8.6.05

SEM CALÇAS E DE MÃO ESTENDIDA....

vai Portugal, conforme se pode depreender do que aqui se lê!
Mas tal não nos deve espantar. Só mesmo quem ande muito a leste da realidade nacional não percebeu já que o Nosso País se transformou, de há muito, numa meretriz europeia, sedenta dos "fundos" de Bruxelas com que apara os golpes e aguenta uma vida de ostentação para a qual apresenta, cada vez menos, condições.
Daí que também, com as dificuldades crescentes, embora aparentando ainda algum pouco "glamour", se venha apresentando cada vez mais deslavada e desavergonhada.
Depois, o passar dos anos não ajudam e aquela que foi uma "jovem democracia" com piada, transforma-se aos poucos, por falta de verba e de cultura, numa "quarentona balsaquiana", muito pouco interessante e badalhoca.
Esta terceira república tornou-se numa "gaja rasca"!


Donald Fraser Posted by Hello

7.6.05

Cenários de Catástrofe Económica e Social Reais que não se resolvem por Tratado

Ainda o cenário de terror criado por Miguel Beleza, na certeza de que o economista sabe, de sobejo, que o TCE (Tratado Constitucional Europeu) nada vai resolver e que os problemas existentes são estruturais e muito perigosos. Pior: uma crescente dependencia da política interna das decisões tomadas em Bruxelas por um directório de países, só conduzirá a uma amplificação dos problemas no caso de Portugal, em particular, e de todos os pequenos e médios países em geral, no seio da União.
Em tese: o recente alargamento a 10 países, o maior de sempre, acarretou como esperado, problemas a vários níveis,
  • condições de apoio menores do que em alargamentos anteriores;
  • aumento das dificuldades de adesão à moeda única;
  • diluição do conceito de criação da UE (dos princípios criadores);
  • transferencia do projecto da UE para a arquitectura política;
  • não existência de ideias francamente mobilizadoras.


O papel do euro como unidade de conta, como "moeda-refúgio", depende de factores como a sua estabilidade cambial, peso da zona euro no comércio internacional, preferências nas transacções e política cambial de países terceiros.


Como foram calculados os critérios de convergência em Maastricht:

  • é possível demonstrar a relação entre o défice orçamental e a dívida pública em % do PIB, com uma simples relação matemática: d=yb, em que d=D/Y, b=B/Y e y=dY/Y, onde D é o défice orçamental, B a dívida pública e Y é o rendimento, todos em valores absolutos, excepto o rendimento (valor nominal).


Aplicando as condições do tratado, a igualdade d=yb reduz-se a: 3%=5% x 60%, o mesmo é dizer, assumir o crescimento do produto nominal em 5%, valor próximo do que se registava na Alemanha na altura da negociação do PEC.

Existíu então e desde logo, arbitrariedade na fixação dos critérios, nada tendo a ver com a teoria das ZMO (Zonas Monetárias Óptimas). O PEC (Pacto de Estabilidade e Crescimento), foi "construído" à imagem e semelhança da economia alemã.

Quando se verificam discrepâncias fundamentais nos princípios subjacentes à criação da zona-euro, como o aumento da despesa pública em vários países com implicações diversas, há influencia directa no défice orçamental e nos diferenciais das taxas de inflação entre países da zona euro e respectivos critérios de convergência. Os pilares de sustentação do euro desmoronam-se. Ninguém pode acreditar, em seu juízo, que perante o deslizar de umas economias em relação a outras as paridades fixadas se possam manter. Não existem sistemas de vazos comunicantes entre as economias europeias, (não existe um sistema fiscal único, não existe um modelo de estado-providencia único) e as verbas dos fundos comunitários (para Portugal têm funcionado como indemnizações e não como subsídios) são cada vez menores e mais divididas.
Um euro em Portugal não poderá valer o mesmo que na Alemanha, à paridade actual, se a performance económica portuguesa se fôr afastando, irremediávelmente, da performance alemã.

É discutível o conjunto de critérios que permitem fixar paridades entre moedas, mas não podemos esperar que estes critérios se alterem quando as prestações económicas são frouxas. Aqui surge o espectro da estabilidade cambial do euro. Não foi por mero acaso, que no mesmo dia em que foi anunciada a revisão do PEC, o dólar recuperou perante o euro.


Nada é certo neste momento, a não ser que os interesses alemães passam pelo centro e leste europeu, os franceses pela manutenção da ideia política subjacente às CE e que Portugal está pejado de problemas estruturais, a produzir muito pouco e a consumir mais do que pode. A Europa dividida por interesses económicos regionais, a várias velocidades, como sempre esteve, mas desta feita assumidamente, por imperiosa necessidade.

Verifica-se desta forma, sem sombras nem incertezas, que o cenário catastrofista enunciado por Miguel beleza e os defensores da Constituição Europeia já existe e não se resolve por Tratado, qualquer que ele seja.

Na Corda Bamba Monetária, Último Sopro Da Economia Moribunda

No debate do Prós e Contras de ontem sobressaíu a preocupação evidente de Miguel Beleza com a situação económica perfeitamente dramática que Portugal vive e a possibilidade de alguns dos fundamentos da UEM (União Económica e Monetária) poderem ser postos em causa e mesmo ruírem.
A preocupação com a moeda única chegou a ser lancinante e com inteira razão!
As paridades fixadas para as várias moedas nacionais apontaram, no caso nacional, para o valor de 200,482 escudos por cada euro.
A derrapagem, diria mesmo despistagem total com consequente "espetanço" da nossa economia, desde 1999 até hoje (não que as razões não sejam anteriores, porque são e muito, mas naquela data e já com alguma cosmética foi o valor obtido), colocou fortemente em causa essa paridade, ao ponto de se poder garantir que, se fosse fixado agora, seria um valor totalmente distinto - atrevo-me a dizer que andaria na casa dos 277 escudos por euro.
Assim sendo, a paridade actual dos 200,482 escudos é inteiramente irreal, ficcionária, não representando a diferença entre as actuais economias nossas parceiras na zona-euro e a nossa própria economia (as paridades, mesmo sem euro, não representam fidedignamente a pujança económica dos países quando comparados entre si, mas são indicadores expressivos).
O que deveremos então esperar da zona-euro: a manutenção ad aeternum das paridades fixadas em 99 ou uma reavaliação das economias, passados 5, 10, 15 ou mesmo 20 anos da constituição da moeda única?
A situação não é imutável e uma de duas coisas sucederá, aquando de uma próxima reavaliação das economias onde circula a moeda única: a) revisão das paridades ou; b) redução dos montantes de circulação de moeda, pelo BCE.
Num ou noutro caso as consequências funestas para Portugal não serão muito diferentes se a decisão tomada fosse acabar com o euro na Europa. Funestas e verdadeiramente dramáticas, essas consequências arrastariam, inexorávelmente, a nossa economia para a ruína.
Só que existe um dado que não pode ser escamoteado: na ruína já nós estamos, com "ratings" internacionais a apontarem a economia nacional como economia de algum risco e, se a situação dramática ainda não é de morte certa, deve-se à fixação da paridade, ainda em vigor, ser totalmente artificial.
Já estamos a viver do passado, baseados na história da família, para suportar penosamente a decrepitude do presente e a angústia no futuro.

Respiro o teu corpo

Respiro o teu corpo:
sabe a lua-de-água
ao amanhecer,
sabe a cal molhada,
sabe a luz mordida,
sabe a brisa nua,
ao sangue dos rios,
sabe a rosa louca,
ao cair da noite
sabe a pedra amarga,
sabe à minha boca.

(Eugénio de Andrade)
Bom Dia...

Donald Fraser Posted by Hello

5.6.05

MARCELO NA RTP 1....

A propósito das afirmações de A. Borges:
" Não conheço nenhum ministro que seja pobre, nem me lembro que alguma vez algum ministro em Portugal tenha sido um pobre. Portugal não tem ministros pobres nem se vislumbra que os tenha..."
Marcelo não se referíu às competências, às capacidades, às qualificações, às motivações, ao patriotismo.
Marcelo baseou-se na dicotomia pobre/rico. Percebeu-se no "lapsus facie" imediato, que tinha noção da arrogância e do asneiredo assumido e cometido. Mas estava dito!
Para Marcelo Rebelo de Sousa, ser rico é condição essencial para exercer funções governativas!
ESTÁ MESMO TUDO DITO!!!! Para Marcelo R. de Sousa.
Para todos os outros não o creio. Mas percebem-se claramente as razões de apoio de Marcelo à Constituição Europeia. Que enorme chatice partilhar "cocktails" com quem não é "rico".
Curiosamente, o "conde" trata todos os homens por "rico". Coincidências, porque os ricos a que Marcelo aludíu não são os "ricos" de Castelo-Branco (nunca sei se é com dois l´s ou só com um), mas, efectivamente, nem um nem outro dispensa os "ricos". Nem no governo!
Ó João!...Era uma ironia, a especialidade do professor. Pois é claro que maior parte deles não eram nem ricos nem achados antes de chegar ao Governo, mas a prática dos 10% está de tal modo instituida que ministros, secretários de Estado e autarcas ficam todos ricos em pouco tempo. E há tambem as reformas dos altos cargos...

Hm, a propósito: O Castelo-Branco tambem só passou a rico desde que trocou o título de Rómanova por RóbaVelha :p

A que "competências, capacidades, qualificações, motivações, e patriotismo" de que ministro é que Marcelo Rebelo de Sousa se deveria ter referido??
É que desde os finais dos gloriosos anos oitenta, ou seja mais ou menos nos últimos 15 anos, assim de repente não estou a ver nenhum com estas qualidades todas num cinco em um ... Maldade minha, só pode.

BlahBlahBlah

É, tem razão, só pode ter sido mesmo uma ironia :)
No resto também concordo, não encontro nenum, mas avançaria mais no tempo. Nos últimos 25 anos...

Olá João,
Ainda tens paciência para ouvir estes comentários? Confesso que já não tenho...prefiro ler e preparar-me psicologicamente para a semana de trabalho porque nós não somos ricos nem ministros...ah!ah!ah!, beijinhos

Anabela

CEREJA ENVENENADA

no TalvezTeEscreva

Sempre bem escrito, a que acrescento a seguinte nota.

nota: mesmo a legalidade é discutível, porque não aplicável aos cidadãos por igual.
E em que medida: na exacta medida que só muito poucos poderão ter acesso a lugares de favor pessoal, cuja contribuição para o país é nula e para as instituições duvidosa e, mesmo nesse cenário, gozarem do beneplácito de poderem auferir um rendimento perpétuo, com um mínimo de apenas 5 anos de exercício de funções.
E não esqueçamos que estamos a falar de um rendimento mensal garantido, obtido em apenas 6 anos de "trabalho", equivalente a pouco menos de 35 ordenados mínimos nacionais.
Já não é uma questão de "uns serem mais iguais que outros": é mesmo uma QUESTÃO DE DESIGUALDADE de tratamento, intolerável numa sociedade democrática e, acima de tudo, que se pretende de direito!

Roy Lichtenstein Posted by Hello

NA DEFESA DA AUTONOMIA POLÍTICA DOS ESTADOS

O modelo económico neoliberal não está, forçosamente, votado ao sucesso.
A ideia de um equilíbrio baseado no desemprego destrói a confiança na economia. Embora o fim último das empresas seja a maximização dos lucros, de todas mas principalmente das grandes empresas saídas de fusões e aquisições, não podemos esquecer que aliada à procura do lucro tem estado, desde a década de oitenta, a procura do prestígio, da fama e do poder, faces diferentes mas visíveis de uma mesma vaidade de todo um corpo de gestores e executivos ( não gosto da palavra mas tem de ser) alcandorados a posições de chefia. No entanto, a procura incessante do aumento dimensional das organizações levou a uma substituição clara, profunda e violenta dos capitais próprios pelos capitais alheios (dívidas). Aumentado o serviço da dívida, aumenta o efeito depressivo na economia, pela reducção das despesas de investimento, encerramento de unidades industriais, redução de salários e desemprego crescente. A economia habitua-se, então, a procurar equilíbrios não em pleno emprego, mas através da gestão de taxas de desemprego. A distribuição do rendimento começa então a ser desigual, criando desigualdades (a redundancia é necessária) entre as pessoas num espaço geográfico delimitado, entre populações em espaços mais amplos e, finalmente, entre os povos numa escala universal.
A incerteza económica traz uma necessidade: a capacidade de guardar liquidez (dinheiro que não é gasto nem investido). Os pobres, cada vez mais pobres, gastam sempre tudo e ainda devem; os rendimentos médios têm comportamento semelhante, fruto da redução salarial do agregado familiar, da carga fiscal e do endividamento assumido. Só os que são detentores de riqueza (os ricos) têm capacidade de escolha: ou poupam, ou gastam ou investem. Se pouparem reduz-se a procura e o ciclo recessivo mantêm-se com tendencia de aumento crescente, não restando outra hipótese aos Estados nacionais que não seja o aumento da despesa governamental e, por consequencia do défice.
Quando o dinheiro vai parar em grandes quantidades à mão de uns poucos, serão estes e não outros, a decidir qual o seu destino: investimento, consumo ou poupança! Quanto maior a sua capacidade de acumulação maior o risco das economias, pela crescente dependencia da decisão de uns poucos, que determinam a vida de muitos.
Assim, como deveremos defender-nos de uma economia que aprendeu a viver com a recessão?
Várias soluções são possíveis:
  1. ou se ocupam confortáveis posições de gestão, escudadas as mais das vezes em ligações políticas, evitando a todo o custo posíções intermédias nas estruturas empresariais;
  2. através da presença de espírito empreendedor, correm-se os riscos do investimento, esperando a recompensa do lucro;
  3. ou aceita-se pertencer a essa grossa camada de burocratas do funcionalismo público em instituições públicas nacionais ou, melhor ainda, em organizações internacionais onde se não fala de despesa e de défice;
  4. ou ainda, procuram-se profissões liberais.

Então e todos os outros, que não estão defendidos? Essa é a massa anódina e anónima, tornando-se numa excelente ferramenta de manipulação dos salários, por baixo entenda-se.

É então hoje, mais do que nunca, de diferenças profundas e de oportunidades desiguais que falamos, sendo a dependencia dos mais ricos crescente, por parte dos mais pobres. E quando falamos em pessoas falamos em países. O fosso entre países ricos e pobres é cada vez maior. A depressão económica chegou e não se vislumbra quando partirá, embora muitos tentem comprar-lhe bilhete todos os anos, anunciando a partida em discursos de esperança que abrangem sempre os anos seguintes. Mas a depressão vai ficando e o capitalismo instituído, suposto elemento atenuador e amaciador (dois em um) de tensões entre os povos vai-se esbatendo, perdendo a sua feição pacífica.

O conflito existe e não é ideológico: é um conflito feito do bem-estar de uns e as carências inexplicáveis dos outros. É através do discurso político e da intervenção política que se poderão atenuar os efeitos conflituais. É através de instrumentos de soberania que se evitam os focos de violência. Retirar aos países esses instrumentos, entregando-os à espiral do confronto social, equivale a perder a capacidade interventiva, única resposta válida à inversão verificada no início do séc. XXI: não são os mais abastados que colocam em causa os modelos fundados em economias alargadas, mas sim os esquecidos da vida que se tornaram acérrimos defensores da autonomia económica e social dos respectivos países.

António Barreto-Uma Surra Inesquecível

no SÍTIO DO NÃO

SÓCRATES...

O Antes e o Depois no bicho carpinteiro....

O FEDERALISMO EUROPEU - A SOCIEDADE DOS HOMENS SEM MEMÓRIA

A crescente tentação de abraçar estrepitosamente o federalismo, por alguns, e a resposta clara de muitos outros na recusa da sua aceitação, advém do desejo daqueles de conduzir ao mais que provável desaparecimento do Estado-Nação como o conhecemos e, com ele, à morte anunciada da política, constituindo elites todas poderosas e decisoras ao arrepio do respeito pelos valores, práticas e necessidades próprias a cada povo, e pela consciencia de todos os outros, que dentro do respeito da soberania e do exercício da política como garantes da identificação, da transmissão das suas preocupações e na tradição de enquadramento do debate político, percebem a necessidade de existência de um corpo político que corresponda à sua identificação geográfica, à solidariedade sentida, aos usos e costumes cimentados e sedimentados. É este corpo político que permite aos cidadãos de um país expressarem, na obediência às leis, o seu "patriotismo institucional". No mundo complexo de relações que se tem criado na União Europeia, a esperança residente em Bruxelas baseia-se na certeza da cada vez mais difícil e penosa missão da política em ser instrumento organizador da vida dos homens em sociedade ao nível nacional, pela perca dos poderes legislativo e normativo, tornando-se num exercício secundário e inadaptado aos problemas colocados pelo federalismo.
A crise de políticos e das ideias políticas advém desta dificuldade adaptativa, caminhando para o crónico.
Perdendo-se a organização piramidal do poder, perde-se a componente hierarquizante da lei.
As grandes decisões já não originam as pequenas decisões.
A crise da concepção espacial do poder repercute-se, assim, na formação das decisões, tornando-se os Estados nacionais letárgicos e a sua classe política acomodada, ausente na decisão e carente de orientação externa. O debate político, entendido como debate de princípios e ideias, debate ideológico sobre a organização da sociedade esfumar-se-ia, desagregando-se, reflexo da desagregação do processo de decisão e da sua profissionalização.
Numa democracia avançada tornar-se-ia cada vez mais difícil à classe dirigente conseguir uma visão geral das questões, sendo mais visíveis os interesses particulares, das grandes empresas, dos estados mais ricos, dos "lobbies" poderosos que não funcionando gratuitamente, tenderiam a beneficiar aqueles em detrimento dos mais pobres.
O engano existe na ideia generalizada de que o interesse geral nasce, naturalmente, da confrontação honesta e honrada dos interesses particulares.
A política existe como resultante de um contrato social que precede e ultrapassa todos os interesses particulares.
Se se abandonar este princípio, reduzindo a política a uma ferramenta de um "mercado" dominado por um centro decisor europeu poderoso, o espaço de que dispõem os políticos ficará irremediávelmente ameaçado, tendendo a desaparecer, pela simples razão de não ser possível ao "mercado" fixar valores para o interesse nacional, delimitando a equidade e solidariedade exigíveis.
Se o colectivo nacional não é um dogma mas sim uma opção, ninguém disporá dos meios capazes para fundamentar essa opção com critérios idênticos aos que guiam a sua acção na gestão dos próprios interesses. Não há dogma económico ou político que se possa substituir à evidência geográfica e histórica de uma nação. As democracias liberais sempre distinguiram e fizeram questão na distinção, entre esfera pública e privada, conciliando a lógica unidimensional dos interesses com a tradição humanista de que toda a pessoa é um sujeito.
O cidadão moderno era um ser bidimensional, preservando uma certa unidade interior em cada uma das facetas da sua vida. Abandonando o postulado da proeminência da política, a separação entre público e privado banaliza-se, pulverizando a ideia de próprio sujeito, pilar fundamental da democracia liberal. O mesmo homem pode pertencer, em simultâneo, a um partido político, a uma administração de empresa, a uma associação representativa dos cidadãos, mas perante a impossibilidade de se dividir infinitamente, não escapará a um conflito de interesses. Ao perder a dimensão temporal, fechando-se em situações em vez de se organizar à volta de princípios, o debate político esvazia-se de substância. O passo seguinte é a "mediatização" em crescendo a que se assiste hoje em dia, para gáudio dos "media", em que o efémero se substitui à consciência de um destino comúm, vivido em continuidade. É a sociedade dos homens sem memória.
É esta memória colectiva dos povos que Bruxelas pretende substituir por uma outra, inexistente, a memória de uma Europa unida política e geográficamente. Como essa memória colectiva nunca existíu, a tentação de artificialmente a criar conduzíu as elites europeias para uma Europa piramidal, de base invertida, pretendendo avivar paixões através de documentos e tratados, esquecendo que é através das paixões que nascem os pólos aglutinadores, as bases do funcionamento sólido das sociedades no respeito dos usos, costumes, história e tradições, todas comuns e identificáveis com um determinado espaço geográfico onde a população se revê.
Porque estas razões não foram atendidas aquando da "engenharia de construção" da nova Europa, nos "gabinetes projectistas" das instituições europeias, que previa um conjunto de Estados pescado por arrasto e preso nas redes de malha estreita feita de interesses político-económicos, os "banhos" de afluência às urnas em França e nos Países Baixos e a clara rejeição à ausência de memória e à instrumentalização dos povos foi tão clara e inequívocamente demonstrada.

COISAS QUE PERCEBO E OUTRAS NÃO...(3)

Sei que é legal receber uma pensão e auferir um vencimento em simultâneo, desde que pagos os impostos correspondentes.
Também era legal a reforma aos 60 anos. Contudo, o actual Governo entendeu mudar a regra a meio do jogo e agora, quem se quiser reformar, terá de esperar pelos 65 anos!
Conclui-se que o que é legal pode deixar de o ser, pelo que o argumento da legalidade, só por si, não é argumento sustentatório de uma posição de princípio. Há algo mais: os usos, os costumes, a moral! É nestes que se baseia a lei, aquela que não é discutível. Toda a restante é permissiva aos interesses do momento; se não o fosse seria imutável. Ora as necessidades do País levam a que se peçam sacrifícios e se retirem benefícios aos cidadãos. Assim sendo, quer-me parecer que alguém que está no pleno poder das suas faculdades - raciocínio que não deriva do desempenho da função ministerial, que cada vez mais me convenço não ser por aí muito exigente, mas principalmente porque o senhor doutor Campos e Cunha assim o aparenta - com total capacidade de suprir, através de trabalho qualificado, as suas necessidades, não se deveria encontrar reformado aos 52 anos de idade, recebendo 8.000 euros de reforma, (foi reformado com 49 anos), depois de ter trabalhado 6 anos!
Assim e para mim: é ilegal logo a reforma em si, também todo o sistema que o permite, bem como a acumulação das remunerações.
E se não fôr, se insistem que é legal, deixem-me gritar bem alto:
ESTE PAÍS ESTÁ DEFINITIVAMENTE A SAQUE E, BEM PIOR, DESAVERGONHADO!!!
p.s. É urgente legalizar a prostituição já. Cadastrem-nas para sabermos quem são, nomes e apelidos, façam-lhes análises periódicas e obriguem-nas a planear cuidadosamente as famílias. A uma mulher "da vida" não deveria ser permitido ter filhos senão depois de abandonada a profissão, por questões morais e éticas (a necessidade da criança identificar com irredutível certeza o pai é um direito inalienável). Ah! E já agora, obriguem-nas a reformarem-se só depois dos 70 anos!
E entretanto o ministro Luis Campos Cunha acha tudo muito normal e nem sequer pôe o lugar à disposição do PM.

Já estará agarrado à cadeira? Ou a ver o negócio do prédio urbano e rústico no valor de 426.500 euros de que é promitente comprador a ir para as calendas?... É que com o ordenado de ministro paga-a em 4 meses e uma semana, investe no país e ainda cria um emprego ou dois em Torres Vedras (o da criada e do jardineiro).
BlahBlahBlah
Não é justo!
Quem deveria ter trabalhado 6 anos e receber 8.000 euros de reforma era eu :)
BlahBlahBlah

Concordo inteiramente. Digamos que até nem me importava de ter trabalhado 8 anos e ter 6.000 euros de reforma, ou 7 anos e 7.000 euros, ou 9 anos e 5.000 euros e pronto, chegado aqui também já acho que é demais estar a aumentar e reduzir, porquanto não tarda e fico como todos os restantes portugueses: 14 anos e reforma népia! Porque a lógica aqui é somar 14 não é?
É que não encontro outra.. hummmmm...

A lógica aqui é uma batata. Eu estou é com inveja pura destas desigualdades :)
BlahBlahBlah

Não há lógica?????
Mas sem lógica como é que lá chegamos?
Qual o ponto de contacto com a realidade que ajude a construir cenários cujo objectivo passe pela obtenção da consideração profissional; que permita aos nossos pares considerarem que os serviços prestados às instituições ou mesmo ao País nos merecem uma reforma avultada no final de 6 anos de trabalho?
Como é que alavancamos as nossas competencias ( para além de acções de formação, MBA, pós-Graduações, Mestrado e experiência profissional) para conseguir atingir esse patamar? Como é que somos aferidos? Qual a grelha aplicável?
JHF
Não, não há lógica! Como é que lá chegamos?? Bom, quem se preocupar pouco com os meios a utilizar para atingir os fins usa o método habitual: compadrios, cunhas, permuta de favores, filiação partidária e suborno das bases. Quem tiver carácter e repulsa por estes metodos; hm, básicamente está tramado e se lá chegar foi por mero golpe de sorte ou mesmo muito talento. Como é que somos aferidos? Pelo circulo em que nos movimentamos e pelas mais valias que teremos capacidade de gerar em determinado contexto especifico. A grelha actual resume-se a dois vectores: capacidade financeira (ou pelo menos o aparato) e "influenzia". Alavancar competências só tem interesse para acrescentar umas linhas ao curriculum vitae. Gerar mais valias dessas linhas só emigrando... ou com inscrição partidária.Em boa verdade, não me parece que trabalho algum por conta de outrem, neste caso do Estado, por apenas seis anos mereça uma reforma vitalicia de 8.000 euros mensais. Por mais legal que seja, não me parece justo.Mas isso na perspectiva da árvore, porque na perspectiva da floresta Portugal tem um custo de vida superior a países como Espanha, França, Holanda, etc com sálarios médios abaixo dos ordenados minimos nesses países. Portugal, o Estado português, a maior parte das empresas e a maior parte dos portugueses há muito que entraram no vermelho, que estão em falência técnica. Ou seja todos precisam vorazmente de dinheiro e se for uma reforma legal só se for "parvo" é que diz que não a aceita. Saídas? A adesão à então CEE parece que não só agravou os problemas como gerou uma ilusão de riqueza a que todos se habituaram demasiado rapidamente, incentivando o consumo e o desrespeito pelo dinheiro e pela poupança. Não nos poderiamos ter dado ao luxo de não aderir. Teria sido impensável. Aliás, mesmo este Não à Constituição Europeia só faz sentido porque começou por ser ditado por um país europeu forte, França, e agora podemos ir todos a reboque de uma decisão sensata. Portugal sózinho nunca poderia ter votado Não, seria uma espécie de masoquismo e um passo sério para uma auto-exclusão que não temos qualquer capacidade para assumir. Saídas?? Soluções?? You tell me.
BlahBlahBlah

4.6.05

Aceleração do Movimento...

Francis Picabia - "Máquina Mais Rápida" Posted by Hello

FUNDAMENTAÇÃO FISCAL...

A coerção política do Estado justifica-se pelo objectivo redistribuição, atendendo à impossibilidade de confiar na redistribuição voluntária.
Em períodos recessivos, se o Estado optar por uma política contraccionista, aumenta o número de empresas que fecham, o número de desempregados cresce, o montante das transferencias para as famílias aumenta, - i.e., fundo de desemprego - aumentando a despesa pública não produtiva e diminuindo a receita fiscal. Aumenta, concomitantemente o défice, pelas piores razões. Mas serão todos os défices maus ?
Não, até os há bastante saudáveis e virtuosos, desde que correspondam a geração de riqueza e capacidade de reembolso. O problema é, então, qualitativo - como se gasta!.
Mas esta capacidade exige competências reforçadas de gestão da coisa pública, exigindo, simultâneamente, crescente responsabilização pelos resultados obtidos na gestão pública, pela receita e despesa.
Sem estes atributos não existe capacidade de fundamentar a coerção política fiscal sobre os contribuintes, pois estarão estes a dispôr de valores que muito para além de cumprirem a sua obrigação social, são utilizados erradamente, perdendo a sua capacidade multiplicativa.
Porventura, o Estado português, à míngua de receitas fiscais e inexistência de receitas extraordinárias, se veja forçado a jogar todas as semanas no euro-milhões, no totoloto, totobola e lotaria e ainda necessite, perante a incerteza das citadas fontes de rendimento, de jogar nos casinos, na vermelhinha e toda a espécie de raspadinhas que proliferam no mercado. Ou talvez, nesse dia, quando as receitas forem muito diminutas se assista a uma aplicação correcta dos dinheiros colocados à disposição do Estado. Mas o tempo perdido já terá sacrificado mais uma ou duas gerações de portugueses.

Adaptação livre, muito livre de "Uma Ilha na Lua" de William Blake

"Vou começar outra vez", disse o Cínico.
"Rompeu Sócrates empertigado,
Enxuto e de queixo arredondado,
Que gostaríeis vós de receber?"
E o povo perguntou: " E quem é Sócrates , meu Senhor?"
O Cínico respondeu rápidamente:
"É o deus da Medicina, Pintura, Perspectiva, Geometria, Geografia, Astronomia, Química, Mecânica, Táctica, Fraseologia, Mitologia, Astrologia, Osteologia, Somatologia, Teologia, Patologia e até Culinária - numa palavra, todas as artes e ciências são para ele como as contas do colar ao pescoço."
Chegados aqui, o Povo mostrou-se espantado e perguntou ao Cínico se Sócrates percebia também da Arte da Gravura.
Respondeu o Cínico que sim senhor, que sabia.
"Os pagãos na antiguidade costumavam ter deuses que veneravam e a quem faziam sacrifícios. Vocês devem fazer o mesmo com Sócrates agora", rematou o Cínico.
"Ah", disse o Povo, "E o Outro, também é tão instruído ?"
"Não", disse o Cínico. "Como é que podes ser tão néscio que penses que é?"
"Oh, eu não penso que ele é - só perguntei se é," disse o Povo.
"Como é possível pensares que não é e perguntares se é?" disse o Cínico.
"Oh não, Senhor. Eu pensava que sim, que ele era, antes de me dizer, mas depois fiquei a pensar que não é."
Diz o Cínico: " Em primeiro lugar pensavas que era, & depois, quando eu disse que não é, já pensavas que não é. Bem, eu sei que -"
"Oh, nada disso Senhor, eu pensava que ele não era, mas perguntei para saber se ele era."
"Como é que isso pode ser?", exclamou o Cínico. "Como é que podes perguntar, & pensar que ele não era?"
"Bem," disse o Povo, "veio-me à cabeça que ele não é."
"Mas porque é que então", insistiu o Cínico, "disseste que ele é?"
"Eu disse isso? Caramba! Não pensava ter dito tal coisa. Mas o que eu quis dizer. Eu - eu - eu não consigo pensar.. Caramba! Senhor, bem gostava que me dissesse como é que isto pode ser."
Então o Cínico pôs o queixo na mão & proferíu:
"Sempre que pensares, deves pensar por ti mesmo."
"Mas como, Senhor! exclamou o Povo. "Sempre que penso devo ser eu a pensar? Mas eu penso que sim. Em primeiro lugar - ..."
"Ora, ora!" disse o Cínico. "Não sejas parvo."
O Cínico então pôs-se a pensar: qualquer burro nato há-de dar um espertalhão , desde que seja devidamente educado. Se depender de mim, o Povo daqui a onze anos há-de ser um génio muito superior.
Neste momento fazem a sua entrada os Outros três filósofos, ( são cinco ao todo, contando com o Sócrates e o Outro ) dizendo em uníssono: "Vamos Povo! Diz lá qualquer coisa."
O Povo começou então: "Em primeiro lugar penso, eu cá penso em primeiro lugar que Sócrates é muito bom em Medicena, Fologia, Pistinologia, Aridologia, Arografia, Metamorfografia, Focinhografia, Suínogamia, Hinotomia, & atudo isso, mas, em primeiro lugar, ele comer minto pouco, suminalmente & ódepois morre!"
E foi assim que saíram todos da sala, & eles não puderam continuar a conversa neste propósito.
nota: o Cínico saíu de braço dado com todos, sem se comprometer com nenhum.