar que uma saída do euro seria desastrosa para o país (discurso da moda e dominante por estes dias): é necessário explicar e demonstrar porquê e esta demonstração, nestes termos, não é possível. Porque todos os caminhos mostram, à evidência, que a saída, acompanhada da obrigatória reestruturação, é mais proveitosa que ficar, até que nos chutem para fora.

3.6.11

Alavancar não é pecado...

Desalavancar uma economia alavancada é retirar-lhe a capacidade mínima de recuperação.
Nota: há sempre uma primeira geração de "não-ricos", que geram o dinheiro inicial alavancando as suas actividades, iniciais e posteriores. Com os países acontece o mesmo: ou têm riquezas naturais ou não, mas precisam de alavancar as economias, sempre, para não ficarem totalmente dependentes dos interesses externos.
Desalavancar o que está alavancado é um enorme disparate que acaba, forçosamente, mal.

31.5.11

As cartas falsas

Já vão em 4.000 as cartas passadas indevidamente pela DGV (agora IMTT).
Dizem que são falsas, mas na realidade são verdadeiras; foram passadas indevidamente, a troco de dinheiro, a quem não estava habilitado a conduzir.
Mas, no meio de mais uma história triste da nossa triste sociedade, falta informação: casar os acidentes inexplicáveis, como circular nas auto-estradas em contra-mão e outras bizarrias, com os detentores de licenças de condução compradas através de corrupção. Porque o estado foi lesto a culpar a idade, a alterar o código com novas datas para renovações de licença de condução, com juntas médicas e houve até quem sugerisse que se deveria deixar de ter carta depois dos 80 anos. Asnos, todos.
Agora, devem ser casados todos esses acidentes estranhos e outros igualmente graves, com os condutores a circularem indevida e abusivamente, para se aferir da relevância do acto criminoso, com as mortes criminosas resultantes.
É fácil arranjar desculpas e obrigar os contribuintes a gastarem tempo e dinheiro com processos burocráticos, admitindo em simultâneo uma diferença abusiva de tratamento de acordo com a idade do cidadão, como se idade fosse doença, e não procurar mais fundo, não ir ao cerne da questão: a sociedade que está podre e precisa de ser limpa.
Tem de ser tirada a limpo a relação entre os factos.

30.5.11

Já cheira a reestruturação (para já grega)....

Grécia: privatizar até 2013 e alterar condições de pagamento dos títulos de dívida grega aos credores particulares.
As privatizações já faziam parte do pacote. A novidade está na reestruturação, a que se chama alteração das condições de pagamento. Agora só falta (dêem mais algum tempo) reestruturar e reduzir o montante em dívida, em simultâneo.

27.5.11

Adorava....

Adorava saber como é que Portugal vai fazer face ao desafio da dívida pública, com taxa de juro anual média superior a 6% e crescimento negativo da economia. Adorava saber quando é que a economia portuguesa vai crescer a 3%, quanto mais a 6,8% (e mesmo assim, a 6,8%, só daria para os juros e nunca para amortizar capital).
Adorava saber em que medida estamos melhor que a Grécia, quando a troika afirma que o problema de Portugal é diferente daquele país, porque na Grécia o problema é orçamental e em Portugal é estrutural: toda a economia está alavancada, especialmente o sector financeiro.
Adorava saber como é que, seguindo o plano da troika, saímos da situação de desespero em que nos encontramos.
Adorava saber.

P.S. Já agora - e penso que não é pedir demais - gostava que não nos tratassem como analfabetos e incompetentes, mesmo sabendo que a grande maioria o é. A diferença é que assim, tratados assim, os que são nunca mais deixarão de o ser.

26.5.11

Doutores, jargões, perigos....

Perguntar se é possível os actores políticos não verem o que é por demais evidente, é uma permanente perca de tempo. Não vêem, ponto final.
O que se perfila no seu (curto) horizonte é um misto de medo e irresponsabilidade; aquele impede o discernimento e este apela à passividade.
Não encarar a realidade económica é relegar o país para secundaríssimo plano, e renegar o direito à acção. É aceitar como bom todo e qualquer instrumento de política económica, desde que venha de fora, porque permite a enorme desculpa da imposição, sem cuidar da sua validade.
O ciclo vicioso em que nos encontramos e para o qual a Europa também caminha, não aproveita a ninguém. Claro que uns (portugueses, irlandeses, gregos) acrescidos de possíveis outros (italianos e belgas) e ainda islandeses, sofrerão e muito. Mas todos os outros, sem excepção, terão de pagar o seu quinhão. Se os mercados diminuírem à velocidade da erosão económica - o que sucederá - vende-se o quê a quem? E compra-se onde e a que preço? Porque a Europa não se basta a si própria. E, depois, ainda temos o Leste, a Turquia, o Magrebe, o empobrecimento do médio-oriente e de África.
O caminho seguido pela Europa, a fixação da acção económica no aumento da carga fiscal, conduz inevitavelmente a uma perca de poder de compra, e esta perca de poder de compra espalha-se por todo o mundo, porque é o mundo em si mesmo que se vai contraindo, através da contracção das economias europeias, por via de taxas de juro baixas, que conduzem à desvalorização das moedas (no caso europeu o euro) e porque a recuperação, em parte, desta contracção económica na balança comercial, contagia negativamente todos os outros países no mundo. Por outras palavras, podemos estar a entrar num problema muito mais sério e não a sair de outro problema, já de si sério.
Creio que há muitos doutorados, cheios de jargões, que opinam muito, em muito lado, que de economia na realidade não pescam nada.

25.5.11

Vai ser necessário reestruturar

Um excerto de um artigo de opinião de Paul Krugman no New York Times, publicado hoje por um jornal nacional, afirma o evidente: Portugal não conseguirá honrar os seus compromissos.
Para ler aqui.
Nada que já não tenha sido escrito neste blogue dezenas de vezes, mas como Krugman também eu tenho a certeza que não é o bom senso que governa o mundo.

19.5.11

Falta sempre o fundamental: orgulho e noção de valor extrinseco.....

Foi uma final histórica para o futebol nacional.
Aos olhos de milhões (essencialmente europeus), ontem estava representado o país futebolístico, o país de reconhecidas capacidades técnico-tácticas, o país que tendo orçamentos baixos nos seus clubes consegue atingir patamares de excelencia. Estava representada uma capacidade de: gerar técnicos de futebol de valor mundial; organizar clubes e consolidar modelos de gestão de sucesso; utilizando parcos recursos atingir patamares elevados de valor acrescentado.
Tudo isto esteve representado. Tudo menos a capacidade de utilizar os momentos, ímpares ou não, como arma de propaganda e marketing nacional. Não ver uam bandeira portuguesa envergada por qualquer um dos elementos das duas equipas foi confrangedor, mas ainda mais confrangedor foi assistir à autorização dada pelos dirigentes para que, os seus assalariados, pagos com fundos gerados em Portugal com contratos de trabalho regidos pela lei portuguesa, usurpassem a imagem de uma final portuguesa, com bandeiras dos respectivos países.
Os clubes podem ser "sociedade de nações" no conjunto de atletas que os representam, para dentro de si mesmos, mas para o exterior os clubes representam sempre os países de onde são oriundos. Todos os seus atletas deveriam ter sido cobertos com bandeiras portuguesas, vencedores e vencidos e, assim, passar uma imagem de um Portugal presente, mesmo nos maus momentos, mas sempre presente e mostrarmos que somos os primeiros a acreditar nas nossas capacidades e a orgulharmo-nos de quem somos, de onde vimos e para onde vamos.
Existem culpas e culpados: primeiro, a tacanhez da incapacidade de percepcionar a importância do momento; segundo, a falta de visão estratégica dos dirigentes máximos dos dois clubes; terceiro, o provincianismo de que deram mostras. mas há igualmente responsabilidades da Federação Portuguesa de Futebol (FPF), por não antecipar a importância do momento e não contribuir para a exaltação da imagem nacional, por excelência, a nossa bandeira. Por último, a enorme falta de sentido de estado do Secretário de Estado do Desporto, por não antecipar as enormes vantagens de projectar, em momento tão difícil para Portugal, a imagem do país e, conjuntamente com a FPF e os clubes, terem transformado a final da Liga Europa numa enorme mancha das cores nacionais.
Por estas e por outras é que perdemos a American Cup para Valencia (Espanha) e agora a Ryder Cup para a França. Porque tudo o que fazemos é feito "em cima do joelho" e não há chama, chispa, brio nacional.
Imaginem esta final entre clubes espanhóis..........pois......

12.5.11

O pior Chiado numa abandonada Av. da Liberdade...ou a machadada final...

Av. da Liberdade, Lisboa.
Passear na Avenida da Liberdade é um suplício. Os lojistas têm-se multiplicado em abrir espaços amplos, cuidados, mono-marca e o local da cidade que estaria obrigado a ser um passeio público de qualidade, perde-se nos arrumadores-moedinhas, na miséria de quem tem de esmolar, naqueles que por lá vagueiam sem que ninguém se interesse pelo seu modo de vida: o que fazem, como passam o tempo, o que procuram. Além disto, também a Avenida da Liberdade é um coio de lixo: as obras constantes, a irresponsabilidade dos construtores/remodeladores, a ausência de fiscalização, fazem com que a artéria tenha um aspecto medonho, de dia; imagine-se então de noite. Por um conjunto de razões, Lisboa é uma cidade deserta nos seus passeios, quer durante a semana, quer ao fim-de-semana: a qualquer hora.
Agora acenam-se com quiosques, que irão também ter DJ´s, o que significa música aos berros, sem qualquer utilidade, a não ser transformar a Avenida da Liberdade na miséria em que Santana Lopes transformou o Chiado, quando lá enfiou uns horrorosos altifalantes ( e viu-se a "fauna" que passou a habitar o Chiado).
falo de um espaço fantástico da Cidade de Lisboa, o que percorre toda a zona ribeirinha, entra pelo Chiado ou pela Baixa, sobe até ao Camões e Largo do Rato, ou até ao Parque Eduardo VII. Mancha imensa da Cidade, linda mas muito mal tratada pela edilidade.
Uma vez mais fica provado que nada se faz de forma pensada; tudo obedece a repentismos, a dinâmicas difíceis de compreender. Erros sobre erros.
Pergunto-me: os lojistas que têm investido forte na Av. da Liberdade, estarão na disposição de pagar este custo ( o de puxar para o espaço o seu anti-cliente) acrescido ao custo da crise?
Só faltam as farturas (espero que o sexto quiosque, a abrir mais tarde, lhes seja consagrado), porque minis vazias e pedaços de tudo no chão, gente com calças pelo meio do rabo e muita algazarra, já estão prometidos.

E saem umas taxas para o país do canto....

Financiar fundos a uma taxa perto dos 6% é suicídio.
Os montantes acordados e, supostamente, mutuados até 2013, substituirão outros, que foram negociados na sua maturidade a taxas muito inferiores, abaixo de metade das taxas agora acordadas ou, na pior das hipóteses a 3%.
Substituir empréstimos a 6% para pagar empréstimos captados a 3%, empurra a taxa média actual, de cerca de 4,8%, para uma taxa média perto dos 7,4%.
A nossa economia precisa de ritmos de crescimento impossíveis de alcançar no curto prazo.
O futuro reserva enormes dificuldades para cumprir o serviço da dívida, admitindo a possibilidade de reestruturar a dívida externa. E, pasme-se, a exigência destas taxas manifestamente elevadas, vem da solidariedade europeia e não do FMI. Apetece perguntar: é esta a ante-câmara para a saída do euro? Apontada pelos nossos solidários parceiros europeus? É a leitura possível, no momento.

28.4.11

Problemas de vista....

"O "Financial Times" publica hoje uma carta de protesto de Ricardo Reis e de Luís Garicano, dois conhecidos professores de Economia, contra a exigência da UE e do FMI de um acordo pan-partidário, antes de eleições, em torno do plano de ajuda externa".
Retirado de negócios online.

Quando escrevi sobre o Voto Inútil, tinha as mesmíssimas razões que são agora aventadas por dois ilustres economistas.
O que mais fere neste nosso país é a miopia, o estrabismo e a ausência de lucidez que se instalou.

25.4.11

A inevitabilidade da Moratória

Podem políticos e economistas enfeudados a partidos políticos, afirmar que Portugal não pode pedir a reestruturação da dívida soberana, porque as pessoas de bem - o estado português no caso - pagam as sua dívidas atempadamente. Mesmo que para esse cumprimento se tenha de pedir dinheiro emprestado; mesmo que quem empresta saiba, com toda a certeza, que sem empréstimo o incumprimento é certo - com esta certeza, quem empresta manda de facto e é o único que manda.
Depois, o que se verifica é que a economia é estrangulada com as exigências de quem empresta, cuja preocupação é recuperar o dinheiro emprestado, acrescido dos juros devidos, sem qualquer preocupação de crescimento económico do devedor. Mais tarde, o destino, com empréstimo, é o mesmo que sem empréstimo: o devedor tem de assumir a impossibilidade de cumprir o serviço da dívida, como bem nos mostra a Grécia. Moratórias, reescalonamento da dívida e todas as manobras financeiras possíveis, são colocadas então em prática. Para quê, pergunta-se; nessas condições já o estado parece uma pessoa de bem? Porque primeiro fingíu tentar cumprir, sabendo dessa impossibilidade, e só depois assume que não pode? É uma vez mais só uma questão de mera hipocrisia?
Bom, é que no fim a conclusão é óbvia: estamos todos fartos de mentiras e hipocrisias. Se é por estas razões não vale a pena estarmos a estragar, ainda mais, o cenário.
Portugal está a ser escrutinado, exposto, mal tratado, situações que viveria se assumisse que não podia pagar, por agora. Vive estas situações e sujeita-se a medidas económicas que só o enfraquecem, por não fazer o óbvio, afirmar o inevitável: não pode pagar, não tem condições para honrar as dívidas. Mas, ao contrário do que "doutas" figuras afirmam, Portugal não é o incumpridor: quem incumpre é a classe política que, há 37 anos, expolia Portugal. São os nomes dos incumpridores que se sujeitam à má fama, nunca um país com quase 900 anos de História, nem o seu povo.

19.4.11

O voto inútil....

É interessante acompanhar estes últimos tempos da III República. Temos um conjunto alargado de figuras públicas, incluindo políticos, numa acção deliberada de conseguir, a saber:

(1) Um compromisso nacional entre partidos e instituições, tendo em conta a «credibilidade externa», e uma «maioria [parlamentar] inequívoca», com a intenção de responder à crise;

(2) Segundo os subscritores, esta é uma crise iniciada nos Estados Unidos em 2009 e «a maior recessão global dos últimos 80 anos»: nada de nacional, portanto;

(3) Apelar a «um compromisso entre o Presidente da República, o Governo e os principais partidos, para garantir a capacidade de um plano de acção imediata, que permita assegurar a credibilidade externa e o regular funcionamento da economia»;

(4) Um compromisso para ser alcançado antes das próximas eleições, marcadas para 5 de Junho, segundo os subscritores desta genial ideia.

Por outras palavras, mesmo antes das eleições de 5 de Junho próximo, tudo deverá estar combinado, acertado, assinado, preparado para ser implementado. Por outras palavras, é um bloco central alargado, que inclui os principais partidos políticos, empresários, políticos que desempenham e desempenharam as mais altas funções de Estado, etc.,etc..

O que se pretende é a manutenção do status quo e a sua salvaguarda.
Pergunta-se: se tudo está acertado e negociado para quê eleições?
Mas pergunta-se mais: se o que se pretende é definir o rumo de Portugal, fora e para além da vontade dos votantes, porque razão essa definição é feita pelos mesmos que destruíram a Nação?
Se a democracia é um mito em Portugal e a liberdade de decisão política, através do voto, se transforma numa utopia, porque razão querem ser os mesmos que destruíram, a impor a sua vontade à Nação?
Nestas circunstancias, não tenho qualquer dúvida que prefiro outras gentes, mais capazes e que não estejam sujas pela bancarrota nacional, pelos interesses políticos, pelos favores pessoais e de classe.
A táctica, objectivamente, parece ser a de tirar este "cavalo da chuva" mantendo os cavaleiros, colocando outro "cavalo à chuva" e mantendo o poder. Mas se o poder já não se consagra pelo voto mas por acordos palacianos, melhor será para Portugal que se confirme um outro poder, mais capaz, menos volátil a interesses pessoais, mais nacional e patriótico. E, se acaso, se assume que o voto, por si só, já não resolve nada, acresce a razão para a mudança de protagonistas políticos, porque os actuais contribuíram, decisivamente, para a erosão desse voto, agora considerado inútil.

15.4.11

Interesses privados, opiniões públicas

É natural e normal que o Eng.º Belmiro de Azevedo não vislumbre, sequer, a hipótese de Portugal sair da zona euro.
Muito embora essa decisão passe pela nossa vontade, mas passe igualmente pela vontade só de terceiros, a verdade é que, com a engenharia financeira da Sonae, que passa, também, pelo financiamento externo directo, uma desvalorização do escudo seria problemática, porque a Sonae assenta o grosso da facturação nos serviços e não na indústria.
Percebe-se a posição e respeita-se, mas é uma posição pessoal, fruto de uma estratégia empresarial, e as estratégias empresariais privadas nem sempre são coincidentes com os interesses nacionais. Mas, uma vez mais, todos os problemas têm uma solução, quando existe a capacidade técnica necessária, enaltecida em terceiros, pelo Engº Belmiro de Azevedo.

Recessio, onis .....

Pretender que a Alemanha está disponível para ajudar financeiramente Portugal, a Grécia e a Irlanda, para além do que já foi concedido a estes dois países, é não estar a entender o tabuleiro europeu onde se está a jogar.
Umas vezes através da Áustria, outras da Holanda, da Polónia ou da Finlândia e, mesmo de mote próprio, a Alemanha tem dado sinal do seu descontentamento em disponibilizar fundos para aquelas economias. Quando falo em Alemanha, falo nos alemães, todos, que têm infligido pesadas derrotas à Srª Merkel.
Para a generalidade dos alemães a questão é simples: ou estes países saem do euro, ou se o discurso bate constantemente na estabilização da zona euro, saem eles alemães. A resultante é igual: sem Alemanha não há euro.
Só esta constatação é evidente de que, para o mal, vivemos numa zona euro-marco.
Para o mal porque as economias nada têm a ver umas com as outras, estão em patamares opostos de crescimento económico e só pode ser nefasta a teimosia de manutenção na zona euro, para países como Portugal.
De uma forma ou outra, o euro é já uma miragem, como é uma miragem a recuperação económica de Portugal, durante toda uma geração, se a política económica se mantiver, teimosamente, como está.
O FMI já avançou com datas: vai ficar por cá pelo menos dez anos.
Dez anos de recessão é obra.
Recessão: do lat. "recessio, onis" e designa a acção de recuar.

14.4.11

O Desígnio, o caminho, a solução....

As questões de performance económica prendem-se, na totalidade, com decisões políticas. Por outras palavras, a vontade política define, na totalidade, a capacidade económica de um país ou região. Sendo a premissa verdadeira, convenhamos que o conhecimento económico, por parte da classe política, é fundamental.
Mais ainda: a capacidade de antecipar cenários económicos e financeiros é determinante para a acção política. Existindo aquela, esta corre bem, caso contrário a conclusão é óbvia. Não entra na equação o que não pode entrar: roubo e corrupção. O resto entra, sobressaindo a competência ou incompetência no mencionado resto.
Na difícil situação em que Portugal se encontra - recordemos que Portugal são os portugueses - não é nada fácil, para não dizer impossível, imaginar milhões de concidadãos passarem uma enorme tormenta, na forma de vidas desfeitas, de frustrações vincadamente sociais, pessoais e familiares. Apetece gritar muito alto "Porquê", mas a resposta seria invariavelmente um enorme silêncio para algumas questões, sendo para outras o desfiar de um rol de recriminações , de todos conhecidas.
Estamos na situação que, para mim, é a melhor: eu, que me habituei a encetar algumas recuperações financeiras de vulto, garantindo a estabilidade empresarial de instituições e a manutenção de centenas de postos de trabalho, gosto do "capital de mudança", das inevitabilidades, dos constrangimentos na acção, das tesourarias "a vermelho", algumas entre outras certezas com que sou sempre confrontado, quando assumo responsabilidades de gestão de topo. E gosto, perante todas essas certezas e inevitabilidades, de vencer paradigmas.
Portugal está numa situação em que precisa de se reinventar: de alterar o paradigma.
Sei, como a maioria de nós sabe, quais os problemas que nos afligem; esse conhecer faz parte da análise preliminar. Depois, começa-se de imediato a trabalhar nas soluções; soluções porque nunca existe uma única solução, também porque os problemas, mesmo que pareçam idênticos, exigem sempre tratamento diferente. Ao nível económico e financeiro não existem duas "gripes" iguais.
É este desafio, o desafio da solução, que é empolgante, que galvaniza, que define o líder e conduz as massas, porque estas acreditam nas soluções, porque os fizeram acreditar que existe uma solução. A situação exige uma liderança forte, um objectivo claro traçado e uma enorme capacidade de argumentação, negociação, execução e assertividade. Doa a quem doer.
Não é uma gestão para agradar; é uma gestão para resolver.
Portugal tem, no momento presente, uma enorme questão a resolver: devolver a dignidade e condições de vida à sua população.
Toda a governação tem de se inclinar sobre este desígnio maior. Dele, nascem todos os outros objectivos, fixados claramente, mas desígnio só pode existir um e só existe um, o que foi mencionado.
Atingi-lo exige coragem, determinação e saber. Mas exige, muito principalmente, arrastar todo o país no desígnio nacional, no desígnio que todos, sem excepção, reconhecem como o único possível, o único pelo qual valem todos os sacrifícios. Mas não se pode pedir à população, já em enorme sacrifício, que se habitue à ideia que vai ter de fazer (durante quatro anos, para os optimistas, sete anos para os políticos, ou vinte anos para os mais habituados a fazer contas), sacrifícios ainda maiores. Não pode porque a população não aguenta, porque ninguém pode viver "eternamente" com o credo na boca, porque uma coisa é não poder comprar um carro ou fazer uma viagem e outra, bem diferente, é não ter como pagar os estudos dos filhos e mesmo não ter o que comer. E, contudo, as soluções existem.
Existindo, chega de carpir mágoas, esconder a ineficiência em discursos de retórica, de ataques e contra-ataques, de "diz que disse". A hora é de começar a trabalhar, com o desígnio traçado, os objectivos de curto-prazo fixados e os de médio e longo-prazos ajustados, sistematicamente ajustados.
Tenho escrito sobre o trilho inicial, aquele que tem de ser encetado e dará origem ao restante percurso. O primeiro é a direito; o outro sofrerá ajustamentos obrigatórios de rota. Conheço a concepção primeira do percurso, porque conheço o trilho. Existindo coragem, só exigirá muito trabalho.
Como será expectável, não é possível descrever todo o caminho a percorrer e os resultados esperados, num espaço como este; veja-se este escrito, que já tem léguas.
Mas recorro a exemplos: há uma enorme quantidade de negócios, de indústrias, que não têm qualquer viabilidade económica no Portugal de hoje. Há, igualmente, uma agricultura que não tem saída e umas pescas que estão moribundas. Razões fundamentais: a dimensão nacional é pequena para lutar contra enormes corporações, com enorme capacidade e eficiência produtiva, seja na agricultura e pescas, seja na indústria. Seria impossível, no Portugal de hoje, recriar um grupo químico da dimensão da CUF, uns estaleiros da dimensão da Lisnave ou uma siderurgia da dimensão da SN. Porque é mais barato comprar fora do que produzir internamente, porque não há capacidade de alavancagem financeira de indústrias que consomem enormes recursos financeiros e não porque se tenha perdido conhecimento científico e técnico.
Imagine-se agora, numa escala mais pequena, outras indústrias: embalagens de cartão, por exemplo. Como é possível investir em Portugal, criar postos de trabalho e produzir embalamento para o leite e os sumos, quando somos confrontados com a Tetra Pak? Não é; o investimento está condenado. Todos nos lembraremos agora de negócios e falo de negócios não especulação, sobre os quais já nos debruçámos e chegámos sempre à mesma conclusão: em Portugal não dá: o mercado é pequeno, não elástico e a concorrência feroz.
Imagine-se agora um Portugal diferente, dono da sua moeda, desvalorizada face ao euro, a necessitar de consumir e a ter de pagar preços incomportáveis para o consumidor interno: valerá de novo o investimento nas embalagens de cartão para embalamento (mero exemplo), porque a Tetra Pak já não conseguirá responder ao anseio de preços do seu consumidor, que tem de responder perante o consumidor final interno. E outros negócios, outras indústrias, outras agriculturas e outras pescas se lhe seguirão. O consumo interno cresce, com uma mão-de-obra desvalorizada externamente em 25%, o emprego cresce, as importações são fruto do crescimento do rendimento agregado nacional e, last but not least, as exportações são competitivas, levando a economias de escala, ou seja, a prover o mercado nacional a menores custos e a atacar com força no mercado internacional.
Elementos comuns à estratégia: recurso ao escudo abandonando o euro; utilização do instrumento cambial; cunhagem de moeda; injecção de liquidez na economia; proteger o made in Portugal; reestruturação do sector primário e secundário da economia; reutilização dos recursos humanos do sector terciário nos sectores mencionados anteriormente, incluindo e facilitando a necessária redução de efectivos no estado.
Esta é a solução que defendo e preconizo para Portugal. Este é o trilho que nos conduzirá ao desígnio. Este é o caminho mais curto para a felicidade.

13.4.11

os europeus e os portugueses.....

Curioso, muito curioso: quando se fala dos problemas que se vivem em Portugal, os políticos teimam em afirmar que os problemas são dos portugueses, que quem vai viver pior são os portugueses, que quem vai sofrer com a austeridade são os portugueses. E têm razão: não só os nossos políticos não vão sofrer nada, como de portugueses têm muito pouco ou nada: são todos europeus, seja isso o que for.

10.4.11

Algumas posições que assumo podem ser, com facilidade, confundidas com a esquerda; já anteriormente o tinha escrito.
Que fique também claro que a dicotomia esquerda/direita, tendo perdido em tempos o seu sentido, faz hoje mais sentido que antes. De assinalar, igualmente, que cansaço da classe política e de políticos, não pode significar afastamento e/ou repúdio pelas ideias políticas e acção política: política é, basicamente, ciencia social ancorada em conhecimento e pensamento filosófico.
Por isso me arrogo o direito de me situar no quadrante político da direita, social não liberal. Por isso, algumas das ideias que perfilho possam ser identificadas com a esquerda e me possa identificar com a esquerda nalgumas posições. Mas uma coisa é ser, outra é concordar pontualmente.