São como cristal,
as palavras.
Algumas, um punhal,
um incêndio.
Outras,
orvalho apenas.
Secretas vêm, cheias de memória.
Inseguras navegam:
barcos ou beijos,
as águas estremecem.
Desamparadas, inocentes,
leves.
Tecidas são de luz
e são a noite.
E mesmo pálidas
verdes paraísos lembram ainda.
Quem as escuta? Quem
as recolhe, assim,
cruéis, desfeitas,
nas suas conchas puras?
(Eugénio de Andrade)
19.1.06
Estaremos tão perto de uma vitória à primeira, como da necessidade de uma segunda volta
É definitivo. O sentimento sobre as eleições presidenciais é generalizado, transversal na sociedade portuguesa e não limitado a cliques intelectuais ou sofisticadas: nenhum dos candidatos é julgado conveniente, portador de qualidades que justifiquem a sua nomeação como futuro Presidente da República. Assim, os que votam fá-lo-ão pelo princípio do mal menor ou do menos mau. No fim, seja qual fôr o resultado, muitos sentir-se-ão insatisfeitos, mesmo ganhando o "seu" candidato.
~
Mas que resultados esperar ao final da tarde do próximo Domingo? Sinceramente a resposta é quase impossível de dar, mesmo que alicerçada em sondagens, porque estas tratam estatísticamente as respostas apuradas e partem, obrigatóriamente, de determinados pressupostos, como por exemplo o eleitorado base de cada partido, a massa flutuante de eleitores que umas vezes dá a vitória ao PS e outras ao PSD e ainda os indecisos. E depois repartem estes números de acorodo com os dados coligidos e as experiências passadas.
~
Só que estas eleições são diferentes, atípicas. Não é relevante se a esquerda ganha ou se a direita é a mais votada. Essa dicotomia não existe nestas eleições e tende a desaparecer totalmente nesta democracia à portuguesa. Os eleitores estão cansados dos partidos, dos políticos e desejam, diria mesmo que anseiam, uma mudança na vida económica e social do País e que se sintam ventos de mudança claros, de que o País tem soluções para progredir e, ainda mais importante, que se torna um País governável, coisa que não acontece desde 1980.
Tem sido um erro situar os candidatos num plano ideológico de esquerda e direita. Por um lado os candidatos excluem-se da hipótese de serem um presidente para todos os portugueses, por outro transformam estas eleições em eleições partidárias e essa perspectiva não tem cabimento nas actuais eleições. Cavaco tem estado bem nessa perspectiva desde o início; Alegre começou a perceber o fenómeno há pouco tempo, retirando do discurso político, gradualmente, as alusões constantes à esquerda e demarcando-se do PS, ao mesmo tempo que pretende, aplicando um enorme esforço discursivo, a colagem de Cavaco ao PSD e CDS.
~
Por isso se torna exercício penoso dizer onde acaba o eleitorado de um candidato e começa o de outro. Mesmo Cavaco Silva tem essa dificuldade, porque nem todo o eleitorado PSD/CDS vota Cavaco e, provávelmente, algum eleitorado que votou PS nas legislativas irá votar Cavaco agora.
Estará Cavaco folgado? Não! Cavaco está à justa. Se ganhar à primeira volta será por poucos.
E se fôr empurrado para uma segunda volta perde as eleições? Igualmente não é certo, pois seja Soares ou Alegre o oponente, por uma razão ou outra podem não conseguir congregar todos os votos do eleitorado dito de esquerda, nem que seja por guerrilhas partidárias ou ódios intestinos.
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É então impossível afirmar com segurança qual o resultado expectável para Domingo.
Mas como o comentário e epensamento político implica riscos, correrei os meus ao colocar a hipótese de Cavaco Silva não ganhar à primeira. Vai-lhe fugir eleitorado natural e tem muitos candidatos à sua esquerda.
Passando à segunda volta vai ter por companhia Alegre, que paradoxalmente vai capitalizar alguns dos votos naturais de Cavaco. E depois, provávelmente, ganha as eleições na segunda volta.
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Entretanto o PS, em seis meses, termina o consulado da família Soares no partido. O filho João foi enterrado políticamente em Sintra, a nível local - não tinha dimensão de estadista, não mereceu honrarias de estado - o pai Mário vai ser enterrado a nível nacional - sempre foi um (péssimo) primeiro-ministro e Presidente da República - justificando a dimensão do enterro político pela dimensão das aleivosias políticas que todos testemunhámos, pelo menos os que não tendo memória curta e sentindo-se portugueses analisam os acontecimentos políticos à luz dos interesses nacionais.
12.1.06
Pedro Santana Lopes adiantado 5 anos....ou não.
Imagino o que se esteja já a escrever e a dizer a propósito das declarações de PSL. Acresce o aproveitamento político que as candidaturas de esquerda não deixaram de fazer das palavras proferidas pelo enfant terrible do PPD/PSD.
Revanchismo será o mínimo que se escutará. E até pode ser que sim, que tenha sido por révanche ou pela necessidade imperiosa de aparecer, de falar, de ser polémico. Dêem um caixote de fruta para onde possa subir e uma qualquer praça do País a PSL e ele faz um comício, cheio de gente arrebatada no final.
Pedro Santana Lopes (PSL) é assim.
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Mas também não deixa de ser verdade que Cavaco Silva tem dito que se candidata para mudar as coisas, para ajudar o executivo, para ajudar Portugal a ultrapassar a crise. Só não se percebe como, sendo os poderes do Presidente de alguma forma exíguos. Claro que Cavaco Silva ainda se lembra de Mário Soares, de como este lhe fez a vida negra, como reiteradamente emperrou a acção governativa.
Não acredito que esse seja o caminho escolhido para exercer a presidência por parte de Cavaco Silva nem o seu estilo. Mas não sendo esse o estilo e não indo igualmente de encontro à capacidade de dissolução da Assembleia da República, mais que não seja por manifesta ausência de legitimidade democrática, não se percebe que muito mais poderá Cavaco Silva fazer face a um executivo socialista.
Aqui Santana Lopes parece querer aludir, nas entrelinhas, à boa e à má moeda, aos políticos que prometem mas são incapazes de cumprir, ou cumprindo acarretam, forçosamente, problemas para a estabilidade governativa do País, o mesmo é dizer, problemas ao nível económico, político e social. É uma bicada, provávelmente merecida, porque Cavaco Silva quis capitalizar votos e promover o distanciamento do PSD usando Santana Lopes para custear as despesas.
~
Mais! Quando falamos de Cavaco e Sócrates falamos de dois galos e cada um à sua maneira não deixará de tentar impôr a sua presença, ou melhor omnipresença, a todos os portugueses, tudo indiciando focos de potenciais guerras institucionais.
Mas não acredito na tese dos conflitos institucionais e, como tal, não subscrevo as afirmações de PSL - muito embora concorde que as afirmações de Cavaco Silva, em campanha, possam conduzir a leituras de potenciais situações conflituais.
Creio que na pior das hipóteses assistiremos a guerrilhas e golpitos palacianos, mas nada do outro mundo, ou pelo menos que não se tenha passado já no nosso mundo político-institucional.
~
Afirmava eu que não acredito nesse pressuposto, no confronto institucional aberto e a base de sustentação dessa presunção tem tão de simples como de verdadeira: caso Cavaco Silva seja eleito no dia 22, vai querer fazer os dois mandatos e, mutatis mutantis, se quiser ser "enxertado num corno" para com um primeiro-ministro sê-lo-á no seu segundo mandato. Também aí Cavaco Silva terá aprendido com Soares e mais recentemente com Sampaio.
~
A menos que PSL estivesse a pensar nesse 2º mandato; assim sendo e para ter razão, deveria ter esperado 5 anos para proferir as mesmíssimas afirmações.
Ou então a intenção de Santana Lopes era mesmo dar a bicada e para dar uma bicada, esta bicada, políticamente era esta a altura.
11.1.06
SOBE O PANO
Onde se solta estrangulado grito
Humaniza-se a vida e sobe o pano.
Chegam aparições dóceis ao rito
Vindas do fosso mais fundo do humano.
Ilumina-se a cena e é soberano,
no palco, o real oculto no conflito.
É tragédia? É comédia? É, por engano,
O sequestro de um deus num barro aflito?
É o teatro: a magia que descobre
O rosto que a cara do homem cobre,
E reflectidos no teu espelho - o actor -
Os teus fantasmas levam-te para onde
O tempo puro que te corresponde
Entre horas ardidas está em flor.
(Natália Correia)
Humaniza-se a vida e sobe o pano.
Chegam aparições dóceis ao rito
Vindas do fosso mais fundo do humano.
Ilumina-se a cena e é soberano,
no palco, o real oculto no conflito.
É tragédia? É comédia? É, por engano,
O sequestro de um deus num barro aflito?
É o teatro: a magia que descobre
O rosto que a cara do homem cobre,
E reflectidos no teu espelho - o actor -
Os teus fantasmas levam-te para onde
O tempo puro que te corresponde
Entre horas ardidas está em flor.
(Natália Correia)
10.1.06
Os tontos da nossa política e a política de todas as tonterias...
Manuel Pinho afirmou no Parlamento não haver conflitos de interesses entre a EDP e a Iberdrola. Não há senão outra coisa. Quem quer o ministro - dizem-me que muito fraquinho; que convoca assessores e presidentes de instituições públicas para reuniões quase diárias, sem agenda e sem que, no final, alguém tenha percebido porque esteve presente e a fazer o quê - enganar?
DEpois ainda afirma que não merece a pena fazer o discurso do gato escondido com o rabo de fora. Porque, afirma o senhor, se alguém tem alguma prova de que algo de anormal se passa na relação com a Iberdrola e o governo socialista (presente e passado) e os interesses nacionais, que a apresente, que não se acanhe. O tom foi desafiador, mas dito assim faz-me lembrar as fugas para a frente, e muito provávelmente o que teremos é rabo escondido com gato de fora - aqui o gato é claramente Pina Moura e o rabo o ministério que exerceu.
Parece inequívoco o conflito de interesses. É claramente inequívoco o prejuízo imenso que resulta para os interesses nacionais da cedência feita à Iberdrola pelo governo, que uma vez mais age directamente na gestão da empresa, contra as mais elementares regras de actuação de um executivo, em função de uma empresa de capitais mistos e do sector energético, que como já afirmámos anteriormente, se deveria pautar por um papel mais regulador e menos interventivo ao nível da gestão.
Não será dispiciendo relembrar que a relação entre a EDP e a Iberdrola entornou o caldo na altura em que foi anunciada a fusão entre a Iberdrola e a Endesa.
A parceria abortou pela ausência de comunicação entre as duas empresas, pela constatação clara que a estratégia de uma não era compatível com os objectivos estratégicos da outra.
Nem rateando os mercados.
Soares já interiorizou a derrota....perante Cavaco e Alegre
Soares não está descrente. Soares de facto já não acredita nem sequer na hipóteses de ser o 2º mais votado. Só assim se compreendem lapsus linguae constantes, onde se encontram e mesmo se enfatizam sinais claros da derrota, não como 2º mas 3º candidato mais votado.
O que eles dizem...
António Costa defende o seguinte princípio: os portugueses não deverão dar a vitória na 1ª volta a um candidato que já sabem que perde, se houver 2ªvolta.
Este princípio foi enunciado logo a seguir a um jantar de apoio à candidatura de Mário Soares.
5.1.06
Notícias de Angola...

O assunto não é novo. A novidade é que desta feita é referido num semanário angolano "Angolense", do qual se reproduz fac-simile da 1ª página da semana de 5 a 12 de Novembro de 2005, onde merece especial realce uma passagem na pág. 24 deste jornal, sob o título "O que eles disseram". Passamos a referir :
"""Após a última reunião secreta com os camaradas do PCP resolvemos aconselhar-vos a pôr em execução imediata a segunda fase do plano. Dê, por isso, instruções aos militantes do MPLA para aterrorizarem por todos os meios os brancos, matando, pilhando e incendiando a fim de provocar a sua debandada de Angola".
Rosa Coutinho, Alto Comissário para Angola, em carta dirigida antes da independência ao Presidente Agostinho Neto. Afinal, a arruaça foi encomendada por Lisboa..."
Quando um orgão de informação angolano reproduz uma passagem de uma carta, datada de 22 de Dezembrode 1974 em Novembro de 2005, está a pretender passar uma mensagem em relação à história recente dos dois países. Ainda mais se o faz num número dedicado aos 30 anos de independência de Angola.
O problema da História, o mais das vezes, é que só se consegue fazer quando os intervenientes directos já não estão vivos. Por outro lado, este pequeno óbice implica um enorme handicap. É que nunca se sabe se a história feita está correcta ou padece de imprecisões acrescidas de fábulas, boatos e boas-vontades.
Mas a História também pode ser feita em vida, através do julgamento das acções daqueles que nela participaram activamente. É uma outra forma de fazer História.
Quando, a propósito dos 25 anos do assassinato de Sá Carneiro e Amaro da Costa, são entrevistadas algumas personalidades e personulidades, Ramalho Eanes refere que Sá Carneiro era um político muito vivo e inteligente e, por isso, perigoso, apetece perguntar: perigoso porquê e para quem? E será por isso que a história de Camarate ainda não se fez?
Conhecer os factos, mesmo sem neles ter participado directa ou indirectamente e manter o silêncio prefigura encobrimento, e a fronteira entre o encobrimento e a cumplicidade é muito ténue.
Espero que muitas das figuras que ainda respeitamos políticamente não sejam portadoras de verdades que mesmo muito indigestas deverão ser, obrigatóriamente, do conhecimento de todos, sob pena dessas figuras políticas se verem cair no descrédito, caso um dia a História se faça de uma forma séria, mesmo que seja iniciada de fora para dentro.
4.1.06
Ai, Soares, Soares....
Mário Soares afirma perante as cameras da RTP1, a propósito do caso EDP/Iberdrola, que a vinda de capitais estrangeiros (privados) para Portugal é positivo e, como tal, bom para o País. Em abstracto, claro, como ajuntou de imediato.
Quando se fala em capital não existe abstração.
Quando se fala em capital fala-se em dinheiro e o dinheiro não é nem nunca foi abstracto, nem as consequências da sua posse e utilização o são. Dependendo das origens e dos interesses, a vinda de capital poderá ser ou não benéfica. Mas ninguém espera que Mário Soares entenda estas coisas, quando não entende outras mais simples. Querem um exemplo?
~
Na mesma situação e ainda perante as cameras da RTP1, Soares queixou-se da falta de cobertura que a estação de Carnaxide atribui à sua campanha, por comparação com a evidência que é atribuída à campanha de Cavaco Silva.
Acontece que a SIC é detida por capitais privados e, assim sendo, é livre de estabelecer os seus próprios critérios de selecção e passagem da informação nos boletins noticiosos, desde que não atente contra a ética, a moral e lei públicas, não precisando de ser isenta na informação que presta. As audiências mostrarão na prática se a linha editorial da estação está certa ou errada (caso as taxas de audiências sejam fiáveis, o que duvido).
Caso contrário sucede com a RTP1, que por ser uma estação pública, paga por todos nós, deverá primar pela isenção.
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Como se verifica, o Dr. Soares defende a entrada de capitais privados em Portugal, mas depois pretende ser criticável a actuação desses capitais, quando o seu comportamento é, supostamente, conflituante com os seus interesses.
A nível político e económico, Dr. Soares, é a issso que se chama a transferência dos centros de decisão, porque impedem que o País se defenda e veja os seus interesses defendidos nacional e internacionalmente.
Quando se fala de energia pior ainda, pelo que todo o cuidado é pouco nestas matérias.
Sol na eira e chuva no nabal.....era bom, era, mas não existe.
Salvem a EDP
A existência de um parceiro financeiro, a CajAstur, muito embora espanhol, prefigura o parceiro ideal para a EDP - a tecnologia é portuguesa; os activos financeiros do parceiro financeiro local - por inexistência de objectivos conflituantes.
O problema com a Iberdrola coloca-se ao nível do controle operacional. Qualquer aliança internacional só é interessante para a EDP se esta detiver o controle operacional completo (leading partner). O atingir dos objectivos pressupõe saber fazer e fazer como se sabe, sendo certo que a obtenção de consensos em matéria de gestão, quando estão envolvidos parceiros tecnológicos é muito difícil de obter, senão impossível, por cada um querer fazer à sua maneira.
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Quando o mercado europeu é liberalizado em 2000, a estratégia de diversificação de negócios da EDP sofre uma inflexão, passando o mercado europeu, em particular o espanhol, a assumir contornos de grande importância na estratégia de diversificação de mercados. Para além do mais Espanha pode ser considerada como uma extensão do mercado natural da EDP.
A tendência actual é verdadeiramente essa: a criação de mercados regionais europeus de energia.
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No futuro mercado europeu deverão existir sómente 5 players, a saber: 1 francês; 1 italiano; 1 espanhol e 2 alemães. A questão coloca-se então, caso não haja retrocesso no aprofundamento económico da UE, em esperar para ver quais as famílias que se criam e, posteriormente, juntar a EDP a uma das famílias criadas dentro da lógica do mercado europeu.
Retirar protagonismo à EDP, neste momento, é retirar-lhe veleidades de poder escolher, subjugando-a de imediato a interesses espanhóis e reduzindo-lhe a expressão e posição negociais para perto do zero.
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Acresce que a Iberdrola aparece como parceira da EDP por iniciativa do accionista Estado, que tem demonstrado uma inusitada veia interventiva ao nível da gestão (evidenciada por demais no consulado de Pina Moura), , ao invés do papel de agente regulador que lhe caberia que nem uma luva e que seria o seu papel natural.
Por outro lado não é menos de estranhar que a parceria com a Iberdrola seja defendida por um ministro à altura, que se vem a verificar posterior e públicamente tratar-se do braço armado da empresa espanhola em Portugal. É claro o conflito de interesses e nada clara a política de gestão estratégica para a EDP.
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A substituição da actual administração, que demonstrou ter ideias claras e de defesa dos interesses nacionais, olhados na perspectiva do tabuleiro estratégico energético europeu só nos poderá deixar apreensivos quanto às verdadeiras razões da sua substituição e dos interesses que estão em jogo.
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Cúm raio. Pelo menos deixem-nos perceber como vai a economia europeia nos próximos anos; se a tendência de criação de famílias energéticas é um facto e, por fim, qual dessas famílias se torna mais interessante para a nossa EDP. Estar a casar a empresa, sem dote, com um parceiro espanhol só poderá interessar a este, em ganhos de posição no mercado e de masssa crítica para as futuras negociações e alianças energéticas na Europa.
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Ou será que esta parceria é tão boa, como era a outra que se preparava para ser estabelecida entre a TAP e a Swissair? A segunda já falíu, a primeira ainda mexe, mas parece que alguém se preparava para tentar salvar a segunda através da hipoteca do futuro da primeira.
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Há 30 anos que nos andamos a hipotecar para fazer jeitos a terceiros, sejam eles privados ou institucionais. Eu digo que chega, que já considero demais!
2.1.06
Lérias de Jornalistas vendidos à Nomenklatura
Passaram ontem 20 anos sobre a adesão de Portugal à CEE, hoje UE.
A notícia foi dada com pompa na RTP1, mostrando Soares a assinar a adesão afirmando-se em simultâneo, através de um discurso entusiasmado e de algumas imagens dispersas que nada mostravam, que o País mudou drásticamente nesse período, apontando como exemplos possíveis de aferição das mudanças profundas várias situações, algumas das quais que passo a destacar: 1) quase 750.000 portugueses trabalhavam na lavoura - o denominado sector primário da economia - trabalhando hoje nesse sector pouco menos de metade; os electrodomésticos eram um luxo acessível só a alguns, estando hoje perfeitamente massificados; do Porto a Faro demoravam-se 10 horas, demorando-se hoje cerca de 6 horas.
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A última afirmação proferida seria a única que poderia prefigurar uma alteração substancial no panorama económico e social nacional, caso tivesse contribuído, com o encurtar das distâncias, para uma real e eficaz política de melhoramento das assimetrias regionais e um aumento decisivo na produtividade nacional. Como se sabe nem uma coisa nem outra aconteceram e, de facto, a única verdade é que as redes de estradas só foram possíveis graças aos subsídios europeus, caso contrário com os dinheiros nacionais tal emprendimento seria impossível, depois da desbunda e delapidação da riqueza nacional após o 25 de Abril de 1974.
~
As duas primeiras premissas, supostamente sustentadoras do princípio das alterações profundas acontecidas em Portugal em virtude da adesão à CEE são veiculadoras, isso sim, da má performance portuguesa no panorama económico europeu. Se por um lado o acesso a bens de consumo, como o caso dos electrodomésticos, registou um incremento, tal facto ficou a dever-se à enorme baixa no custo de produção dos mesmos tornando-os financeiramente mais acessíveis, não sendo este factor demonstrativo de nenhuma evolução da economia portuguesa porque Portugal não fabrica frigoríficos nem máquinas de lavar e, igualmente, porque não deriva de um crescimento real do produto nacional e a uma consequente melhoria das condições económicas das famílias portuguesas mas, fundamentalmente, a um aumento que hoje se considera muito preocupante do endividamento das famílias, criado pela facilidade de aceder a crédito, que na última análise efectuada representava cerca de 112% dos rendimentos reais auferidos, ou por outras palavras, nos dizia que vivemos todos muito acima das nossas posses.
Por outro lado, a redução de cerca de 400.000 postos de trabalho no sector primário não significou nenhum aumento de produtividade e consequente redução da mão-obra necessária, fruto de um processo de mecanização e automação de processos, mas sim o fim do sector agrícola em Portugal. Este sector está há muito enterrado.
Igualmente o facto de existirem hoje em Portugal 500.000 desempregados e de o número estar longe de ter estabilizado, significa claramente que nem o sector secundário - a indústria - teve capacidade de absorção da mão-obra libertada na destruição do sector agrícola, mostrando, bem pelo contrário, uma idêntica tendência para o suicídio, como mostra à evidência que o sector terciário - os serviços - está esgotado e igualmente sem capacidade de criação de postos de trabalho, facto natural porque este sector económico sofre fortíssimas influências dos dois primeiros. Se estes são quase inexistentes (uma vez mais peço que olhem para o PSI20 e descortinem as empresas industriais que aí subsistem, perto do avassalador número de empresas prestadoras de serviços) não é possível pedir milagres ao terciário.
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Assim, verifica-se que as verbas canalisadas via CEE e UE têm tido uma aplicação praticamente nula, com efeitos práticos desastrosos pela atitude e mentalidade despesista que vieram criar no comportamento político nacional, não deixando Portugal de cohabitar com os países mais pobres da Europa. A responsabilçidade cabe quase por inteiro, curiosamente, a dois candidatos presidencias em 2006: Mário Soares e Cavaco Silva e, em muito menor grau, a A. Guterres e D. Barroso.
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Eu, por mim, dispensava as auto-estradas e trocava todas elas pela miséria que se vê nos campos e nas cidades deste País. Preferia demorar 10 horas de automóvel do Porto a Faro, ou outras tantas de comboio e nem sequer ter carro, a saber que há concidadãos que não têm as condições mínimas de vida que a dignidade humana existe.
E depois, algum de nós acredita que todos os pensionistas que recebem neste país um valor mensal situado entre os 25 e os 50 contos têm acesso a máquinas de lavar e de secar, fornos, micro-ondas e televisões? Ou será que estes bens mais as 6 horas de viagem para ir de banhos ao Algarve não continuam a ser um benefício só para alguns?
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