27.5.06













Van Gogh Posted by Picasa

Porque o Mundo faço-o eu...

Hei-de ver para além das estrelas,
Para lá do infinito
A vista sempre a bailar,
Hei-de sentir o seu brilhar
Nos olhos vivos de Cristo,
Mas primeiro quero eu vê-las!

(João Fernandes)










Steve Bonner Posted by Picasa

Os tempos que correm e a incredulidade, nas palavras de Ruy Belo...

Digam que foi mentira, que não sou ninguém,
que atravesso apenas ruas da cidade abandonada
fechada como boca onde não encontro nada:
não encontro respostas para tudo o que pergunto nem
na verdade pergunto coisas por aí além
Eu não vivi ali em tempo algum.

(Ruy Belo)

23.5.06




















Roy Barley Posted by Picasa

Carrilho e a polémica do livro...

O Prós e Contras de hoje nada ajudou a esclarecer sobre a manipulação ou capacidade manipulatória dos órgãos de informação e sobre os interesses velados, que supostamente possam existir, entre jornalistas (alguns, muitos, quase todos?), centrais de informação e interesses económicos e políticos vários.

O livro de Manuel Maria Carrilho, sobre o qual se fundamentou o interesse do debate, tão pouco contribui para esse esclarecimento, por ser vago, difuso, enfermar dos males que aponta à classe jornalísitica (como bem salientou José Pacheco Pereira) e soar a mau perder. Ou pelo menos ser apontado como um sinal de mau perdedor. Num País onde todos estão habituados a ficar calados, na expectativa de novas oportunidades, onde a expressão travessia do deserto se tornou moda, a atitude de M. M. Carrilho caíu mal. Mais ainda quando a classe atacada é a jornalísitica.

Comecemos por definir alguns pontos que me parecem cruciais: os jornalistas em Portugal são, na generalidade, muito maus; M.M. Carrilho é muito vaidoso (o que não seria própriamente um pecado), mas acima de tudo é presunçoso (que sem ser um pecado é um enorme defeito - presunção e água benta....); a manipulação jornalísitca é enorme, baseada num princípio tão verdadeiro quanto triste, mesmo dramático para Portugal - a maioria dos portugueses não lêem jornais ( não lêem nada) e os que o fazem perderam o sentido crítico e a capacidade de análise (são incultos, impreparados,comodistas).

Pessoalmente penso - e aqui alerto que não voto em Lisboa, embora aí resida - que M. Maria Carrilho seria,provávlemente, melhor presidente de Câmara que Carmona Rodrigues, porque teria outras preocupações urbanísticas (Carmona prepara-se para rever o PDM em Outubro deste ano, aumentando as áreas urbanizáveis no centro de Lisboa à custa de áreas que estão previstas para equipamentos) , porque Carrilho tem outras ambições políticas, de horizontes mais largos que Carmona.

Esta mesma razão servíu, hás uns meses, para consubstanciar a previsão de derrota que fiz neste blogue de Carrilho, por se apresentar com uma pose desfocada da função a que se candidatava, sendo que esperava, como veio a acontecer, que fosse penalizado pela presunção, somada da vaidade, que colocou em toda a campanha.

Contudo, considero, igualmente, que o caso do filme em família foi desmesuradamente empolado. Será que para a determinação da capacidade de exercer a função de presidente da Câmara de Lisboa era assim tão importante se a mulher e filho de Carrilho tinham ou não aparecido num vídeo de campanha? Pessoalmente penso que não, de todo!

Mas foi fortemente aproveitado por toda a comunicação social. Por outro lado verificou-se uma protecção excessiva, a meu ver, à campanha de Carmona Rodrigues.

Estas são, contudo, águas passadas que hoje vieram forçosamente à memória umas e a terreiro outras, por força do programa acima mencionado.

E aqui chegados fica-nos o final.
Ricardo Costa esteve mal, duplamente mal: primeiro porque trouxe à colação afirmações de Carrilho sobre Morais Sarmento sem mencionar as afirmações que o segundo fizera, anteriormente, do primeiro, não permitindo aquilatar da correcta, ou não, virulência do ataque; segundo, porque não suportou o ataque pessoal que sofreu, mal efectuado e sem tacto político de Carrilho e deixou-se cair, com demasiada facilidade, no ataque suez, diria mesmo achincalhamento político e desfaçatez de nomear Carrilho como a face da derrota política. Ao fazê-lo mostrou, claramente, a vontade, ou pior, a certeza de que, enquanto jornalista, mata e deixa viver a seu bel-prazer, cria e desfaz (ele e a classe a que pertence) conforme lhe aprouver.
Foi triste de ver e, acima de tudo, perigoso constatar este facto.
A derrota política, em democracia, é tão natural quanto a vitória. Atacar um político atirando-lhe à cara uma derrota é atacar a própria democracia, brincar perigosamente com ela.
Mas mais, soou quase (ainda digo quase) como um epitáfio, ou por outras palavras: estás feito (ou quase) Carrilho!

Há que pedir então a M. Maria Carrilho que enuncie, claramente, os destinatários dos ataques e remoques a que alude no seu livro.

Mas Carrilho também não esteve bem. Mostrou, uma vez mais, ferver em pouca água ( um pecadilho enorme em política); querer tirar de esforço em público (azias antigas) e, acima de tudo, pouca (ou nenhuma) clarividência política no ataque que perpetrou contra Ricardo Costa.
Por último uma palavra sobre as confidências de Morais Sarmento, no início do mandato enquanto Ministro.
O facto de assumir ter sido toxicodependente não pode impedir ninguém de o atacar nessa vertente mais obscura e ingrata da sua vida, mesmo que se tenha regenerado.
Caso contrário, todos os ataques que a imprensa fez a políticos, sobre situações fiscais destes regularizadas após a nomeação para cargos públicos, terão de ser igualmente consideradas despropositadas e malévolas porque, de facto, a regularização não coerciva de dívidas fiscais é um acto de contrição equvalente a uma qualquer confissão, de livre vontade, de vícios privados .
O facto de confessar um vício ou pagar impostos fora de prazo, não o torna uma virtude. Torna-o isso mesmo: uma confissão.
Mais ainda quando esses actos de contrição são fruto, directo, do desempenho de cargos públicos, de exposição pública.

15.5.06

Fica a nota (atrasada): o TalvezTeEscreva está de volta. Com redobrado prazer se assinala este regresso.

14.5.06

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A Noite...

A noite corre suave e doce.
A noite sobe no desejo de múltiplas vontades, espraia-se sem torrente no melhor dos pensamentos e desagua, por fim, em idílicos momentos.
A noite, bela e mágica é música, quadro de tintas misturadas em pincel de fé, é arrebatamento da alma. A noite é o tudo poético perfeito e perfeita se insinua, melhor, se desnuda insinuante nuns momentos para se entregar, logo ali, por longos outros.
Que bela a noite sem sonhos, que a estes pertence o dia, pertencendo à noite a vida.

12.5.06

A crise no Médio-Oriente...

Henry Kissinger, numa palestra promovida hoje em Lisboa a propósito do Irão e do Médio-Oriente, afirmou, a dado ponto, que o cerne do problema são as armas nucleares de que o Irão poderá vir a dotar-se e a ameaça que poderão constituir para a humanidade, recusando a intervenção armada contra Teerão e defendendo que a solução passará pela mudança do governo, a realizar pelos próprios iranianos.

Aqui chegados, se estivéssemos a falar de um qualquer país civilizado, possivelmente essa solução seria possível, muito embora contraste com posições assumidas por Kissinger num passado não muito recente (leia-se a confiança no discernimento das populações e a sua capacidade para alterar o rumo da história política dos seus países).

Se não tivéssemos passado por duas grandes guerras no séc. XX, possivelmente seríamos ingénuos o suficiente para acreditar na generosidade da solução. Assim, como a memória não pode nem deve ser curta, a pseudo-solução apresentada cheira a hipocrisia e, igualmente, a muita moda.

A verdade é que a intervenção no Iraque era necessária, mas foi mal conduzida. Em vez da guerra teria sido preferível a via diplomática. Em vez de afastar os sunitas, teria sido preferível forçá-los a um entendimento, reforço a intenção de forçar, em vez de ter proporcionado o poder aos xiitas. Os xiitas são a "ralé" do mundo árabe, a twilight zone do entendimento entre ocidente e médio-oriente. Os sunitas estão ocidentalizados, são mundanos, pelo menos paredes dentro.
~
O presidente iraniano fez voto de castidade. Fez igualmente um voto de destruição dos judeus. O estado de Israel continua entalado nas gargantas dos mais pobres e menos esclarecidos, os xiitas. Porque Israel é rico. Os sunitas também o eram.
O problema é que quando falamos em Irão, falamos em Paquistão, falamos em Índiae por aí fora. Porque a escalada militar na região seria o nosso maior pesadelo - e aí Kissinger tem razão - pior que 3oo Elm Streets com 2.000 Freddy Kruger.
~
Mas o Irão já o afirmou. É preciso acabar com Israel. E aqui chegados só restam duas soluções: 1ª. olhar para o lado como se fez de 1934 a 1942, ou encarar os judeus inseridos no Médio-Oriente como foram encarados os Templários em França: estão a mais, bazem, ou;
2ª. intervir com força e, se necessário, em força.
A 2ª hipótese é a mais humana e séria, comportando igualmente os custos mais elevados. Porque há dois parceiros que entram neste jogo, só não se sabendo quando e em que tabuleiro geo-estratégico: China e Rússia.
~
Está tudo muito complicado, os sinais são todos maus. A crise económica instalou-se no Mundo, todo ele, trazendo consigo uma enorme instabilidade social. Qualquer passo mal dado redundará, forçosamente, em catástrofe. Mas será que a situação seria diferente, mesmo que os passos fossem todos bem dados? Não o creio.
George Bush é um homem só. Em tempos difíceis pede-se-lhe que seja um deus: supostamente só estes não erram. É um pedido razoável ? Claramente não!
É possível equacionar que o mundo ocidental assobie para o ar e que os EUA digam no pasa nada ?
Sabemos todos a resposta.
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É sustentável a esperança de que o actual poder no Irão reflicta e retroceda? ESperamos que sim mas nem superficialmente acreditamos em tal milagre - porque seria um milagre!
É natural que o povo iraniano force uma mudança governativa ? Pergunta: baseado em quê?
Também é pouco provável: a pergunta não tem resposta visível, pelo menos a médio prazo.
Resta-nos aguardar e esperar que o bom senso impere (coisa dificil de acontecer hoje em dia,mesmo em problemas bem menos intricados, como é bom exemplo Portugal).

25.4.06



















Giorgio de Chirico Posted by Picasa

Hora Absurda

....
Chove ouro baço, mas não no lá fora... É em mim... Sou a Hora,
E a Hora é de assombros e toda ela escombros dela...
Na minha atenção há uma viúva pobre que nunca chora...
No meu céu interior nunca houve uma única estrela...

Hoje o céu é pesado como a ideia de nunca chegar a um porto...
A chuva miúda é vazia... A Hora sabe a ter sido...
Não haver qualquer coisa como leitos para as naus!... Absorto
Em se alhear de si, teu olhar é uma praga sem sentido...

Todas as minhas horas são feitas de jaspe negro,
Minhas ânsias todas talhadas num mármore que não há,
Não é alegria nem dor esta dor com que me alegro,
E a minha bondade inversa não é boa nem má...

...
O palácio está em ruínas...Dói ver no parque o abandono
Da fonte sem repuxo...Ninguém ergue o olhar da estrada
E sente saudades de si ante aquele lugar-outono...
Esta paisagem é um manuscrito com a frase mais bela cortada...

...
Sermos, e não sermos mais!... Ó leões nascidos na jaula!...
Repique de sinos para além, no Outro Vale... Perto?...
Arde o colégio e uma criança ficou fechada na aula...
Por que não há-de ser o Norte e o Sul?... O que está descoberto?...

...
Para que não ter por ti desprezo? Por que não perdê-lo?...
Ah, deixa que eu te ignore... O teu silêncio é um leque-
Um leque fechado, um leque que aberto seria tão belo, tão belo,
Mas mais belo é não o abrir, para que a Hora não peque...

Gelaram todas as mãos cruzadas sobre todos os peitos...
Murcharam mais flores do que as que havia no jardim...
O meu amar-te é uma catedral de silêncios eleitos,
E os meus sonhos uma escada sem princípio mas com fim...

Alguém vai entrar pela porta...Sente-se o ar a sorrir...
Tecedeiras viúvas gozam as mortalhas de virgens que tecem...
Ah, o teu tédio é uma estátua de uma mulher que há-de vir,
O perfume que os crisântemos teriam, se o tivessem...

É preciso destruir o propósito de todas as pontes,
Vestir de alheamento as paisagens de todas as terras,
Endireitar à força a curva dos horizontes,
E gemer por ter de viver, como um ruído brusco de serras...

Há tão pouca gente que ame as paisagens que não existem!...
Saber que continuará a haver o mesmo mundo amanhã - como nos desalegra!...
Que o meu ouvir o teu silêncio não seja nuvens que atristem
O teu sorriso, anjo exilado, e o teu tédio, auréola negra...

Suave, como ter mãe e irmãs, a tarde rica desce...
Não chove já, e o vasto céu é um grande sorriso imperfeito...
A minha consciência de ter consciência de ti é uma prece,
E o meu saber-te a sorrir é uma flor murcha a meu peito...

Ah, se fôssemos duas figuras num longínquo vitral!...
Ah, se fôssemos as duas cores de uma bandeira de glória!...
Estátua acéfala posta a um canto, poeirenta pia baptismal,
Pendão de vencidos tendo escrito ao centro este lema - "Vitória!"

O que é que me tortura?... Se até a tua face calma
Só me enche de tédios e de ópios de ócios medonhos...
Não sei... Eu sou um doido que estranha a sua própria alma...
Eu fui amado em efígie num país para além dos sonhos...

(FernandoPessoa)

E Abril trouxe a fealdade...




















De Abril, da revolução e das pseudo-liberdades, não obtivemos mais que a boina, persistentemente mantida no nosso imaginário pelos irmãos Vitorino e Janita.
Tivesse Abril coberto Portugal de uma beleza real, que nem se queria fosse idêntica à da modelo fotografada (Kate Moss) e teríamos todos razões sobejas para estarmos satisfeitos com o nosso desempenho. Tal não aconteceu, não foi possível. Somos assim um povo triste e de tristes figurantes, em busca de uma razão, de uma vontade, de um suspiro pelo qual ainda valha a pena sonhar e lutar. Só vejo degradação, miséria, frustração e medo, muito medo. Medo que se espalha e entranha, que não escolhe idades.
Abril tem sido um imenso logro, longe, muito longe das aspirações do nosso Povo.
Somos hoje terceiro-mundistas, social e económicamente e não se vislumbra solução, uma saída digna e própria de um Povo novecentista. Aproxima-mo-nos do conceito de federação ibérica a uma velocidade vertiginosa, não que tivesse algum mal considerar Espanha como um mercado natural para Portugal, mas porque o mal deriva da hipoteca trágica das razões que subjazem à definição da soberania nacional, do Estado-Nação.
A razão está do lado de todos os que defendem a nacionalidade como um bem precioso e a família como o cimento aglutinador das sociedades. A razão está do lado de todos aqueles que acreditam que o Estado tem de se impôr um papel regulador da acitividade económica e social das Nações, menos liberalizador e, por tal, mais redistribuidor e garante de uma maaior equidade. A História se encarregará de lhes dar razão.

Essa razão chegará e, ao contrário do que poderão pensar não chegará, em momento algum, fora de tempo. Afinal é para isso que existem as revoluções.
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