26.5.11

Doutores, jargões, perigos....

Perguntar se é possível os actores políticos não verem o que é por demais evidente, é uma permanente perca de tempo. Não vêem, ponto final.
O que se perfila no seu (curto) horizonte é um misto de medo e irresponsabilidade; aquele impede o discernimento e este apela à passividade.
Não encarar a realidade económica é relegar o país para secundaríssimo plano, e renegar o direito à acção. É aceitar como bom todo e qualquer instrumento de política económica, desde que venha de fora, porque permite a enorme desculpa da imposição, sem cuidar da sua validade.
O ciclo vicioso em que nos encontramos e para o qual a Europa também caminha, não aproveita a ninguém. Claro que uns (portugueses, irlandeses, gregos) acrescidos de possíveis outros (italianos e belgas) e ainda islandeses, sofrerão e muito. Mas todos os outros, sem excepção, terão de pagar o seu quinhão. Se os mercados diminuírem à velocidade da erosão económica - o que sucederá - vende-se o quê a quem? E compra-se onde e a que preço? Porque a Europa não se basta a si própria. E, depois, ainda temos o Leste, a Turquia, o Magrebe, o empobrecimento do médio-oriente e de África.
O caminho seguido pela Europa, a fixação da acção económica no aumento da carga fiscal, conduz inevitavelmente a uma perca de poder de compra, e esta perca de poder de compra espalha-se por todo o mundo, porque é o mundo em si mesmo que se vai contraindo, através da contracção das economias europeias, por via de taxas de juro baixas, que conduzem à desvalorização das moedas (no caso europeu o euro) e porque a recuperação, em parte, desta contracção económica na balança comercial, contagia negativamente todos os outros países no mundo. Por outras palavras, podemos estar a entrar num problema muito mais sério e não a sair de outro problema, já de si sério.
Creio que há muitos doutorados, cheios de jargões, que opinam muito, em muito lado, que de economia na realidade não pescam nada.

25.5.11

Vai ser necessário reestruturar

Um excerto de um artigo de opinião de Paul Krugman no New York Times, publicado hoje por um jornal nacional, afirma o evidente: Portugal não conseguirá honrar os seus compromissos.
Para ler aqui.
Nada que já não tenha sido escrito neste blogue dezenas de vezes, mas como Krugman também eu tenho a certeza que não é o bom senso que governa o mundo.

19.5.11

Falta sempre o fundamental: orgulho e noção de valor extrinseco.....

Foi uma final histórica para o futebol nacional.
Aos olhos de milhões (essencialmente europeus), ontem estava representado o país futebolístico, o país de reconhecidas capacidades técnico-tácticas, o país que tendo orçamentos baixos nos seus clubes consegue atingir patamares de excelencia. Estava representada uma capacidade de: gerar técnicos de futebol de valor mundial; organizar clubes e consolidar modelos de gestão de sucesso; utilizando parcos recursos atingir patamares elevados de valor acrescentado.
Tudo isto esteve representado. Tudo menos a capacidade de utilizar os momentos, ímpares ou não, como arma de propaganda e marketing nacional. Não ver uam bandeira portuguesa envergada por qualquer um dos elementos das duas equipas foi confrangedor, mas ainda mais confrangedor foi assistir à autorização dada pelos dirigentes para que, os seus assalariados, pagos com fundos gerados em Portugal com contratos de trabalho regidos pela lei portuguesa, usurpassem a imagem de uma final portuguesa, com bandeiras dos respectivos países.
Os clubes podem ser "sociedade de nações" no conjunto de atletas que os representam, para dentro de si mesmos, mas para o exterior os clubes representam sempre os países de onde são oriundos. Todos os seus atletas deveriam ter sido cobertos com bandeiras portuguesas, vencedores e vencidos e, assim, passar uma imagem de um Portugal presente, mesmo nos maus momentos, mas sempre presente e mostrarmos que somos os primeiros a acreditar nas nossas capacidades e a orgulharmo-nos de quem somos, de onde vimos e para onde vamos.
Existem culpas e culpados: primeiro, a tacanhez da incapacidade de percepcionar a importância do momento; segundo, a falta de visão estratégica dos dirigentes máximos dos dois clubes; terceiro, o provincianismo de que deram mostras. mas há igualmente responsabilidades da Federação Portuguesa de Futebol (FPF), por não antecipar a importância do momento e não contribuir para a exaltação da imagem nacional, por excelência, a nossa bandeira. Por último, a enorme falta de sentido de estado do Secretário de Estado do Desporto, por não antecipar as enormes vantagens de projectar, em momento tão difícil para Portugal, a imagem do país e, conjuntamente com a FPF e os clubes, terem transformado a final da Liga Europa numa enorme mancha das cores nacionais.
Por estas e por outras é que perdemos a American Cup para Valencia (Espanha) e agora a Ryder Cup para a França. Porque tudo o que fazemos é feito "em cima do joelho" e não há chama, chispa, brio nacional.
Imaginem esta final entre clubes espanhóis..........pois......

12.5.11

O pior Chiado numa abandonada Av. da Liberdade...ou a machadada final...

Av. da Liberdade, Lisboa.
Passear na Avenida da Liberdade é um suplício. Os lojistas têm-se multiplicado em abrir espaços amplos, cuidados, mono-marca e o local da cidade que estaria obrigado a ser um passeio público de qualidade, perde-se nos arrumadores-moedinhas, na miséria de quem tem de esmolar, naqueles que por lá vagueiam sem que ninguém se interesse pelo seu modo de vida: o que fazem, como passam o tempo, o que procuram. Além disto, também a Avenida da Liberdade é um coio de lixo: as obras constantes, a irresponsabilidade dos construtores/remodeladores, a ausência de fiscalização, fazem com que a artéria tenha um aspecto medonho, de dia; imagine-se então de noite. Por um conjunto de razões, Lisboa é uma cidade deserta nos seus passeios, quer durante a semana, quer ao fim-de-semana: a qualquer hora.
Agora acenam-se com quiosques, que irão também ter DJ´s, o que significa música aos berros, sem qualquer utilidade, a não ser transformar a Avenida da Liberdade na miséria em que Santana Lopes transformou o Chiado, quando lá enfiou uns horrorosos altifalantes ( e viu-se a "fauna" que passou a habitar o Chiado).
falo de um espaço fantástico da Cidade de Lisboa, o que percorre toda a zona ribeirinha, entra pelo Chiado ou pela Baixa, sobe até ao Camões e Largo do Rato, ou até ao Parque Eduardo VII. Mancha imensa da Cidade, linda mas muito mal tratada pela edilidade.
Uma vez mais fica provado que nada se faz de forma pensada; tudo obedece a repentismos, a dinâmicas difíceis de compreender. Erros sobre erros.
Pergunto-me: os lojistas que têm investido forte na Av. da Liberdade, estarão na disposição de pagar este custo ( o de puxar para o espaço o seu anti-cliente) acrescido ao custo da crise?
Só faltam as farturas (espero que o sexto quiosque, a abrir mais tarde, lhes seja consagrado), porque minis vazias e pedaços de tudo no chão, gente com calças pelo meio do rabo e muita algazarra, já estão prometidos.

E saem umas taxas para o país do canto....

Financiar fundos a uma taxa perto dos 6% é suicídio.
Os montantes acordados e, supostamente, mutuados até 2013, substituirão outros, que foram negociados na sua maturidade a taxas muito inferiores, abaixo de metade das taxas agora acordadas ou, na pior das hipóteses a 3%.
Substituir empréstimos a 6% para pagar empréstimos captados a 3%, empurra a taxa média actual, de cerca de 4,8%, para uma taxa média perto dos 7,4%.
A nossa economia precisa de ritmos de crescimento impossíveis de alcançar no curto prazo.
O futuro reserva enormes dificuldades para cumprir o serviço da dívida, admitindo a possibilidade de reestruturar a dívida externa. E, pasme-se, a exigência destas taxas manifestamente elevadas, vem da solidariedade europeia e não do FMI. Apetece perguntar: é esta a ante-câmara para a saída do euro? Apontada pelos nossos solidários parceiros europeus? É a leitura possível, no momento.

28.4.11

Problemas de vista....

"O "Financial Times" publica hoje uma carta de protesto de Ricardo Reis e de Luís Garicano, dois conhecidos professores de Economia, contra a exigência da UE e do FMI de um acordo pan-partidário, antes de eleições, em torno do plano de ajuda externa".
Retirado de negócios online.

Quando escrevi sobre o Voto Inútil, tinha as mesmíssimas razões que são agora aventadas por dois ilustres economistas.
O que mais fere neste nosso país é a miopia, o estrabismo e a ausência de lucidez que se instalou.

25.4.11

A inevitabilidade da Moratória

Podem políticos e economistas enfeudados a partidos políticos, afirmar que Portugal não pode pedir a reestruturação da dívida soberana, porque as pessoas de bem - o estado português no caso - pagam as sua dívidas atempadamente. Mesmo que para esse cumprimento se tenha de pedir dinheiro emprestado; mesmo que quem empresta saiba, com toda a certeza, que sem empréstimo o incumprimento é certo - com esta certeza, quem empresta manda de facto e é o único que manda.
Depois, o que se verifica é que a economia é estrangulada com as exigências de quem empresta, cuja preocupação é recuperar o dinheiro emprestado, acrescido dos juros devidos, sem qualquer preocupação de crescimento económico do devedor. Mais tarde, o destino, com empréstimo, é o mesmo que sem empréstimo: o devedor tem de assumir a impossibilidade de cumprir o serviço da dívida, como bem nos mostra a Grécia. Moratórias, reescalonamento da dívida e todas as manobras financeiras possíveis, são colocadas então em prática. Para quê, pergunta-se; nessas condições já o estado parece uma pessoa de bem? Porque primeiro fingíu tentar cumprir, sabendo dessa impossibilidade, e só depois assume que não pode? É uma vez mais só uma questão de mera hipocrisia?
Bom, é que no fim a conclusão é óbvia: estamos todos fartos de mentiras e hipocrisias. Se é por estas razões não vale a pena estarmos a estragar, ainda mais, o cenário.
Portugal está a ser escrutinado, exposto, mal tratado, situações que viveria se assumisse que não podia pagar, por agora. Vive estas situações e sujeita-se a medidas económicas que só o enfraquecem, por não fazer o óbvio, afirmar o inevitável: não pode pagar, não tem condições para honrar as dívidas. Mas, ao contrário do que "doutas" figuras afirmam, Portugal não é o incumpridor: quem incumpre é a classe política que, há 37 anos, expolia Portugal. São os nomes dos incumpridores que se sujeitam à má fama, nunca um país com quase 900 anos de História, nem o seu povo.

19.4.11

O voto inútil....

É interessante acompanhar estes últimos tempos da III República. Temos um conjunto alargado de figuras públicas, incluindo políticos, numa acção deliberada de conseguir, a saber:

(1) Um compromisso nacional entre partidos e instituições, tendo em conta a «credibilidade externa», e uma «maioria [parlamentar] inequívoca», com a intenção de responder à crise;

(2) Segundo os subscritores, esta é uma crise iniciada nos Estados Unidos em 2009 e «a maior recessão global dos últimos 80 anos»: nada de nacional, portanto;

(3) Apelar a «um compromisso entre o Presidente da República, o Governo e os principais partidos, para garantir a capacidade de um plano de acção imediata, que permita assegurar a credibilidade externa e o regular funcionamento da economia»;

(4) Um compromisso para ser alcançado antes das próximas eleições, marcadas para 5 de Junho, segundo os subscritores desta genial ideia.

Por outras palavras, mesmo antes das eleições de 5 de Junho próximo, tudo deverá estar combinado, acertado, assinado, preparado para ser implementado. Por outras palavras, é um bloco central alargado, que inclui os principais partidos políticos, empresários, políticos que desempenham e desempenharam as mais altas funções de Estado, etc.,etc..

O que se pretende é a manutenção do status quo e a sua salvaguarda.
Pergunta-se: se tudo está acertado e negociado para quê eleições?
Mas pergunta-se mais: se o que se pretende é definir o rumo de Portugal, fora e para além da vontade dos votantes, porque razão essa definição é feita pelos mesmos que destruíram a Nação?
Se a democracia é um mito em Portugal e a liberdade de decisão política, através do voto, se transforma numa utopia, porque razão querem ser os mesmos que destruíram, a impor a sua vontade à Nação?
Nestas circunstancias, não tenho qualquer dúvida que prefiro outras gentes, mais capazes e que não estejam sujas pela bancarrota nacional, pelos interesses políticos, pelos favores pessoais e de classe.
A táctica, objectivamente, parece ser a de tirar este "cavalo da chuva" mantendo os cavaleiros, colocando outro "cavalo à chuva" e mantendo o poder. Mas se o poder já não se consagra pelo voto mas por acordos palacianos, melhor será para Portugal que se confirme um outro poder, mais capaz, menos volátil a interesses pessoais, mais nacional e patriótico. E, se acaso, se assume que o voto, por si só, já não resolve nada, acresce a razão para a mudança de protagonistas políticos, porque os actuais contribuíram, decisivamente, para a erosão desse voto, agora considerado inútil.

15.4.11

Interesses privados, opiniões públicas

É natural e normal que o Eng.º Belmiro de Azevedo não vislumbre, sequer, a hipótese de Portugal sair da zona euro.
Muito embora essa decisão passe pela nossa vontade, mas passe igualmente pela vontade só de terceiros, a verdade é que, com a engenharia financeira da Sonae, que passa, também, pelo financiamento externo directo, uma desvalorização do escudo seria problemática, porque a Sonae assenta o grosso da facturação nos serviços e não na indústria.
Percebe-se a posição e respeita-se, mas é uma posição pessoal, fruto de uma estratégia empresarial, e as estratégias empresariais privadas nem sempre são coincidentes com os interesses nacionais. Mas, uma vez mais, todos os problemas têm uma solução, quando existe a capacidade técnica necessária, enaltecida em terceiros, pelo Engº Belmiro de Azevedo.

Recessio, onis .....

Pretender que a Alemanha está disponível para ajudar financeiramente Portugal, a Grécia e a Irlanda, para além do que já foi concedido a estes dois países, é não estar a entender o tabuleiro europeu onde se está a jogar.
Umas vezes através da Áustria, outras da Holanda, da Polónia ou da Finlândia e, mesmo de mote próprio, a Alemanha tem dado sinal do seu descontentamento em disponibilizar fundos para aquelas economias. Quando falo em Alemanha, falo nos alemães, todos, que têm infligido pesadas derrotas à Srª Merkel.
Para a generalidade dos alemães a questão é simples: ou estes países saem do euro, ou se o discurso bate constantemente na estabilização da zona euro, saem eles alemães. A resultante é igual: sem Alemanha não há euro.
Só esta constatação é evidente de que, para o mal, vivemos numa zona euro-marco.
Para o mal porque as economias nada têm a ver umas com as outras, estão em patamares opostos de crescimento económico e só pode ser nefasta a teimosia de manutenção na zona euro, para países como Portugal.
De uma forma ou outra, o euro é já uma miragem, como é uma miragem a recuperação económica de Portugal, durante toda uma geração, se a política económica se mantiver, teimosamente, como está.
O FMI já avançou com datas: vai ficar por cá pelo menos dez anos.
Dez anos de recessão é obra.
Recessão: do lat. "recessio, onis" e designa a acção de recuar.

14.4.11

O Desígnio, o caminho, a solução....

As questões de performance económica prendem-se, na totalidade, com decisões políticas. Por outras palavras, a vontade política define, na totalidade, a capacidade económica de um país ou região. Sendo a premissa verdadeira, convenhamos que o conhecimento económico, por parte da classe política, é fundamental.
Mais ainda: a capacidade de antecipar cenários económicos e financeiros é determinante para a acção política. Existindo aquela, esta corre bem, caso contrário a conclusão é óbvia. Não entra na equação o que não pode entrar: roubo e corrupção. O resto entra, sobressaindo a competência ou incompetência no mencionado resto.
Na difícil situação em que Portugal se encontra - recordemos que Portugal são os portugueses - não é nada fácil, para não dizer impossível, imaginar milhões de concidadãos passarem uma enorme tormenta, na forma de vidas desfeitas, de frustrações vincadamente sociais, pessoais e familiares. Apetece gritar muito alto "Porquê", mas a resposta seria invariavelmente um enorme silêncio para algumas questões, sendo para outras o desfiar de um rol de recriminações , de todos conhecidas.
Estamos na situação que, para mim, é a melhor: eu, que me habituei a encetar algumas recuperações financeiras de vulto, garantindo a estabilidade empresarial de instituições e a manutenção de centenas de postos de trabalho, gosto do "capital de mudança", das inevitabilidades, dos constrangimentos na acção, das tesourarias "a vermelho", algumas entre outras certezas com que sou sempre confrontado, quando assumo responsabilidades de gestão de topo. E gosto, perante todas essas certezas e inevitabilidades, de vencer paradigmas.
Portugal está numa situação em que precisa de se reinventar: de alterar o paradigma.
Sei, como a maioria de nós sabe, quais os problemas que nos afligem; esse conhecer faz parte da análise preliminar. Depois, começa-se de imediato a trabalhar nas soluções; soluções porque nunca existe uma única solução, também porque os problemas, mesmo que pareçam idênticos, exigem sempre tratamento diferente. Ao nível económico e financeiro não existem duas "gripes" iguais.
É este desafio, o desafio da solução, que é empolgante, que galvaniza, que define o líder e conduz as massas, porque estas acreditam nas soluções, porque os fizeram acreditar que existe uma solução. A situação exige uma liderança forte, um objectivo claro traçado e uma enorme capacidade de argumentação, negociação, execução e assertividade. Doa a quem doer.
Não é uma gestão para agradar; é uma gestão para resolver.
Portugal tem, no momento presente, uma enorme questão a resolver: devolver a dignidade e condições de vida à sua população.
Toda a governação tem de se inclinar sobre este desígnio maior. Dele, nascem todos os outros objectivos, fixados claramente, mas desígnio só pode existir um e só existe um, o que foi mencionado.
Atingi-lo exige coragem, determinação e saber. Mas exige, muito principalmente, arrastar todo o país no desígnio nacional, no desígnio que todos, sem excepção, reconhecem como o único possível, o único pelo qual valem todos os sacrifícios. Mas não se pode pedir à população, já em enorme sacrifício, que se habitue à ideia que vai ter de fazer (durante quatro anos, para os optimistas, sete anos para os políticos, ou vinte anos para os mais habituados a fazer contas), sacrifícios ainda maiores. Não pode porque a população não aguenta, porque ninguém pode viver "eternamente" com o credo na boca, porque uma coisa é não poder comprar um carro ou fazer uma viagem e outra, bem diferente, é não ter como pagar os estudos dos filhos e mesmo não ter o que comer. E, contudo, as soluções existem.
Existindo, chega de carpir mágoas, esconder a ineficiência em discursos de retórica, de ataques e contra-ataques, de "diz que disse". A hora é de começar a trabalhar, com o desígnio traçado, os objectivos de curto-prazo fixados e os de médio e longo-prazos ajustados, sistematicamente ajustados.
Tenho escrito sobre o trilho inicial, aquele que tem de ser encetado e dará origem ao restante percurso. O primeiro é a direito; o outro sofrerá ajustamentos obrigatórios de rota. Conheço a concepção primeira do percurso, porque conheço o trilho. Existindo coragem, só exigirá muito trabalho.
Como será expectável, não é possível descrever todo o caminho a percorrer e os resultados esperados, num espaço como este; veja-se este escrito, que já tem léguas.
Mas recorro a exemplos: há uma enorme quantidade de negócios, de indústrias, que não têm qualquer viabilidade económica no Portugal de hoje. Há, igualmente, uma agricultura que não tem saída e umas pescas que estão moribundas. Razões fundamentais: a dimensão nacional é pequena para lutar contra enormes corporações, com enorme capacidade e eficiência produtiva, seja na agricultura e pescas, seja na indústria. Seria impossível, no Portugal de hoje, recriar um grupo químico da dimensão da CUF, uns estaleiros da dimensão da Lisnave ou uma siderurgia da dimensão da SN. Porque é mais barato comprar fora do que produzir internamente, porque não há capacidade de alavancagem financeira de indústrias que consomem enormes recursos financeiros e não porque se tenha perdido conhecimento científico e técnico.
Imagine-se agora, numa escala mais pequena, outras indústrias: embalagens de cartão, por exemplo. Como é possível investir em Portugal, criar postos de trabalho e produzir embalamento para o leite e os sumos, quando somos confrontados com a Tetra Pak? Não é; o investimento está condenado. Todos nos lembraremos agora de negócios e falo de negócios não especulação, sobre os quais já nos debruçámos e chegámos sempre à mesma conclusão: em Portugal não dá: o mercado é pequeno, não elástico e a concorrência feroz.
Imagine-se agora um Portugal diferente, dono da sua moeda, desvalorizada face ao euro, a necessitar de consumir e a ter de pagar preços incomportáveis para o consumidor interno: valerá de novo o investimento nas embalagens de cartão para embalamento (mero exemplo), porque a Tetra Pak já não conseguirá responder ao anseio de preços do seu consumidor, que tem de responder perante o consumidor final interno. E outros negócios, outras indústrias, outras agriculturas e outras pescas se lhe seguirão. O consumo interno cresce, com uma mão-de-obra desvalorizada externamente em 25%, o emprego cresce, as importações são fruto do crescimento do rendimento agregado nacional e, last but not least, as exportações são competitivas, levando a economias de escala, ou seja, a prover o mercado nacional a menores custos e a atacar com força no mercado internacional.
Elementos comuns à estratégia: recurso ao escudo abandonando o euro; utilização do instrumento cambial; cunhagem de moeda; injecção de liquidez na economia; proteger o made in Portugal; reestruturação do sector primário e secundário da economia; reutilização dos recursos humanos do sector terciário nos sectores mencionados anteriormente, incluindo e facilitando a necessária redução de efectivos no estado.
Esta é a solução que defendo e preconizo para Portugal. Este é o trilho que nos conduzirá ao desígnio. Este é o caminho mais curto para a felicidade.

13.4.11

os europeus e os portugueses.....

Curioso, muito curioso: quando se fala dos problemas que se vivem em Portugal, os políticos teimam em afirmar que os problemas são dos portugueses, que quem vai viver pior são os portugueses, que quem vai sofrer com a austeridade são os portugueses. E têm razão: não só os nossos políticos não vão sofrer nada, como de portugueses têm muito pouco ou nada: são todos europeus, seja isso o que for.

10.4.11

Algumas posições que assumo podem ser, com facilidade, confundidas com a esquerda; já anteriormente o tinha escrito.
Que fique também claro que a dicotomia esquerda/direita, tendo perdido em tempos o seu sentido, faz hoje mais sentido que antes. De assinalar, igualmente, que cansaço da classe política e de políticos, não pode significar afastamento e/ou repúdio pelas ideias políticas e acção política: política é, basicamente, ciencia social ancorada em conhecimento e pensamento filosófico.
Por isso me arrogo o direito de me situar no quadrante político da direita, social não liberal. Por isso, algumas das ideias que perfilho possam ser identificadas com a esquerda e me possa identificar com a esquerda nalgumas posições. Mas uma coisa é ser, outra é concordar pontualmente.

7.4.11

O que as contas mostram....

Por partes: qualquer política imposta pelo FMI em Portugal é destrutiva, porque não existe o mecanismo da desvalorização cambial.
Realidades: não sabemos quais são, mas podemos fazer uma ideia (por baixo), a saber:
(vamos trabalhar com números redondos)
(1) Dívida pública soberana= 92% do PIB
(2) Dívida das empresas públicas= 25% do PIB
(3) Dívida com PPP (Parceria público-Privadas)= 30% do PIB

Tudo somado, temos uma dívida, por baixo (não esquecer a "proibição de auditar as contas públicas), de 147% do PIB nacional, o mesmo é dizer, 250 mil milhões de euros. Mas não nos ficamos por aqui: há uma verba mais a acrescer às anteriores: refiro-me à dívida das famílias e empresas, constituída junto da banca nacional, através de financiamentos desta obtidos externamente: este valor é equivalente a 70% do PIB.
Creio que em termos de dívida estamos conversados.
Posto isto, ressalta a pergunta fundamental: a austeridade na despesa pública é fundamental, mas a diminuição da despesa por parte das empresas e das famílias, em função da degradação da capacidade de crédito e diminuição de rendimentos, só irá piorar a situação. Não há solução à vista, dentro dos contornos de qualquer intervenção externa, a que malabaristicamente se chama "ajuda", mas que é de facto uma total ingerência e perca de soberania.
Vale então a pena clamar por esta acintosa ajuda? É óbvio que não.
Os valores que estão na mesa são tão elevados que, das duas uma, ou crescemos e pagamos, ou quem nos emprestou afunda-se nos ratings, connosco. Porque vai ter de dizer que não consegue receber, porque tem de provisionar, porque os rácios baixam, porque a economia começa a sofrer e os cidadãos desses países irão penalizar os respectivos políticos. Mas quem deve dorme descansado; já disse que não podia pagar, nas condições definidas: já nada lhe pode retirar o sono.
Resta ao credor aceitar moratórias, reescalonar a dívida e baixar os juros. O devdor ganha tempo, fôlego, para recuperar economicamente, encetar o tão desejado pagamento e começar a liquidar o que deve.
Para atingir este patamar é fundamental existir o instrumento monetário: regresso ao escudo e abandono do euro.
Ouço as vozes dissonantes: catástrofe; deixar o euro equivale a desvalorizar o escudo em 25%. Pergunto: se devo 250% do PIB ao exterior e essa dívida aumentar em 25%, que mal vem ao país agora? Resposta: nenhum, porque nada é para pagar agora. Depois, com o crescimento económico e o início dos pagamentos, a moeda começa a valorizar, a desvalorização inicial a esfumar-se. Entretanto foi possível cunhar moeda, baseada nas reservas de ouro (que então exerceriam o seu verdadeiro papel), aumentar a produtividade, incrementar o consumo interno, porque o ajustamento dos salários nominais ao escudo seria automático e, ao mesmo tempo, com uma moeda fraca, aumentar exponencialmente as exportações, tornando o país apetecível para o investimento.
Alguma coisa de mal nesta solução: nada, a não ser a falta de coragem, único óbice para que estas políticas sejam postas a funcionar.
E deixem que vos diga: não quero nem saber da Comissão Europeia, dos parceiros europeus, da Senhora Merkel ou do seu mais fiel aliado. Emprestaram e nós torrámos o dinheiro, paciência. Agora há que mudar de vida, mas essa mudança não significa nem miséria, nem perca de soberania, nem sequer subserviência à Alemanha. NUNCA.

6.4.11

Ao entrarmos na CEE cometemos um erro dramático.
Ao entrarmos no euro enterrámos a nossa independencia.
Agora, assumimos no papel e nas intenções a vontade de submissão.
A monumentalidade da dependencia deste país é enorme, perto da monumentalidade de que, supostamente, se sofreria por deixar cair o euro e renegociar a dívida.
Tem de haver outro caminho que não este: não há outro caminho com estas políticas, só com outras.
Temos de mudar as políticas, assumir os riscos, ganhar coragem e recuperar a soberania, a economia, a confiança, o país.
Em 2008 propus uma medida que me parece ser, cada vez mais, fundamental: uma moratória no pagamento das prestações das casas, juros incluídos, até ao final do ano, para todas as famílias, independentemente do rendimento. Esta medida permitiria a libertação de verbas, nuns casos, ou aliviar a pesadíssima carga de encargos, nos outros, alimentando também alguma satisfação e alívio social, ou por outras palavras, uma maior alegria e crença no futuro: trata-se de dar tempo às famílias. Os bancos não receberiam esses valores directamente, mas o aumento do consumo de outros produtos, ou da poupança, iria permitir um equilíbrio final no entra/sai monetário das tesourarias bancárias. A moratória não poderia significar qualquer penalização, ou aumento de encargos.
De qualquer das formas, mesmo sem moratória, um em cada três portugueses já não tem como satisfazer os seus compromissos, ou seja, os bancos já não estão a receber, mas a pressão social é imensa.