Dão-nos um lírio e um canivete
e uma alma para ir à escola
mais um letreiro que promete
raízes, hastes e corola
Dão-nos um mapa imaginário
que tem a forma de uma cidade
mais um relógio e um calendário
onde não vem a nossa idade
Dão-nos a honra de manequim
para dar corda à nossa ausência.
Dão-nos um prémio de ser assim
sem pecado e sem inocência
Dão-nos um barco e um chapéu
para tirarmos o retrato
Dão-nos bilhetes para o céu
levado à cena num teatro
Penteiam-nos os crâneos ermos
com as cabeleiras das avós
para jamais nos parecermos
connosco quando estamos sós
Dão-nos um bolo que é a história
da nossa historia sem enredo
e não nos soa na memória
outra palavra que o medo
Temos fantasmas tão educados
que adormecemos no seu ombro
somos vazios despovoados
de personagens de assombro
Dão-nos a capa do evangelho
e um pacote de tabaco
dão-nos um pente e um espelho
pra pentearmos um macaco
Dão-nos um cravo preso à cabeça
e uma cabeça presa à cintura
para que o corpo não pareça
a forma da alma que o procura
Dão-nos um esquife feito de ferro
com embutidos de diamante
para organizar já o enterro
do nosso corpo mais adiante
Dão-nos um nome e um jornal
um avião e um violino
mas não nos dão o animal
que espeta os cornos no destino
Dão-nos marujos de papelão
com carimbo no passaporte
por isso a nossa dimensão
não é a vida, nem é a morte
Natália Correia
25.9.08
23.9.08
Ainda agora começou....
Tudo o que sucedeu na passada semana, no mundo financeiro, é tão sómente o início do turbilhão aqui aventado, vezes sem conta e de há muito tempo.
A injecção de capital no sistema financeiro dos EUA, que aguarda pela respectiva aprovação, no valor de 700 mil milhões de dólares, não pretende mais do que tentar estancar o colapso do sistema financeiro global.
Os números são razoávelmente fáceis de perceber:
(1) valor real da crise imobiliária nos EUA: 3 biliões de dólares (10^12)
(2) valor injectado no sistema financeiro até agora: cerca de 1 bilião de dólares;
(3) Valor do mercado de derivados de risco: 15 biliões de dólares;
(4) Intervenções no mercado financeiro: (i) AIG - 85 mil milhões de dólares; outros - 200 mil milhões (já não houve liquidez para salvar o Bear Stearns e o Lheman, porque se esperava pelo colapso da AIG e da Merryl Linch, acabando este por ser, momentaneamente resguardado pelo Bank of America. Havia ainda que intervir na Mae e na Mac e o pano é cada vez mais curto);
(ii) total destas intervenções: cerca de 300 mil milhões de dólares.
Ou seja, o valor até agora injectado não cobre metade do valor real da crise. Injectando mais 700 mil milhões irá cobrir 2/3 da crise e fica esgotada a possibilidade de intervenções futuras. E ainda terão de agradecer aos EUA pelo enorme sacrifício (estão a esgotar reservas preciosas. Sempre afirmei que os EUA seriam a economia que melhor resistiria a esta crise - sofrendo o primeiro embate, óbviamente - e que primeiro sairía dela. Em meu entender, desnecessáriamente, estão a tornar mais difícil essa tarefa, porque irão recuperar primeiro sim, mas levarão mais tempo e tempo para o resto do mundo significa fome, porque nada será alterado; a "máquina" já está a rolar e nada a fará parar, antes do sistema estar razoávelmente expurgado).
O sistema financeiro mundial está "seco", estas ajuda têm o propósito de aguentar os mercados, mas as empresas e os particulares estão financeiramente exauridos. Tenderão a realizar liquidez e a recolocar os recursos em activos pretensamente mais seguros que os actuais e é aqui que a crise vai estalar por completo. Os 15 biliões de dólares atrás referidos vão faltar (cerca de 4/5 do valor é fictício, mas o restante 1/5 vai valer muito menos que o valor real) fazendo rebentar a "bolha" que separa a recessão (actual) da depressão.
No caso do nosso País, já deveríamos ter utilizado todos os fundos comunitários à nossa disposição, bem como deveríamos estar a proceder, desde o início do ano, a um aumento (possível, permitido) dos financiamentos externos. O dinheiro vai perder valor e quem o tiver, mesmo valendo muito menos, estará melhor colocado.
Recordo quando em 2006 fiz referência à alteração da lei das falências nos EUA. A referida alteração era o prenúncio de que a liquidez na maior economia do mundo já não era a mesma e que os tempos de facilidades estavam a acabar. Escrevi aqui sobre o tema e sobre o seu significado.
15.9.08
A rapidez do processo....
"Lehman Brothers, the storied Wall Street securities firm, announced on its Web site early Monday that it will file for Chapter 11 bankruptcy protection".NYTimes.
É tudo muito rápido, mas igualmente certo, no mundo financeiro e ainda agora começou. E era previsível, sem necessidade de recorrer a dotes de adivinhação.
Até se podem assacar "culpas" a Alan Greenspan, alguns já o fizeram, pelo modelo que utilizou na gestão do FED. Não concordo mas, independentemente desta querela sem sentido, havia uma política virada para a taxa de desemprego e, na sua substituição, a política do FED virou-se para a taxa de inflação. Hoje o desemprego eestá nos 7% (nunca ultrapassava os 3%) e a inflação está nos 6% (nunca chegava a 3%).
Depois temos todos os outros, que perante os sinais evidentes em Agosto de 2007, não os perceberam. nestes inclui-se toda a Europa (BCE incluído). A nível nacional os cromossomas do governo e da oposição impossibilitam, ainda, uma leitura dos acontecimentos. Mas também, quando a voz de referência nestas matérias, por parte do PSD, é António Borges (lembram-se de uma entrevista ao Expresso, onde dissecava a crise do imobiliário e fazia conjecturas sobre o futuro? Foi de levar às lágrimas), perante as suas afirmações sempre me pergunto: este homem sabe alguma coisa de economia e finanças? Vive em Londres? É político? É que se acaso é mesmo tudo isto não parece nada.
10.9.08
"Rough times are coming fast"
A Lehman Brothers anunciou percas no 3º trimestre fiscal de 3,9 mil milhões de dólares. Com 157 anos de história prepara-se para a falência, depois da Bear Stearns em Março.
Também a UBS, ao decidir dividir a sua actividade bancária em três actividades distintas, corporizadas em três instituições independentes jurídicamente, tenta salvar alguns dedos, adquirido que está que já perdeu os anéis; mesmo assim dificilmente terá salvação.
E, assim, desta forma se inicia a má conjuntura que irá colocar sobre pressão o mercado de derivados de risco, conduzindo o mundo ocidental, infectado financeiramente, para a depressão.
5.9.08
Pensar a Economia....
O presidente do Morgan Stanley Asia, Stephen Roach, alertou hoje os mercados de que o declínio económico global ainda se encontra na sua fase inicial, encontrando-se os EUA já em recessão e notando que o impacto da crise de crédito ainda está por se fazer sentir na sua totalidade.
"Estamos na fase inicial do abrandamento nos EUA e do ciclo de negócios global", disse Roach, adiantando que "ao mesmo tempo que o consumidor norte-americano entra numa depressão pós-bolha, os exportadores asiáticos e europeus irão sofrer um abrandamento nas exportações, condicionando o crescimento económico global".
Afirmações feitas há dois dias.
Acaso algo foi dito agora que não tenha sido aqui, neste espaço, afirmado há muito, muito, tempo?
Nada! Pelo contrário, ainda peca por alguma reserva. Prova-se assim que:
É possível pensar a economia com antecedência.
A tristeza do desconhecimento...
É interessante mas, infelizmente, fortemente preocupante, verificar como os economistas em Portugal, aqueles que são escutados públicamente, estão tão longe da realidade económica mundial.
Quando aqui afirmei que a economia europeia iria sofrer mais e durante um período de tempo maior, as consequências de uma crise económica e financeira que só agora começou, todos se afadigavam a afirmar que a crise era mais dos EUA do que da União Europeia.
Agora que a OCDE vem afirmar o que aqui disse e tenho reiterado, assiste-se ao início de tomadas de posição tímidas, mas consensuais com aquela perspectiva.
Verifica-se, assim, que não existe verdadeiramente análise económica no nosso país e, que, as afirmações e os escritos são feitos com base em relatórios internacionais, ou seja, diz-se aquilo que todo o mundo quer que seja dito, em cada momento, conduzindo esta faceta muito negativa dos pressupostos sábios macroeconómicos, a uma impossibilidade endémica de Portugal estar preparado para os grandes desafios que se lhe vão colocar nos próximos anos.
Ninguém pensa a verdade e, não pensando, ninguém descobre caminhos.
27.8.08
A espera...
Vamos esperar até 7 de setembro para ouvir a oposição, leia-se PSD?
Acaso o país não se move todos os dias?
A oposição deixou de ser feita pelos líderes políticos?
Tantas dúvidas, tantas certezas...
Redundâncias...
"O membro do Conselho de Governadores do Banco Central Europeu Axel Weber afirmou hoje que a autoridade monetária europeia "não tem margem" para efectuar uma descida dos juros, tendo mesmo dado a entender que estes podem vir a subir no futuro".
É óbvio: com a desvalorização monetária futura, a subida dos juros é uma consequência inevitável.
Factos incontornáveis...
A situação no Caúcaso é deliberada e foi estudada ao pormenor.
A situação na Polónia é deliberada e foi estudada ao pormenor.
A posição francesa é conhecida da História, de outras histórias.
A posição da ONU ainda não é conhecida, mas é fácilmente perceptível.
A posição dos EUA, seja qual for o presidente eleito em Novembro, será sempre a mesma.
A economia, essa, não pára e continua a descer a encosta.
A importância fundamental da organização detalhada....
Na 2ª feira dois jovens foram expulsos, por desacatos continuados, de uma composição ferroviária na estação de Boliqueime. De seguida abordam dois turistas alemães, não para aprenderem a língua de Goethe, mas para os saquearem; um dos homens oferece resistência e é baleado na cabeça. Os jovens estão a monte.
Pergunto: acaso vivessemos num país organizado, onde o respeito fosse um valor fundamental, a notícia seria outra?
Afirmo: evidentemente! E passo a citar: na 2ª feira dois jovens foram expulsos, por desacatos continuados, de uma composição ferroviária na estação de Boliqueime, tendo sido detidos de imediato pela GNR, que aguardava a chegada da composição.
Esta seria a notícia, num país sério, responsável e de direito e o turista alemão estaria a gozar o Sol do Algarve.
O Ministro que já se deveria ter demitido...
É um paradoxo que tem de ser vencido na sociedade política portuguesa: a nomeação para cargos públicos ser aceite com fins de projecção pessoal, mas ser ajuramentada para servir a coisa pública.
Quando um ministro não tem condições de cumprir com as suas funções e, em simultâneo, reconhece não dispor dos meios, deveria, pela primeira razão, pela segunda ou pelo somatório das duas, resignar ao cargo que ocupa, demitindo-se e prestando os esclarecimentos devidos, acautelando as razões da demissão. Acaso não o faça, não serve como ministro, porque não serve a coisa pública.
O Ministro da Administração Interna já se deveria ter demitido, porque não tem condições de cumprir com as suas funções e, também, porque não dispõe dos meios e das verbas que lhe permitam intitular-se Ministro, quer no sentido lato, quer no estrito.
Mas lá está; os cargos públicos são utilizados como trampolins pessoais, não cabendo na sua esfera o serviço público.
1.8.08
A importância da América....
A taxa de desemprego nos EUA subíu, em Julho, para 5,7%, em virtude de 51.000 americanos terem perdido os seus empregos. Mesmo assim, a expectativa era de um aumento maior do que o efectivamente verificado. Mas vai aumentar, muito mais.
Vai ser interessante perceber (os efeitos já se fazem sentir) na expressão de todos aqueles que têm sido anti-americanos primários e, mesmo, secundários, a importância que o americano médio, tão criticado, tem na economia mundial e, sobretudo, na economia europeia. Quando se acentuar o declínio da classe média americana e se deixarem de vender nos EUA, em definitivo e por um período largo de tempo, os electrodomésticos Bosch, os automóveis Mercedes e BMW, a Valentino, todos os tipos de bolachas e também salsichas, veremos então a importância da América no estilo e modo de vida dos europeus
31.7.08
O país que não se cansa de apanhar....sorrindo.
Portugal está mal. Vai ficar ainda pior. Vamos ficar todos piores.
Temos o pior PIB per capita da Europa dos 27; temos uma justiça que não funciona, e não funcionando, afasta os investimentos; temos empresários que ganham dinheiro mas as suas empresas só têm prejuízos; não temos cultura; temos iniquidades na educação; falta-nos ambição e vontade de Fazer.
Abastece-se o país de compadrios, de tolos e discursos ôcos. Fala-se em obras públicas porque não se sabe mais o que fazer, não se sabe o que dizer.
Temos o pior governo dos últimos 365 dias, antes deste tinha sido o anterior, antes desse o outro e por aí fora.
A emigração é um facto que já não se consegue esconder. Emigração um pouco mais letrada (supostamente, que esta coisa do conhecimento tem muito que se lhe diga) que a anterior, da década de 60. Mas está lá toda, no número, na falta de oportunidades, na imensa ambição de sair de um Portugal em estertor.
Que país, merecedor desse nome, se permite não dar esperança aos seus filhos? Só os terceiro-mundistas, que me recorde. E agora estamos a caminho de ficar na mão de Angola. Lutámos para fugir aos espanhóis e vamos ficar na mão dos angolanos. Os primeiros eram maus, os segundos são péssimos.
A banca está revirada; nos bancos, na política, nos costumes, na moral, na segurança, na saúde, na educação. Está revirada no direito.
Éramos todos iguais, sendo todos diferentes; hoje somos todos diferentes, sendo todos egoístas.
Contudo cá estamos, sempre cantando, mesmo que em surdina, a esperança.
Este escrito é um seu exemplo, como se escrevendo algo mudasse, alguém ouvisse, Portugal saísse do estertor de morte e encontrasse o seu caminho.
Não merecíamos. Não merecemos. Devemos exigir mais, todos nós. E quem sabe, mostrando outra força, outra vontade, outro querer, um dia encontramos o caminho perdido. O nosso caminho.
13.7.08
Inevitabilidades....
Sempre foi e sempre assim será: quanto mais se falar de paz, mais se adivinha a guerra.
12.7.08
9.7.08
Lá vamos a caminho da pontinha..... do fim
"The Standard & Poor's 500-stock index fell 29.01 points, or 2.3 percent, entering its first official bear market since 2002. The Dow Jones industrials finished down 236.77 points, or 2.1 percent."
(New York Times)
Como tem piada e ao mesmo tempo assume contornos de drama, ouvir e ler os mais diversos colunistas económicos, os mais distintos banqueiros e os mais selectos intelectuais divagarem sobre a recuperação da economia mundial. Tudo política (má) e desconhecimento (péssimo) ou, mesmo, um misto de interesses privados (usual).
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