16.10.08

Alterar impostos de forma indirecta, mas muito mais interessante....

Alterar os impostos sobre as empresas é errado e não traz benefícios reais à economia, mas tão sómente ao capital investido, na forma de aumento dos dividendos.
Correctamente, dever-se-ia considerar a formulação de uma política capaz de conduzir ao investimento, através da alteração de outros instrumentos, capazes de capitalizarem as empresas e, em simultâneo, reduzirem o imposto a pagar, sem que para tal fosse necessário baixar a taxa de IRC. Assim teremos:
(1) aumento das taxas de Amortização de activos, corpóreos e incorpóreos - esta medida permite aumentar os custos, diminuir a carga fiscal pelo aumento dos custos e, ao mesmo tempo, capitalizar as empresas, porque as amortizações são custos na conta de Ganhos e Percas, mas são fundos que subsistem em tesouraria;
(2) acabar com o pagamento por conta do imposto sobre os rendimentos;
(4) receber o IVA efectivamente cobrado e não o IVA "facturado". A máquina fiscal tem instrumentos capazes de, hoje, controlar quem pagou o quê e a quem.
Com estas alterações, criavam-se condições de aumentar as vantagens competitivas do país na captação de investimento, nacional e estrangeiro, ao mesmo tempo que se conduzia a política económica no sentido da criação de riqueza nas empresas.
Estas são medidas fáceis e possíveis.
Baixar taxas de imposto são medidas que não conduzem a nada de positivo, mas são fáceis políticamente.
O que se pede são medidas eficazes económicamente; se estas forem tomadas a política e o país saiem a ganhar.

Ainda não estamos lá...

É fácil perceber que não basta anunciar injecções de capital; primeiro, porque o capital a injectar é insuficiente; segundo, porque a economia real já começou a resvalar; terceiro, porque não há dinheiro que valha aos derivados de risco.
As subidas que vão animando as bolsas devem-se a movimentos especulativos - short-selling.
As descidas são fruto da situação económica real - falta de liquidez e confiança nos mercados.
A intervenção estatal é necessária, mas não basta intervir ao nível das instituições financeiras; é necessário nacionalizar parte das grandes fortunas (mesmo grandes fortunas) acumuladas em ouro, em diamamantes, em cobre, ou seja, parte de todo aquele dinheiro que serve de reserva pessoal e não está aplicado em actividades produtivas. Só com a coragem de repor parte dos ganhos com a sistematização da especulação, será possível remendar o sistema económico e disponibilizar liquidez para os meios de produção e para o consumo.
Mas é necessário atentar que ninguém, mas mesmo ninguém, precisa de comprar só por comprar; é necessário consolidar o que se está a produzir, deixando que a investigação avance mas a incorporação das inovações se faça de uma forma mais compacta, para que as mudanças sejam grandes e justifiquem a troca comercial do bem por dinheiro e não, como hoje acontece, se troquem objectos não por necessidade mas por novidade.

13.10.08

Paul Krugman

Finalmente Paul Krugman obtem a distinção e reconhecimento mundial há muito merecido.
Krugman é um economista que funciona fora do "stablishement" há muitos anos. Defendeu várias posições polémicas e demorou a ser aceite como autor e economista consagrado por ser difícil, por ter um discurso discordante....
É o pai da geografia económica, cujos princípios deveriam ter sido seguidos há muitos anos pelo nosso país.

8.10.08

Farto de teimosias....

Porquê a insistência na manutenção e mesmo aumento das taxas de juro, para depois, num dia, baixar a taxa 1/2 ponto percentual. Porquê a teimosia do Banco Central Europeu, se era previsível que um abaixamento da taxa de juro era, definitivamente, necessária e económicamente fundamental. Porquê tanta teimosia do sr. Trichet?
Baixar quando é inevitável, acarreta menor obtenção de ganhos do que baixar quando se percebe que esse é o caminho, porque nos adiantamos e fazendo-o, mostramos estar melhor preparados para perceber as envolventes, os reflexos e as consequências.
O mundo financeiro está cheio de gente que só tem "ar", que se dá ares, mas que de economia e finanças pouco ou nada percebe.
E serve de alguma coisa, o abaixamento? Não, porque o problema, agora, é de falta de liquidez e o dinheiro, consequentemente, vê aumentado o seu custo, mesmo que a taxa do BCE baixe.

Agora como antes, o futuro da UE está traçado...

Em Maastricht fixaram-se os critérios de convergência e o PEC, tendo como objectivo evitar défices orçamentais excessivos e generalizados, fixando a manutenção do défice orçamental dentro de um valor de referência (3% do PIB). Esta medida visava combater o laxismo dos países do Sul.
Em virtude dos critérios fixados, um país da UE que se encontrasse altamente endividado e numa conjuntura de recessão nacional, ficaria inibido de usar políticas fiscais expansionistas, por temor aos limites do tratado, representando aquela inibição uma perda de elevado custo, sob a óptica da autonomia da política monetária nacional.
O PEC apertava assim e ainda mais, a camisa-de-forças fiscal.
A protecção que o PEC garante à moeda única advém da teoria das Zonas Monetária Óptimas (ZMO) que nos diz: um país pode abdicar da utilização do instrumento cambial para fazer face a problemas de ajustamento interno e externo resultantes de um choque assimétrico, se existirem, em alternativa, mecanismos automáticos de ajustamento, a saber três:

(1) mobilidade internacional de factores;
(2) flexibilidade salarial;
(3) transferências financeiras.


A teoria desenvolveu-se num ambiente em que o trade-off inflação-desemprego constituía a referência fundamental para a condução das políticas macroeconómicas.
Entretanto o trade-off deixou de ser considerado como existindo no longo prazo. As variações cambiais deixaram de ser vistas como uma forma eficaz de assegurar a competitividade externa das economias, para passarem a factores de amplificação dos desequilíbrios internos e externos e de perda de credibilidade das autoridades monetárias.
A teoria evoluíu, passando a dar maior atenção aos diferenciais das taxas de inflação entre países e à existência de processos de convergência económica, como condições para o sucesso da introdução de uma moeda única.
A teoria das ZMO fornece o referencial mais utilizado para avaliar os prós e contras de abdicar da moeda nacional. Os custos da moeda única situam-se ao nível da estabilização macroeconómica, os benefícios ao nível, sobretudo, dos ganhos de eficiência microeconómica.
Todos os países são diferentes, ocasionando, dessa forma:

(i) diferentes respostas aos choques assimétricos
(ii) diferentes preferências em termos de desemprego e inflacção
(iii) diferenças nas instituições do mercado de trabalho

(iv) diferenças quanto à mobilidade laboral e flexibilidade salarial
(v) diferenças nas taxas de crescimento económico dos países
(vi) diferenças nos sistemas fiscais
(vii) diferenças no grau de abertura.


Do lado dos benefícios teremos:

(a) redução dos custos de transacção
(b) redução das taxas de juro
(c) diminuição da inflação
(d) diminuição da incerteza cambial.


O recente alargamento da UE, que passou a contar com 27 membros, acarretou como esperado problemas a vários níveis, destacando-se a diluição do conceito de criação da UE (dos princípios criadores); transferencia do projecto da UE para a arquitectura política e a não existência de ideias francamente mobilizadoras.
Mantêm-se contudo os critérios de convergência fixados em Maastricht.
E como foram calculados os critérios ?

É possível demonstrar a relação entre o défice orçamental e a dívida pública em % do PIB, com uma simples relação matemática: d=yb, em que d=D/Y, b=B/Y e y=dY/Y, onde D é o défice orçamental, B a dívida pública e Y é o rendimento, todos em valores absolutos, excepto o rendimento (valor nominal).
Aplicando as condições do tratado, a igualdade d=yb reduz-se a: 3%=5% x 60%, o mesmo é dizer, assumir o crescimento do produto nominal em 5%, valor próximo do que se registava na Alemanha na altura da fixação. Existíu então, como agora, arbitrariedade na fixação dos critérios, nada tendo a ver com a teoria das ZMO.
Ao alterar as regras do PEC, que como se víu foi "construído" à imagem e semelhança da economia alemã não merecendo, por tanto, uma defesa fervorosa nos seus princípios, os países passam a estar sujeitos a critérios menos rígidos do ponto de vista da despesa, influenciando directamente o défice orçamental e os diferenciais das taxas de inflação entre países da zona euro e os critérios de convergência. Os pilares de sustentação do euro desmoronam-se. Ninguém pode acreditar, em seu juízo, que perante o deslizar de umas economias em relação a outras as paridades fixadas se possam manter. Não existem sistemas de vazos comunicantes entre as economias europeias, (não existe um sistema fiscal único, não existe um modelo de estado-providencia único) .
Nada é certo neste momento, a não ser que os interesses alemães passam pelo centro e leste europeu, os francesses pela manutenção da ideia política subjacente às CE, os ingleses pela manutenção do binómio liberdade de movimento de capitais-política monetária controlada, com taxa de câmbio flutuante e Portugal bem encostadinho a Espanha, cheio de problemas estruturais, a produzir muito pouco e a consumir mais do que pode.

A recente reunião do denominado G4, mostra claramente uma Europa dividida por interesses económicos regionais, a várias velocidades, como sempre esteve, mas desta feita assumidamente. Por outras palavras, mostra o fim inexorável da UE.

5.10.08

Questões de "timing"...

Mas, e apropósito: não foi o Presidente desta República que veio a público afirmar, depois de saber que os grandes investidores institucionais se tinham retirado da bolsa de valores de Lisboa, que se estaria a vender "gato por lebre"?
Este senhor parece ter a tendência para afirmar aquilo que todos já sabem, com um "timing" muito seu...


AnnabelGosling

O mau governo e a péssima oposição....

Não comento o discurso do Presidente da República, a propósito do 25 de Abril. Há muito que me recuso a comentar as opiniões daqueles que considero inúteis e responsáveis, políticamente, pela situação caótica em que vive mergulhado Portugal.
Não posso deixar passar em claro as reacções da oposição; não importa se ou com comentários, positivos ou negativos, ao discurso do Presidente da República, a oposição se faz ouvir. O que importa é saber se é igualmente da responsabilidade da oposição o estado do país e, aqui chegados, a resposta é simples: É!!!
A responsabilidade é de todos, porque, de forma simples, se pode afirmar, sem erro: o governo é e age de acordo com a competência da oposição e, se temos um mau governo é, tão sómente, porque temos uma péssima oposição.

Má decisão...(esperando enganar-me)

Temo que a decisão de aprovar o plano Paulson tenha tido razões eleitorais. Não afirmo em definitivo esta leitura porque gostaria, em boa verdade, de acreditar que a injecção de liquidez agora decidida seria a suficiente para estancar a crise e, em simultãneo, marcar o início de período menos conturbado.
Não acredito contudo que assim possa ser, infelizmente. Acaso o tempo me dê razão, veremos quão inútil e pernicioso foi este esbanjar de riqueza e os resultados económicamente maléficos que irão arrostar para os EUA e, por inerência, ao resto do mundo.

30.9.08



ThomasCole

O Erro por ora não foi cometido....

E por ora, felizmente, foi chumbado o pretenso plano de salvação da "indústria" financeira.
Felizmente porque, como aqui já se explicou, nada salvaria e só arrostaria um custo excessivo para os contribuintes americanos e, acima de tudo, diminuiria fortemente as possibilidades de injenção de liquidez no sector secundário da economia, ajuda que se irá mostrar decisiva para uma mais rápida e eficaz recuperação económica do mundo desenvolvido.
É hora de expurgar o sistema, de colocar as rédeas da economia nas mãos dos industriais e de mudar os políticos e a política.
~
Por cá, começam a ouvir-se as vozes daqueles que ainda ontem jurariam que não existia sequer recessão. Pensam, pobres coitados, que a crise já bateu no fundo. Desenganem-se; só agora começou!
Vão ter de alterar muito e muitas vezes o discurso. Tenho pena deles, destes tristes que cultivam a mediocridade e a arrogancia.

29.9.08



RabindraSingh

Recorrendo... AS FARPAS

Vossa Alteza vae ponderar talvez que é bem destituída de grandeza, vulgar e corriqueira de mais, a existência a que o introduzimos...
Ai de nós! a vida é em realidade assim, magnanimo senhor!
Ninguém é grande nem pequeno n´este mundo pela vida que leva, pomposa ou obscura, solta ou aperreada. A categoria em que temos de classificar a importancia dos homens deduz-se do valor dos actos que elles praticam, das ideias que diffundem e dos sentimentos que comunicam aos seus semelhantes.
É binaria a natureza de todo o homem superior. Metade d´elle pertence ao ramerrão passageiro de cada dia; a outra metade pertence ao ideal eterno de um mundo mais perfeito, em cuja obra cada um collabora procurando tornal-o na orbita da sua aptidão pessoal, ou mais justo, ou mais rico ou mais bello.
.....
É preciso amar, meu senhor. Eis ahi tudo.
É preciso amar fóra da esphera de todos os interesses pessoaes creados pela sociedade de que fazemos parte e estabelecidos pelo estado, pela profissão ou pela gerarchia. É preciso amar pela abnegação e pelo sacrifício de tudo para se chegar a ser alguma coisa. É preciso amar uma ideia, uma propensão da sociedade, um intuito da naturesa, uma expressão da arte, ou simplesmente e unicamente uma mulher, como as amou Musset, Lord Byron, Shakspeare ou Petrarca, afim de sahir fóra da massa obscura do vulgo, e ser um homem.
Ame pois vossa alteza, e deixe correr o mundo!
Não ha hoje em dia educação especial para o officio de rei nem para outro qualquer officio. Ha uma instrucção geral e ha uma instrucção technica para cada modo de vida. A educação essa é una e indivisivel.
Em todo o estado e em toda a condição social o homem bem educado é um homem superior. O homem sem educação por mail alto que o colloquem, fica sempre um subalterno.
No regimen de liberdade e de iniciativa, em que começam agora a viver as sociedades contemporaneas, a lei da concorrencia absorve tudo, e os reis mais solidamente equilibrados nos seus thronos não são senão os homens mais perfeitamente equilibrados na vida geral.
.....
Portanto, e em conclusão:
Para dar ao throno portuguez um bom rei, pense vossa alteza em dar na sua pessoa á pátria um cidadão instruído; á humanidade um homem justo; á natureza um sadio e valente animal.
A seus paes, aos seus mestres e á sua côrte, é doloroso mas é indispensável que vossa alteza dê egualmente aquilo que lhes deve:
-desgostos!

Pensamento do Dia...

Se a política fosse ética, o exercício político seria, todo ele, fraterno e não obediente.

Males Actuais....

Curioso.
Durante todos estes anos em que escrevo neste sítio, insurgi-me contra a defesa de políticas liberais para a economia. Ainda há pouco tempo, a propósito da eleição da nova liderança do PSD, me questionei sobre a capacidade de entendimento do mundo actual por parte de todos os candidatos baseando-me, primeiramente, na defesa intransigente que todos fizeram das maravilhas que, supostamente, advêm da liberalização dos mercados e das economias.
Curioso verificar agora como se afadigam os vários governos europeus em intervir, directa e despudoradamente, na economia e nos agentes económicos. Os mesmos governos que, em consonância com a Comissão Europeia, defendiam veementemente o liberalismo económico.
Curioso e triste, porque mostra, claramente, a incongruência e a impreparação, o oportunismo e o lobismo, a falta de visão social e a incompetência políticas de todos os políticos que regem os destinos de milhões de pessoas.
A actual classe política dirigente, aqui como lá fora, padece de vários males, destacando-se os comprometimentos com os grandes interesses financeiros e a incapacidade de pensar política, que impede a execução política capaz e socialmente eficaz.

28.9.08

4 estações



CyTwombly

A Largada

Foram então as ânsias e os pinhais
Transformados em frágeis caravelas
Que partiam guiadas por sinais
Duma agulha inquieta como elas...

Foram então abraços repetidos
À Pátria-Mãe-Viúva que ficava
Na areia fria aos gritos e aos gemidos
Pela morte dos filhos que beijava.

Foram então as velas enfunadas
Por um sopro viril de reacção
Às palavras cansadas
Que se ouviam no cais dessa ilusão.

Foram então as horas no convés
Do grande sonho que mandava ser
Cada homem tão firme nos seus pés
Que a nau tremesse sem ninguém tremer.

Miguel Torga

Como remunerar o trabalho de governança?

Sem ricos só haveria pobres. Sem capital não haveria trabalho.
Os instrumentos financeiros (IF) são meios modernos de redistribuição de rendimentos.
O problema não reside na existência de IF, mas na aplicação que lhes é dada. Quando a gestão corporativa se preocupa com a satisfação do grande accionista descura, forçosamente, a geração de riqueza para a corporação. Quando o enfoque é colocado no enriquecimento da empresa, os riscos são menores, os ganhos consolidados e a retribuição do capital investido mais lenta, mas muito mais perene. É uma questão de postura, que coloca modelos de atribuição de rendimentos à gestão em choque: (i) base fixa e base variável paga como % dos resultados obtidos, em cash ou stockoptions, ou; (ii) remuneração de base fixa, só, e fixação de objectivos claros de gestão, como remuneração mínima do capital investido.
Estes são dois exemplos, havendo mais, que ilustram a discussão que terá de ser levantada agora.
Como remunerar os órgãos de governo das sociedades?

Ao entardecer, debruçado pela janela,
E sabendo de soslaio que há campos em frente,
Leio até me arderem os olhos
O livro de Cesário Verde.

Que pena que tenho dele! Ele era um camponês
Que andava preso em liberdade pela cidade.
Mas o modo como olhava para as casas,
E o modo como reparava nas ruas,
E a maneira como dava pelas cousas,
É o de quem olha para árvores,
E de quem desce os olhos pela estrada por onde vai andando
E anda a reparar nas flores que há pelos campos ...

Por isso ele tinha aquela grande tristeza
Que ele nunca disse bem que tinha,
Mas andava na cidade como quem anda no campo
E triste como esmagar flores em livros
E pôr plantas em jarros...

Alberto Caeiro