7.6.05

Respiro o teu corpo

Respiro o teu corpo:
sabe a lua-de-água
ao amanhecer,
sabe a cal molhada,
sabe a luz mordida,
sabe a brisa nua,
ao sangue dos rios,
sabe a rosa louca,
ao cair da noite
sabe a pedra amarga,
sabe à minha boca.

(Eugénio de Andrade)
Bom Dia...

Donald Fraser Posted by Hello

5.6.05

MARCELO NA RTP 1....

A propósito das afirmações de A. Borges:
" Não conheço nenhum ministro que seja pobre, nem me lembro que alguma vez algum ministro em Portugal tenha sido um pobre. Portugal não tem ministros pobres nem se vislumbra que os tenha..."
Marcelo não se referíu às competências, às capacidades, às qualificações, às motivações, ao patriotismo.
Marcelo baseou-se na dicotomia pobre/rico. Percebeu-se no "lapsus facie" imediato, que tinha noção da arrogância e do asneiredo assumido e cometido. Mas estava dito!
Para Marcelo Rebelo de Sousa, ser rico é condição essencial para exercer funções governativas!
ESTÁ MESMO TUDO DITO!!!! Para Marcelo R. de Sousa.
Para todos os outros não o creio. Mas percebem-se claramente as razões de apoio de Marcelo à Constituição Europeia. Que enorme chatice partilhar "cocktails" com quem não é "rico".
Curiosamente, o "conde" trata todos os homens por "rico". Coincidências, porque os ricos a que Marcelo aludíu não são os "ricos" de Castelo-Branco (nunca sei se é com dois l´s ou só com um), mas, efectivamente, nem um nem outro dispensa os "ricos". Nem no governo!
Ó João!...Era uma ironia, a especialidade do professor. Pois é claro que maior parte deles não eram nem ricos nem achados antes de chegar ao Governo, mas a prática dos 10% está de tal modo instituida que ministros, secretários de Estado e autarcas ficam todos ricos em pouco tempo. E há tambem as reformas dos altos cargos...

Hm, a propósito: O Castelo-Branco tambem só passou a rico desde que trocou o título de Rómanova por RóbaVelha :p

A que "competências, capacidades, qualificações, motivações, e patriotismo" de que ministro é que Marcelo Rebelo de Sousa se deveria ter referido??
É que desde os finais dos gloriosos anos oitenta, ou seja mais ou menos nos últimos 15 anos, assim de repente não estou a ver nenhum com estas qualidades todas num cinco em um ... Maldade minha, só pode.

BlahBlahBlah

É, tem razão, só pode ter sido mesmo uma ironia :)
No resto também concordo, não encontro nenum, mas avançaria mais no tempo. Nos últimos 25 anos...

Olá João,
Ainda tens paciência para ouvir estes comentários? Confesso que já não tenho...prefiro ler e preparar-me psicologicamente para a semana de trabalho porque nós não somos ricos nem ministros...ah!ah!ah!, beijinhos

Anabela

CEREJA ENVENENADA

no TalvezTeEscreva

Sempre bem escrito, a que acrescento a seguinte nota.

nota: mesmo a legalidade é discutível, porque não aplicável aos cidadãos por igual.
E em que medida: na exacta medida que só muito poucos poderão ter acesso a lugares de favor pessoal, cuja contribuição para o país é nula e para as instituições duvidosa e, mesmo nesse cenário, gozarem do beneplácito de poderem auferir um rendimento perpétuo, com um mínimo de apenas 5 anos de exercício de funções.
E não esqueçamos que estamos a falar de um rendimento mensal garantido, obtido em apenas 6 anos de "trabalho", equivalente a pouco menos de 35 ordenados mínimos nacionais.
Já não é uma questão de "uns serem mais iguais que outros": é mesmo uma QUESTÃO DE DESIGUALDADE de tratamento, intolerável numa sociedade democrática e, acima de tudo, que se pretende de direito!

Roy Lichtenstein Posted by Hello

NA DEFESA DA AUTONOMIA POLÍTICA DOS ESTADOS

O modelo económico neoliberal não está, forçosamente, votado ao sucesso.
A ideia de um equilíbrio baseado no desemprego destrói a confiança na economia. Embora o fim último das empresas seja a maximização dos lucros, de todas mas principalmente das grandes empresas saídas de fusões e aquisições, não podemos esquecer que aliada à procura do lucro tem estado, desde a década de oitenta, a procura do prestígio, da fama e do poder, faces diferentes mas visíveis de uma mesma vaidade de todo um corpo de gestores e executivos ( não gosto da palavra mas tem de ser) alcandorados a posições de chefia. No entanto, a procura incessante do aumento dimensional das organizações levou a uma substituição clara, profunda e violenta dos capitais próprios pelos capitais alheios (dívidas). Aumentado o serviço da dívida, aumenta o efeito depressivo na economia, pela reducção das despesas de investimento, encerramento de unidades industriais, redução de salários e desemprego crescente. A economia habitua-se, então, a procurar equilíbrios não em pleno emprego, mas através da gestão de taxas de desemprego. A distribuição do rendimento começa então a ser desigual, criando desigualdades (a redundancia é necessária) entre as pessoas num espaço geográfico delimitado, entre populações em espaços mais amplos e, finalmente, entre os povos numa escala universal.
A incerteza económica traz uma necessidade: a capacidade de guardar liquidez (dinheiro que não é gasto nem investido). Os pobres, cada vez mais pobres, gastam sempre tudo e ainda devem; os rendimentos médios têm comportamento semelhante, fruto da redução salarial do agregado familiar, da carga fiscal e do endividamento assumido. Só os que são detentores de riqueza (os ricos) têm capacidade de escolha: ou poupam, ou gastam ou investem. Se pouparem reduz-se a procura e o ciclo recessivo mantêm-se com tendencia de aumento crescente, não restando outra hipótese aos Estados nacionais que não seja o aumento da despesa governamental e, por consequencia do défice.
Quando o dinheiro vai parar em grandes quantidades à mão de uns poucos, serão estes e não outros, a decidir qual o seu destino: investimento, consumo ou poupança! Quanto maior a sua capacidade de acumulação maior o risco das economias, pela crescente dependencia da decisão de uns poucos, que determinam a vida de muitos.
Assim, como deveremos defender-nos de uma economia que aprendeu a viver com a recessão?
Várias soluções são possíveis:
  1. ou se ocupam confortáveis posições de gestão, escudadas as mais das vezes em ligações políticas, evitando a todo o custo posíções intermédias nas estruturas empresariais;
  2. através da presença de espírito empreendedor, correm-se os riscos do investimento, esperando a recompensa do lucro;
  3. ou aceita-se pertencer a essa grossa camada de burocratas do funcionalismo público em instituições públicas nacionais ou, melhor ainda, em organizações internacionais onde se não fala de despesa e de défice;
  4. ou ainda, procuram-se profissões liberais.

Então e todos os outros, que não estão defendidos? Essa é a massa anódina e anónima, tornando-se numa excelente ferramenta de manipulação dos salários, por baixo entenda-se.

É então hoje, mais do que nunca, de diferenças profundas e de oportunidades desiguais que falamos, sendo a dependencia dos mais ricos crescente, por parte dos mais pobres. E quando falamos em pessoas falamos em países. O fosso entre países ricos e pobres é cada vez maior. A depressão económica chegou e não se vislumbra quando partirá, embora muitos tentem comprar-lhe bilhete todos os anos, anunciando a partida em discursos de esperança que abrangem sempre os anos seguintes. Mas a depressão vai ficando e o capitalismo instituído, suposto elemento atenuador e amaciador (dois em um) de tensões entre os povos vai-se esbatendo, perdendo a sua feição pacífica.

O conflito existe e não é ideológico: é um conflito feito do bem-estar de uns e as carências inexplicáveis dos outros. É através do discurso político e da intervenção política que se poderão atenuar os efeitos conflituais. É através de instrumentos de soberania que se evitam os focos de violência. Retirar aos países esses instrumentos, entregando-os à espiral do confronto social, equivale a perder a capacidade interventiva, única resposta válida à inversão verificada no início do séc. XXI: não são os mais abastados que colocam em causa os modelos fundados em economias alargadas, mas sim os esquecidos da vida que se tornaram acérrimos defensores da autonomia económica e social dos respectivos países.

António Barreto-Uma Surra Inesquecível

no SÍTIO DO NÃO

SÓCRATES...

O Antes e o Depois no bicho carpinteiro....

O FEDERALISMO EUROPEU - A SOCIEDADE DOS HOMENS SEM MEMÓRIA

A crescente tentação de abraçar estrepitosamente o federalismo, por alguns, e a resposta clara de muitos outros na recusa da sua aceitação, advém do desejo daqueles de conduzir ao mais que provável desaparecimento do Estado-Nação como o conhecemos e, com ele, à morte anunciada da política, constituindo elites todas poderosas e decisoras ao arrepio do respeito pelos valores, práticas e necessidades próprias a cada povo, e pela consciencia de todos os outros, que dentro do respeito da soberania e do exercício da política como garantes da identificação, da transmissão das suas preocupações e na tradição de enquadramento do debate político, percebem a necessidade de existência de um corpo político que corresponda à sua identificação geográfica, à solidariedade sentida, aos usos e costumes cimentados e sedimentados. É este corpo político que permite aos cidadãos de um país expressarem, na obediência às leis, o seu "patriotismo institucional". No mundo complexo de relações que se tem criado na União Europeia, a esperança residente em Bruxelas baseia-se na certeza da cada vez mais difícil e penosa missão da política em ser instrumento organizador da vida dos homens em sociedade ao nível nacional, pela perca dos poderes legislativo e normativo, tornando-se num exercício secundário e inadaptado aos problemas colocados pelo federalismo.
A crise de políticos e das ideias políticas advém desta dificuldade adaptativa, caminhando para o crónico.
Perdendo-se a organização piramidal do poder, perde-se a componente hierarquizante da lei.
As grandes decisões já não originam as pequenas decisões.
A crise da concepção espacial do poder repercute-se, assim, na formação das decisões, tornando-se os Estados nacionais letárgicos e a sua classe política acomodada, ausente na decisão e carente de orientação externa. O debate político, entendido como debate de princípios e ideias, debate ideológico sobre a organização da sociedade esfumar-se-ia, desagregando-se, reflexo da desagregação do processo de decisão e da sua profissionalização.
Numa democracia avançada tornar-se-ia cada vez mais difícil à classe dirigente conseguir uma visão geral das questões, sendo mais visíveis os interesses particulares, das grandes empresas, dos estados mais ricos, dos "lobbies" poderosos que não funcionando gratuitamente, tenderiam a beneficiar aqueles em detrimento dos mais pobres.
O engano existe na ideia generalizada de que o interesse geral nasce, naturalmente, da confrontação honesta e honrada dos interesses particulares.
A política existe como resultante de um contrato social que precede e ultrapassa todos os interesses particulares.
Se se abandonar este princípio, reduzindo a política a uma ferramenta de um "mercado" dominado por um centro decisor europeu poderoso, o espaço de que dispõem os políticos ficará irremediávelmente ameaçado, tendendo a desaparecer, pela simples razão de não ser possível ao "mercado" fixar valores para o interesse nacional, delimitando a equidade e solidariedade exigíveis.
Se o colectivo nacional não é um dogma mas sim uma opção, ninguém disporá dos meios capazes para fundamentar essa opção com critérios idênticos aos que guiam a sua acção na gestão dos próprios interesses. Não há dogma económico ou político que se possa substituir à evidência geográfica e histórica de uma nação. As democracias liberais sempre distinguiram e fizeram questão na distinção, entre esfera pública e privada, conciliando a lógica unidimensional dos interesses com a tradição humanista de que toda a pessoa é um sujeito.
O cidadão moderno era um ser bidimensional, preservando uma certa unidade interior em cada uma das facetas da sua vida. Abandonando o postulado da proeminência da política, a separação entre público e privado banaliza-se, pulverizando a ideia de próprio sujeito, pilar fundamental da democracia liberal. O mesmo homem pode pertencer, em simultâneo, a um partido político, a uma administração de empresa, a uma associação representativa dos cidadãos, mas perante a impossibilidade de se dividir infinitamente, não escapará a um conflito de interesses. Ao perder a dimensão temporal, fechando-se em situações em vez de se organizar à volta de princípios, o debate político esvazia-se de substância. O passo seguinte é a "mediatização" em crescendo a que se assiste hoje em dia, para gáudio dos "media", em que o efémero se substitui à consciência de um destino comúm, vivido em continuidade. É a sociedade dos homens sem memória.
É esta memória colectiva dos povos que Bruxelas pretende substituir por uma outra, inexistente, a memória de uma Europa unida política e geográficamente. Como essa memória colectiva nunca existíu, a tentação de artificialmente a criar conduzíu as elites europeias para uma Europa piramidal, de base invertida, pretendendo avivar paixões através de documentos e tratados, esquecendo que é através das paixões que nascem os pólos aglutinadores, as bases do funcionamento sólido das sociedades no respeito dos usos, costumes, história e tradições, todas comuns e identificáveis com um determinado espaço geográfico onde a população se revê.
Porque estas razões não foram atendidas aquando da "engenharia de construção" da nova Europa, nos "gabinetes projectistas" das instituições europeias, que previa um conjunto de Estados pescado por arrasto e preso nas redes de malha estreita feita de interesses político-económicos, os "banhos" de afluência às urnas em França e nos Países Baixos e a clara rejeição à ausência de memória e à instrumentalização dos povos foi tão clara e inequívocamente demonstrada.

COISAS QUE PERCEBO E OUTRAS NÃO...(3)

Sei que é legal receber uma pensão e auferir um vencimento em simultâneo, desde que pagos os impostos correspondentes.
Também era legal a reforma aos 60 anos. Contudo, o actual Governo entendeu mudar a regra a meio do jogo e agora, quem se quiser reformar, terá de esperar pelos 65 anos!
Conclui-se que o que é legal pode deixar de o ser, pelo que o argumento da legalidade, só por si, não é argumento sustentatório de uma posição de princípio. Há algo mais: os usos, os costumes, a moral! É nestes que se baseia a lei, aquela que não é discutível. Toda a restante é permissiva aos interesses do momento; se não o fosse seria imutável. Ora as necessidades do País levam a que se peçam sacrifícios e se retirem benefícios aos cidadãos. Assim sendo, quer-me parecer que alguém que está no pleno poder das suas faculdades - raciocínio que não deriva do desempenho da função ministerial, que cada vez mais me convenço não ser por aí muito exigente, mas principalmente porque o senhor doutor Campos e Cunha assim o aparenta - com total capacidade de suprir, através de trabalho qualificado, as suas necessidades, não se deveria encontrar reformado aos 52 anos de idade, recebendo 8.000 euros de reforma, (foi reformado com 49 anos), depois de ter trabalhado 6 anos!
Assim e para mim: é ilegal logo a reforma em si, também todo o sistema que o permite, bem como a acumulação das remunerações.
E se não fôr, se insistem que é legal, deixem-me gritar bem alto:
ESTE PAÍS ESTÁ DEFINITIVAMENTE A SAQUE E, BEM PIOR, DESAVERGONHADO!!!
p.s. É urgente legalizar a prostituição já. Cadastrem-nas para sabermos quem são, nomes e apelidos, façam-lhes análises periódicas e obriguem-nas a planear cuidadosamente as famílias. A uma mulher "da vida" não deveria ser permitido ter filhos senão depois de abandonada a profissão, por questões morais e éticas (a necessidade da criança identificar com irredutível certeza o pai é um direito inalienável). Ah! E já agora, obriguem-nas a reformarem-se só depois dos 70 anos!
E entretanto o ministro Luis Campos Cunha acha tudo muito normal e nem sequer pôe o lugar à disposição do PM.

Já estará agarrado à cadeira? Ou a ver o negócio do prédio urbano e rústico no valor de 426.500 euros de que é promitente comprador a ir para as calendas?... É que com o ordenado de ministro paga-a em 4 meses e uma semana, investe no país e ainda cria um emprego ou dois em Torres Vedras (o da criada e do jardineiro).
BlahBlahBlah
Não é justo!
Quem deveria ter trabalhado 6 anos e receber 8.000 euros de reforma era eu :)
BlahBlahBlah

Concordo inteiramente. Digamos que até nem me importava de ter trabalhado 8 anos e ter 6.000 euros de reforma, ou 7 anos e 7.000 euros, ou 9 anos e 5.000 euros e pronto, chegado aqui também já acho que é demais estar a aumentar e reduzir, porquanto não tarda e fico como todos os restantes portugueses: 14 anos e reforma népia! Porque a lógica aqui é somar 14 não é?
É que não encontro outra.. hummmmm...

A lógica aqui é uma batata. Eu estou é com inveja pura destas desigualdades :)
BlahBlahBlah

Não há lógica?????
Mas sem lógica como é que lá chegamos?
Qual o ponto de contacto com a realidade que ajude a construir cenários cujo objectivo passe pela obtenção da consideração profissional; que permita aos nossos pares considerarem que os serviços prestados às instituições ou mesmo ao País nos merecem uma reforma avultada no final de 6 anos de trabalho?
Como é que alavancamos as nossas competencias ( para além de acções de formação, MBA, pós-Graduações, Mestrado e experiência profissional) para conseguir atingir esse patamar? Como é que somos aferidos? Qual a grelha aplicável?
JHF
Não, não há lógica! Como é que lá chegamos?? Bom, quem se preocupar pouco com os meios a utilizar para atingir os fins usa o método habitual: compadrios, cunhas, permuta de favores, filiação partidária e suborno das bases. Quem tiver carácter e repulsa por estes metodos; hm, básicamente está tramado e se lá chegar foi por mero golpe de sorte ou mesmo muito talento. Como é que somos aferidos? Pelo circulo em que nos movimentamos e pelas mais valias que teremos capacidade de gerar em determinado contexto especifico. A grelha actual resume-se a dois vectores: capacidade financeira (ou pelo menos o aparato) e "influenzia". Alavancar competências só tem interesse para acrescentar umas linhas ao curriculum vitae. Gerar mais valias dessas linhas só emigrando... ou com inscrição partidária.Em boa verdade, não me parece que trabalho algum por conta de outrem, neste caso do Estado, por apenas seis anos mereça uma reforma vitalicia de 8.000 euros mensais. Por mais legal que seja, não me parece justo.Mas isso na perspectiva da árvore, porque na perspectiva da floresta Portugal tem um custo de vida superior a países como Espanha, França, Holanda, etc com sálarios médios abaixo dos ordenados minimos nesses países. Portugal, o Estado português, a maior parte das empresas e a maior parte dos portugueses há muito que entraram no vermelho, que estão em falência técnica. Ou seja todos precisam vorazmente de dinheiro e se for uma reforma legal só se for "parvo" é que diz que não a aceita. Saídas? A adesão à então CEE parece que não só agravou os problemas como gerou uma ilusão de riqueza a que todos se habituaram demasiado rapidamente, incentivando o consumo e o desrespeito pelo dinheiro e pela poupança. Não nos poderiamos ter dado ao luxo de não aderir. Teria sido impensável. Aliás, mesmo este Não à Constituição Europeia só faz sentido porque começou por ser ditado por um país europeu forte, França, e agora podemos ir todos a reboque de uma decisão sensata. Portugal sózinho nunca poderia ter votado Não, seria uma espécie de masoquismo e um passo sério para uma auto-exclusão que não temos qualquer capacidade para assumir. Saídas?? Soluções?? You tell me.
BlahBlahBlah

4.6.05

Aceleração do Movimento...

Francis Picabia - "Máquina Mais Rápida" Posted by Hello

FUNDAMENTAÇÃO FISCAL...

A coerção política do Estado justifica-se pelo objectivo redistribuição, atendendo à impossibilidade de confiar na redistribuição voluntária.
Em períodos recessivos, se o Estado optar por uma política contraccionista, aumenta o número de empresas que fecham, o número de desempregados cresce, o montante das transferencias para as famílias aumenta, - i.e., fundo de desemprego - aumentando a despesa pública não produtiva e diminuindo a receita fiscal. Aumenta, concomitantemente o défice, pelas piores razões. Mas serão todos os défices maus ?
Não, até os há bastante saudáveis e virtuosos, desde que correspondam a geração de riqueza e capacidade de reembolso. O problema é, então, qualitativo - como se gasta!.
Mas esta capacidade exige competências reforçadas de gestão da coisa pública, exigindo, simultâneamente, crescente responsabilização pelos resultados obtidos na gestão pública, pela receita e despesa.
Sem estes atributos não existe capacidade de fundamentar a coerção política fiscal sobre os contribuintes, pois estarão estes a dispôr de valores que muito para além de cumprirem a sua obrigação social, são utilizados erradamente, perdendo a sua capacidade multiplicativa.
Porventura, o Estado português, à míngua de receitas fiscais e inexistência de receitas extraordinárias, se veja forçado a jogar todas as semanas no euro-milhões, no totoloto, totobola e lotaria e ainda necessite, perante a incerteza das citadas fontes de rendimento, de jogar nos casinos, na vermelhinha e toda a espécie de raspadinhas que proliferam no mercado. Ou talvez, nesse dia, quando as receitas forem muito diminutas se assista a uma aplicação correcta dos dinheiros colocados à disposição do Estado. Mas o tempo perdido já terá sacrificado mais uma ou duas gerações de portugueses.

Adaptação livre, muito livre de "Uma Ilha na Lua" de William Blake

"Vou começar outra vez", disse o Cínico.
"Rompeu Sócrates empertigado,
Enxuto e de queixo arredondado,
Que gostaríeis vós de receber?"
E o povo perguntou: " E quem é Sócrates , meu Senhor?"
O Cínico respondeu rápidamente:
"É o deus da Medicina, Pintura, Perspectiva, Geometria, Geografia, Astronomia, Química, Mecânica, Táctica, Fraseologia, Mitologia, Astrologia, Osteologia, Somatologia, Teologia, Patologia e até Culinária - numa palavra, todas as artes e ciências são para ele como as contas do colar ao pescoço."
Chegados aqui, o Povo mostrou-se espantado e perguntou ao Cínico se Sócrates percebia também da Arte da Gravura.
Respondeu o Cínico que sim senhor, que sabia.
"Os pagãos na antiguidade costumavam ter deuses que veneravam e a quem faziam sacrifícios. Vocês devem fazer o mesmo com Sócrates agora", rematou o Cínico.
"Ah", disse o Povo, "E o Outro, também é tão instruído ?"
"Não", disse o Cínico. "Como é que podes ser tão néscio que penses que é?"
"Oh, eu não penso que ele é - só perguntei se é," disse o Povo.
"Como é possível pensares que não é e perguntares se é?" disse o Cínico.
"Oh não, Senhor. Eu pensava que sim, que ele era, antes de me dizer, mas depois fiquei a pensar que não é."
Diz o Cínico: " Em primeiro lugar pensavas que era, & depois, quando eu disse que não é, já pensavas que não é. Bem, eu sei que -"
"Oh, nada disso Senhor, eu pensava que ele não era, mas perguntei para saber se ele era."
"Como é que isso pode ser?", exclamou o Cínico. "Como é que podes perguntar, & pensar que ele não era?"
"Bem," disse o Povo, "veio-me à cabeça que ele não é."
"Mas porque é que então", insistiu o Cínico, "disseste que ele é?"
"Eu disse isso? Caramba! Não pensava ter dito tal coisa. Mas o que eu quis dizer. Eu - eu - eu não consigo pensar.. Caramba! Senhor, bem gostava que me dissesse como é que isto pode ser."
Então o Cínico pôs o queixo na mão & proferíu:
"Sempre que pensares, deves pensar por ti mesmo."
"Mas como, Senhor! exclamou o Povo. "Sempre que penso devo ser eu a pensar? Mas eu penso que sim. Em primeiro lugar - ..."
"Ora, ora!" disse o Cínico. "Não sejas parvo."
O Cínico então pôs-se a pensar: qualquer burro nato há-de dar um espertalhão , desde que seja devidamente educado. Se depender de mim, o Povo daqui a onze anos há-de ser um génio muito superior.
Neste momento fazem a sua entrada os Outros três filósofos, ( são cinco ao todo, contando com o Sócrates e o Outro ) dizendo em uníssono: "Vamos Povo! Diz lá qualquer coisa."
O Povo começou então: "Em primeiro lugar penso, eu cá penso em primeiro lugar que Sócrates é muito bom em Medicena, Fologia, Pistinologia, Aridologia, Arografia, Metamorfografia, Focinhografia, Suínogamia, Hinotomia, & atudo isso, mas, em primeiro lugar, ele comer minto pouco, suminalmente & ódepois morre!"
E foi assim que saíram todos da sala, & eles não puderam continuar a conversa neste propósito.
nota: o Cínico saíu de braço dado com todos, sem se comprometer com nenhum.
Há coisas com que de facto o dito senhor há anos(desde que se envolveu em politiqueirices pacóvias)se não preocupa, porque até para ter preocupações é incontornável ter qualidades minímas, coisa que definitivamente não tem, para além de um certo bairrismo nortenho bacoco bafiento.
Jorge

COISAS QUE PERCEBO E OUTRAS NÃO...(2)

Que os políticos têm mais e maiores oportunidades na vida que todos os demais cidadãos, já percebi eu e todos os demais portugueses!
Não percebo como se defende a nomeação do Dr. Fernando Gomes para a Administração da Galp baseada na experiência de dois mandatos como autarca, mesmo que com orçamentos de 250 milhões de euros - parca quantia do ponto de vista financeiro, havendo em Portugal fortunas pessoais muito superiores, que necessitam de ser geridas, os gestores estariam, forçosamente, muito melhor colocados para o lugar, se a competencia é medida por volumes de dinheiro geridos, como pretendeu o Ministro da Economia - depois de uma passagem mal sucedida pelo Governo e não tendo sido, sequer, um candidato plausível às autárquicas de Outubro, para a Câmara Municipal que supostamente tão bem geríu e que mereceu esta sua nomeação para a Galp.
Coisas que não percebo.
p.s. - há quantos anos não se preocupará o Dr. Fernando Gomes com: acções de formação na área da estratégia e da gestão; no acompanhamento das novas tendencias e teorias; com os novos instrumentos financeiros; as novas terminologias? Eu, pessoalmente, acredito que há muito, desde que é político.
Só mesmo as ligações políticas justificam nomeações como esta! Tudo o resto são loas, cantatas!

DEMAGOGIA POLÍTICA E, INFELIZMENTE, TAMBÉM ECONÓMICA...

E então as SCUTS ?
E então esses milhares de milhões de euros que vão "comer" todos os outros milhares de milhões que se pretendem agora poupar?
Porquê manter uma situação que não só beneficia apenas alguns portugueses, contando com o dinheiro de todos, como é uma espiral sem fim visível?
Quais os interesses privados que se defendem? E os públicos, quais são? Estes não percebo nem entendo! Porque, muito provávelmente (certamente) não existem!
E onde fica o princípio do utilizador/pagador?
Onde pára a equidade?
Porque razão há auto-estradas e há auto-estradas?
Até nas auto-estradas haverá umas mais iguais que outras?

COISAS QUE PERCEBO E OUTRAS NÃO...

Percebo que a lei permite, porque a conheço, que um reformado possa ter uma outra profissão remunerada, em acumulação com a reforma, desde que pague os seus impostos.
Coisas que não percebo:
  • que menos de 6 anos de funções no Banco de Portugal concedam o direito a uma reforma de 8.000 euros
  • que no conjunto das remunerações por via do ensino universitário, de algumas consultorias ou administrações não executivas, essa remuneração seja superior à de ministro
  • que um ministro ganhe tão pouco: como responsabilizar totalmente quem é tão mal pago?
  • que um pacote de austeridade que a todos afecta, mas que afecta mais quem tem menores recursos - a manta que já não estica só pode rasgar - seja defendida por um ministro que, nas suas contas caseiras verifica por simples soma e subtracção, que os 6.400 euros de vencimento de ministro são bem mais parcos que o somatório dos vencimentos auferidos na vida activa privada e, que se ainda se expurgar, mesmo que temporáriamente, da reforma do BP então não faz ideia de como suportar o nível de vida a que se habituou;
  • que se aceitem cargos públicos, quando se considera que a remuneração é insuficiente, incapaz de garantir padrões de vida definidos e ansiados pela expectativa da própria vida

Estas questões colocam-me outra: sendo conhecidas as condições remuneratórias e benefícios sociais concedidos aos cargos públicos; não bastando a honra pessoal e curricular do desempenho de altos cargos na função pública, mesmo que obrigando a alguns sacrifícios materiais momentâneos, sempre recompensados na pós-governação através das teias e redes de influência e das agendas telefónicas sobredotadas; perante estas questões fica a dúvida: qual a verdadeira razão de aceitação dos cargos públicos? Servir a "coisa" pública? Servirem-se da "coisa" pública? Exporem-se simplesmente?

Venho o primeiro que possa atirar a primeira pedra. Contudo há acções privadas que deixam de o ser quando se assumem posições públicas. Neste caso concreto o Sr. Ministro das Finanças deveria ter suspendido a pensão de reforma quando assumíu o pacote de austeridade como necessário. Não o fez então, devê-lo-ia fazer agora. Ainda não o fez nem consta que vá fazer! Porquê? Porque não consegue viver com apenas 6.400 euros mensais? E todos os outros, que vêem os seus salários reais diminuir cosntantemente e que quando ganham 1.000 euros mensais, já se consideram bem pagos?

E todos esses, como são considerados? Deserdados da sorte?


Roy Lichtenstein Posted by Hello

QUEM DIZ QUE AMOR É FALSO OU ENGANOSO

Quem diz que Amor é falso ou enganoso,
Ligeiro, ingrato, vão desconhecido,
Sem falta lhe terá bem merecido
Que lhe seja cruel ou rigoroso.

Amor é brando, é doce, e é piedoso.
Quem o contrário diz não seja crido;
Seja por cego e apaixonado tido,
E aos homens, e inda aos Deuses, odioso.

Se males faz Amor em mim se vêem;
Em mim mostrando todo o seu rigor,
Ao mundo quis mostrar quanto podia.

Mas todas suas iras são de Amor;
Todos os seus males são um bem,
Que eu por todo outro bem não trocaria.

(Luis De Camões)

A SINERGIA ESGOTADA...

A obsessão na manutenção de um projecto europeu ultra-aglutinador, em desrespeito pelas diferenças socio-culturais e económicas dos estados europeus, a qualquer preço, leva os políticos europeus a defenderem, em uníssono, a unidade política e económica europeia como factor determinante para a Europa recuperar o estatuto de "grande potência". A este objectivo encarado ferozmente, corresponde uma relação de resultado negativo: quanto maior a unidade europeia, menor a identidade nacional de cada Estado. E o resultado, que poderia ser de soma nula, é-o de facto deficitário por não ser possível fazer concorrer a intenção de construir uma "potência" à sombra da perca das identidades nacionais, porque as nações são o somatório de pessoas e as pessoas são a razão da própria Europa.

A cooperação europeia é benéfica para todos os europeus. Não se discute este princípio. Não se vislumbra, contudo, como será possível evitar a importância das economias nacionais enquanto mola real da atribuição e regulação dos recursos. Quando se estabelecem comparações, o Estado nacional é sempre a unidade primária de comparação, a nível económico, social e político.
Depois temos a questão da globalização: supostamente uma Europa fortemente unida e fundida num corpo único político, jurídico e económico, em suma, a federação de estados, responderia melhor aos desafios colocados pelos interesses negociais e aos desafios da economia de mercado do capitalismo avançado, representado por um crescente número de empresas transnacionais, sendo estas por definição representantes de interesses económicos que pouco ou nada têm a ver com espartilhos geográficos. Mas será a globalização um fenómeno económico assim tão forte e a existência de empresas transnacionais (ETN) um facto constatado em grande número ?
A resposta é não. Nem a globalização é assim tão feroz, nem as ETN são assim tantas.
Razões:
  • esta internacionalização da economia não é um facto novo - entre 1870 e 1914 a economia internacional foi responsável por um fluxo financeiro de longo prazo muito superior, caracterizando-se os movimentos actuais por fluxos de capitais de curto prazo, em sintonia com a rápida troca de informação e os avanços nas tecnologias de comunicação.A economia em 1870 era mais aberta e integrada que a economia actual;
  • as empresas transnacionais são difíceis de encontrar. Encontram-se, sim, empresas nacionais com actividade internacional (multinacionais), focadas no investimento entre economias muito semelhantes, interventivas ao nível da produção, serviços e "outsourcing";
  • a mobilidade do capital é pequena, procurando destinos norte-norte ou norte-sul quando as economias mostram pujança. Mas mesmo no segundo caso, não existe desvio de investimento para países terceiro mundistas e a concomitante criação de emprego.
  • a economia não é global. Se fosse que sentido faria falar na Tríade (G3)
  • assiste-se a um crescimento rápido da convergência de rendimentos entre as nações líderes, associado à sua desindustrialização, por contraponto com a rápida industrialização de economias em desenvolvimento (deslocalizações de investimento).
  • o GATT e a OMC garantem a regulação do mercado.
  • apesar de existirem elementos reguladores verifica-se a ausência de vontade política para limitar os estragos da actividade económica, quer a nível interno, quer a nível internacional.

Duas guerras mundiais, com dezenas de milhões de mortes e prejuízos incalculáveis, resultaram da ideia de que a prosperidade nacional implicava uma competição internacional feita através do vínculo a mercados exclusivos, menosprezando , assim, a necessidade de que o comércio se processe inserido num vasto e global sistema de trocas e de investimento.

Na razão directa do argumento avançado verificamos, neste momento, a expectativa com que os EUA acompanham a evolução das mudanças comportamentais dos "europeus", que os americanos consideravam estável e que verificam agora resultar numa instabilidade com que não contavam. Ao contrário do que supostamente algum argumentário político pretende fazer crer, para os EUA a instabilidade europeia não é uma boa notícia, pois em numerosas áreas económicas os EUA necessitam do apoio europeu, bem como lhes é extremamente vantajoso, no presente, um euro forte. Aliás, o falar-se num confronto entre euro e dólar e na possibilidade de aquele suplantar este, é o mesmo que afirmar que se pretende o confronto directo com a economia mais poderosa do mundo e com toda a zona de influencia directa do dólar e, ao fazê-lo, está a fazer-se a apologia da guerra económica.

Na concentracção dos esforços, a nível mundial, necessário para o equilíbrio que se desenhou nos parágrafos anteriores, só um salto para um modelo imperialista, muito estudado e referido na actualidade por polítólogos e sociólogos, ou a criação de um sistema mundial de controle unificado compreendendo toda a humanidade, poderia justificar uma única unidade política e económica, não europeia, americana ou asiática, mas efectivamente mundial. Qualquer sinal contrário resultará sempre em blocos oponíveis, mesmo que colaborantes em matérias específicas. Ora esse sistema já funciona na Europa, através da União Económica e Monetária e, mesmo esta, já representou um passo demasiado arriscado e de elevados custos para todo o espaço europeu. Digo e repito que a solução ideal para a Europa, como bloco, será uma Zona de Comércio Livre, abandonadas as ambições políticas supra-nacionais, pan-europeias e encarados os interesses e as necessidades reais de todos os europeus.

A questão pode colocar-se, igualmente, ao nível dos agentes económicos e financeiros internacionais (apátridas), para os quais as barreiras geográficas são irrelevantes mas que necessitam, obrigatóriamente, de lidar com agentes políticos, de os influenciar e convencer, e que esbarram na necessidade que estes têm de prestar contas a cada Estado nacional e, através do voto, à população. Igualmente para aqueles mais fácil será lidar com um órgão único, regido por disposições legais aplicáveis a todos os europeus, indiscriminadamente, tutelado por um conjunto restrito de países, que ter de negociar com estados nacionais mais expostos na sua actuação à opinião pública e à mensuração mais imediata dos resultados obtidos. raciocínio válido mesmo sabendo-se dos constrangimentos económicos actuais, impostos a cada Estado-Membro.

Também o poder militar pode ser apontado como necessitando de um controle supranacional, pela necessidade de investimentos avultados e protecção do espaço vital. Pode afirmar-se ao nível do equipamento nuclear, pelos elevados custos de desenvolvimento e produção, mas sendo a tendência dominante para o controle de armas de destruição massiva, o equipamento militar convencional continuará a ser a referência principal e este deverá permanecer sobre o controle estrito do Estado nacional, como garante da sua soberania.

Não nos podemos esquecer, contudo, que a Europa depositou largos anos nas mãos dos EUA a sua própria defesa, evitando gastos nesta área e desviando verbas dos orçamentos militares para os orçamentos da saúde, da educação e da solidariedade e, assim, beneficiando largamente do papel protector americano.

Para que uma federação subsista no tempo, necessário se torna encontrar laços de afinidade cultural e histórica e de afectividade entre os seus membros. Assim tem sido nos EUA e na Austrália. Atente-se, pela inversa, nos exemplos da Irlanda e da Polónia, cuja anexação e partilha não conduziram ao fim das identidades nacionais, conduzindo no caso irlandês, em particular, a manifestações violentíssimas.

Se a federação de estados europeus será o futuro ou não, se esse futuro conduzirá à perca das soberanias nacionais em assuntos vitais para os Estados, poderá haver quem discuta e, até, discorde do argumento. Mas de uma certeza deveremos fazer fé: não é possível criar uma cultura europeia comum nem tão pouco uma identidade europeia a partilhar.

Uma identidade europeia não suscita apoios populares, uma cultura europeia simplesmente não existe - não esquecer que não foi possível pegar em imagens de monumentos nacionais autênticos, para colocar nas notas de euro, por não ter existido consenso entre os membros da UEM de quais representavam verdadeiramente a cultura e o sentimento europeu, quais os mais emblemáticos. A Europa assemelha-se hoje a uma arena, onde se degladiam interesses, identidades e culturas. E, acima de tudo, poder.

Não existe lugar para uma nação europeia. Se a nação moderna é uma comunidade de princípios político-legais, também o é, em simultâneo, por uma herança cultural histórica. No aspecto interno, a nação constitui-se baseada num estatuto, tanto legal como social. É na existência de direitos e deveres exercidos em relação aos demais e estabelecidos em constituições formais que se expressa a vontade nacional. No aspecto externo, a nação deve ser autónoma e soberana, por forma a um correcto exercício de auto-governo como Estado soberano em relação a outros iguais. É igualmente territorial no seu carácter, onde a população se reconhece geográficamente num território que "lhes" pertence, razão pela qual Portugal com os seus quase 900 anos de coincidencia política e geográfica territorial não apresenta dissenções, ao contrário de Espanha, onde bascos e catalães pugnam por um reconhecimento territorial (político) diverso do centro político de Madrid.

Existem então razões políticas, culturais, históricas, sociais, organizativas, míticas, simbólicas, rituais e económicas para que os Estados mantenham a sua soberania, a sua individualidade. Existem igualmente razões culturais, históricas e económicas para que os Estados não possam ser considerados todos no mesmo patamar de crescimento e desenvolvimento, num mesmo período. Os estádios são diferentes, como diferente é a percepção do mundo e da vida em cada um de nós, partes fundamentais do todo num Estado não estratificado, como é a nação moderna.

"Como seria uma sociedade universal onde não existissem países, que não fosse nem francesa, nem inglesa,, nem alemã, nem espanhola, nem portuguesa, nem italiana, nem russa, nem turca, nem árabe, nem indiana, nem chinesa, nem americana, ou melhor, como seria o mundo se fosse estas sociedades todas em simultâneo?... Sob que preceitos e costumes comuns, sob que leis comuns se fundaria e funcionaria esta sociedade?" François René, Visconde de Chateaubriand, 1841.

2.6.05

MENTE HUMANA

Na sua versão mais humana,
A mente transforma os sentidos
Com presença insidiosa.
Terna, quente e buliçosa,
Na forma como nos prende e abana!

Numa outra mais verdadeira,
A mente fingindo que ama,
na alma ardendo em desejo,
A todos prende num beijo
De judas. A mente é muito certeira!

Mas naquela que nos interessa,
A mente mente na vida
Escondendo da própria alma.
Passa o discurso com calma
Sabendo que faltará à promessa!

Mente próxima da demencia,
Prenha de vaidade - desdita a sua -
Mentalmente procura a cura,
Numa qualquer alma pura,
Que lhe devolva a consciencia!


(João Fernandes)

CHICOTADA

Corre, tempo! Depressa!
Que eu oiça o movimento!
Faz ressoar o vento,
O tropel agoirento dos teus passos,
E leva-me nos braços,
Como um pai desumano do passado,
A esse apetecido
E odiado
Altar,
Onde, fiel a um Deus desconhecido,
Me vais sacrificar.

(Miguel Torga)

Dourdil (auto-retrato) Posted by Hello

SINAIS CLAROS...

Uma taxa de participação de cerca de 62% da população ultrapassou, largamente, o mínimo exigido e de compromisso político, fixado nos 30% de afluência, para que o sentido de voto no referendo fosse respeitado pela classe política holandesa. Mas porquê um mínimo de 30% ?
Tem resposta: nas últimas eleições para o Parlamento Europeu, a afluência às urnas na Holanda não tinha ultrapassado os 22% !
As razões por norma apontadas para abstenções elevadas e consequências políticas retiradas, são-no sempre no sentido do desinteresse e do afastamento verificado entre cidadãos e política, servindo para questionar, e bem, a conduta e condução política dos países, bem como o défice democrático que taxas baixas de afluência às urnas representam. Defendo, desde sempre, a obrigatoriedade do voto, por se constituir de facto numa obrigação, para além de um direito consagrado num estado democrático. A facilidade com que a classe política manipula a informação, quer através dos partidos, do aparelho do estado e dos meios de comunicação social, conduzindo o eleitorado no sentido do voto, mas igualmente na pertinácia de uma maior ou menor participação em actos eleitorais, sempre me levou a defender essa obrigatoriedade.
Curiosamente, a leitura política face a abstenções elevadas em eleições de cunho europeu faz-se, por norma, através de discursos que atribuem à complexidade de condução do processo europeu e à confiança depositada pelos cidadãos nas instâncias europeias e, nunca, por défice democrático ou pelo afastamento crescente pos povos europeus em relação a uma Europa onde já se reviram, mas onde hoje, só com alguma dificuldade e boa vontade se reconhecem.
Quando então verificamos que a afluência às urnas na Holanda foi três vezes superior à última votação para o Parlamento Europeu e ao invés de manifestações de alegria - já não digo júbilo - perante afluências recorde ( em França cerca de 70% dos eleitores) demonstrativas de uma vitalidade democrática e de uma atenção popular na construção europeia, fruto talvez de um maior conhecimento e identificação com a problemática da UE e, assim, garante, que toda a construção futura poderá ser executada tendo como base sólida a vontade dos povos, assistimos não espantados a afirmações do seguinte teor:
  • a Europa está "morta" ou "moribunda";
  • melhor será referendar todos em simultâneo, conjuntamente e esquecer os referendos já realizados;
  • nunca se deveria referendar estas matérias;
  • sabe-se como começam, não se sabe como acabam (os referendos);
  • o "eurocepticismo" está instalado.

Outras, muitas mais, poderiam ser indicadas, inclusivé referindo nomes e lugares políticos obrigados a uma muito maior responsabilidade verbal e discursiva.

O que deveria ser considerado como um sinal de vitalidade das populações e um interesse crescente na participação da construção da Europa, pelos cidadãos, através do exercício de um direito de cidadania básico - o voto - retirando os políticos, pela positiva, as ilações das manifestações de vontade exaradas em acto democrático, sofre desvios de interpretação, profundamente atentatórios dos direitos consagrados nas democracias ocidentais - a vontade e expressão populares - tombando para a autocracia, caída no desespero da percepção da própria democracia considerada não uma aliada mas um empecilho às decisões que se pretendem tomadas em gabinetes fechados e, quando anunciadas, assumidas como dogmas, irremediavelmente aceites e não discutíveis, como qualquer dogma que se preze.

É de um golpe de estado palaciano que nos damos conta, todos, quando prescrutamos nas entrelinhas de algumas afirmações ou, mais directamente, no despudor de outras tantas o drama instalado em Bruxelas e Estrasburgo e, por arrastamento, nos partidos políticos nacionais situados ao centro, ansiosos por mostrarem ser obedientes e alunos respeitadores das instituições europeias ("piscando o olho" ao seu próprio futuro).

Uma elite auto-proclamada pretende subjugar as gerações presentes, manipulando-as, enquanto ilude o futuro das gerações vindouras.

Há que continuar o caminho agora iniciado a bem da Europa, da sua paz, do bem-estar dos povos. Caso contrário, esta Europa que se apresenta doente nas instituições, poderá resvalar dramáticamente para um futuro incerto, à força do autismo das elites que a governam.

É a continuação do exercício da cidadania que se exige de todos, sem excepção, porque todos somos responsáveis pela condução do presente, ponte de entendimento entre a experiência do passado e as expectativas no futuro!

Sem dias ... a confiança uma vez quebrada nunca mais se recupera, fica sempre restaurada :)

BlahBlahBlah

1.6.05

CEM DIAS....

"O primeiro-ministro francês quer restaurar a confiança dos franceses nos próximos cem dias. Dominique de Villepin deve apresentar novas medidas e anunciar a composição do governo ainda esta semana".

Restaurar a confiança em cem dias, numa União Europeia que nasceu em 1993 e dura, portanto, há 12 anos?

Serão as famosas cem medidas em cem dias? Terão feito escola?

"...não estou aqui para enganar nem um, nem dois, nem três..........
estou aqui para enganar todos de uma vez!"

A PROPÓSITO DE CHOQUES TECNOLÓGICOS...

Uma imensa dúvida me assalta.
Quando é propagandeado, com pompa e circunstância, que o País carece de um choque tecnológico, não passará este igualmente pela instrução e aprendizagem nas escolas e, por maioria de razão, nas Universidades?
A minha resposta a esta dúvida é clara: passa e muito, senão tudo!
Então como explicar que seja permitido que a noite lisboeta e outras noites portuguesas, onde existem polos educacionais fundamentais, tenham estabelecimentos noturnos com licença de exploração até de madrugada? Não deveriam ser respeitados horários que garantissem que estas pequenas tentações da vida, que acabam por se tornar hábitos, estivessem mais de acordo com as necessidades da população estudantil, tendo em atenção o rendimento necessário para que exista verdadeira aprendizagem? É aqui que reside a minha dúvida estupefacta!
Porque não nos podemos basear para a produtividade e eficiência necessárias,nos denominados "marrões" que sempre existiram e existirão, em número reduzidíssimo, porque a vida dos países é garantida por todos os outros, os que não sendo "marrões" (não sendo "marrão" em tempo algum, sinónimo de inteligente, mas tão sómente de muito aplicado) se constituem no estudante normal, no indivíduo que é ele próprio a média. São estes que fazem os países.
Mas como incentivar o estudo e o ensino, se a sociedade lhes coloca a tentação em dias normais de semana, em idades tenras, sem qualquer prurido de necessidades tecnológicas e científicas?
Os problemas nunca estão isolados, formam redes onde se torna cada vez mais difícil distinguir a causa da consequência.
Comecemos por organizar a sociedade de acordo com as suas reais necessidades começando, em primeiro lugar, por reduzir o supérfluo e o acessório, para valorizar totalmente o fundamental.

Louis Schryver Posted by Hello

O "CHUMBO" HOLANDÊS

A Holanda está a votar e de acordo com a sondagem efectuada no passado Domingo, o "Não" irá obter 65 % dos votos expressos.
Será, então, o segundo País a rejeitar a Constituição Europeia ou, como eufemisticamente é chamado, o Tratado Constitucional Europeu.
Uma reflexão necessária: existirão na Europa cerimoniais que exaltem imaginações e preencham o coração dos europeus, como encontramos nos EUA, com a imagem de Washington, o 4 de Julho e a Constituição americana?
A resposta é claramente não!
Acaso haverá alguma tradição semelhante na Europa, de que todos nos lembremos já, agora mesmo quando estamos a ler este artigo, mesmo que inventada por Bruxelas ou Estrasburgo?
As únicas memórias que perduram são de calvários provocados pelas guerras e do holocausto judeu.
Analise-se o campo militar: verifica-se, com facilidade, que mesmo em missões de paz ou guerra, conduzidas pela NATO ou ONU, em que a Europa decide participar (i.e. Bósnia), quando sucede a infelicidade de uma baixa militar, o luto que se lhe segue é estritamente nacional, assim apresentado pela imprensa e assim entendido pelas populações. O luto está reservado aos "compatriotas" e não à Europa. Porque o "país" Europa não existe. Não existe um espaço geográfico onde, confinado, um povo europeu se reveja em todas as memórias e mitos, sendo esse espaço geográfico o "país" Europa.
Depois, os problemas são intrinsecamente diferentes, de País para País. Os problemas que hoje nos afligem são diversos dos problemas que afligem a Holanda, a Alemanha, o Reino Unido, a Espanha, a Estónia, para citar só alguns. Porque, na realidade a citar, teria de os citar a todos, porque todos se encontram em fases de crescimento económico diferentes, requerendo diferentes medidas. A economia se considerada como uma gripe, exige tratamentos diferentes, consoante o paciente, ou por outras palavras, em economia não há duas gripes iguais.
Os diversos povos europeus começam a sentir fundo, a crise que assola a Europa, ao nível económico e social e a ausência de soluções políticas, que respondam às necessidades individuais. A crise chegou à rua! Desceu dos gabinetes, que não a conseguem resguardar mais, como desceu este Tratado Constitucional. A pirâmide está invertida, construída do topo para a base, por elites que se encontram longe dos reais problemas dos países e respectivas populações, de enredadas se encontram em lobies e tramas políticas, em formas e conteúdos de divisão do poder e, acima de tudo, escondendo as reais razões que se encontram por detrás das decisões tomadas, bem como uma explicação cabal e exaustiva dos riscos da tomada de determinadas atitudes.
Porque ninguém supõe, que quando se fala em política e economia, ciências inexactas, qualquer tomada de decisão não comportará, forçosamente, riscos elevados.
Os custos dos riscos até agora assumidos têm sido pesados para os povos que compõem a Europa.
E os povos querem fazer um ponto de situação, no momento exacto em que percebem que para o fazerem, terão de resguardar a pouca soberania que lhes resta.

30.5.05

O Poeta, a Poesia e o Pensamento

"Que sabe o poeta sobre a sua própria poesia senão o que disse nela? O que ela exprime no como e porquê do acto, ser-lhe-á permeável a uma análise crítica posterior? Decerto que uma forma de consciência acompanhada o poeta enquanto agente do acto linguístico que o faz tal. Criar poeticamente é dar à conscencialização própria e alheia determinados nexos de ideatos, de imagens, metáforas e símbolos. (...) Assim, por mais agudo que seja um poeta como pensador autónomo - isto é, para além ou por fora da situação criadora - o que poeticamente realiza furta-se-lhe talvez à objectivação analítica."
(Vitorino Nemésio)

Resultados Finais do referendo em França sobre a
Constituição Europeia Posted by Hello

A "Europa das Pátrias" de Charles de Gaulle...

A "Europa das Pátrias" foi uma ideia defendida intransigentemente por De Gaulle.
Aos valores, símbolos, memórias, história e tradições, elementos aglutinadores dos povos, devemos aduzir hoje as razões económicas, sociais e os receios políticos.
O mercado interno de bens tem beneficiado e continuará a beneficiar os estados mais poderosos em detrimento dos Estados mais pequenos, parcos em recursos; o mercado de emprego não funciona pela sua quase nula mobilidade, razão directa da existência de variadas políticas de estados-providência e de regimes fiscais; o mercado dos serviços encontra-se ameaçado pelos países de leste.
Uma União Europeia fechada prejudicará irremediavelmente as relações económicas com o Terceiro Mundo ( ou o Outro Mundo, conforme se preferir) e conduzirá, inevitavelmente, a um domínio económico e político da Alemanha. Aliás e a este propósito repare-se como a Alemanha se apressou a ratificar a Constituição Europeia em sede parlamentar, numa tentativa esforçada de encaminhar o voto nos restantes referendos.
Acontece que a França, exaurida, não acredita pertencer ainda ao clube dos mais ricos e, pior, não vê como conseguirá lá chegar de novo, no actual enquadramento político e, principalmente económico da União Europeia. Que dizer então, num quadro novo e nebuloso, de uma Constituição cujos contornos apontam para o referido poderio alemão.
Os franceses só poderiam votar "Não"!
A "Europa das Pátrias" gaulista prevaleceu!

PALAVRAS PENSADAS E SENTIDAS (1)

Yupeeee! Os franceses deram o exemplo do fim da ditadura europeista. Isso da submissão à "mão que dá de comer" é cantilena para as massas sem iniciativa e subjugadas ao poder do dinheiro. Está bom para chineses que se habituaram aos mandarins ainda nós tinhamos o Viriato em tronco nu e embrulhado em peles. A cada país a sua Constituição e a sua própria liberdade de escolha de direitos e garantias de acordo com as suas idiossincrasia especificas. Ao diabo com as uniformizações a troco das esmolas da CE.
A Europa poderá ganhar outro fôlego. Poderá! Porque o esforço de garantir uma Europa que respeite a individualidade, a necessidade de tratar os diversos males com diversas receitas, está ainda por fazer. Mas deu-se um passo importante no sentido da compreensão das idiossincrasias específicas, como muito bem diz, da importância da política económica e social se virar para as populações, da necessidade de terminar com políticas assentes em neo-liberalismos conducentes à ruína dos estados, destes ganharem consciencia da necessidade de intervirem de uma forma bem mais activa e reguladora na actividade económica, dando outro sentido ao exercício político e à preocupação social.
O movimento para a criação de uma consciência europeia baseada no respeito pelas diferentes vontades, culturas, história e tradições dos povos que a compõem, dispostos a construir um espaço onde a condição de europeu não colide com a noção de cidadania, começou agora. A recompensa final será uma sociedade mais igualitária e menos sectária, mais solidária e menos elitista, mais humanizada e menos excludente.
JHF

A Falácia de Marcelo...

A falácia de Marcelo Rebelo de Sousa:
A União Europeia convida cada vez mais membros, mas reduz drásticamente o diâmetro da mesa. O diâmetro não é discutível porque o espaço é exíguo.
Só é pena que Marcelo se esqueça, enquanto português, que Portugal não tem lugar na que seria a nova mesa de refeições europeia.

Mike Bernard Posted by Hello

29.5.05

A Ausência de Isenção na Comunicação Social...

A BBC, no consulado de Margareth Tatcher diria: " France (thank´s God), says NO....".
No consulado de Tony Blair diz: " France fails to approve..."
Sinal dos tempos e da honestidade intelectual das elites para com as populações, que juram servir acima de quaisquer interesses.
"Le non obtiendrait entre 55% et 55,6% des voix contre 44,4% à 45% pour le oui, selon les estimations des instituts de sondage CSA pour France3 et Ipsos pour France2. La France est le premier Etat-membre de l'UE à se prononcer contre la Constitution européenne, alors que neuf pays sur 25 l'ont déjà approuvée". Canal F2
Nove países onde, com excepção de Espanha, não foi feito qualquer referendo! A origem do "sim" nesses países está explicada! A classe política vigente não quer perder privilégios e o referendo, como se constata, é perigoso para todos eles!
Nota: o referendo espanhol realizou-se num tempo de viragem política, em que o PSOE canalizou o sentido de voto, baseado no capital de mudança. Em condições normais não acredito que os espanhóis, nacionalistas como os conhecemos, tivessem votado pelo sim, como o fizeram

GANHÁMOS A PRIMEIRA....

porque somos todos europeus, porque ganhamos todos que acreditamos num projecto europeu mais solidário, onde o estado mais interventivo tenha capacidade de defender as diferenças específicas de cada nação ao nível económico, político e social, numa base de construção de uma Europa mais igualitária nos deveres e nos direitos. Onde na realidade o bem-estar seja, de facto, o denominador comum do espírito europeu e não simples propaganda política.

Última Hora:
Afluência de votantes: 80 % dos recenseados. Fantástico e demonstrativo da importancia deste referendo para os povos, na preservação da sua identidade e individualidade cultural, histórica e social.

Resultados previstos: 55 % NÃO .............45 % sim.

O NÃO Ganhou e ganhando ganha a União Europeia, ganhamos todos!

É necessário Continuar a Referendar, Independentemente dos Resultados Apurados

Seja qual fôr o resultado do referendo francês - às 22 horas portuguesas já o conheceremos com alguma certeza - os restantes referendos deverão manter-se, como fixados, em toda a Europa. Ao contrário da visão de Tony Blair, o referendo é necessário, independentemente de bastar um único "Não" para que o TCE fique travado na sua aplicabilidade. E é necessário, porque a União Europeia tem de aferir o grau de adesão dos países a um cada vez maior aprofundamento e essa aferição tem igualmente de ser analisada à luz da "antiguidade", enquanto membro, dos países onde se realizem referendos. Um "Não" em França (caso suceda), na Holanda, no RU ou Portugal, é diferente de um "Não" num país recém entrado, como o será o "Sim", pela experiência europeia acumulada, pelas expectativas geradas e já constatadas no seu grau de realização, pelas preocupações entretanto surgidas, pelas limitações constatadas pelo contínuo aprofundamento que se vem verificando nos vários tratados ractificados e das repercurssões sentidas, a nível interno, na aplicação das políticas económicas e sociais. Porque é necessário perceber o que a população europeia pensa dos mergulhos que a UE tem efectuado e o limite da profundidade do mergulho em apneia, porque o oxigénio, como se verifica, está a terminar em todos os países.

LORD DARTH VADER DOS TABÚS...

Os políticos europeus e europeístas já nos habituaram aos discursos arredondados, de leituras múltiplas, como o de A. Cavaco Silva quando afirma: "...nunca fui um defensor entusiasta do referendo..." (defende ou não defende? O que é não ser defensor entusiasta?), "... Sabemos sempre como começam os processos de referendo, mas nunca sabemos como eles terminam..." (seria muito interessante poder manipular completamente os referendos, como se manipulam os votos nas eleições legislativas, através de ópticas e lealdades partidárias) ; "... É uma ilusão pensar-se que é agora, desta vez, que os portugueses vão analisar em profundidade as alterações aos tratados europeus..." e assim o professor "...acreditar que a Constituição Europeia poderia ser aprovada no Parlamento". Cavaco Silva é a favor da Constituição, abomina o referendo e não reconhece capacidade aos portugueses para se debruçarem sobre matérias que digam respeito ao seu próprio interesse. Para o Professor haveria que pensar por todos nós, exercício que estaria ao alcance da elite política portuguesa. Ouvi em 2004, numa conferência patrocinada pelo Instituto Francisco Sá Carneiro, argumentos idênticos proferidos por Jaime Gama, menos burilados e mais directos é certo, mas compreensíveis por não se tratar de um candidato a candidato à Presidência da República.
Vejamos qual o discurso que se segue depois da vitória do "Não" em França.
É que os discursos arredondados, que implicam expansão para as extremidades, de nada servem quando o sentimento no bolso das famílias europeias é divergente do arredondamento: a retracção das suas finanças!
Depois do ataque de Miguel Cadilhe, a vida não está própriamente a sorrir ao "Darth Vader dos Tabús!

Antoine Bouvard Posted by Hello

QUANDO AS RAZÕES DEIXAM DE O SER

Assisti ao debate em directo na TF2, terminado já 6ª feira dentro, última tentativa do Sim ganhar espaço ao Não, e deste garantir a vantagem que as sondagens francesas (nem sempre inteiramente de fiar) lhe atribuem - números de 6ª feira 55% Não.
Algumas das afirmações que ouvi prefiguram uma nova forma de combate à inteligência e intelectualidade:
  1. "com a aprovação de uma Constituição Europeia, a capacidade de gerar paixões pela União Europeia no seio dos Estados-Membros e, por inerência, em todos os cidadãos europeus, seria enorme". Não me recordo de nenhuma Constituição no Mundo que tivesse nascido como semente geradora de paixões; recordo-me de todas as outras que nasceram fruto das paixões dos homens;
  2. a grande preocupação do "sim" em vincar a dicotomia esquerda/direita, pelos extremos, todos juntos numa espécie de albergue "espanhol". Quando a tendência de voto aponta 55% de votantes "Não" e os defensores do "Sim" insistem neste pecadilho, em França - não esquecer que é da França que falamos - é porque por uma qualquer razão, a democracia naquele país já terá vivido melhores dias. Porquê? Porque: ou 55% dos eleitores estão extremados políticamente ou; não distinguem os discursos das "extremas" e, mais grave, não têm consciência política desenvolvida, o que a ser verdade e para um país que viveu uma revolução no séc. XVIII, em nome da liberdade dos cidadãos, será tudo menos brilhante;
  3. a insistência do factor "Turquia" no discurso da extrema-direita. Quem vota pelo "Não" em Portugal nem leva a Turquia em linha de conta no seu raciocínio, mas dá que pensar que em França este seja um argumento plausível de ser explorado junto do eleitorado. Hoje Turcos assumidamente, hoje ainda Portugueses dissimuladamente, tanto faz. O que importa é a clara intenção - nada tendo a ver com a questão geográfica definidora de onde começa e acaba a Europa, se a Turquia deve ou não ser considerada uma nação europeia - que nada tem a ver com a Constituição que agora discutimos, mas sim com uma outra vertente muito mais intrincada e de origem xenófoba. Quer queiram quer não, só vem mostrar claramente que não gostamos todos uns dos outros, que não existe essa coisa tão importante que é a solidariedade europeia;
  4. uma espécie de atentado intelectual: as intervenções directas do Presidente da República francesa na campanha pelo "sim", esta mais grave que todas as outras; a intervenção directa do Primeiro-Ministro francês na campanha pelo "sim"; a intervenção de membros do governo pelo "sim" (a exemplo do que se passa em Portugal" onde o Presidente da República igualmente se colocou ao lado do "sim", dando inequívoca prova da inexistência de uma equidistancia que primasse pelo respeito de todos os portugueses, mostrando claramente tratar-se, tão sómente, do presidente de alguns dos portugueses); e, "at last but not least" as declarações gravadas de Zapatero - sim, estão a ler bem, do primeiro-ministro espanhol - e do Presidente da União Europeia, passadas na televisão incentivando ao voto "sim" no referendo francês - NO REFERENDO FRANCÊS! Incroyable!!
  5. a população francesa não vai referendar a Constituição mas sim plebiscitar a acção governativa. Ou seja, o referendo não terá validade enquanto consulta sobre o TCE, porque é da acção governativa que se trata. É esse o verdadeiro motivo do descontentamento e do provável "Não". De facto tem tudo a ver com política interna, com a capacidade maior ou menor de responder às necessidades e aos desafios, mas tem pouco ou nada a ver com o desempenho do actual governo. Será um motivo de preocupação alargada, pois se nas actuais condições não é possível governar a contento das populações, que dizer de uma capacidade política ceifada nas suas competências essenciais?

Assim nos surge, nas manifestções verbais mais diversas, a tolerância mínima da inteligencia e da intelectualidade, que prima pela opinião elitista diminuindo, senão mesmo menosprezando, a capacidade de análise e de opinião das populações. Assim vão os estados de direito, as democracias europeias.

27.5.05

RACIOCÍNIO FALSO E MANIPULANTE

MÁRIO MELO ROCHA SOBRE O "SÍTIO DO NÃO"
"O sítio do “não” agrupará por via negativa sem que haja um denominador comum para lá do próprio “não”. A extrema-direita e a extrema-esquerda juntar-se-ão aí. Integralistas, anti-europeus e eurocépticos militantes aí estarão. Saudosistas do Império aí residirão. Será um albergue destrutivo e demagógico. Uma espécie de novo “sítio do pica-pau amarelo” sem pirlimpimpim. Em que todos verão na Europa e no Tratado Constitucional bruxas e demónios, criaturas de três olhos e afins. Sabemos não ser assim. Mas também sabemos que não se sabe o que propõem para lá da rejeição." in Diário Económico, 24/5/05


A questão que hoje se levanta na União Europeia é simples e objectiva: estaremos nós, cidadãos europeus, na disposição de passar de um modelo intergovernamental para um modelo federalista? Sim ou Não?
A questão, como se verifica, é metodológica, no poder e na forma de organizar e gerir a Europa.
É absolutamente abusivo considerar que quem se opõe à federação de estados europeus seja contra a Europa. A argumentação neste sentido será igualmente válida se utilizada por quem defende a actual metodologia, de independência e autonomia dos estados nacionais, face a quem pretende substituir organizações de controle por organizações de comando.
Cabe a cada cidadão decidir por si próprio como se sente mais confortável, face aos valores que defende e à doutrina social que professa. É estranho que os principais partidos políticos nacionais, ao nível dos seus dirigentes e não ao nível das bases e dos simpatizantes, defendam a mesma política federalista.
Porquê?
Porque se coloca a Portugal o desafio de funcionar como "ponte" entre a UE e a CPLP, detendo competencia e capacidade incontestada para o fazer (atentem-se nos recentes festejos pró-Benfica em todo o Mundo português, não por ser o Benfica ou futebol, mas pelo que o gesto demonstra de proximidade, mesmo identidade emocional, sendo certo que é esta o cimento primeiro da solidariedade e compreensão nos povos) e a possibilidade histórica de um ganho de importância, ao nível da lusofonia e da UE, misto de oportunidade e responsabilidade que não pode ser nem perdida nem alijada.
Não se percebe, então, a tentativa de malbaratar este importante activo defendendo uma dependencia política, validada no normativo constitucional, para um directório de países centrados actualmente no eixo Paris-Bona.

É do Congresso de Haia de 1948 (já por mim referido no artigo " O INVERNO DA IDENTIDADE EUROPEIA"), da luta pelo poder e das diferentes perspectivas para a Europa que falamos.
E desde 1948 o projecto europeu tem avançado, gozando do apoio de todos os países envolvidos, independentemente do espaço Schengen e da zona euro não serem partilhados por todos os membros. Mas esse facto não nos dá o direito de dizer que uns são mais a favor da UE do que os restantes, que uns são mais europeus do que outros. Se alguém o pretender fazer no mínimo será extremamente redutor.
Depois, parece esquecido pelos acérrimos defensores do Sim, que a discussão sobre o TCE pode e deve ser feita por todos os povos, em todos os países da União. A questão, como já afirmei, é transversal, não só ao nível nacional mas também a nível europeu. E é de transversalidade que falamos versus verticalização de processos. Cabe a cada um decidir em consciência e, para que tanto seja viável, só com esclarecimentos, com diálogo aberto e franco, esgrimindo argumentos válidos, razões pertinentes sejam elas políticas, ideológicas, sociais, históricas ou económicas.
A matéria é tão abrangente e pertinente, que querer reduzir a discussão a algumas "elites", desconsiderando todas as restantes opiniões, só pode resultar de um exercício de "mau gosto", ou de discursos encomendados.
Na realidade, a questão em Portugal até se colocou sempre ao contrário, com a culpa desta situação a recair sobre os principais partidos, que abraçaram uma mesma posição ab initio.
Porque a discussão deveria ser outra: nós, os que estamos com o NÃO conhecemos o caminho até agora trilhado, os seus escolhos e perigos. Quem quiser modificar as regras do jogo, substituindo o consenso pela imposição normativa e política, depois de terem sido retirados os instrumentos económicos, que se trate de explicar muito bem, porque, à priori, estamos todos contra!
É ao Sim que faltam os argumentos.
O NÃO tem-nos de sobejo!
JHF

24.5.05

COISAS SIMPLES...

O gravíssimo problema económico-financeiro com que Portugal se debate não nasceu com o último governo PSD, nem com o último governo PS, nem com o penúlt.....
Nasceu com o congelamento dos preços e a subida acelerada dos salários reais em 1975, prolongada até 1982.
Daí para cá só numa vertente foram todos culpados: a inépcia para governar Portugal!
E aí, em sede de competências, são todos iguais: "muita parra, pouca uva".