11.2.09

Questões de Política Económica, Seriedade e Planeamento...

Actualmente, o tema decorrente passa pela discussão da economia, das economias dos diversos espaços geográficos e sociais, da força e fraqueza dessas economias e das respectivas moedas.



Considero pertinente, dentro do contexto actual, deixando para trás tanto revivalismos como estigmas, e assumindo uma postura forçosamente contrária a qualquer leitura ingénua-romanesca da revolução dos cravos, cravar uma lança do pensamento económico do antes 25 de Abril.

Penso que, desta forma, poderei contribuir para o clarificar de algumas nebulosas que se mantêm persistentes e, persistentemente, têm sido muletas de desculpas idiotas.



A política económica do estado-novo é duramente criticada pela atitude reservada, que sempre mostrou, em relação àquilo que se costuma designar por grandes investimentos estruturantes nacionais.

Costuma apontar-se-lhe provincianismo, na leitura dos fenómenos económicos. Também se lhe aponta ausência de motivação na vontade de modernizar o país. Enfim, o provincianismo no seu melhor.

Utiliza-se ainda, abusivamente, um pensamento - "orgulhosamente sós" - descontextualizando-o, quando o mesmo só faz sentido se inserido na negação, nunca escrita mas factual por omissão de resposta positiva , à pretensão portuguesa de entrar na CEE, no início da década de 60, por parte dos membros, à altura, desta comunidade (na mesma altura foi também negada a entrada à Grã-Bretanha, dando origem à chamada "crise da cadeira". Aliás, o propósito português de adesão fora eco da pretensão inglesa).



A questão que se levanta é, então, com propriedade, tentar saber se: (i) foi puro provincianismo, baseado na defesa que essa postura política significava para a segurança do regime, ou; (ii) tratava-se de uma política económica pensada a longo-prazo.



Se verificarmos o que aconteceu a Portugal, nos anos que se seguiram ao 25 de Abril, percebemos o esforço para imprimir ao país um cariz e uma impressão modernizante, dotando-o de vias de comunicação várias cobrindo todo o território, abrindo as fronteiras ao investimento estrangeiro, aderindo à CEE e a todas as suas evoluções e derivações e muitas outras, supostamente demonstrativas de um Portugal moderno e aberto.

Facilitou-se a vida às famílias liberalizando o crédito, ao mesmo tempo que se liberalizava totalmente a economia.



Voltemos atrás no tempo: um Portugal, supostamente fechado ao exterior, atrasado e atrófico nas vozes discordantes do regime, apresentava várias vantagens das quais destaco duas: contas públicas controladas e moeda forte.

A segunda era função da primeira.

Se por um lado o estado não gastava mais do que podia, igualmente a moeda forte era garantia primeira de um direito de consciência nacional; a consciência de que o país não era rico, conduzia à conclusão de que a população tampouco o era.

Sendo Portugal na altura (hoje ainda mais) dependente do exterior para bens essenciais, porque nunca se conseguíu produzir para a auto-suficiência, enfraquecer a moeda significaria, forçosamente, enfraquecer a carteira dos portugueses, diminuindo-lhes a pouca qualidade de vida.

Não havia abundância, mas também não existia pobreza extrema ou exclusão social sistémica.

Contudo, existiam planos de fomento. Foram executados os três primeiros, com êxito assinalável - bem demonstrado pela capacidade nacional de resistir à primeira crise petrolífera - tendo ficado por executar o quarto, o mais ambicioso.

Assinale-se assim o facto incontornável de termos uma política económica pensada, e mais importante, executada de acordo com as possibilidades nacionais, no que se poderia classificar comummente como "não dar o passo maior que a perna".

Tinha o país à altura uma indústria forte - metalúrgica, siderúrgica, naval e química - e uma agricultura que, muito embora insuficiente para as necessidades nacionais, contribuía para um aliviar da pressão sobre a Balança de Transacções Correntes, no orçamento de estado português.



Volvidos todos estes anos verificamos que, actualmente, não há controle sobre a despesa pública, a exclusão social existe, bem como a pobreza extrema, crescendo todos os anos e nada tendo a ver com a recente crise económica.
A insatisfação social é presença permanente e premente e o país não está, longe disso, entre os países modernizados da Europa (uma rede de auto-estradas e outras vias de circulação rápida não são sinais de modernidade, aparentando muito mais sinais de despesismo, porque não estão ligadas umbilicalmente a investimentos importantes na economia, esses sim capazes de ser realmente sedimentadores e relevantes estruturalmente).


Seguindo a linha de raciocínio, que nos conduz a conclusões sobre o estado das economias actualmente, verificamos que, a par de uma sofreguidão em aumentar a capacidade de produção, promovendo e incrementando o consumo obrigatório que satisfizesse a oferta, através de uma redução do custo de produção (leia-se deslocalização - mão-de-obra barata - e robótica - desemprego supostamente absorvido pelos serviços) e facilitismo de acesso ao crédito, as economias ( os políticos e os "opinion makers") esqueceram-se de uma verdade muito simples: não se encontravam, as economias, todas no mesmo degrau e, bastaria esta razão, para que as medidas aplicadas numa não pudessem ser generalizadas a todas as outras. Por outras palavras, a estádios económicos diferentes, correspondem medidas económicas de e para crescimento diferentes.


Não foi isto que se passou. Fez-se tábua rasa das diferenças, aplicou-se a fórmula em todas, por falta clara de pensamento político e económico e os problemas de uns passaram a ser os problemas de todos, agravados consoante as economias se apresentassem, congénitamente, mais débeis.


Não é então de estranhar o problema endémico que assola Portugal: utilizando medicação errada, a economia portuguesa, saída de uma crise política e económica profunda (1975-1982), piorou consistentemente, até um estado pré-comático, moribundo, que verificamos agora, na ausência de ideias, de discursos mobilizadores, quer do governo (cada vez pior na sua actuação e arrogância, insuportáveis e inaceitáveis em tempos muito difíceis) quer de uma oposição que parece siderada com os acontecimentos que se sucedem diáriamente.


Não será possível, ao nível da intelectualidade e da honestidade inerente, considerar que o alinhavar de umas ideias escritas, por melhor sustentadas que estejam, permitem retirar conclusões indiscutíveis (desse mal também padecemos, o das conclusões rápidas). Filosóficamente é impossível, porque a conclusão conduz, forçosamente à dúvida, mas deduções, termo de sentido mais suave, concerteza que serão.


Resta-me então deduzir, para o pós-25 abril:


(1) toda a política económica portuguesa foi um fiasco, estando o país a pagar claramente a factura;
(2) a promiscuidade entre a coisa pública e privada é aviltante;
(3) não tínhamos condições para sustentar a despesa futura, que o despesismo em obras públicas nos vários consulados políticos, forçou;
(4) nem fomos capazes de empreender investimentos que capitalizassem esses mega-investimentos.


Por outro lado, e de novo à luz do conhecimento actual, parece possível intuir que o estado-novo tinha:

(1) preocupações sociais, impedindo o crescimento da pobreza e a exclusão, através de políticas económicas que passavam pela educação (os seus custos), pela alimentação (contenção dos preços), pela saúde (João Semana) e pela habitação (habitação económica - HE), tudo através de olíticas económicas controladas;
(2) reconhecimento social das profissões (ser chefe-de-oficina ou funcionário do estado, para não falar dos bancos, dava estatuto);
(3) opção por um crescimento económico lento mas sustentado e planeado (assiste-se hoje ao descalabro das políticas de crescimento económico acelerado e não programado/pensado);
(4) defesa da indústria nacional e em geral de tudo o que significava "made in Portugal" (é claro, hoje, que são crescentes os movimentos de proteccionismo nas várias economias. Estes movimentos aproveitam as economias fortes e são fatais para as economias fracas, como a nossa).


Por isto e aquilo parece-me claro que, no plano nacional, estaríamos hoje melhor com uma política económica ao estilo estado-novo, do que a economia político-colonial da nossa elite partidária.

E nada disto tem a ver com liberdades, direitos e garantias.....ou terá tudo a ver.

9.2.09

É de moda que se trata hoje, aqui....


Tendências de moda este Inverno, em New York, recuperando os anos 20 e 30, de grandes golas, estilizando-as e adaptando-as à actualidade, para conferir aqui:


http://www.nytimes.com/interactive/2009/02/08/fashion/20090208-street-feature/index.html

E Nacionalize-se a Banca....

Escreveu Bruno Proença, no Diário Económico, que a crise arrasou por completo a credibilidade dos economistas.
É absolutamente verdade (com excepção deste economista que anda há muito a alertar para o que veio e para o que aí ainda vem).
De facto, os economistas falharam na avaliação da crise, na importância que lhe deram e igualmente nas origens e impactos da mesma.
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As economias há muito que deixaram de crescer a taxas que justificassem os investimentos absurdos na capacidade de produção das empresas, bem como na necessidade da deslocalização dos meios de produção e consequente deslocalização de capitais.
Hoje assiste-se a um fraccionar brutal do sistema económico e, consequentemente, a uma ruptura total no sistema financeiro.
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Os exemplos enunciados no Diário Económico, como soluções preconizadas por Stiglitz (Prémio Nobel da Economia em 2001) e Krugman (prémio Nobel da Economia em 2008) são antagónicos.
O primeiro assevera que o estado norte-americano deverá deixar cair todas as instituições financeiras, para que tudo comece de novo e limpo, enquanto o segundo defende a nacionalização total da banca.
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Olhemos para Krugman. O seu pensamento desenvolve-se em volta de um conjunto de questões, a saber:
(1)Espaço - global e desagregação espacial
(2)Sectores - nomenclatura, nível de desagregação, grau de cobertura
(3)Tempo - período de análise
(4)Variável - produção, emprego, VAB, etc...
(5) Indicadores económicos
(6) Espaço e Sector Padrão - termo de comparação
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Todos eles deverão ser considerados como indicadores gerais e terão de ser complementares e não substitutos.
Na análise tradicional, todas as regiões são consideradas iguais. Mas as regiões distinguem-se entre si por múltiplas características, sendo que a mais importante é o grau de centralidade económica, ou por outras palavras, o potencial de mercado.
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Olhando para a geografia económica europeia, três questões-chave se levantam, no que diz respeito à especialização dos países:
(i) qual o grau de especialização dos respectivos países?
(ii) qual o grau de similitude entre estruturas produtivas de diferentes países?
(iii) quais as características das indústrias localizadas em cada um dos países?
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Os resultados apontam para que, em média, entre 1970 e 1983 tenha havido uma maior semelhança entre as estruturas produtivas dos vários países.
Após 1983 a situação inverteu-se.
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Por países, verifica-se que de 1970 a 1983, 10 países tornaram-se menos especializados, apresentando menor divergência face à UE.
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Entre 1983 e 1997, 13 países acentuaram a divergência face á UE (maior especialização), com excepção da Holanda e, que apesar disso, entre 1981 e 1997, 4 países tornaram-se menos especializados, a saber: França, R. Unido, Holanda e Portugal.
Estas tendências mantiveram-se quase inalteradas.
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Em relação a Portugal, especificamente entre 1983 e 1997, verificou-se um aumento da divergência da estrutura produtiva portuguesa face a todos os seus parceiros da UE.
Acresce que Portugal apresenta os valores mais baixos ao nível tecnológico e de economias de escala, o que implica uma forte especialização em indústrias de baixo nível tecnológico, com mão-de-obra pouco qualificada e pouco peso do trabalho "não-manual".
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Surge então a questão "centro-periferia", estando Portugal irremediavelmente na periferia.
Acresce que embora se verifique um aumento do peso de Portugal na indústria europeia, entre 1973 e 1997, o aumento é menor que o peso populacional, logo vivem todos piores (nós os portugueses).

Convém recordar, a propósito de periferias, as quatro características apntadas por Samir Amin (economista de linha marxista) que definem um país periférico:

(1) predominância de capitalismo agrário (nós este nem temos, o que nos torna num país periférico dos periféricos);

(2)Formação de uma classe burguesa dependente de capitais externos, especialmente no sector do comércio (temos disto em fartura)

(3)tendência para a burocratização (palavras para quê...)

(4) formas específicas mas incompletas de proletarização da força do trabalho (também temos...)


Somos assim um país periférico, quer pelas regras da geografia económica, quer pelas regras do marxismo não ortodoxo.

Coloca-se agora a questão: será que a localização de indústrias terá ligação com tipos particulares de países?
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Os indicadores apontam nesse sentido; indústrias de alta tecnologia tendem a localizar-se em países centrais; indústrias de baixa tecnologia em países de periferia (e isto explica muita coisa).
Verifica-se então que, com a liberalização do comércio, seria expectável uma maior concentração geográfica das indústrias, sendo que esta especialização se verificaria tanto ao nível dos países de centro como de periferia.
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Em Portugal, como sabemos, esta tendência não se verifica, pelo que só podemos intuir uma explicação, para a discrepância entre as razões do modelo e a nossa falha: incompetência governativa acumulada durante anos, para fazer funcionar o país, nas vertentes cultural, científica, formação, direitos, legislação, funcionamento da justiça, desburocratização, etc., etc., etc..
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Complexo? Não, nem por isso.
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Basta atentar nas causas actuais da crise, para se perceber que esta é uma crise que começa por ser económica - há quantos anos a Alemanha não cresce a 5% ao ano ou os EUA não crescem mais do que 2,5% ? - que alastra ao sector financeiro, por necessidades políticas, de política económica e industrial, por necessidades de consumo - veja-se o caso Islândia - e que rebenta no sector financeiro, por este andar a fazer omeletes (muitas omeletes) sem ovos. Quando a pirâmide invertida começa a esboroar-se, a economia colapsa.
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E o que tem tudo isto a ver com as teses antagónicas de Stiglitz e de Krugman?
TUDO!!!!
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Se a economia dos EUA se apresenta, como os números comprovam, com uma centralidade económica-geográfica muito superior à Europeia, definida nos termos citados, deixar cair a banca significa deixar cair esta centralidade, para reiniciar tudo de novo.
Para que os EUA recuperem depressa, recuperando todos nós com a devida déchalage, não podem em caso algum os americanos perder a vantagem decorrente de uma geografia económica forte.
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Por isso e por isto, Paul Krugman tem razão. Intervenção total na banca será fundamental.
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Por cá, na Europa, o mesmo se deverá passar, obrigatóriamente. Aliás, já deveria ter sido feito, por todos (os franceses, pelo seu presidente, quiseram-no fazer em Dezembro, mas a Comissão não deixou).

28.1.09



DominiqueSalmer

Que percam o que indevidamente investiram...

Citando o Diário de Notícias:
Segundo o DN apurou, estes accionistas - onde se inclui a Teixeira Duarte, Joe Berardo, Manuel Fino, o Banco Privado Português (BPP), a Moniz da Maia, a Logoplaste, a Têxtil Manuel Gonçalves e João Pereira Coutinho - terão contraído empréstimos junto da banca portuguesa para comprar acções do BCP, nomeadamente durante a "guerra" para o controlo do banco em 2007.
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Entretanto estas acções caíram de valor e aquilo que foi um favor bancário, absolutamente indecoroso, transformou-se num pesadelo, para estes especuladores de pacotilha e para os próprios bancos e seus responsáveis.
Por dívidas infinitésimamente menores, há famílias que vêm acções interpostas em tribunal, compelindo-as a abandonar as suas habitações, único activo de que dispõem.
Estes senhores enriquecem de forma ilícita - vão buscar dinheiro para especular, aos mesmos bancos que negam financiamentos para empreendedores com novas ideias, ou outros que procuram incrementar os seus negícios - arriscam o dinheiro de terceiros e, quando as coisas correm mal, pretendem ser ressarcidos a todo o custo, independentemente dos sacrifícios que exigem e dos interesses nacionais. Claro, quando correm bem, enbolsam os ganhos, apresentam lucros e são glorificados como grandes empresários.
Empresários de pacotilha, sem qualquer valor, que não sabem criar riqueza mas tão só mais-valias, que vivem à sombra do estado, defendidos pelo estado, os media a quem remuneram bem e um conjunto de políticos que transversalmente cobrem o espectro político nacional.
Em suma; estão bem e querem estar sempre assim, independentemente das asneiras e da ganância que demonstram.
Pois que paguem agora e, se para tanto tiverem de vender o que têm e desaparecer de cena, afirmo, será uma sorte, porque não se tratam de industriais mas tão sómente de especuladores e, destes, está o País cheio.

27.1.09

Ministro Pedro Silva Pereira na SIC, e de acordo com a notícia da TSF, defende que, sem querer «comentar enredos», alertou para aquilo que disse ser a prova da «maior mentira» que estará a ser contada e que se prende com a alegada relação entre a Declaração de Impacto Ambiental do projecto Freeport e alteração dos limites da Zona de Protecção Especial do Estuário do Tejo. Isto porque a Declaração de Impacto Ambiental data de 14 de Março de 2002 e o decreto-lei que altera os limites da Zona de Protecção Especial é de 20 de Maio do mesmo ano.
Ambos são publicados no Diário da República e só entram em vigor, ou seja, têm efectiva aplicação legal, após publicação.
ESCOLHA QUAL GOSTARIA DE VER PUBLICADO PRIMEIRO.

26.1.09

Chapéus há muitos....

Mário Crespo acabou de "torrar" mais um (eu diria que com sorte nossa dois).
Parabéns. Imperdível e a seguir.

20.1.09

Sinais...

Torço por Obama, para que a sua presidência seja saudável, de conciliação e de avanço resoluto no sentido da pacificação social.
Temo por sinais negativos, por maus conselheiros, por "falta" de certa cultura:
(1) Wall Street sofre maior queda do ano, no dia em que;
(2) Barack Obama ajuramenta sobre Bíblia de Lincoln.

17.1.09

44º Presidente dos EUA


on is way to Washington


imagem retirada do NYT


Jean-LoupSieff
Vídeo prova pagamento de 'luvas' a ministro português no Caso Freeport (semanário SOL).

O ministro das Finanças considerou hoje «uma falsa» questão a polémica em torno dos investimentos na rede ferroviária de alta velocidade (TGV), defendendo que este projecto não terá impacto no défice ou na dívida pública em 2009. Teixeira dos Santos salientou que «este ano o TGV não pesa praticamente nada, quer em termos de défice orçamental, quer em termos de dívida pública». E nos próximos? (não acreditando que não pese já neste, a pergunta é válida e merece firmeza na obtenção da resposta)

Novas previsões são sérias e responsáveis”. José Sócrates a propósito da rectificação orçamental. E então as outras, ainda bem fresquinhas? Não eram sérias? Não eram responsáveis?

Exemplos da falência da Terceira República.

15.1.09


Marrian

Porque todos dependemos de todos...

Segundo afirmações do Primeiro-Ministro, o défice para 2008 será o mais baixo dos últimos anos. Descontado o factor publicista do anúncio, fruto da máquina propagandística do governo, interessa questionar se esta é uma boa ou má notícia. A conclusão é simples de tirar: é uma má notícia porque não tem qualquer significado, nem se retira qualquer leitura positiva.
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O défice português é fruto de despesa não produtiva, ou por outras palavras, por consumismo/despesismo puro do estado, não gerador de qualquer receita futura. Ainda por outras palavras, o mesmo é dizer que o estado não controla a sua despesa, gasta mais do que tem, endivida-se por essa razão e fazendo-o torna-se cada vez mais pobre.
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Interessante seria que o estado investisse na economia - despesa de investimento, geradora de receitas futuras - e não necessáriamente em obras públicas, mas em parcerias público/privadas, fomento da educação da matemática, criação de zonas geográficas com polos sectorias de investimento, fomento de parcerias estratégicas entre capitais nacionais e externos, facilidades fiscais por regiões, concedendo liberdades maiores nesta matéria às autarquias locais, entre muitas outras formas possíveis de investimento público, para além das costumeiras obras públicas.
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Através deste investimento/despesa produtiva o estado garantiria receitas futuras, sendo então razoávelmente indiferente o nível do défice que apresentasse. De acordo com cálculos simples, poderíamos afirmar que se o endividamento fosse de 70% e o crescimento da economia de 3%, o défice não produtivo poderia ser de 2,1%, acrescido do valor percentual da despesa de investimento estatal. Se esse investimento representasse 1,5%, o défice total seria de 3,6% e não viria mal ao mundo. Se daqui decorresse um crescimento anual de 3,5% do produto, com endividamento externo de 75%, o défice não produtivo poderia subir para 2,6%. Acaso se verificassem sinais de retracção económica, então o valor seria revisto em baixa.
Para que este exercíco fosse possível seria necessário ter controle sobre a despesa pública, coisa que o estado português não tem. E era esta a notícia que todos gostaríamos de ouvir: o estado já controla a despesa pública.
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Porém este controle é impossível, porque a despesa não produtiva está, efectivamente, descontrolada. De acordo com um estudo recente, que será tanto quanto sei publicado brevemente, a despesa auto do sector público estatal, leia-se autarquias central e locais e hospitais públicos (ficam de fora as empresas e instituições onde o estado participa) situa-se num valor à volta dos mil milhões de euros. É um valor perfeitamente absurdo, contudo se pensarmos na quantidade de directores, sub-directores, adjuntos, autarcas, chefes de gabinete, secretários e sub-secretários de estado, ministros e todos os outros que não referi, que têm direito a automóvel e motorista, provávelmente aquilo que nos pareceu absurdo, o valor em si, já não o é, passando a absurdo o despesismo em si próprio, deste estado pobre que tem tiques de novo-riquismo, que nem os estados ricos têm.
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É aqui que surge o problema. O estado é o primeiro a conceder privilégios despropositados, perdendo por esta via a capacidade de se autoregenerar ao nível do seu próprio consumo.
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Mas há um segundo problema e esse é de leitura político-económica. A contenção do défice é interessante sobre vários pontos de vista, mas sobretudo sobre matérias do foro da política cambial. Estando Portugal na zona euro, a obsessão pelo défice não faz sentido. As paridades estão de há muito estabelecidas e um euro é um euro.
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Quando existia o escudo, a política de um escudo forte era saudável.
Ainda há pouco teorizava com alguém que me é muito querido, sobre esta matéria.
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As economias para crescerem têm de estar sustentadas. A sustentação demora, pelo que o crescimento económico é, forçosamente, um processo demorado. Só depois de se verificar um crescimento sustentado podemos falar de desenvolvimento económico, que engloba outras coisas, muitas, que nada têm a ver com défices, receitas, despesas, investimentos e produtos.
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Até 1973 a economia portuguesa esteve sempre a crescer. Quando falo de crescimento falo do Produto Interno Bruto (PIB) e não do Produto Nacional Bruto (PNB), para evitar já as más-línguas que poderiam apontar o factor "remessas de emigrantes" como razão para a afirmação que faço. Refiro-me tão e sómente ao PIB e, esse, esteve sempre em crescimento.
Aqui surge a confabulação de que falava anteriormente; acaso a política de Oliveira Salazar fosse menos restritiva na despesa pública, com muitas obras públicas, muitas estradas, muito défice, não teria sido possível manter o escudo forte. A ocorrência da perca de valor do escudo nos mercados cambiais implicaria, obrigatóriamente, um aumento do custo dos bens essenciais que tinham de ser importados (Portugal nunca foi auto-suficiente), com implicação imediata na carteira dos mais pobres.
Em simultâneo ter-se-iam vincado, ainda mais, as assimetrias regionais, facto que ocorre hoje em larga escala conduzindo à desertificação de enormes faixas interiores do território nacional, contribuindo para um empobrecimento geral da população.
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Assim, muito embora Portugal fosse um país pobre, era rico na sustentabilidade do seu crescimento, tendo-lhe permitido ultrapassar a crise petrolífera de 1973 com uma taxa de crescimento do PIB de 7% - a maior da Europa (quando os países europeus em média, no mesmo período, cresceram 1,3%).
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Provávelmente - eu diria mesmo com toda a certeza - os factos hoje provam-nos que o crescimento económico não é uma variável que esteja totalmente dependente de qualquer externalidade e deve ser encarado como um indicador de crescimento obrigatóriamente lento, sustentado, por forma a que os objectivos alcançados hoje não sejam questionados amanhã.
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Para tanto é necessário um estado conhecedor, preocupado com políticas sociais e avesso ao liberalismo.
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Infelizmente não há em Portugal, na polítca activa, políticos com pensamento económico e economistas com pensamento político. As duas matérias fundem-se de forma linda e é pena que se tenha perdido esse gosto.
São as duas ciências sociais, por definição inexactas, filosóficamente possíveis, com um fim comum: aumento do bem-estar com diminuição das assimetrias.
Resta-nos esperar por esta nova ordem político-económica.
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Porque todos dependemos de todos.

12.1.09


Brilhantismo no ar...

Que ENORME ENTREVISTA a SIC nos propiciou esta noite, pela destreza de Mário Crespo e o brilhantismo de Alberto João Jardim (AJJ).

Finalmente, e enfatizo o finalmente, de há muito anos (muitos infelizmente), me revi no PPD/PSD, no discurso, na arrogância e pensamento político, nas preocupações sociais. Não impota se AJJ seria (será) um bom Primeiro-ministro ou Presidente da República. O que importa verdadeiramente nos Homens é a sua capacidade de combate, de resistir ao facilitismo e enfrentar as vagas da oportunidade (oportunismo) com querer, na certeza de se defenderem interesses nacionais, que estão acima de qualquer interesse particular, seja ele pessoal ou político-partidário.

Que sensação enorme - de gozo, inteligência e prazer - de recuperação do discurso político, de capacidade de luta, de guerrilha de palavras, de brilhantismo oratório que marcaram, indelevelmente, os primeiros anos desta defunta República.

A terceira República está falida. Mas a esperança renasce quando verificamos existir a capacidade de agitar as águas, de saltar do lume brando para as chamas atiçadas da lareira, de deixar de carpir para partir à luta, por ideais, por objectivos consagrados no coração, alma, intelectualidade e inteligência de todos nós: O BEM-ESTAR DO POVO PORTUGUÊS!

Sabe bem ouvir assim um político. Apimenta-nos a alma e, em simultâneo, faz-nos salivar pelo combate político.

Meus caros, a dificuldade nacional está em nós próprios; sejamos capazes de a combater e teremos, independentemente do protagonista, uma enorme capacidade de "carregar" o NOSSO País para diante. É em tempos difíceis que se conhecem os homens.
Este é o nosso tempo, daqueles que estão situados entre os quarenta e os sessenta anos de idade, o tempo de assumir as responsabilidades e não temer em errar, porque de erros estamos fartos, não dos que são reconhecidos, mas daqueles que são cometidos repetidamente porque alguém se recusa admitir que errou.

O caminho tem de ser traçado, agora e já. Ou há capacidade de mudar Portugal, ou mudamo-nos nós.

23.12.08

Votos de um Santo Natal, com imensa paz e harmonia.
A economia russa está em agonia.
Há afirmações que valem exactamente pelo valor das palavras utilizadas e outras que valem pelo peso dessas palavras e pelas entrelinhas.
A afirmação de Putin em relação ao preço do gás inclui-se, claramente, na segunda categoria.

19.12.08

Cenário para 2009...

Cenários para 2009:
(1) debacle do sistema económico e financeiro como o conhecemos;
(2) agitação social;
(3) desemprego massivo;
(4) perigo de guerra.

Sinais necessários....

É urgente que os bancos não esperem pelos períodos consagrados contratualmente, para revisão das taxas sobre o crédito à habitação em Portugal, fazendo reflectir imeditamente o abaixamento da euribor nas prestações mensais.
É necessário prever mecanismos de suspensão do serviço da dívida - a exemplo do que irá ser feito em Itália - por forma a aliviar o orçamento das famílias e permitir o consumo de bens. O dinheiro pode não entrar na forma de pagamento dos empréstimos habitação, mas entra na forma de depósitos das empresas. É pior se as famílias estiverem exauridas e não pagarem por um lado e, por outro, também não consumirem. Estes sim são sinais de confiança que se podem passar para o mercado.
O Citi bank tem um passivo não recuperável de cerca de 35 mil milhões de dólares.
O Citi vai para a falência.
A pergunta que fica: quem irá arrastar?
A resposta mais óbvia: todos!
Por mero conselho, que vale o que vale, sempre diria que provávelmente valerá a pena guardar algum à mão, para os dias de Inverno.

O plano de contenção, a breve trecho, de um colapso anunciado...

O anúncio, pela Administração americana, de injecção de capital na indústria automóvel é um mero paliativo.
Não só a verba é insuficiente, como as empresas não têm capacidade de sobrevivência; estão preparadas para produzir milhares de unidades e não há, hoje, capacidade de absorção dessa produção, por ausência de poder aquisitivo das empresas e das famílias.

A reconversão é obrigatória e, essa reconversão, irá obrigar à redução de 1,5 milhões de postos de trabalho, só nos EUA, durante 2009.

A economia americana irá viver dias difíceis, a partir de Junho de 2009. Toda a economia mundial irá viver dias penosos. A visibilidade é reduzida, a navegação à vista, a liquidez escassa e os recursos dos estados limitados.

5.12.08

Estes tempos loucos....

Estranhos tempos estes
Quando se requer que os políticos e respectiva postura sejam sérios, empenhados, claros no discurso e na acção, surgem situações e afirmações que, mais do que preocupar, mostram os sinais de desorientação crescente naquela classe, que é a classe que, hoje por hoje e fruto da turbulência económica sobreposta à hecatombe financeira, nos dirige os destinos.
Atente-se no caso BPN, nas afirmações proferidas, no discurso contraditório e no ridículo das alegações; quantos de nós se atreveriam a apostar que um dia, um político reconhecido, afirmasse levianamente que a fortuna acumulada o tinha sido em momento posterior à execução de funções políticas; que um reconhecido especulador viesse afirmar necessitar do apoio (a nível pessoal) do estado para as suas percas; que um banco se visse a braços com a primeira situação de insolvência, provocada pela crise financeira, e que essa insolvência fosse motivo de constrangimento no pensamento, na acção e contradição do poder político e do regulador do sector; que o próprio regulador estivessse a ser alvo de contestação pelas piores razões; que o Presidente da República, em nome de uma solidariedade que se aprova - caso contrário estaria a julgar públicamente e de forma prematura uma acção e actuação que se desconhece e que tem de se presumir correcta e cautelosa - se visse forçado a desmentir um Vice-Governador do banco Central.
Aposto que ninguém.
Tão pouco seria de esperar que no mesmo dia em que o Primeiro-Ministro afirma que a vida vai ser mais fácil, para todos os portugueses, no ano de 2009, o Ministro das Fianaças nesse mesmo dia afirme o contrário - o executivo está em sisntonia? Não parece.
Dias depois o mesmo PM afirma que 2009 vai ser o "Cabo das Tormentas". Uns meros dias depois......sei que as coisas se estão a alterar a uma velocidade impressionate, mas não tanto que não seja possível prever os acontecimentos com razoável distância.
Estamos mal governados e, pior, iremos continuar.

O tempo passa...

Pela primeira vez falhei um mês intewiro de escrita. Não quis acreditar quando hoje me apercebi.
Sinais (maus) do tempo, que passa voando sobre nós.

27.10.08

Small is beautiful...

Ao contrário do que foi anunciado há muitos anos, por vendilhões de teorias em todo o mundo - incluindo "doutos" economistas portugueses, que ao abrigo de funções políticas se vestiam (e ainda vestem) de roupagens discursivas pretensamente sofisticadas, falando para audiências de políticos, empresários e advogados, impreparados económicamente - defendiam o "big is beautiful" e anunciavam a morte do pequeno e médio negócio, ao contrário destes vendilhões percebe-se, agora, a preocupação por parte dos governos em tentar evitar o inevitável: declínio da pequena e média empresa, a queda da classe média.
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Vendilhões de pacotilha, todos sem excepção, que compram todos os best-seller que saiem dos pretensamente gurus económicos, adaptam o que lêem e repetem sem pensar.
A todos esses há que dizer agora (a alguns, tão cheios de si e empertigados que são, será mesmo necessário gritar): big is necessary but, SMALL IS BEAUTIFUL.

22.10.08



AlbrechtDürer

O que tem de ser feito para mudar...

Há um problema no discurso político grave: nos temas que verdadeiramente interessam actualmente, as soluções de uns terão de ser iguais às soluções de outros. Ou seja e por outras palavras: governo e oposições terão de estar de acordo em relação às matérias fundamentais, porque os problemas que se colocam dependem muito do exterior e, só em parte, da acção política interna.
No restante, nas questões de pormenor, há espaço para a divergência política.
O problema reside nas grandes questões e na agenda política de cada um. Aqui chegados aparecem as grandes diferenças: se o discurso tem de ser o mesmo, ganha politicamente quem conseguir soletrar as reformas primeiro ou mesmo, sendo bastante, quem as conhecer e souber aplicar.
É uma questão de gritar: cheguei primeiro!
Mas porque onde falta a vontade política de aceitar as igualdades, sobeja o medo político, assistimos ao caricato de discutir candidatos autárquicos a um ano de distância, a silêncios e enfados, a arrogâncias e, acima de tudo, a muitas asneiras políticas, a cedências e a promiscuidades inaceitáveis.
Exige-se classe política à classe política. Exige-se inteligência, respeito e rapidez. Exige-se que governo e oposição se compenetrem que nos representam a todos, que em conjunto representam o Estado e que o Estado somos todos nós.

O peso e cor das Palavras....

Primeiro não era nada; depois era um problema americano, para ser resolvido por americanos; de seguida era qualquer coisita mas nada de preocupante; posteriormente seria um princìpio de recessâo, como os inìcios de gripe, mas estaria tudo bem rápidamente, como as gripes; finalmente poderia ser uma recessão, lá para o distante 2009.
HOJE é uma recessão global, apelidada por alguns, muitos, analistas como severa: recessão severa.
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Será uma recessão severa uma depressão ligeira (hoje) ? E amanhã o que será?
Maniqueísmos.
Chamem-lhe e classifiquem-na como quiserem mas ponham as economias a funcionar, para que o túnel onde irá aparecer a luz comece a ser uma realidade.

20.10.08



AlistairLittle

Certezas...

Como vai ser a época das festas este ano para o comércio? Muito pouco favorável.
Como irá ser o próximo ano ao nível do turismo? Fraco, garantidamente fraco.
Como vão estar as exportações? Mal na certa.
Como vai estar a economia? Em perca.
Quando entramos em recessão? Já entrámos, independentemente da cosmética dos números, já lá estamos.

19.10.08



FranzUnterberger
Crise financeira: Governo holandês injectou 10 mil ME no ING, um dos maiores bancos do mundo.

Trichet acredita que situação bancária está em «vias de normalização».

Entendam-se......

Há coisas que têm de ser ditas quando se ocupam cargos com responsabilidade política...há outras que se dizem quando essa responsabilidade não existe. Para os segundos há liberdade de palavra e acção; aos primeiros exige-se moderação no comentário político mas acção concertada com a situação, ou seja, diz-se uma coisa mas finta-se o discurso com acção efectiva diferente.
Espero que Trichet esteja a agir em conformidade, mas sinceramente não acredito, pelo passado próximo e longínquo. A acção do governador é pautada pelos interesses alemães, que neste momento são sombrios, nebulosos e, na generalidade, andam à deriva... a procura de uma zona de influência geográfica com os custos de consolidação da Alemanha parecem, neste momento, contraditórios.

16.10.08



PaddyBurrow

Alterar impostos de forma indirecta, mas muito mais interessante....

Alterar os impostos sobre as empresas é errado e não traz benefícios reais à economia, mas tão sómente ao capital investido, na forma de aumento dos dividendos.
Correctamente, dever-se-ia considerar a formulação de uma política capaz de conduzir ao investimento, através da alteração de outros instrumentos, capazes de capitalizarem as empresas e, em simultâneo, reduzirem o imposto a pagar, sem que para tal fosse necessário baixar a taxa de IRC. Assim teremos:
(1) aumento das taxas de Amortização de activos, corpóreos e incorpóreos - esta medida permite aumentar os custos, diminuir a carga fiscal pelo aumento dos custos e, ao mesmo tempo, capitalizar as empresas, porque as amortizações são custos na conta de Ganhos e Percas, mas são fundos que subsistem em tesouraria;
(2) acabar com o pagamento por conta do imposto sobre os rendimentos;
(4) receber o IVA efectivamente cobrado e não o IVA "facturado". A máquina fiscal tem instrumentos capazes de, hoje, controlar quem pagou o quê e a quem.
Com estas alterações, criavam-se condições de aumentar as vantagens competitivas do país na captação de investimento, nacional e estrangeiro, ao mesmo tempo que se conduzia a política económica no sentido da criação de riqueza nas empresas.
Estas são medidas fáceis e possíveis.
Baixar taxas de imposto são medidas que não conduzem a nada de positivo, mas são fáceis políticamente.
O que se pede são medidas eficazes económicamente; se estas forem tomadas a política e o país saiem a ganhar.

Ainda não estamos lá...

É fácil perceber que não basta anunciar injecções de capital; primeiro, porque o capital a injectar é insuficiente; segundo, porque a economia real já começou a resvalar; terceiro, porque não há dinheiro que valha aos derivados de risco.
As subidas que vão animando as bolsas devem-se a movimentos especulativos - short-selling.
As descidas são fruto da situação económica real - falta de liquidez e confiança nos mercados.
A intervenção estatal é necessária, mas não basta intervir ao nível das instituições financeiras; é necessário nacionalizar parte das grandes fortunas (mesmo grandes fortunas) acumuladas em ouro, em diamamantes, em cobre, ou seja, parte de todo aquele dinheiro que serve de reserva pessoal e não está aplicado em actividades produtivas. Só com a coragem de repor parte dos ganhos com a sistematização da especulação, será possível remendar o sistema económico e disponibilizar liquidez para os meios de produção e para o consumo.
Mas é necessário atentar que ninguém, mas mesmo ninguém, precisa de comprar só por comprar; é necessário consolidar o que se está a produzir, deixando que a investigação avance mas a incorporação das inovações se faça de uma forma mais compacta, para que as mudanças sejam grandes e justifiquem a troca comercial do bem por dinheiro e não, como hoje acontece, se troquem objectos não por necessidade mas por novidade.

13.10.08

Paul Krugman

Finalmente Paul Krugman obtem a distinção e reconhecimento mundial há muito merecido.
Krugman é um economista que funciona fora do "stablishement" há muitos anos. Defendeu várias posições polémicas e demorou a ser aceite como autor e economista consagrado por ser difícil, por ter um discurso discordante....
É o pai da geografia económica, cujos princípios deveriam ter sido seguidos há muitos anos pelo nosso país.

8.10.08

Farto de teimosias....

Porquê a insistência na manutenção e mesmo aumento das taxas de juro, para depois, num dia, baixar a taxa 1/2 ponto percentual. Porquê a teimosia do Banco Central Europeu, se era previsível que um abaixamento da taxa de juro era, definitivamente, necessária e económicamente fundamental. Porquê tanta teimosia do sr. Trichet?
Baixar quando é inevitável, acarreta menor obtenção de ganhos do que baixar quando se percebe que esse é o caminho, porque nos adiantamos e fazendo-o, mostramos estar melhor preparados para perceber as envolventes, os reflexos e as consequências.
O mundo financeiro está cheio de gente que só tem "ar", que se dá ares, mas que de economia e finanças pouco ou nada percebe.
E serve de alguma coisa, o abaixamento? Não, porque o problema, agora, é de falta de liquidez e o dinheiro, consequentemente, vê aumentado o seu custo, mesmo que a taxa do BCE baixe.

Agora como antes, o futuro da UE está traçado...

Em Maastricht fixaram-se os critérios de convergência e o PEC, tendo como objectivo evitar défices orçamentais excessivos e generalizados, fixando a manutenção do défice orçamental dentro de um valor de referência (3% do PIB). Esta medida visava combater o laxismo dos países do Sul.
Em virtude dos critérios fixados, um país da UE que se encontrasse altamente endividado e numa conjuntura de recessão nacional, ficaria inibido de usar políticas fiscais expansionistas, por temor aos limites do tratado, representando aquela inibição uma perda de elevado custo, sob a óptica da autonomia da política monetária nacional.
O PEC apertava assim e ainda mais, a camisa-de-forças fiscal.
A protecção que o PEC garante à moeda única advém da teoria das Zonas Monetária Óptimas (ZMO) que nos diz: um país pode abdicar da utilização do instrumento cambial para fazer face a problemas de ajustamento interno e externo resultantes de um choque assimétrico, se existirem, em alternativa, mecanismos automáticos de ajustamento, a saber três:

(1) mobilidade internacional de factores;
(2) flexibilidade salarial;
(3) transferências financeiras.


A teoria desenvolveu-se num ambiente em que o trade-off inflação-desemprego constituía a referência fundamental para a condução das políticas macroeconómicas.
Entretanto o trade-off deixou de ser considerado como existindo no longo prazo. As variações cambiais deixaram de ser vistas como uma forma eficaz de assegurar a competitividade externa das economias, para passarem a factores de amplificação dos desequilíbrios internos e externos e de perda de credibilidade das autoridades monetárias.
A teoria evoluíu, passando a dar maior atenção aos diferenciais das taxas de inflação entre países e à existência de processos de convergência económica, como condições para o sucesso da introdução de uma moeda única.
A teoria das ZMO fornece o referencial mais utilizado para avaliar os prós e contras de abdicar da moeda nacional. Os custos da moeda única situam-se ao nível da estabilização macroeconómica, os benefícios ao nível, sobretudo, dos ganhos de eficiência microeconómica.
Todos os países são diferentes, ocasionando, dessa forma:

(i) diferentes respostas aos choques assimétricos
(ii) diferentes preferências em termos de desemprego e inflacção
(iii) diferenças nas instituições do mercado de trabalho

(iv) diferenças quanto à mobilidade laboral e flexibilidade salarial
(v) diferenças nas taxas de crescimento económico dos países
(vi) diferenças nos sistemas fiscais
(vii) diferenças no grau de abertura.


Do lado dos benefícios teremos:

(a) redução dos custos de transacção
(b) redução das taxas de juro
(c) diminuição da inflação
(d) diminuição da incerteza cambial.


O recente alargamento da UE, que passou a contar com 27 membros, acarretou como esperado problemas a vários níveis, destacando-se a diluição do conceito de criação da UE (dos princípios criadores); transferencia do projecto da UE para a arquitectura política e a não existência de ideias francamente mobilizadoras.
Mantêm-se contudo os critérios de convergência fixados em Maastricht.
E como foram calculados os critérios ?

É possível demonstrar a relação entre o défice orçamental e a dívida pública em % do PIB, com uma simples relação matemática: d=yb, em que d=D/Y, b=B/Y e y=dY/Y, onde D é o défice orçamental, B a dívida pública e Y é o rendimento, todos em valores absolutos, excepto o rendimento (valor nominal).
Aplicando as condições do tratado, a igualdade d=yb reduz-se a: 3%=5% x 60%, o mesmo é dizer, assumir o crescimento do produto nominal em 5%, valor próximo do que se registava na Alemanha na altura da fixação. Existíu então, como agora, arbitrariedade na fixação dos critérios, nada tendo a ver com a teoria das ZMO.
Ao alterar as regras do PEC, que como se víu foi "construído" à imagem e semelhança da economia alemã não merecendo, por tanto, uma defesa fervorosa nos seus princípios, os países passam a estar sujeitos a critérios menos rígidos do ponto de vista da despesa, influenciando directamente o défice orçamental e os diferenciais das taxas de inflação entre países da zona euro e os critérios de convergência. Os pilares de sustentação do euro desmoronam-se. Ninguém pode acreditar, em seu juízo, que perante o deslizar de umas economias em relação a outras as paridades fixadas se possam manter. Não existem sistemas de vazos comunicantes entre as economias europeias, (não existe um sistema fiscal único, não existe um modelo de estado-providencia único) .
Nada é certo neste momento, a não ser que os interesses alemães passam pelo centro e leste europeu, os francesses pela manutenção da ideia política subjacente às CE, os ingleses pela manutenção do binómio liberdade de movimento de capitais-política monetária controlada, com taxa de câmbio flutuante e Portugal bem encostadinho a Espanha, cheio de problemas estruturais, a produzir muito pouco e a consumir mais do que pode.

A recente reunião do denominado G4, mostra claramente uma Europa dividida por interesses económicos regionais, a várias velocidades, como sempre esteve, mas desta feita assumidamente. Por outras palavras, mostra o fim inexorável da UE.

5.10.08

Questões de "timing"...

Mas, e apropósito: não foi o Presidente desta República que veio a público afirmar, depois de saber que os grandes investidores institucionais se tinham retirado da bolsa de valores de Lisboa, que se estaria a vender "gato por lebre"?
Este senhor parece ter a tendência para afirmar aquilo que todos já sabem, com um "timing" muito seu...


AnnabelGosling

O mau governo e a péssima oposição....

Não comento o discurso do Presidente da República, a propósito do 25 de Abril. Há muito que me recuso a comentar as opiniões daqueles que considero inúteis e responsáveis, políticamente, pela situação caótica em que vive mergulhado Portugal.
Não posso deixar passar em claro as reacções da oposição; não importa se ou com comentários, positivos ou negativos, ao discurso do Presidente da República, a oposição se faz ouvir. O que importa é saber se é igualmente da responsabilidade da oposição o estado do país e, aqui chegados, a resposta é simples: É!!!
A responsabilidade é de todos, porque, de forma simples, se pode afirmar, sem erro: o governo é e age de acordo com a competência da oposição e, se temos um mau governo é, tão sómente, porque temos uma péssima oposição.

Má decisão...(esperando enganar-me)

Temo que a decisão de aprovar o plano Paulson tenha tido razões eleitorais. Não afirmo em definitivo esta leitura porque gostaria, em boa verdade, de acreditar que a injecção de liquidez agora decidida seria a suficiente para estancar a crise e, em simultãneo, marcar o início de período menos conturbado.
Não acredito contudo que assim possa ser, infelizmente. Acaso o tempo me dê razão, veremos quão inútil e pernicioso foi este esbanjar de riqueza e os resultados económicamente maléficos que irão arrostar para os EUA e, por inerência, ao resto do mundo.

30.9.08



ThomasCole

O Erro por ora não foi cometido....

E por ora, felizmente, foi chumbado o pretenso plano de salvação da "indústria" financeira.
Felizmente porque, como aqui já se explicou, nada salvaria e só arrostaria um custo excessivo para os contribuintes americanos e, acima de tudo, diminuiria fortemente as possibilidades de injenção de liquidez no sector secundário da economia, ajuda que se irá mostrar decisiva para uma mais rápida e eficaz recuperação económica do mundo desenvolvido.
É hora de expurgar o sistema, de colocar as rédeas da economia nas mãos dos industriais e de mudar os políticos e a política.
~
Por cá, começam a ouvir-se as vozes daqueles que ainda ontem jurariam que não existia sequer recessão. Pensam, pobres coitados, que a crise já bateu no fundo. Desenganem-se; só agora começou!
Vão ter de alterar muito e muitas vezes o discurso. Tenho pena deles, destes tristes que cultivam a mediocridade e a arrogancia.

29.9.08



RabindraSingh

Recorrendo... AS FARPAS

Vossa Alteza vae ponderar talvez que é bem destituída de grandeza, vulgar e corriqueira de mais, a existência a que o introduzimos...
Ai de nós! a vida é em realidade assim, magnanimo senhor!
Ninguém é grande nem pequeno n´este mundo pela vida que leva, pomposa ou obscura, solta ou aperreada. A categoria em que temos de classificar a importancia dos homens deduz-se do valor dos actos que elles praticam, das ideias que diffundem e dos sentimentos que comunicam aos seus semelhantes.
É binaria a natureza de todo o homem superior. Metade d´elle pertence ao ramerrão passageiro de cada dia; a outra metade pertence ao ideal eterno de um mundo mais perfeito, em cuja obra cada um collabora procurando tornal-o na orbita da sua aptidão pessoal, ou mais justo, ou mais rico ou mais bello.
.....
É preciso amar, meu senhor. Eis ahi tudo.
É preciso amar fóra da esphera de todos os interesses pessoaes creados pela sociedade de que fazemos parte e estabelecidos pelo estado, pela profissão ou pela gerarchia. É preciso amar pela abnegação e pelo sacrifício de tudo para se chegar a ser alguma coisa. É preciso amar uma ideia, uma propensão da sociedade, um intuito da naturesa, uma expressão da arte, ou simplesmente e unicamente uma mulher, como as amou Musset, Lord Byron, Shakspeare ou Petrarca, afim de sahir fóra da massa obscura do vulgo, e ser um homem.
Ame pois vossa alteza, e deixe correr o mundo!
Não ha hoje em dia educação especial para o officio de rei nem para outro qualquer officio. Ha uma instrucção geral e ha uma instrucção technica para cada modo de vida. A educação essa é una e indivisivel.
Em todo o estado e em toda a condição social o homem bem educado é um homem superior. O homem sem educação por mail alto que o colloquem, fica sempre um subalterno.
No regimen de liberdade e de iniciativa, em que começam agora a viver as sociedades contemporaneas, a lei da concorrencia absorve tudo, e os reis mais solidamente equilibrados nos seus thronos não são senão os homens mais perfeitamente equilibrados na vida geral.
.....
Portanto, e em conclusão:
Para dar ao throno portuguez um bom rei, pense vossa alteza em dar na sua pessoa á pátria um cidadão instruído; á humanidade um homem justo; á natureza um sadio e valente animal.
A seus paes, aos seus mestres e á sua côrte, é doloroso mas é indispensável que vossa alteza dê egualmente aquilo que lhes deve:
-desgostos!

Pensamento do Dia...

Se a política fosse ética, o exercício político seria, todo ele, fraterno e não obediente.

Males Actuais....

Curioso.
Durante todos estes anos em que escrevo neste sítio, insurgi-me contra a defesa de políticas liberais para a economia. Ainda há pouco tempo, a propósito da eleição da nova liderança do PSD, me questionei sobre a capacidade de entendimento do mundo actual por parte de todos os candidatos baseando-me, primeiramente, na defesa intransigente que todos fizeram das maravilhas que, supostamente, advêm da liberalização dos mercados e das economias.
Curioso verificar agora como se afadigam os vários governos europeus em intervir, directa e despudoradamente, na economia e nos agentes económicos. Os mesmos governos que, em consonância com a Comissão Europeia, defendiam veementemente o liberalismo económico.
Curioso e triste, porque mostra, claramente, a incongruência e a impreparação, o oportunismo e o lobismo, a falta de visão social e a incompetência políticas de todos os políticos que regem os destinos de milhões de pessoas.
A actual classe política dirigente, aqui como lá fora, padece de vários males, destacando-se os comprometimentos com os grandes interesses financeiros e a incapacidade de pensar política, que impede a execução política capaz e socialmente eficaz.

28.9.08

4 estações



CyTwombly

A Largada

Foram então as ânsias e os pinhais
Transformados em frágeis caravelas
Que partiam guiadas por sinais
Duma agulha inquieta como elas...

Foram então abraços repetidos
À Pátria-Mãe-Viúva que ficava
Na areia fria aos gritos e aos gemidos
Pela morte dos filhos que beijava.

Foram então as velas enfunadas
Por um sopro viril de reacção
Às palavras cansadas
Que se ouviam no cais dessa ilusão.

Foram então as horas no convés
Do grande sonho que mandava ser
Cada homem tão firme nos seus pés
Que a nau tremesse sem ninguém tremer.

Miguel Torga

Como remunerar o trabalho de governança?

Sem ricos só haveria pobres. Sem capital não haveria trabalho.
Os instrumentos financeiros (IF) são meios modernos de redistribuição de rendimentos.
O problema não reside na existência de IF, mas na aplicação que lhes é dada. Quando a gestão corporativa se preocupa com a satisfação do grande accionista descura, forçosamente, a geração de riqueza para a corporação. Quando o enfoque é colocado no enriquecimento da empresa, os riscos são menores, os ganhos consolidados e a retribuição do capital investido mais lenta, mas muito mais perene. É uma questão de postura, que coloca modelos de atribuição de rendimentos à gestão em choque: (i) base fixa e base variável paga como % dos resultados obtidos, em cash ou stockoptions, ou; (ii) remuneração de base fixa, só, e fixação de objectivos claros de gestão, como remuneração mínima do capital investido.
Estes são dois exemplos, havendo mais, que ilustram a discussão que terá de ser levantada agora.
Como remunerar os órgãos de governo das sociedades?

Ao entardecer, debruçado pela janela,
E sabendo de soslaio que há campos em frente,
Leio até me arderem os olhos
O livro de Cesário Verde.

Que pena que tenho dele! Ele era um camponês
Que andava preso em liberdade pela cidade.
Mas o modo como olhava para as casas,
E o modo como reparava nas ruas,
E a maneira como dava pelas cousas,
É o de quem olha para árvores,
E de quem desce os olhos pela estrada por onde vai andando
E anda a reparar nas flores que há pelos campos ...

Por isso ele tinha aquela grande tristeza
Que ele nunca disse bem que tinha,
Mas andava na cidade como quem anda no campo
E triste como esmagar flores em livros
E pôr plantas em jarros...

Alberto Caeiro

Falta de leitura de longo prazo...

O plano Paulson passou mesmo. É um enorme disparate, conforme o tempo se irá encarregar de mostrar.
Já a autorização do Congresso americano para um financiamento de 25 mil milhões de dólares à indústria automóvel deve ser visto como uma medida positiva. Depois da queda dos mercados financeiros, a especulação sobre activos vai sofrer um rude golpe, podendo afirmar-se que uma lata de atum valerá exactamente isso: um lata de atum. Será nos sectores primário (agricultura) e secundário (indústria) que a economia irá despontar para novo crescimento sustentado e para o restabelecimento da confiança nos mercados financeiros, fundamental para o crescimento económico.
Todas as ajudas a estes sectores produtivos serão poucas, por forma a estabilizar os mercados e fazer renascer o sector terciário (serviços) do qual dependem, actualmente, cerca de 2/3 da população activa do mundo económicamente desenvolvido.

27.9.08


Condições de sobrevivência....

Por ora a negação do plano Paulson impede o sacrifício de 700 mil milhões de dólares que se poderão mostrar de enorme importância na hora da recuperação económica, mas que seriam redundantes agora, na hora do colapso económico.
Toda a enorme turbulência económica actual e a futura queda dos mercados deve-se, não ao sistema capitalista per si, que tem muito de positivo e é fundamental para o crescimento e desenvolvimento económicos, mas essencialmente à vontade política das democracias de abraçarem o liberalismo económico, o laissez-faire económico. A atitude do Estado perante a economia, a sua capacidade interventora depois de esgotada a capacidade reguladora, é fundamental para um bom desempenho económico das nações e do mundo. É, então, fundamental abandonar a triste condução política baseada na boa-vontade do capital.
Acreditar no capital, como ser etéreo capaz de se regular autonomamente e pensar socialmente, é o mesmo que acreditar no coelho da Páscoa.
Ao Estado exige-se que considere o capital um parceiro, um aliado, sujeito a regras e supervisão, condicionado pelo interesse social e económico das nações e dos espaços económicos. Defender posições contrárias, arremetendo para a concorrência regional transcontinental existente no mundo, é o mesmo que desistir das obrigações e arvorar a bandeira da incompetência. Há a necessidade de pensar a economia por clusters regionais, criando e alimentando pólos de desenvolvimento que se satisfaçam e satisfaçam os investidores, o capital.
Os instrumentos serão a redução da burocracia, o aumento cultural das populações e das suas competências, a concorrência fiscal, um bom funcionamento das instituições jurídicas e aplicabilidade das leis, um desenvolvimento regional sustentado, infraestruturas capazes, entre outras condições mais, das quais se terá de destacar uma política externa forte e constante (independentemente das cores políticas do momento).
Não é possível considerar um Estado governável, se os actores políticos defenderem o liberalismo económico. Acaso os ouçamos defender este princípio, saberemos de imediato que não sabem do que falam nem ao que vêm e, por consequencia, serão maus governantes do Estado, péssimos depositários da Coisa Pública.

25.9.08

Imagens de outros tempos


JacquesLartigue

Queixa das almas jovens censuradas...

Dão-nos um lírio e um canivete
e uma alma para ir à escola
mais um letreiro que promete
raízes, hastes e corola

Dão-nos um mapa imaginário
que tem a forma de uma cidade
mais um relógio e um calendário
onde não vem a nossa idade

Dão-nos a honra de manequim
para dar corda à nossa ausência.
Dão-nos um prémio de ser assim
sem pecado e sem inocência

Dão-nos um barco e um chapéu
para tirarmos o retrato
Dão-nos bilhetes para o céu
levado à cena num teatro

Penteiam-nos os crâneos ermos
com as cabeleiras das avós
para jamais nos parecermos
connosco quando estamos sós

Dão-nos um bolo que é a história
da nossa historia sem enredo
e não nos soa na memória
outra palavra que o medo

Temos fantasmas tão educados
que adormecemos no seu ombro
somos vazios despovoados
de personagens de assombro

Dão-nos a capa do evangelho
e um pacote de tabaco
dão-nos um pente e um espelho
pra pentearmos um macaco

Dão-nos um cravo preso à cabeça
e uma cabeça presa à cintura
para que o corpo não pareça
a forma da alma que o procura

Dão-nos um esquife feito de ferro
com embutidos de diamante
para organizar já o enterro
do nosso corpo mais adiante

Dão-nos um nome e um jornal
um avião e um violino
mas não nos dão o animal
que espeta os cornos no destino

Dão-nos marujos de papelão
com carimbo no passaporte
por isso a nossa dimensão
não é a vida, nem é a morte

Natália Correia