15.9.05

RAZÕES DA MEDIOCRIDADE

Citando Fayga Ostrower:

«A natureza criativa do homem nasce do contexto cultural onde se encontra inserido. Todo o indivíduo cresce e desenvolve-se numa determinada realidade social, cujas necessidades e valorizações culturais se moldam aos próprios valores de vida. No indivíduo confrontam‑se, por assim dizer, dois pólos de uma mesma relação: a sua criatividade, que representa as potencialidades de um ser único, e a sua criação, que será a realização dessas potencialidades já dentro do quadro de determinada cultura embebida»

Citando Miguel Torga:

«Moeu‑me a paciência! Trinta anos, bem medidos, de tenacidade! Cheguei quase a desanimar. Vinha, olhava, tornava a olhar, e nada. Alcandorado no seu trono de penedos e nuvens, com o Douro ajoelhado aos pés e o céu a servir‑lhe de resplendor, o Santo furtava‑se ao retrato poético, de qualquer ângulo que eu apontasse a objectiva. Hoje, porém, de repente, entre duas perdizes, não sei por que carga de água, abriu o rosto e foi ele mesmo que me propôs o instantâneo. / ‑ Mostre lá então as habilidades... ‑ pareceu‑me ouvi‑lo dizer. / Nem escolhi enquadramento. Antes que se arrependesse, travei a espingarda e disparei a imaginação ao calhar, do sítio onde estava. / Na arte fotográfica propriamente dita, à sístole diafragmática segue‑se a revelação da película na câmara escura, rematada por alguns retoques amáveis às imperfeições da obra. No meu caso, não houve película, nem câmara escura, nem retoque nenhum. A imagem saiu como está do acto retentivo. Parecida com o original? Muito longe disso. Os poetas não trasladam feições».

Citando Fayga Ostrower:

«Todo o processo de elaboração e de desenvolvimento abrange um processo dinâmico de transformação, em que a matéria que orienta a acção criativa é transformada pela mesma acção. [...] Transformando‑se, a matéria não é destituída do seu carácter. Pelo contrário, é diferenciada e, ao mesmo tempo, é definida como um modo de ser. Transformando‑se e adquirindo uma nova forma, a matéria adquire unicidade e é reafirmada na sua essência. Ela torna-se matéria configurada, matéria‑forma, e nessa síntese entre o geral e o único é impregnada de significados»

António Ferreira, a Diogo Bernardes, aconselha o amigo:

Não mude ou tire ou ponha, sem primeiro
Vir aos ouvidos do prudente, experto
Amigo, não invejoso ou lisonjeiro.

[...] Per'isto, é bom remédio às vezes ler‑se
A dous ou três amigos; o bom pejo
Honesto ajuda então a melhor ver‑se.

Vitorino Nemésio, no poema «O Bicho Harmonioso» escreve:

Eu gostava de ter um alto destino de poeta,
[...]
Tudo isto seria aquele poeta que não sou,

Feito graça e memória,
Separado de mim e do meu bafo individualmente podre,
Livre das minhas pretensões e desta noite carcomida
Pelo meu ser voraz que se explora e ilumina.

A capacidade que cada um detêm para se afirmar, internamente, com maior ou menor grau de exigência nas suas acções, atribuindo-se satisfação ou pelo contrário criticar-se duramente e nunca ficando satisfeito com a obra realizada advém, com naturalidade, da dualidade surgida da aprendizagem feita da vida vivida com as impressões decalcadas do meio social e cultural onde cresceu e se moldou.

Não significa, forçosamente, que a condicionante social e cultural não possa ver-se melhorada e acrescida quando o indivíduo possui forte espírito crítico e enorme inteligência. A cultura espelhada é o reflexo da imagem das alegrias e frustrações apreendidas e da capacidade interpretativa das mesmas. Se o homem nasce e cresce rodeado de sentimentos pequenos e mesquinhos dificilmente o deixará de ser. O reflexo que projecta é, em grande parte, fruto dos reflexos colhidos de todos os outros com quem privou, que escutou e com os quais concordou ou discordou.

A própria essência do acto de concordar ou discordar é relativa e fortemente condicionada pelo espírito crítico, pela inteligência, capacidade de análise e cultura assimilada, tudo vertentes de um mesmo sólido: a aprendizagem efectuada e constantemente aumentada e reciclada. Estando a aprendizagem inteiramente dependente da transmissão oral e escrita, falhando em parte ou no todo aquela resta a leitura compulsiva e multifacetada para suprir as lacunas do conhecimento. Ficam contudo de fora as acções comportamentais associadas ao meio social onde cresceu e os valores retidos, estes normalmente incutidos pelo processo de transferência familiar.

Não é assim indiferente para a transformação da matéria todo o conjunto de significados apreendidos pelo indivíduo, influindo directamente na maneira de ser e no carácter deste. O maior ou menor grau de exigência que fixamos para nós próprios reflecte-se, directamente, na menor ou maior satisfação que retiramos dos nossos actos e na nossa própria realização. É a diferença entre acertar a bitola por cima ou preferir comparar por baixo.

É então claro que quanto maior o grau de compreensão dos fenómenos, maior o grau de exigência nos comportamentos e acções. Tendencialmente procuraremos os melhores e, ainda assim, viveremos confrontados com a realidade de que o que fazemos, todo o processo criativo fundido no geral e no particular, poderia ser ainda melhor e essa constatação e insatisfação simultânea leva a uma transmissão social e cultural cuidada e atenta, na esperança de que quem nos escuta e nos precede consiga fazer melhor.

Infelizmente para o Portugal político o conhecimento, a exigência individual e a consciência do colectivo foi vencido pela mediocridade no geral. Na mediocridade não há lugar para vozes discordantes só havendo mesmo lugar para os medíocres e os muito medíocres, porque a comparação se faz por baixo. O padrão não comporta significados nem carácter. A essência da coisa reside nos tiques pequeno-burgueses, adicionados a uma forte dose de impreparação cultural, ausência de postura e desconhecimento das regras de comportamento social.

É por culpa do homem político nacional que o País está como está: sem identidade, sem valores, sem história, sem cultura, sem educação. Em suma, sem sentido.

13.9.05

A MANIFESTAÇÃO POPULAR QUE FALTA

Os militares aguardaram pacientemente pelo doutíssimo (sem ponta de ironia) parecer do Tribunal Administrativo de Lisboa para conhecerem o destino da manifestação agendada para hoje terça-feira 13 de Setembro, depois de a terem visto recusada pelo Governo Civil e pelo Governo. Acataram as indicações do tribunal e reuniram-se em local privado.

Não se contesta o facto e até se concorda em absoluto que as forças militares e militarizadas não gozem dos mesmos direitos reivindicativos, na forma que não no conteúdo, da população civil. Os deveres são diferentes, as responsabilidades também. Um funcionário público ou um qualquer trabalhador por conta de outrém não jura bandeira quando inicia o exercício das suas funções.
O juramento de Bandeira implica um comprometimento perante a Nação e a Nação não se discute. Somos mesmo contra a existência de sindicatos nas forças militarizadas e igualmente contra as manifestações que têm sido levadas a cabo. Contudo importa destacar que a importância e imagem para o País da PSP é uma e a imagem das Forças Armadas é outra, com um claro peso de responsabilidade e reconhecimento da população a recair sobre esta última.
As Forças Armadas são o último bastião da Pátria.

Não se compreende, contudo, que devendo as Forças Armadas assumir um papel de recato nas suas reivindicações usando para o efeito os canais competentes, Estados-Maiores, para fazer chegar aos ouvidos da classe política dirigente as suas necessidades, mal-estares e anseios, que idêntico procedimento não tenha sido seguido em 1973 e 1974.

Ademais, encontrando-se o País em guerra com movimentos terroristas no Ultramar e sabendo-se como as situações de conflito armado servem às mil maravilhas para a progressão rápida nas carreiras militares, menos se compreende que os militares de carreira de então tenham preferido reivindicar pelas armas, através de um golpe de estado e ferindo de morte o juramento de bandeira que todos tinham proferido, uma questão de vencimentos e progressão nas carreiras quando se sentiram tapados e em pé de igualdade com os oficiais milicianos e não através do diálogo com o poder ou mesmo, tratando-se de situaçao insanável, requerido autorização para se manifestarem públicamente.

O resultado teria sido o mesmo; a proibição, mas todos nós teríamos tido oportunidade de perceber como se iria comportar o 3º Plano de Fomento, que tão boa conta de si deu no início, em 1973 quando eclodíu a crise do petróleo, colocando Portugal a crescer a 7,3% ao ano, contra cerca de 3% da restante Europa e isto sem quaisquer fundos vindos de Bruxelas.

Por via dessa imensa reivindicação salarial conhecida como 25 de Abril, ficámos todos mais pobres. Entregues à Europa, mais concretamente a Espanha, entregues a forças políticas minadas por políticos viciados na sedução do poder, na sua maioria impreparados para o exercício de cargos públicos pela incapacidade que demonstraram, durante trinta anos, em separar o interesse nacional dos interesses particulares e, verificamos agora também, a Forças Armadas a quem retiraram a sua única capacidade reivindicativa, a revolução, mostrando a classe política ter aprendido com a 1ª República ao diminuir militar e socialmente a sociedade castrense.
Não se infira destas palavras qualquer defesa de uma nova revolução assinada pelos militares portugueses. Contudo, tampouco se pode fazer orelhas moucas às súplicas constantes coincidentes num único sentido: a incapacidade do povo português de se fazer ouvir e dizer basta a tanta pouca vergonha, a um tão grande delapidar do património nacional, da sua economia e da crescente degradação das condições de vida nos planos económico e social.
Se os militares estão proibidos e bem de se manifestarem, tal proibição não é aplicável ao comum do cidadão.
Que venha então todo o povo para a rua, sem excepção, gritar bem alto a sua indignação pela condução da vida política e conómica do País aos gritos de VIVA PORTUGAL!

As Palavras Interditas dos Leitores

os fantasmas já não são fantasmas, antes e muito, corpos visiveis que tentam arrastar-nos para lÁ DO MAR, e com um pouco de sorte talvez cheguemos ao país da frontalidade...mas somos muitos azarentos, não é?

Mendes Ferreira

12.9.05

As Palavras Interditas dos Leitores

E o nosso maior receio é que, com a falta de soluções, a radicalização da sociedade comece a ganhar forma com contornos assustadores.
Começa a ser preocupante percebermos que não temos um Maestro capaz de dirigir uma orquestra que não atina com o andamento! Não fosse a situação Geopolítica, não estaríamos longe de uma Sul Americanização.Qual Sebastião, Qual Caudilho.
Os Fantasmas andam por aí!!!

Antonio Stein

9.9.05

RAZÃO DA REDUNDÂNCIA DA CRÍTICA POLÍTICA

A grande questão não reside na crítica política e económica constante, protagonizada à vez pela oposição aos governos PSD e PS que se sucedem. A grande questão, a enorme questão reside no facto de uns e outros não terem soluções para os problemas económicos e sociais do País, porque o País de tão mal orientado nas últimas décadas não apresenta saídas possíveis.

As economias, todas elas, necessitam de gozar de proteccionismos de peso maior ou menor, consoante a sua pujança económica, a inserção geográfica, o grau de desenvolvimento e o momento temporal considerado. Se assim não fosse não haveria razão para preocupações com os textéis chineses nem teria havido motivos válidos para a última cimeira entre China e UE nesta matéria.
Se se considera o princípio válido para regiões geográficas económicas diferentes, terá de se encarar como igualmente válido para países diferentes dentro de uma mesma região geográfica económica. A economia portuguesa não sofre das mesmas idiossincrasias nem apresenta os mesmos atributos que a economia francesa, como esta não se assemelha à economia alemã.
Tratar todos por igual só pode conduzir ao acentuar das diferenças, ao aumento das desigualdades, favorecendo os mais fortes e enfraquecendo, progressivamente, a capacidade de resposta dos mais fracos.

Portugal tem enfraquecido progressivamente ao longo dos anos, com pouco para oferecer se exceptuarmos a demagogia. O problema é estrutural pelo que, hoje por hoje, é igual ser o PS ou PSD a governar: são igualmente impotentes para travar o descalabro e, em economia, não existe D. Sebastião que nos valha.

[Nº 33] THE HOUSE OF BLUES

MUDDY WATERS

Baby, please don't go
Baby, please don't go
Baby, please don't go,
down to New Orleans
You know I love you so

Before I be your dog
Before I be your dog
Before I be your dog
I get you way'd out here, and let you walk alone

Turn your lamp down low
Turn your lamp down low
Turn your lamp down low
I beg you all night long, baby, please don't go

You brought me way down here
You brought me way down here
You brought me way down here
'bout to Rolling Forks, you treat me like a dog

Baby, please don't go
Baby, please don't go
Baby, please don't go, back the New Orleans
I beg you all night long

Before I be your dog
Before I be your dog
Before I be your dog
I get you way'd out here, and let you walk alone

You know your man down gone
You know your man down gone
You know your man down gone
To the country farm, with all the shackles on

8.9.05

IMBECILIDADES

A propósito de José Diogo Madeira e um seu artigo no Jornal de Negócios e porque quase tudo o que os articulistas nos impingem é mau e, igualmente, porque por vezes não apetece comer e calar, refere-se ao citado senhor que os Estados Unidos da América não são um País porque são uma Confederação de Estados e porque se fossem um País em português seria é e não são!

Igualmente se ilustra a capacidade de resposta rápida e eficiente a todo e qualquer desgraçado e funesto acontecimento que aconteça em território americano, bem como a disponibilidade para ajudar terceiros quando estes necessitam. Belíssimo exemplo encontramos no Plano Marshall e na preciosa contribuição americana no esforço europeu do pós-guerra ou a mais recente intervenção no Iraque, com elevados custos humanos e materiais, que possibilitou a aproximação entre judeus e palestinianos, a desocupação militar do Líbano e um aliviar de tensões na zona do Golfo Pérsico.

Confundir os EUA com o terceiro-mundo é igual a confundir a História com a Geografia.

Por último e porque imbecilidades não nos devem tomar mais do que o tempo necessário para as denunciar, acrescento que caso Diogo Madeira fosse cidadão americano ou lá trabalhasse certamente não seria articulista num jornal de negócios, tão fraca é a prosa e tão lerdo o pensamento, mas caso o fosse (sendo necessáriamente alguém diferente), teria muito que comentar sobre negócios e empresas não necessitando de recorrer à política baixa e barata.

7.9.05

cabeças políticas complicadas....


Santa-Rita Posted by Picasa

A (MÁ) POLÍTICA DO POSSÍVEL...

Toda a propaganda que inunda as nossas maiores cidades na procura do voto autárquico é, na sua maioria, patética. Os slogans repetem-se ao ritmo das promessas vetustas, todas bem acompanhadas por sinais claros de ausência de qualquer planificação urbanística numa ilustração cabal da ausência de respeito para com as populações. A falta de respeito marca fortemente a actuação autárquica nacional, quer falemos do governo central quer falemos das Camaras Municipais. Os raros exemplos de cuidado urbanístico surgem nalgumas localidades no Alentejo, no Minho e em Castelo Branco. Todo o restante País é o espelho desgraçado da bandalheira política a que, forçados, nos temos habituado a suportar nos últimos vinte anos.

Longe vão os tempos da discussão política acesa, dos disparates políticos mas igualmente da crença depositada no novo regime. Hoje os políticos estão desacreditados, a discussão política é insípida e vazia de conteúdo, feita de aproveitamentos de circunstância nos temas escolhidos, muito dirigida para a árvore e longe da capacidade de visão do global. E quando este é abordado inundam-nos de lugares comuns e de muitas asneiras. Hoje não se acredita no sistema nem se acredita nas pessoas, porque o sistema, cá como lá fora, não responde às necessidades das populações e os políticos estão todos presos por rabos de palha, tão grande tem sido a promiscuidade quer interpartidária, quer intrapartidária. Ninguém está livre de ser acossado na praça pública, pelo que o exercício do poder se consagra, fundamentalmente, pela ausência de acção política.

Justificam-se assim actos de candidatura à revelia dos partidos, não porque só grasse a pouca vergonha nas personagens que se candidatam como independentes, mas principalmente porque estes conhecem os mensalões de todos os outros e perguntam-se: "sou só eu? Cadê os outros?"! E assim avançam. A lógica (?) que impera é a da classificação da pouca vergonha, ao estilo dos concursos de beleza; o importante é a comparação. Se alguém sabe de outrém, sendo que a única diferença é o conhecimento ou não público do facto, avança na lógica(?) do mal igual ou menor.
Bom exemplo temo-lo agora com as recentes declarações de um autarca ,afastado das listas do seu partido para a Câmara do Porto, que sem hesitações proferíu afirmações que incomodam e agitam as eleições na segunda cidade do País.
Muitos têm o rabo preso e todos eles são de mais para este desgraçado País, como fácilmente se constata pelo estado calamitoso a que a economia, a saúde, a educação, a velhice e a política chegou.

Prevejo umas eleições autárquicas muito difíceis para o PSD, com candidatos frouxos, outros desavindos, outros ainda divididos e uma liderança política fraca e sem chama. Marques Mendes fala pouco, diz pouco, sabe pouco e o pouco que diz onde impera a razão fá-lo sem convicção.
(nota: neste particular o Primeiro-Ministro não está melhor, diria mesmo que por inerência do cargo está bem pior. Pergunto-me: ainda estará de férias? Ninguém o sente, ninguém o ouve. Fossem estes outros tempos e o que já não tinha soado).

Prevejo de seguida umas presidenciais difíceis para o centro-direita a confirmar-se a candidatura de Cavaco Silva. A sua personalidade, postura e intervenção política enquanto primeiro-ministro está longe, muito longe de congregar o centro-direita. Dentro da massa anónima votante por norma PSD, conheço muitos que não votarão no Professor. E as razões são diversas.
O risco de Cavaco Silva perder para Soares existe e, se assim fôr, uma vez mais (após as eleições legislativas) a vitória não seria obtida por mérito do candidato vencedor, mas por demérito do vencido, apresentando-se a votação com contornos de castigo.

O País ficaria então ainda pior (se possível), porque se passaria a votar, claramente, pela negativa, pela penalização e não pela assumpção da existência de qualidades morais, políticas e humanas nos candidatos.
Em última instância este facto equivalerá a afirmar em definitivo que o sistema está fortemente viciado, empobrecido e carente de qualidade.
Os tempos seriam então, forçosamente, de mudança.
Para melhor espera-se, com o empenho de todos.

5.9.05

POEMA

Terrível é o homem em quem o senhor
desmaiou o olhar furtivo das searas
ou reclinou a cabeça
ou aquele disposto a virar decisivamente a esquina.
Não há conspiração de folhas que recolha
a sua despedida. Nem ombro para o seu ombro
quando caminha pela tarde acima.
A morte é a grande palavra para esse homem
não há outra que o diga a ele próprio.
É terrível ter o destino
da onda anónima morta na praia.

Ruy Belo

Valerie Fast Posted by Picasa

2.9.05

No fim da vaidade o começo da imbecilidade...

«Talvez que esse excesso de procura e consciencialização nos afastasse humanamente uns dos outros. Literatos num sentido polemizante, ficava-nos pouco tempo para reparar no semelhante que vivia ao lado. E eu espantava-me de não ser capaz de encontrar entre aqueles companheiros de inconformismo e de ilusão um amigo que me desse tanto gosto de ver de vez em quando como o Alvarenga. Bons camaradas quase todos, tinham, contudo, os defeitos das próprias virtudes. Intelectualizados da cabeça aos pés, mal tocavam a realidade. Eram platónicos no amor, teóricos no desporto, metafísicos no convívio. A convicção de serem únicos distanciava-os do vulgo, tornando-os incapazes dum contacto permanente com as forças rasteiras da natureza.»

Miguel Torga

Crónicas Dispersas de Outros Tantos Temas...

Mário Soares voltou. Cavaco Silva prepara-se para voltar, oficialmente, porque oficiosamente já aí está. Apetece dizer: -São sempre os mesmos, até doi!
José Pacheco Pereira diz, bem, que o problema de Soares não se deve colocar na idade mas ao nível das ideias. De facto não deverá funcionar a idade como um ferrete, um rótulo, capaz por si só de determinar com exactidão da maior ou menor capacidade intelectual de um qualquer indivíduo. Conheço muitos que muito mais novos são autênticos imbecis e outras que a provecta idade só se encontra mesmo no BI, mostrando uma imensa sabedoria e, mais importante, uma enorme capacidade de análise e discernimento. Não seja então a idade o elemento castrador das pretensões, sejam estas quais forem.
No plano das ideias, quanto a Mário Soares estamos falados. Já não serviam há vinte anos quando foi eleito pela primeira vez pelo que não se poderá esperar que sirvam agora.
Contudo a questão da idade tem, a despeito do que foi afirmado, que ser colocada por duas razões fundamentais: a) não se acredita que a abertura a novas ideias, a novos conceitos tenha sucedido em simultâneo com o passar dos anos, bastando atentar nos argumentos esgrimidos por quem defende a sua candidatura para se perceber que Soares é entendido como garante da política "dejá vu"; b) igualmente pela singularidade de se reconhecer que vinte anos passados não conseguiram trazer à tona dirigentes políticos ( ao menos um) que mereça ser escrutinado numa votação presidencial - isto mesmo reconheceu Monjardino na passada 4ª feira após o arranque oficial da candidatura de Mário Soares.
E chegamos ao caminho onde entronca o problema maior, provávelmente o único, porque passa esta 3ª República: tudo, mas mesmo tudo, gira à volta dos partidos e como os partidos ( as pessoas que activamente colaboram nos partidos) fizeram de tudo, mesmo o inimaginável, para reduzir a política a uma actividade pouco recomendável, nos últimos trinta anos todos os políticos forjados nos partidos são, por definição, pouco recomendáveis e nada credíveis aos olhos da população. Desta forma surge aos olhos de todos como solução mais do que lógica, a única possível mesmo, recorrer ao parque jurássico da política nacional para de lá arrancar uns candidatos a presidentes desta república partidocrática. Mesmo aqueles que presumam ter condições para desempenhar cabalmente o cargo de Presidente da República recuam perante a possibilidade de serem escrutinados, cientes que estão que estas eleições, como as demais, são totalmente dominadas pelos partidos e que os eleitores votam nestes com a mesma convicção com que são do clube A ou B desde pequeninos. O espírito crítico foi erradicado da sociedade portuguesa, por vontade política, em simultâneo com o crescimento da alienação alimentada pelas novelas e pelo futebol, também por igual vontade política. E depois, antes de 1974 é que eram famosos os três F´s. Deixem-me rir (mesmo que ao som do Jorge Palma, embora a solo seja mais redentor). Agora também temos um F, mas de lixados. Até nesse aspecto estamos mais pobres, só temos um F.
Os partidos são o centro, o epicentro, da vida nacional. Mas não podemos esquecer que acima de todos, dos homens e dos partidos, de toda e qualquer ideologia, está e estará sempre a PÁTRIA.
A questão não é, então, ideológica e não se discute ao nível das ideias. A questão é moral e discute-se ao nível da honestidade moral. Deseja-se ardentemente que a honestidade moral seja acompanhada de honestidade intelectual, para bem de todos, da Nação.
Quando colocado o problema no seu verdadeiro enquadramento estamos conversados quanto a moral e quanto a honestidade, seja ela qual fôr. Um laico que evoca Jesus Cristo no seu discurso (mesmo que citando Pessoa, embora fora do contexto) já nos disse tudo. Esqueçam o resto: está tudo verdadeiramente dito!

Voltamos então à questão das ideias: sem moral as ideias são perigosas, sejam estas quais forem!

Há um ano e meio o PS, na oposição, atacava fortemente o governo PSD em matéria de prevenção de fogos. Há um ano, o PS pretendia assar o governo nas chamas que consumiam Portugal. Em Maio deste ano o PS, já governo, anunciava com pompa a criação de um gabinete de prevenção e combate a incêndios. Meses depois, com o País quase por inteiro ardido, o PS vem anunciar a decisão de comprar em 2006 meios eficazes de combate aos incêndios - leia-se aviões capazes de transportar uns milhares largos de água de cada vez.

O Presidente da República afirmava, pouco tempo antes, que teriam de ser tomadas acções correctivas capazes de dotar o País dos meios necessários ao combate a incêndios por se encontrar o País perto do limite do sustentável. Perto do limite? O Sr. Presidente deveria fazer estas afirmações no local dos incêndios, perante assistências compostas por gente afectada pelas chamas, que tivessem perdido os seus haveres ou mesmo que tivessem sofrido apenas enormes sustos, para verificar da sustentabilidade da sua retórica. Ah, pois, fazem-me sinal que seria necessário que os presentes soubessem escutar e interpretar as palavras correctamente e não estivessem imbuídos, únicamente, da enorme vontade de aplaudir toda e qualquer asneira verbalizada pela ilustre figura do Presidente, pelo respeito que esta inspira mais do que pela personagem que desempenha no momento aquelas funções. (Será que este respeito ainda vem do tempo da outra Senhora? Se não vier, então as palmas são mesmo por falta de estudos, como diria o outro). Porque será o PR tão condescendente com o governo socialista? Resposta: os PR´s deixaram de se preocupar com essa utópica ideia de terem de parecer presidentes de todos os portugueses. Melhor assim, ficam clarificados os lados do campo e acabam as hipocrisias. Os futuros Presidentes sê-lo-ão dos respectivos partidos e seus militantes e simpatizantes e nada mais do que isso, pelo que me é possível afirmar agora convictamente e sem rebuço de espécie alguma que nunca em trinta anos de partidocracia tive um Presidente que considerasse meu.

De qualquer forma pergunto-me: onde pára a oposição? Nem uma palavra se ouve a Marques Mendes ou qualquer outro destacado elemento do PSD.

Levaram tanta pancada e agora nada ? Agora que podiam falar, cheios de razão, ficam calados? Estranho?, nem por isso. Os partidos, todos sem excepção, estão no limiar da credibilidade e com eles toda a partidocracia que cresceu e envolve a República. Tal como na Monarquia Constitucional e na 1ª República, a actual situação cheira a podre e ainda mais a esturro e não só por incidência directa do flagelo das chamas. Os partidos protegem-se na esperança de continuarem a aproveitar da belíssima situação de que gozam, distribuindo tachos e favores, partilhando os cargos e bens materiais sem preocupações com cores e programas políticos. Atingirem-se uns aos outros agora, num momento de enorme fraqueza seria ainda mais suicidário, pelo que a alternativa reside no silêncio formal e polítcamente assumido. O País definha, os despojos do moribundo são cada vez menos, mas enquanto se tenta uma inclusão no espaço ibérico como parente pobre de Espanha, vai-se engolindo ávidamente o pouco que sobra. Sim, porque não se pense que é a UE a salvaguarda de uma modificação política no País. Caso acontecesse a UE ainda nos agradecia o pretexto para mostrar claramente e sem equívocos qual a porta de saída.

O El País deu à estampa na passada segunda-feira um enorme artigo onde atacava Portugal, a sua política, os políticos, os últimos trinta anos e ainda o actual governo de forma virulenta. Todos sabemos que os espanhóis adoram dizer mal de nós. Chateia mas passa. O que custa verdadeiramente não é o ataque, a que nos habituámos ao longo dos anos: o que verdadeiramente custa é ser tudo verdade e isso não chateia, dói e, ainda por cima, não passa!

De Regresso...

Neil Faulkner

5.8.05


Richard Murrin Posted by Picasa

O TGV, OBRA FUNDAMENTAL

na arquitectura de uma Europa concebida nos corredores de Bruxelas e Estrasburgo.
A questão não é diferente da Consituição Europeia, só se apresenta com outras roupagens e faz parte de outro vértice do problema. Mas a intenção é a mesma: esticar o triângulo pelos vértices, criando novo triangulo de maior dimensão.

ESTUDOS SOBRE A OTA E O TGV

Porque razão são tão falados e repetidamente apontados como justificação para o investimento a efectuar mas não são publicitados e discutidos públicamente?

Quais as razões para escamotear, continuamente, a existência de soluções complementares à Portela, como serão os casos de Alverca e Montijo e, acima de tudo, porque razão não são claramente apontadas as deficiências da Portela e a incapacidade de dotar esta infraestrutura dos meios necessários para garantir o seu funcionamento nos próximos cinquenta anos?
Igualmente o TGV é de todo incompreensível e entre todas as razões possíveis avulta uma bem acima de todas as outras: Portugal não necessita de se aproximar nem mais um centímetro ou minuto sequer de Espanha. Mais, Portugal precisa urgentemente de deixar cair a ideia da Ibéria, de ganhar notoriedade e independência em relação ao gigante espanhol. Caso contrário, como a qualquer pequena planta à sombra de um embondeiro, definhará e morre.
É necessário provocar e promover o debate público em torno destas questões e não permitir que se aproveite o Agosto para tomadas de decisões eminentemente decisivas no futuro próximo do País. Estamos todos demasiado habituados a decisões tomadas à sombra de gabinetes e à revelia da discussão e interesse públicos.
É necessário gritar BASTA!, dizer claramente que a população deste País não é um mero número num cartão de eleitor ou contribuinte mas que é a razão primeira da existência e organização da sociedade e do estado. Se os dinheiros públicos são esbanjados e os interesses nacionais vilipendiados então eu digo, claramente, que toda a população se insurja, que venha para a rua mostrar o seu descontentamento, que deixe em conjunto de entregar os seus impostos ao estado depositando-os, preventiva e provisóriamente, em contas estabelecidas para o efeito em instituições financeiras de primeira ordem. Que questione, sem margem para dúvidas, a execução da função política do estado e dos detentores de cargos políticos.
Agosto - o Sol, a praia, o mar...

Richard Murrin Posted by Picasa

O PAÍS ARDE...

A seca imensa aliada a um calor tórrido contribui, decisivamente, para que o País esteja a sofrer profundamente com esta enorme vaga de incêndios. Muitos milhares de portugueses vêem as suas vidas já difíceis totalmente destroçadas, mais ainda quando na sua infinita sabedoria reconhecem que a sua dôr só dura nas memórias o tempo exacto da notícia passada num qualquer telejornal.
O País não tem condições de prevenir primeiro e combater, depois, o flagelo dos fogos. Como terá então para ajudar a endireitar as suas difíceis vidas?
A miséria bate-nos à porta de diferentes maneiras, a todos, por via directa ou indirecta.
O País fica todos os dias mais pobre.

ALGUÉM ME DIZ

o que foram Cavaco e Soares fazer a Belém?
Sendo a propositura de uma candidatura à Presidência um acto de estrita vontade pessoal, caso eu me decidisse a candidatar a presidente e recolhidas que estivessem as 7.500 assinaturas, será que Jorge Sampaio também me receberia?
A questão é puramente retórica, porque nem eu quereria ser recebido por Jorge Sampaio nem lhe reconheço competência alguma de que pudesse usufruir ou ser-me útil. Mas em tese mantenho a pergunta: será que seria recebido?

ONDE PÁRA A LIBERDADE...

As preocupações crescentes de perca de soberania económica, espelhadas em artigos de opinião e estampadas na última edição do Expresso, mais não são que a consequência directa de uma política feita nos últimos trinta anos, mais no respeito do internacionalmente correcto e, nos últimos vinte de uma obediência cega a Bruxelas, acompanhada por uma classe política impreparada e pouco ou nada dotada para o exercício de cargos e funções públicas, ocupados que estão estes, sistemáticamente, por actores políticos que encontram nas suas nomeações sentidos claros de prémios político-partidários e muito menos de reconhecimento de reais competências para os respectivos desempenhos.

Aliás a constatação surge-nos, clara, quando verificamos os cortes nos vencimentos e regalias estabelecidos, bem como nos anos de mandatos possíveis de efectuar. Caso o exercício político fosse consagrado como sério e competente, sendo estas premissas fundamentais aquando das nomeações para cargos políticos, estes, os políticos, deveriam ver as suas remunerações crescer à imagem do crescimento económico e social do País, como forma de chamar os mais capazes para a causa pública e premiar os mais competentes. Igualmente, através do voto, as populações saberiam distinguir entre a competência e a inação políticas e determinariam, sem constrangimentos e em consciência, os seus representantes autárquicos, quer sejam eles nacionais quer sejam locais.
Não é esta a realidade. Em Portugal vota-se em partidos e não em pessoas e os partidos premeiam não os melhores mas todos aqueles que em nome de uma disciplina partidária se sujeitam a todas as situações, se adaptam a todas as circunstâncias. É premiado o seguidismo, as "entourages" e não o livre pensamento e discernimento, sendo mesmo proibído inovar e propôr caminhos alternativos. A política é redonda, os discursos são redondos, as responsabilidades são nulas.
O sistema protege a mediocridade. Perante a evidência da fobia de entregar políticamente Portugal a Espanha, como se depreende pela defesa do TGV Lx-Madrid e pelo aeroporto da OTA, depois de entregue económicamente, pergunto sem receio, se para todos os que se sentem portugueses e se orgulham da sua história a presente situação é mais aceitável do que a ditadura que vivemos entre 1928 e 1974.
Haverá verdadeira liberdade num País colonizado no séc. XXI através do pior instrumento colonizador inventado pelo homem, o económico, onde são crescentes os sacrifícios pedidos à população e onde já não cabem razões tantas vezes invocadas de aumento da qualidade de vida, dos serviços primários, da saúde e da educação, ou pelo contrário será essa liberdade maior num País onde o seu povo sofrendo carências menores e de menor risco nacional pode, contudo, de pleno direito e de sua livre vontade conspirar contra o regime político que o governa?
O homem é um animal conspirador e eu afirmo, convictamente, que prefiro a segunda à primeira.
O mês de Agosto é feito de isto mesmo, de intermitências na actividade intelectual e de um necessário descanso propiciando um arrumar de ideias tão necessário na "rentrée" em Setembro. É assim, por minha necessidade, que o palavras interditas se interdita nas palavras durante o corrente mês. Igualmente pela necessidade de aproveitar o mês frouxo do ano para acelerar na recta final de uma tese que está a ser elaborada com imenso gozo.
Por estas e outras razões o palavras interditas não conhece calendário em Agosto.
Em Setembro voltará a normalidade........ ao blogue.

29.7.05


Edward Hopper Posted by Picasa

Un Ballo In Maschera


Characteristics:
Opera in three acts on a libretto by Antonio Somma, inspired by the work of Eugené Scribe: Gustave III ou Le bal masqué.

Première: Rome, Apollo Theatre, February 17th, 1859

The story:

Act I.
Riccardo, count of Warwick, English governor of Massachusetts, opens a hearing. Among those present are his enemies, Samuel and Tom, who together with their followers, connive to murder him. Oscar, the page, brings to Riccardo the list of those invited to a ball; on seeing the name of Amelia, whom Riccardo is secretly in love with, he winces. The Creole Renato, secretary and confidant of Riccardo, and Amelia's husband besides, arrives and warns him of a plot against him, but Riccardo takes no heed of the warning. A judge proposes to banish the black Ulrica, accused of witchcraft, but a lenient Riccardo magnanimously proposes to all present to go visit the fortune-teller's hovel. Here Ulrica, who is invoking the "king of the abyss", is questioned by the sailor Silvano to whom she predicts a lucky future. Amid general exultation, the prophecy turns out to be true, since Riccardo had previously slipped money and a nomination of advancement to official into the sailor's pocket. Then one of Amelia's servants comes forward, asking for a private interview for his mistress. The fortune-teller sends all the others out and counsels Amelia, who asks her how she can free herself of a sinful passion, to go to the sinister execution grounds, where she will find an herb of forgetfulness. Riccardo, hidden and listening, is overjoyed to learn that Amelia is in love with him. He disguises himself as a fisherman and goes to the fortune-teller who, however, recognises his hand as that of a noble commander, but refuses to pronounce her prophecy. Finally, at the insistence of Riccardo and the others present, she predicts the death of the count at the hand of a friend, he who is the first to shake his hand. Renato arrives and gives him his hand. Amid the general consternation, Riccardo minimises the affair, while the people extol his virtues.
Act II.
Amelia goes to look for the magic herb and is followed by Riccardo who declares his love for her; Amelia is shaken: she too loves him, but does not want to be unfaithful to her husband. Renato, worried for Riccardo's safety, arrives on the scene and advises Riccardo to leave that solitary spot. Before going, Riccardo entrusts the woman to him (she had covered her face with a heavy veil and has not been recognised by her husband), making him promise that he would not attempt to learn the woman's identity. The conspirators burst onto the scene surprised to find Renato, who tries in vain to protect the woman from their curiosity. In the confusion that follows, Amelia's veil falls. The husband is mortified and angry, and Samuel, Tom and the others comment the event with terrible irony. Upset, Renato makes an appointment to meet Tom and Samuel the next day.
Act III.
Renato is determined to avenge what he presumes to be his wife's infidelity in blood. She asks to be allowed to see their son for the last time. Moved to pity, Renato then decides to satisfy his anger by killing his friend rather than his wife. Samuel and Tom on their arrival are incredulous when they learn of Renato's intentions, but he offers the life of his son as guarantee of his sincerity. The three determine that chance shall decide which of them shall carry out the murder of Riccardo and oblige Amelia to extract a name from the urn: it is Renato. The page Oscar arrives with the invitations for the masked ball. The three agree to take advantage of the occasion to carry out their design, while Amelia tries to think of a way to save the count. Riccardo has decided to renounce his love for Amelia and order their repatriation to England. Oscar brings him an anonymous letter urging him to forego the ball for his own safety, but the count, wanting to see Amelia for the last time, takes no heed of the warning. During the ball, Renato astutely makes Oscar tell him which is the disguise of Riccardo. Meanwhile, Amelia, recognised by Riccardo, implores him to flee and receives his last adieu. He barely has time to finish his dialogue with the woman when he is struck by Renato's dagger. The assassin is arrested, but Riccardo, dying, orders him released. He shows Renato the decree for their repatriation and reveals that Amelia had never been unfaithful. With his dying breath he pardons all the conspirators. All present bless his magnanimity. Renato is left alone with his remorse.
(Giuseppe Verdi)

27.7.05

ESPECULANDO À VOLTA DAS PRESIDENCIAIS

Não é correcto afirmar que a badalada possível candidatura de Soares às eleições presidenciais seja um regresso ao passado, como não será correcto afirmar o contrário.
Aliás, do ponto de vista da correcção, o mesmo raciocínio é válido para uma possível candidatura de Cavaco.

Pensei, durante algum tempo, que na ausência de candidatos presidenciais assumidos - a proximidade das autárquicas não responde à questão visto estas serem eleições de cariz partidário e as presidenciais de cariz assumidamente pessoal, mesmo que os candidatos se vejam apoiados por partidos - poderíamos ter a surpresar de ver avançar uma candidatura da área militar: Almeida Bruno, por exemplo. E esta ideia sustentava-se na fraca imagem de que gozam os políticos em Portugal, em conjunção com a ausência de perfis nos vários quadrantes políticos, capazes de suscitar consensos e mobilizar votantes, mesmo quando invocamos o Sr. dos Tabús que está longe de ser consensual e congregar todos os votos do centro-direita.

Perante a apatia geral e depois de renegar três vezes, Mário Soares parece envaidecer-se pela ideia de voltar a ser presidente e aceita assumir essa disponibilidade, rompendo com o cenário de um possível apoio do PS a Freitas do Amaral, apadrinhado pelo próprio Soares, que julgava eu seria o motor de lançamento da campanha de Freitas, talvez até seu mandatário, dando assim azo a uma grande volta na história .

Mas a configurar-se o cenário actual, parece que a história se manterá a mesma, mostrando em simultâneo a fraca fornada de dirigentes políticos saídos nos últimos quinze anos de funções governativas capazes de confrontarem com sucesso o País com uma sua candidatura. Ainda se falou em Guterres, mas este e bem, optou por uma carreira política internacional, bem mais interessante que qualquer cargo político neste rectangulo que na prática, geométricamente, se assemelha a um triangulo rectangulo, onde nos encontramos todos tal como o País - ou em queda acentuada (hipotenusa) ou em queda livre (cateto).

Aqui chegado interrogo-me com veemencia: será que se trata de uma operação de cosmética ou mesmo de limpeza dos últimos trinta anos, de tão má memória?

Bom, se assim fôr, operação cosmética dos desvarios, proponho a seguinte estratégia:
Cenário - Lota de Matosinhos

Por uma porta entra Mário Soares acompanhado de Narciso Miranda.
Pela outra porta entra Freitas do Amaral acompanhado por João Soares.
Trocam-se impropérios e agressões (aqui a experiencia de Narciso é determinante).
Soares tem um treco, mas como não precisamos de matar ninguém, o referido treco provoca-lhe apenas uma forte queda em cima de uma Chaputa (escolhemos a Chaputa por nos parecer ofercer uma queda mais confortável e por estarmos certos de que a cair em cima de alguma coisa, o Dr. Soares escolheria sempre uma Chaputa), mesmo assim suficiente para o afastar das presidenciais. Freitas fica condicionado e retira a candidatura a candidato ficando o caminho aberto para Ramalho Eanes.

Exacto, Eanes. Se a ideia é dizer - É pá, não valeu, vamos lá começar tudo de novo!, então Eanes é o candidato ideal, para além de sustentar a minha ideia inicial: um militar na presidencia.
Temo que os resultados possam ainda ser piores, reciclados estes trinta anos, atendendo à idade que os protagonistas apresentam hoje - se as ideias já não eram brilhantes há uns anos atrás...
Mas é uma solução, não lhes parece?
Aliás qualquer uma será solução para preencher a vaga de P. da República, porque ao nível do País não "aquenta nem arrefenta". O País como está, simplesmente não tem solução.

26.7.05


Jacinto Luís Posted by Picasa

POESIA

Não sei quantas almas tenho.
Cada momento mudei.
Continuamente me estranho.
Nunca me vi nem acabei.
De tanto ser, só tenho alma.
Quem tem alma não tem calma.
Quem vê é só o que vê,
Quem sente não é quem é,

Atento ao que sou e vejo,
Torno-me eles e não eu.
Cada meu sonho ou desejo
É do que nasce e não meu.
Sou minha própria paisagem;
Assisto à minha passagem,
Diverso, móbil e só,
Não sei sentir-me onde estou.

Por isso, alheio, vou lendo
Como páginas, meu ser.
O que sogue não prevendo,
O que passou a esquecer.
Noto à margem do que li
O que julguei que senti.
Releio e digo : "Fui eu ?"
Deus sabe, porque o escreveu.

(Alberto Caeiro)

24.7.05


Michael Felmingham Posted by Picasa

APRENDENDO COM EÇA...

"O país perdeu a inteligência e a consciência moral. Os costumes estão dissolvidos, as consciências em debandada, os caracteres corrompidos. A prática da vida tem por única direcção a conveniência. Não há princípio que não seja desmentido. Não há instituição que não seja escarnecida.

Ninguém se respeita. Não há nenhuma solidariedade entre os cidadãos. Ninguém crê na honestidade dos homens públicos. Alguns agiotas felizes exploram. A classe média abate-se progressivamente na imbecilidade e na inércia. O povo está na miséria. Os serviços públicos são abandonados a uma rotina dormente. (...) "

22.7.05

SANTOS E PECADORES, TODOS DE PAU CARUNCHOSO

De um modo bem tradicional, florescente de há muitos anos nos países terceiro-mundistas ricos em recursos naturais, a corrupção apresenta características comuns: os dirigentes políticos de topo tomam as grandes decisões baseados em enormes gratificações. É assim, simples e proveitoso. Basta identificar quem manda e dar lugar aos mecanismos corruptores.

Nos países industrializados a coisa não funciona bem assim, até porque existe um sentimento generalizado de combate à corrupção, que não é, contudo, uma expressão comportamental moderna de excepção mas uma forma corrente e comum de remuneração (já o escrevi anteriormente) e bastará atentar nos brasileiros e para a sua capacidade de aligeirar, pela língua, situações gravosas, para que se perceba todo o alcance da expressão "mensalão".

Assim, havendo uma vontade expressa de lutar contra a corrupção mas continuando esta a existir, só se poderá tirar uma ilação do facto: as estruturas de decisão tornam esta luta e controle cada vez mais difícil, nas sociedades industrializadas.

Os actores que participam nas decisões são vários, sendo igualmente variados os objectivos que potenciam o aparecimento dos agentes corruptores. Cada um dos intervenientes adopta uma parte da decisão, aplicando em simultâneo inflexões no processo sobre matérias que extravasam as suas competencias. Porventura poderão classificar-se como decisões as próprias inflexões referidas. Perante uma extensa informação, procurando satisfazer variados interesses, bastas vezes contraditórios, o dirigente deixa de ser um agente zelador do bem comum para assumir a faceta de facilitador social do jogo de interesses dos grupos de pressão e, em simultâneo, zelar pelos seus próprios interesses, meramente pessoais e egoistas. Num processo desregrado e desregulado de tomada de decisão, a margem de opções possiveis sai muito reduzida, acabando quase inevitávelmente na política do facto consumado.

Vem o intróito a propósito de Campos e Cunha e de Mario Lino.

Comecemos por uma primeira constatação: nem um nem outro são santos. Ou seja, não há heróis e vilões nesta história. Existe, sim, um padrão de actuação divergente e uma leitura diferente do que se entende por interesses nacionais e pessoais.

Para Campos e Cunha uma despesa no tão propalado aeroporto da OTA, até 2009, de 650 milhões de euros só em estudos, era indiciadora de que a obra não se iria iniciar nesta legislatura - in DN de 20 de Julho: " ...o facto de até 2009 estar previsto um investimento de apenas 650 milhões de euros na OTA implica claramente que, para já, se vai avançar somente com a elaboração de estudos e não com o projecto em concreto."
Estudos de 650 milhões de euros ( ou aéreos, como um grande amigo gosta de lhes chamar, não pela relação directa com aeroportos mas pela facilidade com que voam de uns bolsos para os outros) requerem, no mínimo, tratamento de excelência. 10% disto dá.......
Para outros, investimentos de 650 milhões de aéreos parecem pouca coisa e, o que importa mesmo, é garantir as adjudicações de investimentos cujos estudos preliminares- serão iniciais? quantos se terão já realizado? - custam, logo à partida aquele montante. Ora 10% dum investimento deste porte dá...

Talvez que através de raciocínios esquematizados, como o anterior, se consiga perceber melhor o porquê das situações e das desavenças, bem como a noção de grandeza das coisas que os decisores políticos têm.

Pelos vistos 650 milhões de aéreos não merecia o esforço e é preciso avançar decisivamente para investimentos muito superiores. Ou será que uma vez mais ficaremos com os estudos, não havendo intenção alguma de avançar com as obras, mas tão sómente justificar aquele gasto?
Ora 10% de 650 milhões de euros sempre dá...

E desenganem-se os mal-formados que estes 10% mencionados nada têm a ver com possíveis luvas, pagamentos, corrupções várias. As contas só pretendem determinar qual o valor inicial contratualizado para o início dos trabalhos, na suposição de que as empresas envolvidas exigirão um sinal de 10% à cabeça......hehehe....

Noite de Chuva... o que vai faltando no País Posted by Picasa

21.7.05

E AGORA JORGE SAMPAIO...

Ainda não te ouvi dizer que ias ficar de olho no novo ministro das finanças.
Que perante a constatação de que todos os agentes, públicos e privados, confiavam nas posições do ministro cessante e perante a credibilidade que este inspirava, não irás permitir desvios em relação ao caminho de austeridade traçado e que estarás munido de atenção redobrada em relação às políticas financeiras do novo ministro e, concomitantemente, do governo.
Ainda não te ouvi nem irei ouvir.
Pobre País, não por teres este presidente e este sistema corrupto, mas porque tens exactamente o que mereces!

19.7.05


[Nº5] THE GOLDEN VOICES

COME FLY WITH ME...


Come fly with me, let’s fly let’s fly away
If you can use, some exotic booze
There’s a bar in far bombay
Come fly with me, we’ll fly we’ll fly away
.....
Come fly with me, let’s float down to peru
In lama land, there’s a one man band
And he’ll toot his flute for you
Come fly with me, we’ll float down in the blue
.....
Once I get you up there, where the air is rarefied
We’ll just glide, starry eyed
Once I get you up there, I’ll be holding you so near
You may here, angels cheer - because were together
.....
Weather wise it’s such a lovely day
You just say the words, and we’ll beat the birds
Down to Acapulco bay
It’s perfect, for a flying honeymoon - they say
Come fly with me, we’ll fly we’ll fly away
__________________________________________________________

"Não conte histórias de peixes numa roda de amigos.
Mas cuidado! Jamais conte tais histórias onde as pessoas conhecem os peixes!"
(Mark Twain)
Uma árvore sem frutos ou folhas, despida de qualquer beleza, escancara indecente a sua fraqueza, enquanto definha e morre.
Seja Outono ou Primavera.
Um País não morre mas verga-se ao peso da vergonha do seu povo no Inverno da sua frustração.
Só quando em algum lugar uma virgem engravidar, a árvore poderá florescer no Inverno, trazendo de novo a luz.

18.7.05

CONTRASTES...

Regorgito de alegria. O dia é bom, a noite é óptima. O dia é curto, a noite comprida. Gozo o folguedo da vida e, mais importante, partilho-a. E como adoro essa partilha. Caminho ao final do dia, olho os ponteiros - são 9.30 da noite. Deixo-me deslizar, mais do que caminhar, leve e seguro, certo de uma boa noite que se aproxima com amigos, uns petiscos, umas "gasosas" e muita conversa e galhofa. Olho em redor, ainda dia e quente o ar, já não o bastante para criar aquela sensação de desconforto de roupa semi-pegada ao corpo, aliás áquela hora já trocara de roupa duas vezes - hora de almoço e quando saí para jantar.
Caminho então solto de pensamentos quando passo ao lado de um caixote - quem deixaria um caixote ali, no vão de uma porta - e sigo. Impelido pela diferença percepcionada, de soslaio olho de novo aquele caixote. E "aquele caixote" é um homem todo coberto, descalço, com uns ténis espatifados meticulosamente arrumados a um canto. E dormia. Às 9.30 já dormia ou fingia, mas estava ataviado há mais tempo, pelo que aposto estaria assim desde as 8.30 p.m.. 8.30? Com um dia tão bonito? ...
O que são os dias? E ainda por cima adjectivados de bonitos? Os dias podem ser curtos ou compridos, dependendo das circunstancias. Para aquele homem o dia era igual ao outro dia e ao outro. Não existem dias para ele mas sim um simples dia. Sempre igual e, acima de tudo, tão comprido. Tão comprido e deprimente.
A noite sim é o aconchego e chega sempre tarde e vai-se sempre cedo. À noite aquele homem é um homem embrulhado num caixote, de identidade indefenida, esquecido dos seus próprios problemas e escondido de todos os outros homens. Na ausencia de identidade aquele homem encontra-se finalmente a sós consigo mesmo na ausencia do pensamento. Aquele "homem do caixote" quer tudo menos pensar. Dá graças a Deus por não ter caixa de correio - assim ninguém o pode maçar. Dá graças a Deus por não ter memória, de noite, que lhe permite dormir e descansar. Esconjura o demónio quando este lhe trás o passado, na forma de más recordações, de arrependimentos, de gestos impensados e atitudes egoístas que o afastaram de tudo e de todos. A vida deste homem é feita algures no limbo do errante passar de tempo onde se não quer o passado e não existe espaço para o futuro. Paradoxalmente, o "homem do caixote" foge todos os dias do presente que abomina mas com o qual cohabita na luta pela existência. Ele e o presente são inimigos fidagais e, em simultâneo, aliados essenciais. O "homem do caixote" gostaria de escapar a este presente, esperançado num futuro, preferindo um futuro incerto a um presente penoso na ausencia de novidade, na certeza da sempre presente igualdade. O presente nega-lhe a pretensão, inibindo o futuro de se apresentar. Para aquele homem o presente esmaga-lhe diáriamente o presumível futuro. Mas o presente, obrigando-o a uma ginástica dos diabos, vai-lhe garantindo a presença diária das necessidades básicas que o mantêm vivo, em dificuldades mas vivo. Traz-lhe em simultâneo a desconfiança e, mais ainda, a indiferença de todos os demais com quem se vai cruzando, aquilo que lhe custa mais, a sua inexistência na existência diária de um presente só seu e não mais partilhado. Tantos sonhos desfeitos, tantos desvarios, quantos azares e esquinas da vida que atraiçoaram o "homem do caixote".
Com a noite tudo se esquece e, com sorte, também na maioria dos dias. Mas aqueles dias são tão compridos e as noites tão curtas.
Toco à campaínha, sou recebido ao som de Sinatra - "Flying To The Moon" - um copo com vodka tónico na mão e um monte de amigos à mão para conversar. A noite promete e vai ser longa.
(situação fictícia mas possível)

A Morte... Posted by Picasa

LONDRES, 07/07

Nem sempre é possível escrever sobre temas específicos, sem que o exercício da escrita fique refém do exercício mental necessário à avaliação das causas - lógicas ou ilógicas, sustentadas ou meramente especulativas - de acções que forçam, naturalmente, à análise das possíveis razões que lhes subjazem, sem que para tal não seja consumido um significativo espaço de tempo. Igualmente o nosso principal inimigo aparece invariávelmente sob a capa da incapacidade de percepção da razão das coisas, da dúvida que paira sem resposta, do receio do ilógico, do que seja mentalmente irracional. E irracional é toda a situação que rodeia a prática terrorista. Quando falamos de terrorismo falamos do Mal, no mais duro e hermético sentido do termo. É do "tempo do Mal" que falamos, é na "era do Mal" que vivemos.
Recuamos quinhentos anos e verificamos existir à data, na sociedade ocidental, um espírito de profundo radicalismo cristão, bem desenhado nas acções perpetradas pela Santa Inquisição.
Mas igualmente constatamos ter a sociedade ocidental evoluído no sentido da abertura religiosa e social, franqueando as suas fronteiras a habitantes de outras proveniências geográficas, de credos e convicções diferentes. Confiámos na nossa organização de sociedade para demonstrar, cabalmente, a esses novos membros que poderiam confiar naqueles que os acolhiam, através de manifestações de respeito continuadas pelas diferenças culturais constatadas.
Em quinhentos anos o mencionado radicalismo deu lugar a sociedades abertas, de acolhimento, onde se discutiram e consagraram direitos fundamentais e regras de comportamento em sociedade que julgávamos universalmente aceites por todos os que delas aproveitaram. Supostamente criaramos um mundo melhor que os demais e esse facto, por si só, seria factor de reconhecimento a considerar em todas as circunstancias.
Contudo, os recentes actos de terrorismo cuja justificação pública deriva de concepções e filosofias diferentes de encarar a sociedade, na génese de profundas diferenças culturais e religiosas, dando-lhe um cunho universal derivada de uma enorme escalada ao nível geográfico, abandonando as suas fronteiras naturais e invadindo o nosso espaço, obriga-nos a um exercício de recúo no tempo, que vai para lá dos idos de mil e quinhentos.
Recuemos então mais de mil anos, quando os povos árabes invadiram a Europa e aqui se estabeleceram.
As verdadeiras razões das guerras e colonizações são e serão sempre de índole económica. Mas as guerras têm de ter motivações mais fortes que sirvam os interresses de catalização dos povos no sentido da sua adesão e apoio incondicional.
Quando os árabes entraram na Europa a razão foi económica: necessidade de expansão e aproveitamento das riquezas de terras fertéis. Para o efeito criaram colonatos, garantindo a todos os seus conterrâneos que decidissem abandonar as suas terras optando por instalar-se nos territórios recém-ocupados total isenção de impostos.
Este mecanismo garantíu o fluxo necessário de população para os novos territórios mas gerou em pouco tempo, igualmente, um mecanismo perverso: os povos colonizados, menos arreigados às suas convicções religiosas, não hesitaram em converter-se ao islamismo, beneficiando no momento imediatamente posterior de igual isenção de impostos.
Os árabes não esperariam semelhante "migração religiosa", e estranhando o comportamento, para eles totalmente impensável - basta verificarmos a enorme quantidade de mesquitas que proliferam no mundo ocidental e a enorme afluência de crentes às mesmas, capaz de envergonhar as muitas igrejas católicas e a fraca participação religiosa verificada - decidiram acabar com esse privilégio e proibir a conversão de católicos ao islão.
Os tempos foram mudando, as forças alteraram-se e os povos ocupados, gritando não ao opressor, escorraçaram-no da Europa e perseguiram-no na sua própria terra. Mas esta perseguição reveste-se de uma característica diferente: não se limitou a basear-se em razões económicas mas igualmente pretendeu empreender a conversão do islão ao cristianismo.
Os europeus foram para impôr a sua religião, os seus usos e costumes.
Dir-me-ão: isso passou-se há mil anos, não interessa para nada!
Pergunto eu: não interessa para nós, que o esquecemos há muito e que até já passámos por perseguições religiosas na Europa, mas será que os árabes esqueceram ? Será a memória dos homens capaz de transportar consigo ódios e códigos genéticos com mil anos?
Creio firmemente que sim!
Qual a razão, então, para acreditar em algo que nos parece tão inverosímil?
A razão é de ordem comportamental. Se estivéssemos a falar de terrorismo perpetrado por cidadãos árabes que aportavam na Europa carregados de bombas e ódio, dispostos a morrer por 72 virgens (há muitos disponíveis para o fazer, estou certo, até mesmo alguns ocidentais) e com um fito de destruição de alvos ocidentais, talvez a explicação passasse por uma outra estrada: cidadãos oriundos de países onde não existe estratificação social, onde não se verificam manifestações e discussões políticas, baseadas num comércio pobre e numa pastorícia primária, onde a razão de sobrevivência existencial reside no culto e fervor religioso, podería ser alimentada pelo ódio aos ocidentais, por atitudes recentes destes desde invasões, passando pelo petróleo e acabando em Israel.
Mas não. Estamos a falar de cidadãos árabes que cohabitam connosco desde há muito, gozando dos mesmos benefícios sociais, das mesmas escolas, frequentando os mesmo locais e baseando a economia doméstica no nosso modelo de sociedade. Que razões tão imperiosas conduzirão, então, homens e mulheres nesta situação a cometer actos tresloucados, indignos do próprio Corão. Só encontro uma razão válida: uma parte da populaçao árabe ainda não esqueceu um passado histórico longínquo, de mil anos, razão incompreensível para nós ocidentais sempre predispostos ao perdão e a esquecer, de convicções religiosas moderadas e vivendo em sociedades permissivas, defendendo intransigentemente direitos iguais para todos, independentemente de raça, credo ou cor política.
E como se resolve este problema?

Por uma dupla afirmação ocidental, sustento: por um lado a certeza de que os muçulmanos não são todos iguais e que é forçoso demonstrar, sem hesitações, a capacidade de continuar a acolher no nosso seio os seus melhores membros, dizendo não bem alto a toda a espécie de xenofobia; por outro lado,

  • dando caça de forma implacável a todos os terroristas e respectivas organizações, sem dar azo a aplicação de quaisquer direitos humanos como os consagramos, porque é de animais (perdoem-me os animais) que falamos e não de seres humanos,
  • sem limitar a actuação das forças no terreno às limitações da lei, que se aplica no regular e normal funcionamento da sociedade, mas que não é aplicável quando falamos de terrorismo porque é de agentes do mal que falamos,
  • porque é necessário deixar de criticar Guantánamo, mesmo que algumas injustiças sejam cometidas, porque é preciso deixar de falar em sevícias mesmo que algumas sejam manifestamente exageradas, porque de cada vez que o fazemos nos enfraquecemos e ao fazê-lo damos novas armas e alento ao inimigo.
Porque é de uma guerra que se trata e nós, ocidentais, não nos podemos dar ao luxo de a perder!

Neil Faulkner Posted by Picasa

17.7.05

APRENDENDO COM EÇA...

Nos Maias, obra sublime de Eça de Queiroz:
" - Falhámos a vida, menino!".
Ega, no regresso de Carlos, de Paris.

Daqui a dez anos, quando nos voltarmos para os nossos filhos e amigos confrontados à altura com a escassez de oportunidades na vida, com um dificílimo reconhecimento social, saídos de universidades portuguesas mal cotadas no "ranking europeu" resultado da Convenção de Bolonha e forçados a aprender espanhol se quiserem consultar um médico diremos, tal como Ega:
"- Falhámos Portugal, meninos! Falhámos a nossa vida e, mais grave, a vossa!"
Eça é que é Eça!...
posted by BlahBlahBlah

16.7.05

CONVERSA GRAVADA

da Autoria de Cruzeiro Seixas, poeta e pintor

As minhas coisas “acontecem”, porque são uma necessidade profunda. Um amigo meu, pintor, desejava o dia em que já não fosse capaz de pintar. Eu nunca seria capaz de o deixar de fazer. Em qualquer circunstância da vida vejo-me a garatujar num papel ou numa parede. Se considerar a pintura como uma “obra de arte” com tela, cavalete e materiais nobres, sinto-me assustado, mas esses problemas não se põem comigo, porque não é à obra de arte que aponto, e porque muito raramente utilizei materiais tidos como nobres. Desenhar e pintar são necessidades independentes de mim, que tem a sua parte de necessidade fisiológica.

Pergunta-me como comecei a fazer estes cadernos. Na verdade não fiz na adolescência o Diário que quasi todos os adolescentes fazem. Foi já muito tarde que comecei a alinhar breves notas daquilo que me ocorre no dia a dia, durante a semana ou durante o mês; as amizades, as inimizades, as descobertas (não descobrimos nada, está já tudo descoberto!), foi tudo isso o que fui apontando nos intervalos que tinha de outros afazeres. Nessas folhas ia metendo um bilhete de eléctrico, ou qualquer outra coisa que me sugerisse um momento vivido, fotografias de pessoas, e pequenas pinturas ou desenhos, etc, etc. São cadernos de uma grande fragilidade, constituídos por folhas de papel metidas em argolas, de maneira que com o tempo e com o folhear os buracos se rompem, e tudo aquilo sai do sítio. Foi um disparate usar tal excesso de fragilidade, mas já são trinta e tal cadernos, e seria impossível recomeçar. Alguém algum dia olhará com alguma benevolência este documento? Se calhar vão deitar fora tudo aquilo, pois é esse o destino de tantas coisas em Portugal. Mas esses cadernos aconteceram e continuam a acontecer, pois de certa forma disponho agora de mais tempo, passado o tempo em que fui tocado pela asa da pintura profissional. Isso já lá vai há muitos anos felizmente: Trata-se agora de deixar o meu depoiamento sobre um papel qualquer, com o lápis ou com a esferográfica que tenho à mão. Julgo que aqueles pequenos desenhos casuais, podiam afinal ser obra de arte, se transplantados para a tela e para o cavalete, digo-o sem falsa modéstia.

Na verdade nem quando pintei sobre tela usei o cavalete. De resto durante toda a minha longa vida, não devo ter pintado mais do que umas vinte telas. Elas correspondiam à tal necessidade profunda, mas também foram a maneira de sobreviver. Nunca acreditei muito naquilo que fiz, e o dinheiro que ganhava não dava para fotografar as obras. Assim, desorganizado como sou não sei o destino da maior parte do que desenhei e pintei. Justamente, há dias, numa entrevista, contava a estória de dois quadros que uma galeria tinha “descoberto”. Pediram-me para passar por lá para confirmar se os quadros eram de facto de minha autoria. Na minha idade avoluma-se a ideia de que o que fiz talvez não tenha qualquer mérito. Fui a essa galeria com um bocado de medo, e acabei por ficar tão satisfeito quanto possível. No entanto felicitei-me por não estar a fazer hoje a pintura profissional que vemos em galerias e em exposições.

Voltando aos “Diários” (prefiro designá-los como “Desaforismos”), eu não pensava que fosse possível serem editados, mas gostava evidentemente que alguém os folheasse. Foi um amigo espanhol quem mais se interessou por eles. Vive numa pequena e belíssima cidade, e o seu ganha pão é um quiosque onde vende lotaria. Por sua vez ele tem um amigo que tem uma modesta tipografia, e assim editaram 3 livros, maquetes originais, que o Mário Henrique Leiria me tinha oferecido, e que, sendo obras excepcionais, não tinham aqui merecido a atenção devida. Fiquei-lhes sempre muito grato, e a amizade estreitou-se. Visitamo-nos, e trocamos lembranças. De vez em quando presenteiam-me com restos de folhas que lá na tipografia reunem em caderno. A outras pessoas servirão para as contas do dia a dia, mas foi a partir daí, em folhas de papel de música, que passei a desenhar e a pintar, e a reunir Aforismos de diversos autores e os tais meus Desaforismos. Este caderno, mais uma vez casual, foi visto pelos irmãos António e João Prates da Galeria S.Bento, e resolveram-no incluir entre um projecto de edições numeradas e assinadas pelos autores, e resultaram bonitas edições. Esse livro intitula-se “Local onde o Mar Naufragou”. Outro livro recentemente editado reúne principalmente poesia e desenhos datados dos anos 40/60. Trata-se de uma nova editora, mas o livro é extremamente cuidado, e pode ser classificado de luxuoso. O livro intitula-se “Viagem sem regresso”, e a editora é “Tiragem Limitada”.

O meu método de desenho é não ter método. Tirei apenas o quinto ano de desenho da Escola António Arroio, mas com os professores nunca aprendi nada. Nunca gostei de aprender, a não ser comigo mesmo. A técnica é coisa muito de se lhe tirar o chapéu, mas não é o principal. Além disso, por certo, para ela não estou vocacionado. A alma é a minha técnica, e se há algum valor naquilo que faço, isso advém de um excesso de alma.

Repito que sempre utilizei papéis de acaso, por vezes quadriculados ou de 35 linhas. Parecia-me que ninguém quereria comprar tais coisas, mas o passar dos anos vieram a me revelar o contrário. Se há realmente alguma glória naquilo que fiz (glória é uma palavra evidentemente excessiva), ela advém desta experiência, de conseguir algum consenso, usando tais suportes.

Quanto às figurações que se movimentam naquilo que desenho e pinto elas vêm directamente do subconsciente, mas também dos encontros que vamos fazendo pelas ruas, dos livros que lemos, das guerras e das fomes, e de uma ou outra coisa boa que ainda nos toca. Muitos dos desenhos são feitos quando estou ao telefone. Com a atenção dividida, aquilo que aparece é mais livre; a mão vai e vem por ali fora, como traçando um gráfico. Conheço pintores, que muito prezo, que são capazes de dizer como vai ser o próximo quadro. Eles já sabem tudo, já o estão a ver. Eu, estou cego diante do papel ou da tela. Se “visse” o quadro antes de o fazer, por certo já não o faria, pois me pareceria que já tinha passado o seu tempo. Mas o meu método não será o melhor, pois que não dá para ser um grande nome da pintura. O que vos deixo são apenas depoimentos ou testemunhos.

Charles Willmott Posted by Picasa

BOA TARDE....

Depois de uma semana complicada regresso à actividade normal.

12.7.05

Pátria

Soube a definição na minha infância.
Mas o tempo apagou
As linhas que no mapa da memória
A mestra palmatória
Desenhou.

Hoje
Sei apenas gostar
Duma nesga de terra
Debruada de mar.

(Miguel Torga)

Portugal

Avivo no teu rosto o rosto que me deste,
E torno mais real o rosto que de tou.
Mostro aos olhos que não te disfugura
Quem te desfigurou.
Criatura da tua criatura,
Serás sempre o que sou.

E eu sou a liberdade dum perfil
Desenhado no mar.
Ondulo e permaneço.
Cavo, remo, imagino,
E descubro na bruma o meu destino
Que de antemão conheço:

Teimoso aventureiro da ilusão,
Surdo às razões do tempo e da fortuna,
Achar sem nunca achar o que procuro,
Exilado
Na gávea do futuro,
Mais alta ainda do que no passado.

(Miguel Torga)

10.7.05

Beautiful City

Beautiful city, the centre and crater of European confusion,
O you with your passionate shriek for the rights of an equal
humanity,
How often your Re-volution has proven but E-volution
Roll’d again back on itself in the tides of a civic insanity!

(Tennyson)

Arbuckle Posted by Picasa

AS FRAQUEZAS E IMPREPARAÇÕES DE MARQUES MENDES...

Na Assembleia da República, o Dr. Marques Mendes interpela o Primeiro Ministro, dando-lhe conta de que se estaria a apossar deste um certo estado de nervosismo derivado da actual situação económica e das medidas recentemente tomadas pelo executivo. E aquele, o nervosismo, teria origem no imenso nervoso que assola, transversalmente, toda a sociedade portuguesa. Quem assim fala não pode ser gago e tem de ter contra-resposta à altura e preparada ou uma muito razoável capacidade de improviso, necessáriamente inteligente.
O Primeiro Ministro respondeu que nervoso estaria ele, Marques Mendes, com os resultados das últimas eleições. E Marques Mendes ficou-se, calado e triste no seu canto, sem qualquer resposta.
Enquanto a bancada socialista se rendia em palmas à resposta do líder, ficou-nos a imagem de uma oposição chefiada por um gago, mal preparado e pouco capaz de tiradas expontâneas, atributos necessários de um bom tribuno, ainda mais quando lidera a segunda força política nacional (se é que o exercício político de Marques Mendes possa ser apelidado de liderante).