Cavaco Silva precisava de 50% + 1 voto para ganhar. Obteve 50% + 32.766 votos.
Foi à justa, como previra. O que não significa que não tenha sido um enorme feito, ganhar à primeira e em todos os distritos do País à excepção de Beja. Foi uma grande vitória, maior do que se consumasse só à segunda volta e consensual.
22.1.06
Noite de Eleições
Cavaco Silva é o novo Presidente da República. Deseja-se um mandato frutuoso.
Ana Gomes, António Vitorino e Mega Ferreira mostraram, claramente, total ausência de conceitos democráticos enraízados, pelas aleivosias proclamadas e ditas. Ana Gomes só faltou espumar pela boca, algo que terá feito de seguida, estou em crer. A democracia do PS no seu pior.
Era dispensável a retórica do Primeiro-Ministro a propósito da estabilidade institucional, porque essa constrói-se todos os dias e não por discursos de circunstância. Foi coincidente com o discurso do recém-eleito Presidente, mas as palavras utilizadas e o sentido foram diferentes.
Ficou mal ao PS esperar que Manuel Alegre começasse a falar para que Sócrates iniciasse a sua intervenção do Largo do Rato, desviando a atenção dos media de Alegre. Uma prova mais da democracia reinante no PS.
Alegre teve um excelente resultado.
Cavaco Silva não ganhou porque a esquerda perdeu. Cavaco ganhou porque entre todos os candidatos foi o que melhor geríu a sua campanha, provávelmente a par de Alegre, a quem terá faltado um pouco mais de audácia e de coragem discursiva. Cavaco Silva ganhou porque foi o candidato mais credível de entre todos.
Em suma, Cavaco ganhou porque, no contexto destas eleições só ele merecia ganhar.
Soares Acabou....
Acabou-se Mário Soares. 13% dos votos espressos não lhe dá o direito de intervir com tanta facilidade na vida política nacional, porque lhe retiram, inclusivé, a capacidade de intervir políticamente no seio do PS. Se a família socialista já não escuta Soares, senão residualmente, porque há-de o País continuar a fazê-lo?
~
O enterro político nacional está feito e, bem ao contrário do que Marcelo R. de Sousa afirmou, o País não deve nada a Mário Soares. Todas as confusões em que possa ter participado no pós-25 de Abril, como figura de proa na solução encontrada teriam sido impensáveis sem o apoio claro do PPD e de Sá Carneiro.
~
Não esqueçamos que o PS foi fundado em 1972, quando já se cozinhava o 25 de Abril e que até essa data eram todos militantes comunistas.
20.1.06
Que os candidatos se danem...
O tempo de elucidar e esclarecer acabou.
No fim fica uma enorme sensação de frustração. Não ouvi um único candidato pronunciar-se sobre a OTA ou o TGV, despesismos desnecessários num País pobre, que além de esgotarem recursos fundamentais se constituirão numa enorme dor de cabeça ao nível dos custos de manutenção. Tudo isto num País que já viveu uma tragédia como a de Entre-Os-Rios e que, posteriormente, empreendeu obras de manutenção na ponte sobre o Tejo, ficando todos a saber que a ponte não era alvo de cuidados de manutenção desde 1974.
Não ouvi um único candidato esclarecer claramente qual a sua posição em relação a dois projectos megalómanos, que não trarão nenhuma vantagem acrescida ao País, sugarão importantes recursos e ficarão como pesada herança para as gerações vindouras. Projectos que vão de encontro aos interesses espanhóis, que não são própriamente os nossos. Projectos que equivalem a adjudicações públicas de muitos milhões, que alimentarão a gula de muitos, fazendo a fortuna de alguns e consolidando a de outros, através de mecanismos corruptivos.
Investir no País não gera proveitos imorais. Investir em infra-estruturas capitaliza interesses privados à custa do interesses público.
Nãoouvi um único candidato dizer fosse o que fosse a esse propósito.
O que eu esperava, de qualquer um dos candidatos ou mesmo de todos, era que se tivessem pronunciado sobre projectos que têm tanto de polémicos e desmesuradamente dispendiosos como de disparatados, para um País que está de tanga. Que tivessem a coragem de dizer que eram contra ou a favor. Que dissessem, claramente, que sendo contra (fosse esse o caso) não hesitariam em demitir o primeiro-ministro e dissolver a A. da República, caso o executivo insistisse na sua prossecução, tudo em nome dos mais altos interesses nacionais.
Não houvi nem irei ouvir, porque todos os candidatos estão comprometidos com o aparelho nacional, o conluio político existente entre as principais forças políticas nacionais, através dos dirigentes políticos que temos. E também porque ninguém tem ideias. Procurem-se ideias no discurso de Cavaco, de Alegre ou de Soares. No de Jerónimo, de Louçã ou mesmo de Garcia Pereira. É o vazio, dramático, de uma clivagem crescente entre a execução de cargos políticos e a capacidade e inteligência de quem executa as funções. É o sinal do fim dos tempos a ausência de ideias .
Nenhum candidato presta, nenhum serve. Ninguém está à altura de assumir um compromisso com Portugal
19.1.06
AS PALAVRAS
São como cristal,
as palavras.
Algumas, um punhal,
um incêndio.
Outras,
orvalho apenas.
Secretas vêm, cheias de memória.
Inseguras navegam:
barcos ou beijos,
as águas estremecem.
Desamparadas, inocentes,
leves.
Tecidas são de luz
e são a noite.
E mesmo pálidas
verdes paraísos lembram ainda.
Quem as escuta? Quem
as recolhe, assim,
cruéis, desfeitas,
nas suas conchas puras?
(Eugénio de Andrade)
as palavras.
Algumas, um punhal,
um incêndio.
Outras,
orvalho apenas.
Secretas vêm, cheias de memória.
Inseguras navegam:
barcos ou beijos,
as águas estremecem.
Desamparadas, inocentes,
leves.
Tecidas são de luz
e são a noite.
E mesmo pálidas
verdes paraísos lembram ainda.
Quem as escuta? Quem
as recolhe, assim,
cruéis, desfeitas,
nas suas conchas puras?
(Eugénio de Andrade)
Estaremos tão perto de uma vitória à primeira, como da necessidade de uma segunda volta
É definitivo. O sentimento sobre as eleições presidenciais é generalizado, transversal na sociedade portuguesa e não limitado a cliques intelectuais ou sofisticadas: nenhum dos candidatos é julgado conveniente, portador de qualidades que justifiquem a sua nomeação como futuro Presidente da República. Assim, os que votam fá-lo-ão pelo princípio do mal menor ou do menos mau. No fim, seja qual fôr o resultado, muitos sentir-se-ão insatisfeitos, mesmo ganhando o "seu" candidato.
~
Mas que resultados esperar ao final da tarde do próximo Domingo? Sinceramente a resposta é quase impossível de dar, mesmo que alicerçada em sondagens, porque estas tratam estatísticamente as respostas apuradas e partem, obrigatóriamente, de determinados pressupostos, como por exemplo o eleitorado base de cada partido, a massa flutuante de eleitores que umas vezes dá a vitória ao PS e outras ao PSD e ainda os indecisos. E depois repartem estes números de acorodo com os dados coligidos e as experiências passadas.
~
Só que estas eleições são diferentes, atípicas. Não é relevante se a esquerda ganha ou se a direita é a mais votada. Essa dicotomia não existe nestas eleições e tende a desaparecer totalmente nesta democracia à portuguesa. Os eleitores estão cansados dos partidos, dos políticos e desejam, diria mesmo que anseiam, uma mudança na vida económica e social do País e que se sintam ventos de mudança claros, de que o País tem soluções para progredir e, ainda mais importante, que se torna um País governável, coisa que não acontece desde 1980.
Tem sido um erro situar os candidatos num plano ideológico de esquerda e direita. Por um lado os candidatos excluem-se da hipótese de serem um presidente para todos os portugueses, por outro transformam estas eleições em eleições partidárias e essa perspectiva não tem cabimento nas actuais eleições. Cavaco tem estado bem nessa perspectiva desde o início; Alegre começou a perceber o fenómeno há pouco tempo, retirando do discurso político, gradualmente, as alusões constantes à esquerda e demarcando-se do PS, ao mesmo tempo que pretende, aplicando um enorme esforço discursivo, a colagem de Cavaco ao PSD e CDS.
~
Por isso se torna exercício penoso dizer onde acaba o eleitorado de um candidato e começa o de outro. Mesmo Cavaco Silva tem essa dificuldade, porque nem todo o eleitorado PSD/CDS vota Cavaco e, provávelmente, algum eleitorado que votou PS nas legislativas irá votar Cavaco agora.
Estará Cavaco folgado? Não! Cavaco está à justa. Se ganhar à primeira volta será por poucos.
E se fôr empurrado para uma segunda volta perde as eleições? Igualmente não é certo, pois seja Soares ou Alegre o oponente, por uma razão ou outra podem não conseguir congregar todos os votos do eleitorado dito de esquerda, nem que seja por guerrilhas partidárias ou ódios intestinos.
~
É então impossível afirmar com segurança qual o resultado expectável para Domingo.
Mas como o comentário e epensamento político implica riscos, correrei os meus ao colocar a hipótese de Cavaco Silva não ganhar à primeira. Vai-lhe fugir eleitorado natural e tem muitos candidatos à sua esquerda.
Passando à segunda volta vai ter por companhia Alegre, que paradoxalmente vai capitalizar alguns dos votos naturais de Cavaco. E depois, provávelmente, ganha as eleições na segunda volta.
~
Entretanto o PS, em seis meses, termina o consulado da família Soares no partido. O filho João foi enterrado políticamente em Sintra, a nível local - não tinha dimensão de estadista, não mereceu honrarias de estado - o pai Mário vai ser enterrado a nível nacional - sempre foi um (péssimo) primeiro-ministro e Presidente da República - justificando a dimensão do enterro político pela dimensão das aleivosias políticas que todos testemunhámos, pelo menos os que não tendo memória curta e sentindo-se portugueses analisam os acontecimentos políticos à luz dos interesses nacionais.
12.1.06
Pedro Santana Lopes adiantado 5 anos....ou não.
Imagino o que se esteja já a escrever e a dizer a propósito das declarações de PSL. Acresce o aproveitamento político que as candidaturas de esquerda não deixaram de fazer das palavras proferidas pelo enfant terrible do PPD/PSD.
Revanchismo será o mínimo que se escutará. E até pode ser que sim, que tenha sido por révanche ou pela necessidade imperiosa de aparecer, de falar, de ser polémico. Dêem um caixote de fruta para onde possa subir e uma qualquer praça do País a PSL e ele faz um comício, cheio de gente arrebatada no final.
Pedro Santana Lopes (PSL) é assim.
~
Mas também não deixa de ser verdade que Cavaco Silva tem dito que se candidata para mudar as coisas, para ajudar o executivo, para ajudar Portugal a ultrapassar a crise. Só não se percebe como, sendo os poderes do Presidente de alguma forma exíguos. Claro que Cavaco Silva ainda se lembra de Mário Soares, de como este lhe fez a vida negra, como reiteradamente emperrou a acção governativa.
Não acredito que esse seja o caminho escolhido para exercer a presidência por parte de Cavaco Silva nem o seu estilo. Mas não sendo esse o estilo e não indo igualmente de encontro à capacidade de dissolução da Assembleia da República, mais que não seja por manifesta ausência de legitimidade democrática, não se percebe que muito mais poderá Cavaco Silva fazer face a um executivo socialista.
Aqui Santana Lopes parece querer aludir, nas entrelinhas, à boa e à má moeda, aos políticos que prometem mas são incapazes de cumprir, ou cumprindo acarretam, forçosamente, problemas para a estabilidade governativa do País, o mesmo é dizer, problemas ao nível económico, político e social. É uma bicada, provávelmente merecida, porque Cavaco Silva quis capitalizar votos e promover o distanciamento do PSD usando Santana Lopes para custear as despesas.
~
Mais! Quando falamos de Cavaco e Sócrates falamos de dois galos e cada um à sua maneira não deixará de tentar impôr a sua presença, ou melhor omnipresença, a todos os portugueses, tudo indiciando focos de potenciais guerras institucionais.
Mas não acredito na tese dos conflitos institucionais e, como tal, não subscrevo as afirmações de PSL - muito embora concorde que as afirmações de Cavaco Silva, em campanha, possam conduzir a leituras de potenciais situações conflituais.
Creio que na pior das hipóteses assistiremos a guerrilhas e golpitos palacianos, mas nada do outro mundo, ou pelo menos que não se tenha passado já no nosso mundo político-institucional.
~
Afirmava eu que não acredito nesse pressuposto, no confronto institucional aberto e a base de sustentação dessa presunção tem tão de simples como de verdadeira: caso Cavaco Silva seja eleito no dia 22, vai querer fazer os dois mandatos e, mutatis mutantis, se quiser ser "enxertado num corno" para com um primeiro-ministro sê-lo-á no seu segundo mandato. Também aí Cavaco Silva terá aprendido com Soares e mais recentemente com Sampaio.
~
A menos que PSL estivesse a pensar nesse 2º mandato; assim sendo e para ter razão, deveria ter esperado 5 anos para proferir as mesmíssimas afirmações.
Ou então a intenção de Santana Lopes era mesmo dar a bicada e para dar uma bicada, esta bicada, políticamente era esta a altura.
11.1.06
SOBE O PANO
Onde se solta estrangulado grito
Humaniza-se a vida e sobe o pano.
Chegam aparições dóceis ao rito
Vindas do fosso mais fundo do humano.
Ilumina-se a cena e é soberano,
no palco, o real oculto no conflito.
É tragédia? É comédia? É, por engano,
O sequestro de um deus num barro aflito?
É o teatro: a magia que descobre
O rosto que a cara do homem cobre,
E reflectidos no teu espelho - o actor -
Os teus fantasmas levam-te para onde
O tempo puro que te corresponde
Entre horas ardidas está em flor.
(Natália Correia)
Humaniza-se a vida e sobe o pano.
Chegam aparições dóceis ao rito
Vindas do fosso mais fundo do humano.
Ilumina-se a cena e é soberano,
no palco, o real oculto no conflito.
É tragédia? É comédia? É, por engano,
O sequestro de um deus num barro aflito?
É o teatro: a magia que descobre
O rosto que a cara do homem cobre,
E reflectidos no teu espelho - o actor -
Os teus fantasmas levam-te para onde
O tempo puro que te corresponde
Entre horas ardidas está em flor.
(Natália Correia)
10.1.06
Os tontos da nossa política e a política de todas as tonterias...
Manuel Pinho afirmou no Parlamento não haver conflitos de interesses entre a EDP e a Iberdrola. Não há senão outra coisa. Quem quer o ministro - dizem-me que muito fraquinho; que convoca assessores e presidentes de instituições públicas para reuniões quase diárias, sem agenda e sem que, no final, alguém tenha percebido porque esteve presente e a fazer o quê - enganar?
DEpois ainda afirma que não merece a pena fazer o discurso do gato escondido com o rabo de fora. Porque, afirma o senhor, se alguém tem alguma prova de que algo de anormal se passa na relação com a Iberdrola e o governo socialista (presente e passado) e os interesses nacionais, que a apresente, que não se acanhe. O tom foi desafiador, mas dito assim faz-me lembrar as fugas para a frente, e muito provávelmente o que teremos é rabo escondido com gato de fora - aqui o gato é claramente Pina Moura e o rabo o ministério que exerceu.
Parece inequívoco o conflito de interesses. É claramente inequívoco o prejuízo imenso que resulta para os interesses nacionais da cedência feita à Iberdrola pelo governo, que uma vez mais age directamente na gestão da empresa, contra as mais elementares regras de actuação de um executivo, em função de uma empresa de capitais mistos e do sector energético, que como já afirmámos anteriormente, se deveria pautar por um papel mais regulador e menos interventivo ao nível da gestão.
Não será dispiciendo relembrar que a relação entre a EDP e a Iberdrola entornou o caldo na altura em que foi anunciada a fusão entre a Iberdrola e a Endesa.
A parceria abortou pela ausência de comunicação entre as duas empresas, pela constatação clara que a estratégia de uma não era compatível com os objectivos estratégicos da outra.
Nem rateando os mercados.
Soares já interiorizou a derrota....perante Cavaco e Alegre
Soares não está descrente. Soares de facto já não acredita nem sequer na hipóteses de ser o 2º mais votado. Só assim se compreendem lapsus linguae constantes, onde se encontram e mesmo se enfatizam sinais claros da derrota, não como 2º mas 3º candidato mais votado.
O que eles dizem...
António Costa defende o seguinte princípio: os portugueses não deverão dar a vitória na 1ª volta a um candidato que já sabem que perde, se houver 2ªvolta.
Este princípio foi enunciado logo a seguir a um jantar de apoio à candidatura de Mário Soares.
5.1.06
Notícias de Angola...

O assunto não é novo. A novidade é que desta feita é referido num semanário angolano "Angolense", do qual se reproduz fac-simile da 1ª página da semana de 5 a 12 de Novembro de 2005, onde merece especial realce uma passagem na pág. 24 deste jornal, sob o título "O que eles disseram". Passamos a referir :
"""Após a última reunião secreta com os camaradas do PCP resolvemos aconselhar-vos a pôr em execução imediata a segunda fase do plano. Dê, por isso, instruções aos militantes do MPLA para aterrorizarem por todos os meios os brancos, matando, pilhando e incendiando a fim de provocar a sua debandada de Angola".
Rosa Coutinho, Alto Comissário para Angola, em carta dirigida antes da independência ao Presidente Agostinho Neto. Afinal, a arruaça foi encomendada por Lisboa..."
Quando um orgão de informação angolano reproduz uma passagem de uma carta, datada de 22 de Dezembrode 1974 em Novembro de 2005, está a pretender passar uma mensagem em relação à história recente dos dois países. Ainda mais se o faz num número dedicado aos 30 anos de independência de Angola.
O problema da História, o mais das vezes, é que só se consegue fazer quando os intervenientes directos já não estão vivos. Por outro lado, este pequeno óbice implica um enorme handicap. É que nunca se sabe se a história feita está correcta ou padece de imprecisões acrescidas de fábulas, boatos e boas-vontades.
Mas a História também pode ser feita em vida, através do julgamento das acções daqueles que nela participaram activamente. É uma outra forma de fazer História.
Quando, a propósito dos 25 anos do assassinato de Sá Carneiro e Amaro da Costa, são entrevistadas algumas personalidades e personulidades, Ramalho Eanes refere que Sá Carneiro era um político muito vivo e inteligente e, por isso, perigoso, apetece perguntar: perigoso porquê e para quem? E será por isso que a história de Camarate ainda não se fez?
Conhecer os factos, mesmo sem neles ter participado directa ou indirectamente e manter o silêncio prefigura encobrimento, e a fronteira entre o encobrimento e a cumplicidade é muito ténue.
Espero que muitas das figuras que ainda respeitamos políticamente não sejam portadoras de verdades que mesmo muito indigestas deverão ser, obrigatóriamente, do conhecimento de todos, sob pena dessas figuras políticas se verem cair no descrédito, caso um dia a História se faça de uma forma séria, mesmo que seja iniciada de fora para dentro.
4.1.06
Ai, Soares, Soares....
Mário Soares afirma perante as cameras da RTP1, a propósito do caso EDP/Iberdrola, que a vinda de capitais estrangeiros (privados) para Portugal é positivo e, como tal, bom para o País. Em abstracto, claro, como ajuntou de imediato.
Quando se fala em capital não existe abstração.
Quando se fala em capital fala-se em dinheiro e o dinheiro não é nem nunca foi abstracto, nem as consequências da sua posse e utilização o são. Dependendo das origens e dos interesses, a vinda de capital poderá ser ou não benéfica. Mas ninguém espera que Mário Soares entenda estas coisas, quando não entende outras mais simples. Querem um exemplo?
~
Na mesma situação e ainda perante as cameras da RTP1, Soares queixou-se da falta de cobertura que a estação de Carnaxide atribui à sua campanha, por comparação com a evidência que é atribuída à campanha de Cavaco Silva.
Acontece que a SIC é detida por capitais privados e, assim sendo, é livre de estabelecer os seus próprios critérios de selecção e passagem da informação nos boletins noticiosos, desde que não atente contra a ética, a moral e lei públicas, não precisando de ser isenta na informação que presta. As audiências mostrarão na prática se a linha editorial da estação está certa ou errada (caso as taxas de audiências sejam fiáveis, o que duvido).
Caso contrário sucede com a RTP1, que por ser uma estação pública, paga por todos nós, deverá primar pela isenção.
~
Como se verifica, o Dr. Soares defende a entrada de capitais privados em Portugal, mas depois pretende ser criticável a actuação desses capitais, quando o seu comportamento é, supostamente, conflituante com os seus interesses.
A nível político e económico, Dr. Soares, é a issso que se chama a transferência dos centros de decisão, porque impedem que o País se defenda e veja os seus interesses defendidos nacional e internacionalmente.
Quando se fala de energia pior ainda, pelo que todo o cuidado é pouco nestas matérias.
Sol na eira e chuva no nabal.....era bom, era, mas não existe.
Salvem a EDP
A existência de um parceiro financeiro, a CajAstur, muito embora espanhol, prefigura o parceiro ideal para a EDP - a tecnologia é portuguesa; os activos financeiros do parceiro financeiro local - por inexistência de objectivos conflituantes.
O problema com a Iberdrola coloca-se ao nível do controle operacional. Qualquer aliança internacional só é interessante para a EDP se esta detiver o controle operacional completo (leading partner). O atingir dos objectivos pressupõe saber fazer e fazer como se sabe, sendo certo que a obtenção de consensos em matéria de gestão, quando estão envolvidos parceiros tecnológicos é muito difícil de obter, senão impossível, por cada um querer fazer à sua maneira.
~
Quando o mercado europeu é liberalizado em 2000, a estratégia de diversificação de negócios da EDP sofre uma inflexão, passando o mercado europeu, em particular o espanhol, a assumir contornos de grande importância na estratégia de diversificação de mercados. Para além do mais Espanha pode ser considerada como uma extensão do mercado natural da EDP.
A tendência actual é verdadeiramente essa: a criação de mercados regionais europeus de energia.
~
No futuro mercado europeu deverão existir sómente 5 players, a saber: 1 francês; 1 italiano; 1 espanhol e 2 alemães. A questão coloca-se então, caso não haja retrocesso no aprofundamento económico da UE, em esperar para ver quais as famílias que se criam e, posteriormente, juntar a EDP a uma das famílias criadas dentro da lógica do mercado europeu.
Retirar protagonismo à EDP, neste momento, é retirar-lhe veleidades de poder escolher, subjugando-a de imediato a interesses espanhóis e reduzindo-lhe a expressão e posição negociais para perto do zero.
~
Acresce que a Iberdrola aparece como parceira da EDP por iniciativa do accionista Estado, que tem demonstrado uma inusitada veia interventiva ao nível da gestão (evidenciada por demais no consulado de Pina Moura), , ao invés do papel de agente regulador que lhe caberia que nem uma luva e que seria o seu papel natural.
Por outro lado não é menos de estranhar que a parceria com a Iberdrola seja defendida por um ministro à altura, que se vem a verificar posterior e públicamente tratar-se do braço armado da empresa espanhola em Portugal. É claro o conflito de interesses e nada clara a política de gestão estratégica para a EDP.
~
A substituição da actual administração, que demonstrou ter ideias claras e de defesa dos interesses nacionais, olhados na perspectiva do tabuleiro estratégico energético europeu só nos poderá deixar apreensivos quanto às verdadeiras razões da sua substituição e dos interesses que estão em jogo.
~
Cúm raio. Pelo menos deixem-nos perceber como vai a economia europeia nos próximos anos; se a tendência de criação de famílias energéticas é um facto e, por fim, qual dessas famílias se torna mais interessante para a nossa EDP. Estar a casar a empresa, sem dote, com um parceiro espanhol só poderá interessar a este, em ganhos de posição no mercado e de masssa crítica para as futuras negociações e alianças energéticas na Europa.
~
Ou será que esta parceria é tão boa, como era a outra que se preparava para ser estabelecida entre a TAP e a Swissair? A segunda já falíu, a primeira ainda mexe, mas parece que alguém se preparava para tentar salvar a segunda através da hipoteca do futuro da primeira.
~
Há 30 anos que nos andamos a hipotecar para fazer jeitos a terceiros, sejam eles privados ou institucionais. Eu digo que chega, que já considero demais!
2.1.06
Lérias de Jornalistas vendidos à Nomenklatura
Passaram ontem 20 anos sobre a adesão de Portugal à CEE, hoje UE.
A notícia foi dada com pompa na RTP1, mostrando Soares a assinar a adesão afirmando-se em simultâneo, através de um discurso entusiasmado e de algumas imagens dispersas que nada mostravam, que o País mudou drásticamente nesse período, apontando como exemplos possíveis de aferição das mudanças profundas várias situações, algumas das quais que passo a destacar: 1) quase 750.000 portugueses trabalhavam na lavoura - o denominado sector primário da economia - trabalhando hoje nesse sector pouco menos de metade; os electrodomésticos eram um luxo acessível só a alguns, estando hoje perfeitamente massificados; do Porto a Faro demoravam-se 10 horas, demorando-se hoje cerca de 6 horas.
~
A última afirmação proferida seria a única que poderia prefigurar uma alteração substancial no panorama económico e social nacional, caso tivesse contribuído, com o encurtar das distâncias, para uma real e eficaz política de melhoramento das assimetrias regionais e um aumento decisivo na produtividade nacional. Como se sabe nem uma coisa nem outra aconteceram e, de facto, a única verdade é que as redes de estradas só foram possíveis graças aos subsídios europeus, caso contrário com os dinheiros nacionais tal emprendimento seria impossível, depois da desbunda e delapidação da riqueza nacional após o 25 de Abril de 1974.
~
As duas primeiras premissas, supostamente sustentadoras do princípio das alterações profundas acontecidas em Portugal em virtude da adesão à CEE são veiculadoras, isso sim, da má performance portuguesa no panorama económico europeu. Se por um lado o acesso a bens de consumo, como o caso dos electrodomésticos, registou um incremento, tal facto ficou a dever-se à enorme baixa no custo de produção dos mesmos tornando-os financeiramente mais acessíveis, não sendo este factor demonstrativo de nenhuma evolução da economia portuguesa porque Portugal não fabrica frigoríficos nem máquinas de lavar e, igualmente, porque não deriva de um crescimento real do produto nacional e a uma consequente melhoria das condições económicas das famílias portuguesas mas, fundamentalmente, a um aumento que hoje se considera muito preocupante do endividamento das famílias, criado pela facilidade de aceder a crédito, que na última análise efectuada representava cerca de 112% dos rendimentos reais auferidos, ou por outras palavras, nos dizia que vivemos todos muito acima das nossas posses.
Por outro lado, a redução de cerca de 400.000 postos de trabalho no sector primário não significou nenhum aumento de produtividade e consequente redução da mão-obra necessária, fruto de um processo de mecanização e automação de processos, mas sim o fim do sector agrícola em Portugal. Este sector está há muito enterrado.
Igualmente o facto de existirem hoje em Portugal 500.000 desempregados e de o número estar longe de ter estabilizado, significa claramente que nem o sector secundário - a indústria - teve capacidade de absorção da mão-obra libertada na destruição do sector agrícola, mostrando, bem pelo contrário, uma idêntica tendência para o suicídio, como mostra à evidência que o sector terciário - os serviços - está esgotado e igualmente sem capacidade de criação de postos de trabalho, facto natural porque este sector económico sofre fortíssimas influências dos dois primeiros. Se estes são quase inexistentes (uma vez mais peço que olhem para o PSI20 e descortinem as empresas industriais que aí subsistem, perto do avassalador número de empresas prestadoras de serviços) não é possível pedir milagres ao terciário.
~
Assim, verifica-se que as verbas canalisadas via CEE e UE têm tido uma aplicação praticamente nula, com efeitos práticos desastrosos pela atitude e mentalidade despesista que vieram criar no comportamento político nacional, não deixando Portugal de cohabitar com os países mais pobres da Europa. A responsabilçidade cabe quase por inteiro, curiosamente, a dois candidatos presidencias em 2006: Mário Soares e Cavaco Silva e, em muito menor grau, a A. Guterres e D. Barroso.
~
Eu, por mim, dispensava as auto-estradas e trocava todas elas pela miséria que se vê nos campos e nas cidades deste País. Preferia demorar 10 horas de automóvel do Porto a Faro, ou outras tantas de comboio e nem sequer ter carro, a saber que há concidadãos que não têm as condições mínimas de vida que a dignidade humana existe.
E depois, algum de nós acredita que todos os pensionistas que recebem neste país um valor mensal situado entre os 25 e os 50 contos têm acesso a máquinas de lavar e de secar, fornos, micro-ondas e televisões? Ou será que estes bens mais as 6 horas de viagem para ir de banhos ao Algarve não continuam a ser um benefício só para alguns?
28.12.05
¿A quién me quejaré de mi enemiga?
¿Al tiempo? No es razón, que me ha burlado.
¿Al cielo? No es juez de mi cuidado.
Ni al fuego, pues el fuego me castiga.
¿Al viento? Ya no escucha mi fatiga,
que está en mis esperanzas ocupado.
¿A Amor? Es mi enemigo declarado
y en condenarme piensa que me obliga.
Ya, pues ninguno de mi parte siento,
Filis ingrata, a ti de ti me quejo;
juzguen tus ojos, reos y testigos.
Y el tiempo, el cielo, el fuego, Amor y el viento
lloren mi muerte, pues mi causa dejo
en manos de mis propios enemigos.
Barahona de Soto
¿Al tiempo? No es razón, que me ha burlado.
¿Al cielo? No es juez de mi cuidado.
Ni al fuego, pues el fuego me castiga.
¿Al viento? Ya no escucha mi fatiga,
que está en mis esperanzas ocupado.
¿A Amor? Es mi enemigo declarado
y en condenarme piensa que me obliga.
Ya, pues ninguno de mi parte siento,
Filis ingrata, a ti de ti me quejo;
juzguen tus ojos, reos y testigos.
Y el tiempo, el cielo, el fuego, Amor y el viento
lloren mi muerte, pues mi causa dejo
en manos de mis propios enemigos.
Barahona de Soto
27.12.05
O que de facto importa...
O que está mal não são as declarações de um candidato a presidente ou as propostas que pretenda sugerir para um regular e melhorado funcionamento da vida política, económica e social do País.
O que está verdadeiramente mal é o sistema nem ser presidencial nem parlamentar, ser semi-qualquercoisa, como lhe ouvimos há anos chamar.
O que está execrávelmente mal é a Constituição Portuguesa que requer mudanças profundas rápidas e fundamentais.
O que está mal não é pretender ter um Presidente com ideias. O que está verdadeiramente mal é pretender que o Presidente não pode ter ideias, porque estas competem ao executivo, mas depois, esse mesmo Presidente, poder dissolver a Assembleia da República.
No que é que ficamos? O Presidente é um palhaço pomposo, figura de retórica ou um agente importante na condução polítca, social e económica do País? Seja uma coisa ou outra, não é Soares o Presidente indicado, porque dos adjectivos possíveis para classificar o Presidente e a sua actuação não cabem o de velhaco ou malandro político.
Um homem sentado no chão...
Um homem sentado no chão pede por uma esmola, por uma réstea de sobrevivência. O homem já nãovive, tão pouco sobrevive. Este homem contenta-se com os restos da sobrevivência, do respirar possível, do caminhar possível, do falar quase ininteligível. O homem já não quer, sequer, que se condoam da sua situação que é nenhuma. Este homem está verdadeiramente abaixo de cão. O que procura o homem então? Agarrar-se ao ar, ao dia, a cada dia que passa, literalmente. O homem só quer respirar, caminhar, comer. Porque a vida para este homem não existe. Ele não tem vida, nem própria nem alheia. E compreende-se. Quem por ele passa percebe, distintamente, que a vida já não mora ali. Nem no plano da morte a vida existe. O homem já está morto na moral, na dignidade, no pensamento, nas expectativas. Dentro deste homem nem uma réstea de esperança existe a não ser a de viver mais um dia. A roupa não existe, só farrapos, mostrando em toda a sua extensão o forro de que é feita - jornais rasgados, dobrados, pontas desfeitas e muito, muito sujas. Este é o verdadeiro agasalho do homem; os jornais com os quais procura reter o pouco calor que o seu débil corpo conserva. E estão 6 celsius negativos. O home pede a moeda, que de quando em vez lhe cai na mão ou perto. Num homem destes não se toca. Nem se olha verdadeiramente. Passa-se um olhar muito de relance e percebe-se tal miséria que a vergonha contida da sociedade se inibe de se mostrar constrangida perante tanta miséria, pois que constrangimento tem este homem de sobra, não precisa que lho aumentem.
Parei a uma distância suficiente para não ser notado. E vi aquele homem, para lá do fim da linha, numa curva da vida inalcançável. Mesmo que se queira, isoladamente nenhum de nós tem condições de valer àquele homem. Ele está para lá da nossa capacidade de compreensão. Talvez só num templo, despojados de todas as vestes e metais, nús e todos iguais, consigamos olhar aquele homem e pensar que possa ser parte de um qualquer objectivo oudestino. Ali na rua, sentado, não! Aquele homem não tem objectivo ou saída possível e o destino está traçado: o homem já está morto!
Onde pára então a sociedade, quando a vida de um homem se degrada inexorávelmente, muito para lá do limite que julgamos possível? Onde pára a economia, o estado social, para que o plano inclinado de uma vida seja barrado e o homem recuperado, antes que se espete no seu final com grande estrondo e se desfaça em mil pedaços feitos de todos os seus sonhos, das suas ambições, da família, do desespero, da vontade, da descrença, da dignidade e da vida?
Compete ao estado zelar pelo bem estar de todos. O estado somos todos e queremos que todos sejam apoiados. A vida é fértil em surpresas, sendo os seus momentos desagradáveis em maior número que os restantes. Queremos ter a certeza que a vida não nos caça numa qualquer viela e nos atira para o caixote dos despojos, para o leque crescente e já interminável dos que foram caçados na teia do destino, escrito pelas mãos de todos que nos abstemos de participar e fomentar a igualdade de direitos e deveres, vivendo de egoísmos, de espaventos e cultivando o sofisma.
O estado tem de ser interventivo. Para tanto precisa de se dotar de meios próprios. O estado precisa de investir para gerar riqueza, para lá daquela que obtém através da coerção fiscal. O estado tem de se comportar como um qualquer outro accionista; acreditar na gestão privada e pedir dividendos no final dos exercícios. O estado tem de aplicar os seus dinheiros, de escolher os seus investimentos de forma criteriosa e cautelosa porque o estado somos todos nós e o capital investido é todo nosso. Depois o estado tem de aplicar uma fatia dos resultados em novos investimentos e a fatia restante tem de ser forçosamente canalisada para o estado-providência.
Como é possível sabermos todos que há reformados que vivem com perto de 20 contos por mês? Imaginamo-nos, acaso, a viver com tal quantia mensal? Não foram estes reformados outrora homens e mulheres válidos para a sociedade? Não contribuíram com o seu esforço e trabalho para o bem comum? Não são agora, eles próprios, vítimas da má condução das políticas passadas e presentes, praticadas por outros homens? E todos os outros, que mendigam nas ruas? Não serão igualmente merecedores da atenção do estado, ou seja, de todos nós? E ainda aqueles a quem falta a assistência na doença? E os outros a quem é vedado o acesso à cultura, por falta de meios e condições?
O estado não pode gastar para luzir pela frente e, em simultâneo, andar passajado ou roto na retaguarda.
Porque o estado somos todos nós e todos temos a obrigação de apresentar uma só cara.
Natal
Natal...Na provincia neva.
Nos lares aconchegados,
Um sentimento conserva
Os sentimentos passados.
Coração oposto ao mundo,
Como a família é verdade!
Meupensamento é profundo,
´Stou só e sonho saudade.
E como é branca de graça
A paisagem que nãosei,
Vista de trás da vidraça
Do lar que nunca terei!
(Fernando Pessoa)
Nos lares aconchegados,
Um sentimento conserva
Os sentimentos passados.
Coração oposto ao mundo,
Como a família é verdade!
Meupensamento é profundo,
´Stou só e sonho saudade.
E como é branca de graça
A paisagem que nãosei,
Vista de trás da vidraça
Do lar que nunca terei!
(Fernando Pessoa)
Poemas Inconjuntos
A espantosa realidade das coisas
É a minha descoberta de todos os dias.
Cada coisa é o que é,
E é difícil explicar a alguém quanto isso me alegra,
E quanto isso me basta.
Basta existir para se ser completo.
(Alberto Caeiro)
24.12.05
Poema de Natal
Para isso fomos feitos:
Para lembrar e ser lembrados
Para chorar e fazer chorar
Para enterrar os nossos mortos —
Por isso temos braços longos para os adeuses
Mãos para colher o que foi dado
Dedos para cavar a terra.
Assim será nossa vida:
Uma tarde sempre a esquecer
Uma estrela a se apagar na treva
Um caminho entre dois túmulos —
Por isso precisamos velar
Falar baixo, pisar leve, ver
A noite dormir em silêncio.
Não há muito o que dizer:
Uma canção sobre um berço
Um verso, talvez de amor
Uma prece por quem se vai —
Mas que essa hora não esqueça
E por ela os nossos corações
Se deixem, graves e simples.
Pois para isso fomos feitos:
Para a esperança no milagre
Para a participação da poesia
Para ver a face da morte —
De repente nunca mais esperaremos...
Hoje a noite é jovem; da morte, apenas
Nascemos, imensamente.
(Vinícius de Moraes)
Para lembrar e ser lembrados
Para chorar e fazer chorar
Para enterrar os nossos mortos —
Por isso temos braços longos para os adeuses
Mãos para colher o que foi dado
Dedos para cavar a terra.
Assim será nossa vida:
Uma tarde sempre a esquecer
Uma estrela a se apagar na treva
Um caminho entre dois túmulos —
Por isso precisamos velar
Falar baixo, pisar leve, ver
A noite dormir em silêncio.
Não há muito o que dizer:
Uma canção sobre um berço
Um verso, talvez de amor
Uma prece por quem se vai —
Mas que essa hora não esqueça
E por ela os nossos corações
Se deixem, graves e simples.
Pois para isso fomos feitos:
Para a esperança no milagre
Para a participação da poesia
Para ver a face da morte —
De repente nunca mais esperaremos...
Hoje a noite é jovem; da morte, apenas
Nascemos, imensamente.
(Vinícius de Moraes)
14.12.05
O Senhor Ventura...
"Ha nações que nascem feitas e nações que se fazem. Portugal é das que se fizeram, [...] e nunca tiveram sossego nas fronteiras, que chegaram a situar-se nos cinco continentes."
"Fundadora de novas pátrias, esta pequena pátria, que com os descobrimentos marítimos realizou a maior epopeia dos tempos modernos, arredondando definitivamente o globo nas mentes coevas, ainda hoje ajuda a povoar e a unir o orbe, num fluxo emigratório constante. E é essa vocação planetária, essa inquietação dispersiva que faz do português um peregrino das sete partidas, um cidadão do mundo."
Miguel Torga
as razões que a razão desconhece ou a Portugalidade...
"Posso finalmente sair de Portugal (pelo menos tenho passaporte), e bastou essa certeza para me tirar toda a fúria de deixar isto."
Miguel Torga, 27 de Junho de 1950, a propósito do termo do impedimento de se ausentar do País.
SONHO ORIENTAL
Sonho-me às vezes rei, nalguma ilha,
Muito longe, nos mares do Oriente,
Onde a noite é balsâmica e fulgente
E a lua cheia sobre as águas brilha...
O aroma da mongólia e da baunilha
Paira no ar diáfano e dormente...
Lambe a orla dos bosques, vagamente,
O mar com umas finas ondas de escumilha...
E enquanto eu na varanda de marfim
Me encosto, absorto num cismar sem fim,
Tu, meu amor, divagas ao luar,
Do profundo jardim pelas clareiras,
Ou descansas debaixo das palmeiras,
Tendo aos pés um leão familiar.
Antero de Quental
Muito longe, nos mares do Oriente,
Onde a noite é balsâmica e fulgente
E a lua cheia sobre as águas brilha...
O aroma da mongólia e da baunilha
Paira no ar diáfano e dormente...
Lambe a orla dos bosques, vagamente,
O mar com umas finas ondas de escumilha...
E enquanto eu na varanda de marfim
Me encosto, absorto num cismar sem fim,
Tu, meu amor, divagas ao luar,
Do profundo jardim pelas clareiras,
Ou descansas debaixo das palmeiras,
Tendo aos pés um leão familiar.
Antero de Quental
13.12.05
Os guetos....
O último quartel do séc. XX assistíu a um crescimento desmesurado do peso do capital na acção e capacidade governativas dos estados.
Se nas décadas de cinquenta e sessenta países como a França e Alemanha foram importadores de mão-de-obra, a generalização do movimento, tornando todos os países ocidentais como receptores de movimentos migratórios veio acentuar uma tendência perigosa na economia moderna: é a mão-obra que procura o capital e não o inverso. Este fenómeno forçado, conduz a uma necessidade de integração social num meio novo e a maioria das vezes altamente adverso.
A constituição de guetos, com base em diferenças raciais e/ou religiosas conduz a um perigoso ciclo de vida, onde as condições de sobrevivência são difíceis, levando tendencialmente essas minorias a exagerar os seus valores étnicos, colocando-os acima de valores universalmente aceites.
É sabido que os movimentos migratórios eram, na sua esmagadora maioria, suportados por diferenças evidentes ao nível do conhecimento e dos recursos materiais. Hoje são os recursos materiais que, básicamente, determinam os movimentos migratórios.
Se a primeira geração de emigrantes está, por norma e definição, disposta a tudo, as gerações seguintes apresentam comportamentos diversos, baseados em modelos de igualdade de direitos.
A verdade é que a distribuição equitativa do produto é uma imensa quimera e que na realidade, para que um cidadão aufira rendimentos elevados, muito provávelmente, mais de um milhar terão de vegetar numa vida repetitiva, sem ambições e objectivos. Aquilo que se pede hoje, acima de tudo, é que cada um aceite o seu destino, apresentado em vários formatos, de maior ou menor qualidade e dignidade humanas. Mas será este pedido exequível?
Claramente não. Se numa sociedade pouco informada, onde a informação fluía com dificuldade, sempre a Humanidade se debateu com problemas entre conquistadores e conquistados, hoje, no mundo da informação, as desigualdades são bem mais difíceis de aceitar e os rastilhos bem mais fáceis de acender.
Não perceber esta realidade e, pior, nada fazer para a alterar é contribuir, decisivamente, para um mundo pior, de incertezas, de medos e inseguranças várias.
É, acima de tudo, matar a semente de onde brotou a cultura ocidental. É originar um movimento dramático de adaptação a novas realidades às gerações vindouras. É empurrar estas para outros becos.
Um dia viveremos todos em guetos.
Uma fagulha na campanha...
Palavras interditas é isso mesmo: dizer o que por norma se esconde.
Não se faz a apologia da violência verbal, muito menos física, mas quem anda à chuva arrisca-se a apanhar uma molha. Se acaso o incidente de Barcelos com Soares não foi encenado (não seria a primeira vez) temos que é claro que ele representa, acima de tudo, uma história por fazer do Portugal recente e que só será possível quando os principais protagonistas políticos desaparecerem. É a certeza da impunidade, os louvores e honrarias prestados a determinadas figuras políticas que poderão pesar no desespero de quem, por amor pátrio se ressente.
Só nos falta, ao fim de trinta anos, dobrar a bandeira nacional e entregar a mesma aos nossos vizinhos espanhóis. Pouco mais nos resta na realidade, e a responsabilidade recai por inteiro em todos os partidos políticos e respectivos dirigentes nos últimos trinta anos. Os mesmos que mantêm hoje o protagonismo e impedem a História de se fazer e, acima de tudo, a renovação política dramáticamente necessária.
A abordagem de que Soares foi alvo (se não foi encenada, acentua-se) foi verbalmente violenta sem dúvida, mas é criticável?
Cremos que não. Os candidatos quando procuram banhos de multidão sujeitam-se ao bom e ao mau. Talvez tenham de mudar de hábitos, conforme a situação nacional se vai degradando ao nível social e económico. A paciência tem limites e a dignidade, existindo, não é permissiva.
Talvez que aquele cidadão de Barcelos tenha ainda presente o dia em que Soares pisou a bandeira nacional; tenha bem presente as mordomias de que goza e tem gozado, algumas excedendo mesmo os direitos fixados para os ex-detentores de determinados cargos públicos.
Talvez aquele cidadão tenha pensado como é possível ter-se tanto sem nada fazer e outros, com uma vida de trabalho, só têm um horizonte de miséria pela frente.
Todos os candidatos se solidariezaram com Soares.
Compreende-se que todos eles sem excepção o façam, não vá o diabo tece-las.
Cenários Presidenciais
As sondagens apontam para números que decidem as eleições na primeira volta.
Cavaco Silva surge com perto de 60% das intenções de voto, ordenando-se os restantes candidatos dos 20% para baixo, destacando-se o segundo lugar alcançável por Alegre.
Este é o cenário espectável atendendo às sondagens e igualmente desejado por muitos, até porque seria histórico que um candidato apoiado pelo centro-direita ganhasse as eleições na segunda volta.
Contudo, alguns ses podem ser levantados e algumas dúvidas colocadas. Primeiro indagar se a massa votante PSD/CDS vota, toda ela, em Cavaco Silva. Não creio. Cavaco está intímamente ligado às infraestruturas viárias e ao crescimento desmesurado da grande distribuição. Cavaco aproximou Lisboa de Madrid e Barcelona, retirando sentido a centros de decisão que se mantinham em Portugal por dificuldades de ligação rápida entre Portugal e Espanha e não por questões de mercado. Com o advento da grande distribuição - as modernas catedrais de consumo - Cavaco criou ricos mas não gerou riqueza, contribuindo decisivamente para a face terceiro-mundista que o País actual apresenta. E há muitos que não esquecem nem perdoam esta gestão governativa.
Depois há que considerar a posição a assumir por Jerónimo e Louçã. Tenho para mim que Jerónimo só irá a votos se Louçã for até final. Porque Jerónimo sabe que terá mais votos que Louçã e porque não pode deixar o Bloco concorrer sózinho, sem a oposição comunista. Jerónimo sabe que o Bloco é um saco de gatos, uma moda - como tal passageira - que enquanto durar poderá roubar votos ao PCP, junto das camadas jovens, onde os comunistas estão mais carenciados. Por isso Jerónimo vai até onde for Louçã.
Louçã não pode (ou não deve) políticamente ir até ao fim. Os votos de Louçã não são os votos do Bloco, são menos, bastante menos e uma votação menor em Louçã mostrará o que Louçã não quer - que o Bloco é uma coisa e que Louçã é só uma parte do Bloco - que existem blocos no Bloco.
Se o Bloco for a votos, os comunistas também irão e Cavaco ganha à primeira.
Se Louçã não for a votos (impondo-se no interior do BE), Jerónimo também não necessita de ir a votos. Nesta situação os comunistas poderão dar liberdade de voto aos militantes e simpatizantes ou dar indicação de voto em Alegre. Louçã, a desistir (se o BE deixar), colará a sua imagem a Alegre, aproveitando a tendência das sondagens que dão este à frente de Soares, tentando capitalizar no provável precioso apoio do Bloco para uma eventual passagem de Alegre à segunda volta.
Se Cavaco correr contra Soares e Alegre (sem Jerónimo e Louçã) a probabilidade de não ganhar à primeira volta é elevada. Há que considerar, contudo, a relativa importância que os comunistas possam atribuir a uma vitória à esquerda ou à direita, perante a possibilidade de o seu líder se apresentar a escrutínio, com ou sem Louçã. O risco de serem crucificados pela esquerda é nulo, perante a divisão de candidaturas no seio do PS, partido da esquerda com maiores responsabilidades.
Se Cavaco não ganhar de caras irá ter como oponente Alegre. E a história reza assim: o candidato de esquerda ganha.
Depois há também a possibilidade do voto em Alegre com dois fins: primeiro ridicularizar Soares; segundo baralhar em definitivo a 3ª República e acelerar a sua queda. O voto assim não é um voto claramente democrático, mas a acontecer virá de sectores que Cavaco assume como seus.
Cavaco não serve ao País actual. É um europeísta convicto e um monetarista confesso.
Dentre os restantes dois candidatos melhor (?) posicionados venha o diabo e escolha: o grupo de Argel ou o grupo de Paris. Em qualquer dos casos dissidentes comunistas.
A escolha mostra-se fácil, para qualquer dos lados e respectivas motivações. As repercurssões serão bem mais difíceis de digerir.
7.12.05
O Sistema Está Gasto...
A ruptura no sistema é inevitável. Mesmo decorrendo de forma parcimoniosa, suave, gradativa e tantas vezes quase imperceptível. Porque as revoluções podem vir a assumir contornos radicais sem que tenham brotado de processos revolucionários, no sentido dado por Kant.
Constituindo-se a política numa esfera de influência inteligível ao nível da moral é, por obrigação mais do que por definição, uma relação entre governantes e governados, entre quem tem a obrigação de dirigir e quem tem de se submeter às decisões.
É claro que num regime político democrático esta relação tácitamente aceite se baseia em princípios antigos, do bom e do mau governo (da boa ou da má moeda), da conquista do poder e da forma como ele é exercido, da separação entre o poder político e o poder judicial, de quais os poderes que lhes são atribuídos, como se distinguem e interagem, como surgem as leis e como se procede no sentido do seu cabal cumprimento.
Do indivíduo singular não se ouve falar em direitos, senão circunstancialmente, mas acima de tudo de deveres - obediência às leis, transparência fiscal, comportamento cívico e moral.
Esta será a leitura do ângulo dos governantes, mas é possível fazer idêntica leitura do ângulo dos governados. Quando deixamos de considerar estes como um grupo coeso, de princípios morais comuns, regidos pela face dos deveres, e os consideramos como o somatório de vontades individuais, olhadoa à face dos direitos, percebemos que estamos a falar da mesma moeda, mas também de uma inflexão no registo político aceite, de uma revolução radical nas ideias, dogmas e preceitos comummente aceites.
Quando, individualmente, cada cidadão dá como bom o princípio de que em termos políticos já não existem diferenças; quando a análise a candidaturas políticas individuais é feita com total indiferença pelas personalidades em confronto, na convicção de que são todas iguais; quando esta indiferença nasce da certeza que o poder da mudança não reside nas vontades políticas partidária ou pessoais; quando, finalmente, nos damos conta de que esta interiorização individual da potência política é o sentimento generalizado do colectivo, assistimos, em definitivo, a uma mudança na face da moeda, a uma concepção lockiana onde os direitos naturais são a resultante de uma concepção individualista da sociedade, da essênciaa do Estado e que este é e representa o colectivo.
E representa bem ou mal, com a diferença de que o colectivo, somatório das percepções individuais, agora se dá conta e exige explicações para a boa ou má governação.
Se os candidatos políticos, individualmente considerados, não conseguem transmitir qualquer sentido ou objectivo político à acção governativa, eles próprios, não intencionalmente, subscrevem a tese de que a política nada tem a acrescentar no formato actual e que, enquanto cidadãos individualizados, se debatem com o mesmo problema e dilema dos demais indivíduos - como aceitar (ou impor) tantos deveres, sem sentir (garantir) a existência de direitos.
O Sistema está gasto.
2.11.05
De volta...
Tese entregue, a actividade volta à normalidade.
Estas coisas são sempre assim: uma enorme pressão, durante três anos, nalguns casos a trabalhar 24 horas por dia mais a noite e, depois, com o aproximar da data de entrega mau feitio e ansiedade, não porque o trabalho não esteja feito, mas sim pela vontade de, ao rever textos, acrescentar mais um ponto, e outro, e ainda outro. Ao fim e ao cabo o que leva, em primeira instância, a entrar num desafio de investigação: acrescentar algo mais ao que já foi dito.
É então necessário saber parar, dizer "chega, agora já está, saltemos para o fine tunning".
Depois é rápido: dois dias de fine tunning, mordidos até de madrugada, muito cansaço, mas a recompensa final de um trabalho que se crê de qualidade.
Portanto, até já.... o blog segue dentro de momentos
25.10.05
24.10.05
E onde pára a informação oficial ? E o PM?
Atentei nas reportagens efectuadas ontem e hoje, na RTP1, sobre a proibição da venda de aves vivas. Verifiquei como foi colocada a questão, as respostas obtidas e a própria intervenção das autoridades.
Verifico, igualmente, os muitos comentários efectuados, principalmente na blogosfera, mas antevejo que na comunicação social não será muito diferente.
A crítica incide, sempre, sobre a impreparação, incultura e tendência para o não cumprimento das normas e leis vigentes, que o nosso Povo parece praticar com toda a naturalidade.
Mas pergunto-me eu, e pergunto-vos a todos: será que, porque um canal de televisão anuncia que foi aprovado em Conselho de Ministros um determinado diploma, que esse anúncio deverá fazer fé? Onde param, então, as entidades oficiais competentes? Compete agoras às televisões anunciar e à população acatar o que a TV lhes transmite?
Onde está o Sr. Primeiro-Ministro, a quem cabe anunciar uma medida necessária ao nível da saúde pública e, igualmente, lesiva de interesses económicos? Não será ao Sr. PM que competirá ir à televisão e anunciar ao País as medidas que são absolutamente necessárias, que não se compadecem de publicação oficial, e que justificam pelo seu impacto, ao nível de muitos milhares de pequenas economias, a necessidade de as tomar? E quais as medidas em marcha para minorar os prejuízos económicos resultantes?
Porventura, alguém em seu juízo perfeito, pensará que a maioria dos portugueses não cuida da saúde dos demais?
As coisas só precisam de ser explicadas, com o ênfase necessário que a gravidade da situação requer. E esse ênfase só o PM o poderá transmitir em toda a sua força.
Agora, pretender que a televisão passou a ser um órgão de informação oficial do Estado, é surrealista.
Pretender que todos nós passemos a cumprir determinado preceito só porque foi anunciado na televisão é surrealismo.
Como é surrealista sabermos que, só agora, os animais que entram em Portugal estão sujeitos a quarentena, quando em qualquer país civilizado essa medida já vigora há décadas.
Citando Orson Welles
"Today I believe that man cannot escape his destiny to create whatever it is we make - jazz, a wooden spoon, or graffiti on the wall. All of these are expressions of man's creativity, proof that man has not yet been destroyed by technology. But are we making things for the people of our epoch or repeating what has been done before?
And finally, is the question itself important? We must ask ourselves that.
The most important thing is always to doubt the importance of the question."
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