12.3.08

E para quando seriedade?

É já evidente que as instituições financeiras nacionais perderam imensa liquidez com a crise do sub-prime. Alguém se importa de dizer quanto é que se perdeu e como pensam ultrapassar o problema? E as provisões?, vão afectar os resultados de 2009? É que já deviam ter afectado os resultados de 2008. O que dirá, na altura em que a castanha estalar, o BdP e o seu douto Governador? E as consultoras e auditoras? E os revisores de contas? E os administradoes dos bancos? E o governo?

Não basta dizer que não vai haver dinheiro para crédito este ano. Há que dizer que não vai haver por falta de liquidez no sistema financeiro.
Não basta dizer que o dinheiro que gira no sistema interbancário está mais caro. É preciso dizer que a credibilidade das instituições financeiras está afectada, havendo quebra de confiança dos agentes económicos externos.


Keith Dunkley

Os problemas europeus...

Como aqui foi dito e redito, a preocupação após sub-prime não é a economia americana mas sim a europeia.

Com o petróleo a aumentar, mas indexado ao dólar e com o dólar a desvalorizar face ao euro, não pode ser a esta luz que o problema da inflação na Europa se deverá colocar (mas será o problema da inflação um verdadeiro problema? Não é!).

Bom, não sendo à luz do custo do petróleo, basta atentar nas razões que levam a um aumento dos preços, para perceber quais os problemas económicos do espaço único europeu. Problemas só europeus, que carecem de solução no espaço europeu.

10.3.08



Herbert Richter

Como é que não importa se há ou não RAZÃO ?

Sobre as razões e contornos da mega-manifestação de Sábado dia 8, interligadas com outros sinais de descontentamento, ler aqui.

Sobre a resposta política do actual governo, é desolador verificar que o primeiro-ministro se esconde atrás da ministra e que esta, a despeito de ter toda uma classe profissional contestatária, assume o discurso da redução da razão ou sua ausência a um mero exercício de retórica, colocando o ênfase nas reformas.
Será então possível levar a governação de um país dito democrático a sério, quando os seus governantes assumem uma postura de rotura com a população, persistindo em caminhos que desagradam e que, feitas as contas, não introduzem a tão necessária reforma de que o país necessita?
O problema coloca-se ao nível da educação, da saúde, da inserção social, do emprego, da capitalização, do crescimento económico, da diminuição das desigualdades, da repartição do rendimento......
O problema é tão vasto que tem tudo a ver com a concepção política e económica de Portugal, não sendo uma questão que se restrinja à educação, mas a toda a sociedade.
Estiveram em manifestação 100.000, poderiam ter estado 5 milhões.
Esta é a verdadeira questão: todos, sem excepção, têm razões de queixa de sobejo, para se manifestarem em todas as cidades, vilas e aldeias de Portugal. Todos, com razões locais e nacionais, têm o direito à indignação. O serem 100.000 (muitos, mesmo muitos atendendo tratar-se de uma única classe profissional) exigiria uma resposta séria por parte do governo. Porque de contrário temos garantido que tivessem sido 5 milhões e a resposta seria a mesma: não importa de que lado está a razão, importa sim continuar o caminho traçado pelo governo.

Já ouvi este discurso, com uma enorme diferença: reconhecia muito maior competência a quem o fazia e não andava enrolado na falácia das palavras - não vivíamos em democracia.

5.3.08


PANINI, Giovanni Paolo
1691 - 1765

Que venha Hillary Rhodam Clinton...

Hillary Clinton ganha no Ohio e no Texas, dois circulos eleitorais chave para a corrida à presidência. Resta esperar pela diferença e número de delegados eleitos.
Parece, contudo, que nesta recta final das primárias, os eleitores americanos democratas optaram pela segurança do conhecido, à demagogia mal fundamentada e estruturada de Obama (a excepção é Vermont, mas este não tem peso).

Assim, dependendo dos resultados finais e número de delegados (Hillary tem NY, California e Texas e conta, de acordo com a última sondagem - entre 11 e 15 Fev - com 190.5 votos de superdelegados contra 148.5 votos para Obama) tudo aponta para uma corrida McCain (já garantido) vs Hillary.

De uma forma ou de outra temos certezas: a política externa não sofrerá alterações; a política interna tão pouco, talvez com uma ligeiríssima diferença: assim que os tempos o permitam, se McCain ganhar, a política económica poderá ver aumentado o seu cariz liberal; com Hillary a política económica será sempre alvo de maior intervenção governamental (diferença que nos próximos tempos não se fará notar, por razões económicas actuais óbvias).

Embora afirmando que a política externa não sofrerá qualquer alteração ou, mesmo, interrupção, McCain transmite maior confiança na capacidade de assumir decisões difíceis. Mas Hillary goza da experiência da Casa Branca (dois mandatos de Bill) e não deixará de ser interessante ver uma senhora à frente dos destinos norte-americanos.
Recordo que o melhor primeiro-ministro britânico dos últimos 40 anos foi uma senhora, que ficou conhecida por Dama de Ferro e que gritou bem alto: " não permitiremos que o socialismo entre na Grã-Bretanha pela porta de Bruxelas ". Foi, igualmente, a mentora do famoso cheque nas contrapartidas económicas ao sector agrícola inglês, em contraponto com as enormes ajudas que França recebe.

Por tudo isto afirmo: venha então Hillary e veremos o que a sensibilidade, força e experiência femininas arrostam de novidade nestes tempos conturbados.

3.3.08



Renoir

Chelas-Barreiro e o resto são estórias....

Reza a notícia:
"Terceira Travessia: Estudo de Viegas demonstra superioridade de Beato-Montijo em 14 dos 15 critérios analisados. A construção da terceira travessia do Tejo no eixo Beato-Montijo, exclusivamente ferroviária, está orçada em 1.150 milhões de euros.
Por seu turno, a construção da terceira travessia do Tejo no eixo Chelas-Barreiro está orçada em 1.700 milhões de euros, dos quais 600 milhões serão para a alta velocidade e 500 milhões para o tabuleiro rodoviário. A ponte terá duas vias para a alta velocidade, duas para a rede convencional e duas vias laterais com três faixas cada uma para o tráfego rodoviário".

Dos 15 critérios analisados, Chelas-Barreiro perde em 14; ganha no critério do tempo de ligação dos comboios suburbanos a Lisboa. Pudera, estamos a falar do Barreiro; neste critério nunca poderia perder.
Segundo Viegas, "O estudo demonstra que há grandes ganhos de valor de tempo e apresenta um melhor enquadramento na rede viária e no transporte de mercadorias". Acrescenta ainda que, "O desenvolvimento extenso da solução resolve de forma definitiva todas as dúvidas que havia sobre a viabilidade física da solução Beato-Montijo".
E pronto, está dito!
Este Viegas é um pândego; a coberto da defesa da solução Alcochete pretende, agora, enfiar a solução Beato-Montijo. O interesse, como sempre, é meramente nacional.
Mas pergunta-se: como é que uma solução que só prevê travessia ferroviária é superior a uma rodo-ferroviária, quando a ponte sobre o Tejo está lotada entre as 07.30 da manhã e as 20.30 da noite e a ponte Vasco da Gama vai ser sobrecarregada com o aeroporto em Alcochete?
Como é que, nestas circunstancias, se defende um melhor enquadramento na rede viária e, igualmente, "ganhos de valor de tempo" - aguardo pela publicação pública do estudo para perceber o que significam estes ganhos.

A única solução séria e possivel já foi indicada pelo Governo; Chelas-Barreiro.
O resto são manobras de diversão, com desígnios insondáveis.
As afirmações reproduzidas da notícia são semelhantes ao já famoso "jamais, jamais", mais sofisticadas, nada merendadas, mas exactamente iguais nas certezas: 14 em 15 critérios desfavorecem a solução e; "o desenvolvimento extenso da solução resolve de forma definitiva todas as dúvidas que havia sobre a viabilidade física da solução Beato-Montijo" equivale a dizer o mesmo, "jamais, jamais".
Um pândego este Viegas.

Depois acresce algo que nunca percebi convenientemente: como é que o Barreiro foi bandeira durante tantos anos e, com o advento do 25 de Abril, passou a localidade esquecida.
Ou percebo mas não quero acreditar.
Que há sempre alguém disposto a prejudicar o Barreiro é um facto, a começar pela gestão do camarário comunista, durante longos e nefastos anos, mas a bem da verdade se deverá dizer que o Barreiro também nunca gozou da disponibilidade política dos vários governos e primeiro-ministros.

2.3.08


O perigoso caminho do PSD...

A ler atentamente:
§
Porque na altura da eleição de Luis Filipe Menezes defendi a mudança, por necessária face à dificuldade de afirmação política de Marques Mendes, também agora, como sempre procuro, dou a mão à palmatória verificando que a tal mudança, necessária, não o foi no sentido esperado, o da melhoria interventiva de um partido crucial ao regular funcionamento da democracia , facto comprovado e afirmado perante a divagação e deriva política muito perigosas que Luis Filipe Menezes encetou, por manifesta incapacidade de se impor através de ideias e projectos nacionais, seguindo raciocínios facilitistas, de linhas de orientação política baseadas na boleia dos temas quentes e fracturantes do momento e, assim, conduzindo o PSD para caminhos seguramente pantanosos.
Porque tudo isto é verdade, porque ainda há quem pense e se mostre capaz de raciocinar dentro do partido; porque o PSD sendo um partido onde as bases sempre contaram, é, igualmente, um partido onde os "quadros" fazem a diferença, por tudo isto se reproduzem aqui, na hiperligação aconselhada, as afirmações de J. Pacheco Pereira, que subscrevo por inteiro.


On Broadway

John Noott

Soneto do Prazer Maior

Amar dentro do peito uma donzela;
Jurar-lhe pelos céus a fé mais pura;
Falar-lhe, conseguindo alta ventura,
Depois da meia-noite na janela:

Fazê-la vir abaixo, e com cautela
Sentir abrir a porta, que murmura;
Entrar pé ante pé, e com ternura
Apertá-la nos braços casta e bela:

Beijar-lhe os vergonhosos, lindos olhos,
E a boca, com prazer o mais jucundo,
Apalpar-lhe de leve os dois pimpolhos:

Vê-la rendida enfim a Amor fecundo;
Ditoso levantar-lhe os brancos folhos;
É este o maior gosto que há no mundo.

(M.M. Barbosa du Bocage)

Meu Ser Evaporei na Luta Insana

Meu ser evaporei na luta insana
Do tropel de paixões que me arrastava:
Ah! cego eu cria, ah! mísero eu sonhava
Em mim quasi imortal a essência humana!

De que inúmeros sóis a mente ufana
Existência falaz me não dourava!
Mas eis sucumbe Natureza escrava
Ao mal, que a vida em sua origem dana.

Prazeres, sócios meus, e meus tiranos!
Esta alma, que sedenta em si não coube,
No abismo vos sumiu dos desenganos

Deus, ó Deus!... quando a morte a luz me roube,
Ganhe um momento o que perderam anos,
Saiba morrer o que viver não soube.


(M.M. Barbosa du Bocage)

27.2.08

Alexander galt

A mensagem simples....

Para Belmiro de Azevedo a mensagem é simples e clara:
1) aliviem a pressão fiscal, para que algum do dinheiro que os grupos económicos nacionais têm no estrangeiro possa regressar e, em simultâneo, que a população possa gastar e poupar um pouco mais, ainda por cima quando se sabe que os gastos do estado são, na totalidade, despesas correntes;
2) que a caminhar neste sentido, a economia portuguesa acabará com a classe média, sofrida pela carga fiscal, carestia de vida e juros bancários elevadíssimos;
3) que sem classe média a Sonae não tem negócio;
4) que sem negócio vêm para a rua, entenda-se desemprego, 40.000 portugueses que trabalham na Sonae.

A mensagem é clara. Já foi passada em privado e agora é, de forma ainda algo contida, "broadcasted" para o País.
Leia e aja quem saiba ler e agir.

Como é possível?

Como é possível que analistas económicos afirmem que nos EUA se vive à beira de uma recessão, enquanto na Europa as coisas parecem ir bem, no próprio dia em que o euro atinge um valor ligeiramente superior a 1,5 dólares.
Aqui, no escritório onde me encontro, no centro de Lisboa, ouço a máquina alemã a parar. Será que sou só eu que ouço?

22.1.08

Diferenças...

O comissário europeu para os Assuntos económicos e monetários, Joaquin Almunia, apelou hoje aos Estados Unidos para que reduzam os défices, o do orçamento e o das contas correntes, vendo neles a causa "principal" da crise financeira actual.
.
Há uma enorme diferença entre a Europa e os EUA. Estes só dependem deles próprios; os primeiros dependem de terceiros. Depois ainda há uma outra diferença: nos EUA percebe-se de economia; na UE não. Não esquecer que estamos em tempo de crise.

A política económica que os EUA estão a seguir neste momento é conhecida como os défices de Reagan (paradoxo económico).
Dizem as teorias económicas que a um aumento da despesa pública (i.e., esforço de guerra) e a um abaixamento de impostos, corresponde um aumento acelerado do défice do estado, provocando diminuição da poupança nacional.
Assim sendo, e por outras palavras, um acréscimo no défice provoca uma redução na poupança; uma redução na poupança implica aumento da taxa de juro; ao aumento na taxa de juro corresponde uma diminuição no investimento.

O que os EUA fazem é totalmente diferente: injectam dinheiro na economia e baixam a taxa de juro e, de seguida dizem o que Keynes já tinha dito: consumam, tenham confiança que o problema é conjuntural, limitado no tempo e quanto mais consumirem mais depressa se resolve a questão.

No final vão estar, os EUA, folgados e a UE, com a sua política monetarista e liberal, irá estar com gravíssimos problemas económico-sociais.

19.12.07


Carol Satriani

Desmistificações...ou o Natal de Dante...

Vejo o Banco Central Europeu (BCE) muito preocupado com a inflacção.
Vejo o nosso Presidente da República preocupado com o fenómeno desemprego - como é que se apelida o desemprego de fenómeno, nos nossos dias, é um mistério que fica por deslindar.
Vejo tudo isto e penso: em 2003 foi feita, pela União Europeia (UE), uma reavaliação da sua política monetária, sendo um dos objectivos clarificar a noção de estabilidade de preços. Estabeleceu-se, então, que a taxa de inflação se deverá manter num nível inferior, embora próximo, de 2%, claramente demonstrativo das preocupações do BCE em relação à estabilidade dos preços, ao mesmo tempo que se tenta resguardar contra uma possivel situação de deflação.
A deflação é um problema sério, uma vez que está sempre associada a grave crise económica (veja-se o caso do Japão).
Estaremos então a salvo com uma taxa de inflacção de 2%? A resposta é não! Mesmo 2% de inflação pode ser perigosamente baixo, sendo que provávelmente a melhor resposta seria fixar nos 3%, ou mesmo 4%.
Há, contudo, uma questão que permanece inalterada: existe uma inflação mínima para cada país que tem um efeito estabilizador para a economia, a inflação como instrumento de alteração dos preços relativos. Esta premissa implica outra: a medida não pode ser igual para todos os países.

...
No caso da UE, verifica-se ainda o mito da moeda forte, que é um conceito puramente ideológico. Se isso não se traduzir num maior bem-estar para os cidadãos não serve de nada ter uma moeda forte.
Recordo-me, também, da “Carta Magna para a Competitividade” onde se estabelece o objectivo de no prazo de 10 anos Portugal estar entre os 10 países mais desenvolvidos da Europa. Este objectivo era e é puramente demagógico e completamente irreal. Só política para português ver.
Vejamos:
(i) A taxa média de crescimento da economia portuguesa entre 1954 e 1997 foi de 4,6% (taxa secular de crescimento);
(ii) No período de adesão à UE – entre 1985 e 1997 – foi de 4,1%. A taxa de crescimento da Irlanda entre 1985 e 1997 foi de 6,8% e a da Alemanha, no mesmo período, foi de 3,1%.
Imaginando cenários hipotéticos para a economia portuguesa, quando é que o rendimento per capita português seria igual ao alemão?
1) Cenário tigre – se a economia portuguesa crescer à taxa da Irlanda o rendimento per capita português estaria ao nível do alemão em 2028.
2) Cenário de adesão – se a economia portuguesa crescer à taxa de 4,1% o rendimento per capita português estaria ao nível do alemão em 2077.
3) Cenário secular – se a economia portuguesa crescer à taxa de 4,6% o rendimento per capita português estaria ao nível do alemão em 2051.
4) Cenário de esgotamento – se a economia portuguesa crescer entre 4,1% e 3,1% o rendimento per capita português estaria ao nível do alemão muito para lá de 2077.

Se só crescemos 1% acima da Alemanha no período de adesão à UE em que beneficiámos dos fundos europeus, o que acontecerá no futuro quando já não tivermos direito aos fundos estruturais?
Estamos a crescer 1% acima da taxa de crescimento alemã? Não estamos.
E os cenários? Dantescos.