4.1.06

Ai, Soares, Soares....

Mário Soares afirma perante as cameras da RTP1, a propósito do caso EDP/Iberdrola, que a vinda de capitais estrangeiros (privados) para Portugal é positivo e, como tal, bom para o País. Em abstracto, claro, como ajuntou de imediato.
Quando se fala em capital não existe abstração.
Quando se fala em capital fala-se em dinheiro e o dinheiro não é nem nunca foi abstracto, nem as consequências da sua posse e utilização o são. Dependendo das origens e dos interesses, a vinda de capital poderá ser ou não benéfica. Mas ninguém espera que Mário Soares entenda estas coisas, quando não entende outras mais simples. Querem um exemplo?
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Na mesma situação e ainda perante as cameras da RTP1, Soares queixou-se da falta de cobertura que a estação de Carnaxide atribui à sua campanha, por comparação com a evidência que é atribuída à campanha de Cavaco Silva.
Acontece que a SIC é detida por capitais privados e, assim sendo, é livre de estabelecer os seus próprios critérios de selecção e passagem da informação nos boletins noticiosos, desde que não atente contra a ética, a moral e lei públicas, não precisando de ser isenta na informação que presta. As audiências mostrarão na prática se a linha editorial da estação está certa ou errada (caso as taxas de audiências sejam fiáveis, o que duvido).
Caso contrário sucede com a RTP1, que por ser uma estação pública, paga por todos nós, deverá primar pela isenção.
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Como se verifica, o Dr. Soares defende a entrada de capitais privados em Portugal, mas depois pretende ser criticável a actuação desses capitais, quando o seu comportamento é, supostamente, conflituante com os seus interesses.
A nível político e económico, Dr. Soares, é a issso que se chama a transferência dos centros de decisão, porque impedem que o País se defenda e veja os seus interesses defendidos nacional e internacionalmente.
Quando se fala de energia pior ainda, pelo que todo o cuidado é pouco nestas matérias.
Sol na eira e chuva no nabal.....era bom, era, mas não existe.

Salvem a EDP

A existência de um parceiro financeiro, a CajAstur, muito embora espanhol, prefigura o parceiro ideal para a EDP - a tecnologia é portuguesa; os activos financeiros do parceiro financeiro local - por inexistência de objectivos conflituantes.
O problema com a Iberdrola coloca-se ao nível do controle operacional. Qualquer aliança internacional só é interessante para a EDP se esta detiver o controle operacional completo (leading partner). O atingir dos objectivos pressupõe saber fazer e fazer como se sabe, sendo certo que a obtenção de consensos em matéria de gestão, quando estão envolvidos parceiros tecnológicos é muito difícil de obter, senão impossível, por cada um querer fazer à sua maneira.
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Quando o mercado europeu é liberalizado em 2000, a estratégia de diversificação de negócios da EDP sofre uma inflexão, passando o mercado europeu, em particular o espanhol, a assumir contornos de grande importância na estratégia de diversificação de mercados. Para além do mais Espanha pode ser considerada como uma extensão do mercado natural da EDP.
A tendência actual é verdadeiramente essa: a criação de mercados regionais europeus de energia.
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No futuro mercado europeu deverão existir sómente 5 players, a saber: 1 francês; 1 italiano; 1 espanhol e 2 alemães. A questão coloca-se então, caso não haja retrocesso no aprofundamento económico da UE, em esperar para ver quais as famílias que se criam e, posteriormente, juntar a EDP a uma das famílias criadas dentro da lógica do mercado europeu.
Retirar protagonismo à EDP, neste momento, é retirar-lhe veleidades de poder escolher, subjugando-a de imediato a interesses espanhóis e reduzindo-lhe a expressão e posição negociais para perto do zero.
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Acresce que a Iberdrola aparece como parceira da EDP por iniciativa do accionista Estado, que tem demonstrado uma inusitada veia interventiva ao nível da gestão (evidenciada por demais no consulado de Pina Moura), , ao invés do papel de agente regulador que lhe caberia que nem uma luva e que seria o seu papel natural.
Por outro lado não é menos de estranhar que a parceria com a Iberdrola seja defendida por um ministro à altura, que se vem a verificar posterior e públicamente tratar-se do braço armado da empresa espanhola em Portugal. É claro o conflito de interesses e nada clara a política de gestão estratégica para a EDP.
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A substituição da actual administração, que demonstrou ter ideias claras e de defesa dos interesses nacionais, olhados na perspectiva do tabuleiro estratégico energético europeu só nos poderá deixar apreensivos quanto às verdadeiras razões da sua substituição e dos interesses que estão em jogo.
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Cúm raio. Pelo menos deixem-nos perceber como vai a economia europeia nos próximos anos; se a tendência de criação de famílias energéticas é um facto e, por fim, qual dessas famílias se torna mais interessante para a nossa EDP. Estar a casar a empresa, sem dote, com um parceiro espanhol só poderá interessar a este, em ganhos de posição no mercado e de masssa crítica para as futuras negociações e alianças energéticas na Europa.
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Ou será que esta parceria é tão boa, como era a outra que se preparava para ser estabelecida entre a TAP e a Swissair? A segunda já falíu, a primeira ainda mexe, mas parece que alguém se preparava para tentar salvar a segunda através da hipoteca do futuro da primeira.
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Há 30 anos que nos andamos a hipotecar para fazer jeitos a terceiros, sejam eles privados ou institucionais. Eu digo que chega, que já considero demais!

2.1.06




















Mike Bernard

Lérias de Jornalistas vendidos à Nomenklatura

Passaram ontem 20 anos sobre a adesão de Portugal à CEE, hoje UE.
A notícia foi dada com pompa na RTP1, mostrando Soares a assinar a adesão afirmando-se em simultâneo, através de um discurso entusiasmado e de algumas imagens dispersas que nada mostravam, que o País mudou drásticamente nesse período, apontando como exemplos possíveis de aferição das mudanças profundas várias situações, algumas das quais que passo a destacar: 1) quase 750.000 portugueses trabalhavam na lavoura - o denominado sector primário da economia - trabalhando hoje nesse sector pouco menos de metade; os electrodomésticos eram um luxo acessível só a alguns, estando hoje perfeitamente massificados; do Porto a Faro demoravam-se 10 horas, demorando-se hoje cerca de 6 horas.
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A última afirmação proferida seria a única que poderia prefigurar uma alteração substancial no panorama económico e social nacional, caso tivesse contribuído, com o encurtar das distâncias, para uma real e eficaz política de melhoramento das assimetrias regionais e um aumento decisivo na produtividade nacional. Como se sabe nem uma coisa nem outra aconteceram e, de facto, a única verdade é que as redes de estradas só foram possíveis graças aos subsídios europeus, caso contrário com os dinheiros nacionais tal emprendimento seria impossível, depois da desbunda e delapidação da riqueza nacional após o 25 de Abril de 1974.
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As duas primeiras premissas, supostamente sustentadoras do princípio das alterações profundas acontecidas em Portugal em virtude da adesão à CEE são veiculadoras, isso sim, da má performance portuguesa no panorama económico europeu. Se por um lado o acesso a bens de consumo, como o caso dos electrodomésticos, registou um incremento, tal facto ficou a dever-se à enorme baixa no custo de produção dos mesmos tornando-os financeiramente mais acessíveis, não sendo este factor demonstrativo de nenhuma evolução da economia portuguesa porque Portugal não fabrica frigoríficos nem máquinas de lavar e, igualmente, porque não deriva de um crescimento real do produto nacional e a uma consequente melhoria das condições económicas das famílias portuguesas mas, fundamentalmente, a um aumento que hoje se considera muito preocupante do endividamento das famílias, criado pela facilidade de aceder a crédito, que na última análise efectuada representava cerca de 112% dos rendimentos reais auferidos, ou por outras palavras, nos dizia que vivemos todos muito acima das nossas posses.
Por outro lado, a redução de cerca de 400.000 postos de trabalho no sector primário não significou nenhum aumento de produtividade e consequente redução da mão-obra necessária, fruto de um processo de mecanização e automação de processos, mas sim o fim do sector agrícola em Portugal. Este sector está há muito enterrado.
Igualmente o facto de existirem hoje em Portugal 500.000 desempregados e de o número estar longe de ter estabilizado, significa claramente que nem o sector secundário - a indústria - teve capacidade de absorção da mão-obra libertada na destruição do sector agrícola, mostrando, bem pelo contrário, uma idêntica tendência para o suicídio, como mostra à evidência que o sector terciário - os serviços - está esgotado e igualmente sem capacidade de criação de postos de trabalho, facto natural porque este sector económico sofre fortíssimas influências dos dois primeiros. Se estes são quase inexistentes (uma vez mais peço que olhem para o PSI20 e descortinem as empresas industriais que aí subsistem, perto do avassalador número de empresas prestadoras de serviços) não é possível pedir milagres ao terciário.
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Assim, verifica-se que as verbas canalisadas via CEE e UE têm tido uma aplicação praticamente nula, com efeitos práticos desastrosos pela atitude e mentalidade despesista que vieram criar no comportamento político nacional, não deixando Portugal de cohabitar com os países mais pobres da Europa. A responsabilçidade cabe quase por inteiro, curiosamente, a dois candidatos presidencias em 2006: Mário Soares e Cavaco Silva e, em muito menor grau, a A. Guterres e D. Barroso.
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Eu, por mim, dispensava as auto-estradas e trocava todas elas pela miséria que se vê nos campos e nas cidades deste País. Preferia demorar 10 horas de automóvel do Porto a Faro, ou outras tantas de comboio e nem sequer ter carro, a saber que há concidadãos que não têm as condições mínimas de vida que a dignidade humana existe.
E depois, algum de nós acredita que todos os pensionistas que recebem neste país um valor mensal situado entre os 25 e os 50 contos têm acesso a máquinas de lavar e de secar, fornos, micro-ondas e televisões? Ou será que estes bens mais as 6 horas de viagem para ir de banhos ao Algarve não continuam a ser um benefício só para alguns?
VOTOS DE UM EXCELENTE 2006 PARA TODOS.

28.12.05

Chuva


















Loronov



Posted by Picasa
¿A quién me quejaré de mi enemiga?
¿Al tiempo? No es razón, que me ha burlado.
¿Al cielo? No es juez de mi cuidado.
Ni al fuego, pues el fuego me castiga.

¿Al viento? Ya no escucha mi fatiga,
que está en mis esperanzas ocupado.
¿A Amor? Es mi enemigo declarado
y en condenarme piensa que me obliga.

Ya, pues ninguno de mi parte siento,
Filis ingrata, a ti de ti me quejo;
juzguen tus ojos, reos y testigos.

Y el tiempo, el cielo, el fuego, Amor y el viento
lloren mi muerte, pues mi causa dejo
en manos de mis propios enemigos.

Barahona de Soto

27.12.05

O que de facto importa...

O que está mal não são as declarações de um candidato a presidente ou as propostas que pretenda sugerir para um regular e melhorado funcionamento da vida política, económica e social do País.
O que está verdadeiramente mal é o sistema nem ser presidencial nem parlamentar, ser semi-qualquercoisa, como lhe ouvimos há anos chamar.
O que está execrávelmente mal é a Constituição Portuguesa que requer mudanças profundas rápidas e fundamentais.
O que está mal não é pretender ter um Presidente com ideias. O que está verdadeiramente mal é pretender que o Presidente não pode ter ideias, porque estas competem ao executivo, mas depois, esse mesmo Presidente, poder dissolver a Assembleia da República.
No que é que ficamos? O Presidente é um palhaço pomposo, figura de retórica ou um agente importante na condução polítca, social e económica do País? Seja uma coisa ou outra, não é Soares o Presidente indicado, porque dos adjectivos possíveis para classificar o Presidente e a sua actuação não cabem o de velhaco ou malandro político.

O Triunfo da Morte...

Um homem sentado no chão...

Um homem sentado no chão pede por uma esmola, por uma réstea de sobrevivência. O homem já nãovive, tão pouco sobrevive. Este homem contenta-se com os restos da sobrevivência, do respirar possível, do caminhar possível, do falar quase ininteligível. O homem já não quer, sequer, que se condoam da sua situação que é nenhuma. Este homem está verdadeiramente abaixo de cão. O que procura o homem então? Agarrar-se ao ar, ao dia, a cada dia que passa, literalmente. O homem só quer respirar, caminhar, comer. Porque a vida para este homem não existe. Ele não tem vida, nem própria nem alheia. E compreende-se. Quem por ele passa percebe, distintamente, que a vida já não mora ali. Nem no plano da morte a vida existe. O homem já está morto na moral, na dignidade, no pensamento, nas expectativas. Dentro deste homem nem uma réstea de esperança existe a não ser a de viver mais um dia. A roupa não existe, só farrapos, mostrando em toda a sua extensão o forro de que é feita - jornais rasgados, dobrados, pontas desfeitas e muito, muito sujas. Este é o verdadeiro agasalho do homem; os jornais com os quais procura reter o pouco calor que o seu débil corpo conserva. E estão 6 celsius negativos. O home pede a moeda, que de quando em vez lhe cai na mão ou perto. Num homem destes não se toca. Nem se olha verdadeiramente. Passa-se um olhar muito de relance e percebe-se tal miséria que a vergonha contida da sociedade se inibe de se mostrar constrangida perante tanta miséria, pois que constrangimento tem este homem de sobra, não precisa que lho aumentem.
Parei a uma distância suficiente para não ser notado. E vi aquele homem, para lá do fim da linha, numa curva da vida inalcançável. Mesmo que se queira, isoladamente nenhum de nós tem condições de valer àquele homem. Ele está para lá da nossa capacidade de compreensão. Talvez só num templo, despojados de todas as vestes e metais, nús e todos iguais, consigamos olhar aquele homem e pensar que possa ser parte de um qualquer objectivo oudestino. Ali na rua, sentado, não! Aquele homem não tem objectivo ou saída possível e o destino está traçado: o homem já está morto!
Onde pára então a sociedade, quando a vida de um homem se degrada inexorávelmente, muito para lá do limite que julgamos possível? Onde pára a economia, o estado social, para que o plano inclinado de uma vida seja barrado e o homem recuperado, antes que se espete no seu final com grande estrondo e se desfaça em mil pedaços feitos de todos os seus sonhos, das suas ambições, da família, do desespero, da vontade, da descrença, da dignidade e da vida?
Compete ao estado zelar pelo bem estar de todos. O estado somos todos e queremos que todos sejam apoiados. A vida é fértil em surpresas, sendo os seus momentos desagradáveis em maior número que os restantes. Queremos ter a certeza que a vida não nos caça numa qualquer viela e nos atira para o caixote dos despojos, para o leque crescente e já interminável dos que foram caçados na teia do destino, escrito pelas mãos de todos que nos abstemos de participar e fomentar a igualdade de direitos e deveres, vivendo de egoísmos, de espaventos e cultivando o sofisma.
O estado tem de ser interventivo. Para tanto precisa de se dotar de meios próprios. O estado precisa de investir para gerar riqueza, para lá daquela que obtém através da coerção fiscal. O estado tem de se comportar como um qualquer outro accionista; acreditar na gestão privada e pedir dividendos no final dos exercícios. O estado tem de aplicar os seus dinheiros, de escolher os seus investimentos de forma criteriosa e cautelosa porque o estado somos todos nós e o capital investido é todo nosso. Depois o estado tem de aplicar uma fatia dos resultados em novos investimentos e a fatia restante tem de ser forçosamente canalisada para o estado-providência.
Como é possível sabermos todos que há reformados que vivem com perto de 20 contos por mês? Imaginamo-nos, acaso, a viver com tal quantia mensal? Não foram estes reformados outrora homens e mulheres válidos para a sociedade? Não contribuíram com o seu esforço e trabalho para o bem comum? Não são agora, eles próprios, vítimas da má condução das políticas passadas e presentes, praticadas por outros homens? E todos os outros, que mendigam nas ruas? Não serão igualmente merecedores da atenção do estado, ou seja, de todos nós? E ainda aqueles a quem falta a assistência na doença? E os outros a quem é vedado o acesso à cultura, por falta de meios e condições?
O estado não pode gastar para luzir pela frente e, em simultâneo, andar passajado ou roto na retaguarda.
Porque o estado somos todos nós e todos temos a obrigação de apresentar uma só cara.

Natal

Natal...Na provincia neva.
Nos lares aconchegados,
Um sentimento conserva
Os sentimentos passados.

Coração oposto ao mundo,
Como a família é verdade!
Meupensamento é profundo,
´Stou só e sonho saudade.

E como é branca de graça
A paisagem que nãosei,
Vista de trás da vidraça
Do lar que nunca terei!

(Fernando Pessoa)

Poemas Inconjuntos

A espantosa realidade das coisas
É a minha descoberta de todos os dias.
Cada coisa é o que é,
E é difícil explicar a alguém quanto isso me alegra,
E quanto isso me basta.
Basta existir para se ser completo.
(Alberto Caeiro)

24.12.05

A Adoração dos Reis magos




















Bento Coelho da Silveira

CRISTO em casa de Marta
















Velásquez

Poema de Natal

Para isso fomos feitos:
Para lembrar e ser lembrados
Para chorar e fazer chorar
Para enterrar os nossos mortos —
Por isso temos braços longos para os adeuses
Mãos para colher o que foi dado
Dedos para cavar a terra.
Assim será nossa vida:
Uma tarde sempre a esquecer
Uma estrela a se apagar na treva
Um caminho entre dois túmulos —
Por isso precisamos velar
Falar baixo, pisar leve, ver
A noite dormir em silêncio.
Não há muito o que dizer:
Uma canção sobre um berço
Um verso, talvez de amor
Uma prece por quem se vai —
Mas que essa hora não esqueça
E por ela os nossos corações
Se deixem, graves e simples.
Pois para isso fomos feitos:
Para a esperança no milagre
Para a participação da poesia
Para ver a face da morte —
De repente nunca mais esperaremos...
Hoje a noite é jovem; da morte, apenas
Nascemos, imensamente.

(Vinícius de Moraes)

14.12.05

O Senhor Ventura...

"Ha nações que nascem feitas e nações que se fazem. Portugal é das que se fizeram, [...] e nunca tiveram sossego nas fronteiras, que chegaram a situar-se nos cinco continentes."

"Fundadora de novas pátrias, esta pequena pátria, que com os descobrimentos marítimos realizou a maior epopeia dos tempos modernos, arredondando definitivamente o globo nas mentes coevas, ainda hoje ajuda a povoar e a unir o orbe, num fluxo emigratório constante. E é essa vocação planetária, essa inquietação dispersiva que faz do português um peregrino das sete partidas, um cidadão do mundo."
Miguel Torga

as razões que a razão desconhece ou a Portugalidade...

"Posso finalmente sair de Portugal (pelo menos tenho passaporte), e bastou essa certeza para me tirar toda a fúria de deixar isto."
Miguel Torga, 27 de Junho de 1950, a propósito do termo do impedimento de se ausentar do País.
Nova ausência, agora por cinco dias, marca a agenda do palavras interditas.
Até já.

SONHO ORIENTAL

Sonho-me às vezes rei, nalguma ilha,
Muito longe, nos mares do Oriente,
Onde a noite é balsâmica e fulgente
E a lua cheia sobre as águas brilha...

O aroma da mongólia e da baunilha
Paira no ar diáfano e dormente...
Lambe a orla dos bosques, vagamente,
O mar com umas finas ondas de escumilha...

E enquanto eu na varanda de marfim
Me encosto, absorto num cismar sem fim,
Tu, meu amor, divagas ao luar,

Do profundo jardim pelas clareiras,
Ou descansas debaixo das palmeiras,
Tendo aos pés um leão familiar.

Antero de Quental