16.5.05


John Arbuckle Posted by Hello

ESCLARECIMENTO PRESIDENCIAL

Naquele seu jeito de falar sobre assuntos sérios atribuindo ao discurso desapego e, por vezes, alguma ironia, Jorge Sampaio promoveu uma palestra junto de estudantes universitários.
O tema: Constituição Europeia. A conclusão: ninguém deve ter temor do primado da Constituição Europeia sobre as Constituições Nacionais, porque, acima de tudo, esse era já um dado adquirido que não deverá merecer qualquer tipo de discussão mais azeda ou mesmo histeria perante a possibilidade de perca de soberania nacional no que de mais sagrado uma Nação tem: a sua Lei Fundamental (nas restantes áreas já pouco existe).
Aquele jeito desapegado de J. Sampaio sempre o vi como uma forma de o PR fugir a uma realidade que sabe existir e conhece melhor que ninguém: o seu quase total desconhecimento sobre as reais repercurssões de medidas de fundo tomadas ao nível da UE e, simultâneamente, fugir a diálogos que iriam, forçosamente, colocar a descoberto a sua tremenda impreparação histórica, filosófica, económica e social. Ademais, afinam todos pelo mesmo diapasão - Europa.
Aliás, este pequeno desabafo é motivado mais pela petulância que esse comportamento reiterado alberga, do que própriamente por gostar mais ou menos da figura (que não gosto). É da análise da atitude, nada educadora e profilática, antes distante e aligeirada, como se de assuntos semelhantes a cerejas se tratem, que advém esta minha crença de que o Presidente se escuda no trato, porte e abordagem aos temas numa arrogância mal disfarçada, na certeza de que como primeiro magistrado da nação, nenhuma questão se lhe colocará, se a essa questão não estiver pelos ajustes para a responder.
10 anos de ausência de respostas seriam de mais e, assim, nada como "amedrontar" através de postura de cátedra. Solilóquios presidencias, dos quais não se aproveitam princípios nenhuns enunciadores para uma tomada de posição em consciência, particularmente sobre a matéria referida.
Aliás é sintomático verificar que nesta questão da Const. Europeia, não se encontrem argumentos explicativos e formadores de uma opinião, mas meras tomadas de posição. Dizem: "sou a favor e todos deveremos apoiar o projecto da Constituição" e pronto, está, supostamente, tudo dito.
Quanto ao presidente: que diabo se poderia pedir a um homem que só ganhou uma Câmara Municipal e que nada fez? O mesmo que provávelmente a Santana Lopes!
Mas voltemos à questão da Constituição Europeia.
A Constituição é a Lei Fundamental do País. Todos os ramos do direito se lhe subordinam.
É na Constituição que estão consagrados os Direitos, os Deveres e as Garantias!
Ao aceitar-se o princípio do primado da Constituição Europeia sobre as Constituições Nacionais, mais se não está a fazer do que aceitar alterar a Constituição Nacional de forma a que esta "case" com aquela.
Por outras palavras, as Constituições Nacionais passarão a estar subordinadas à Constituição Europeia, pelo que terão, forçosamente, de ser decalcadas daquela.
Alteram-se assim os Direitos, Deveres e Garantias, bem como todo o direito subsidiário.
Perde-se a independencia, subjugada ao poder dos mais fortes. Ingerência total, firmada constitucionalmente.
O direito vigente em Portugal passa a articular-se de acordo com as leis fundamentais fixadas pelos países mais poderosos da UE (leia-se Alemanha em 70% e França em 30%).
O que a Alemanha não conseguíu pela força das armas, por duas vezes, irá obter do ponto de vista económico, suportado na legalidade constitucional.
Mas para os partidos políticos portugueses mais representativos, acrescidos do PR, este é um fado que não merece discussão, porque já era sabido de antemão.
Resta-nos o PCP, para o não à Constituição Europeia.
Ainda nos veremos na situação de ter de votar no sentido do PCP, a bem da Nação, no referendo sobre a Const. Europeia, o que não deixando de ser um voto absolutamente essencial, será perfeitamente surrealista.
Votar no NÃO defendido pelo PCP, "A Bem Da Nação"!!!!! Nunca o imaginei!
Partido político, com as cores nacionais e sentido patriótico procura-se. Agradece-se a quem encontrar que o divulgue com urgência!

Picasso Posted by Hello

A Concha

A minha casa é concha. Como os bichos
Segreguei-a de mim com paciência:
Fachada de marés, a sonhos e lixos,
O horto e os muros só areia e ausência.

Minha casa sou eu e os meus caprichos.
O orgulho carregado de inocência
Se às vezes dá uma varanda, vence-a
O sal que os santos esboroou nos nichos.

E telhados de vidro, e escadarias
Frágeis, cobertas de hera, no bronze falso!
Lareira aberta ao vento,as salas frias.

A minha casa...Mas é outra história:
Sou eu ao vento e à chuva, aqui descalço,
Sentado numa pedra de memória.

(Vitorino Nemésio)

Onde acharei lugar tão apartado

Onde acharei lugar tão apartado
E tão isento em tudo da ventura,
Que, não digo eu de humana criatura,
Mas nem de feras seja frequentado?

Algum bosque medonho e carregado,
Ou selva solitária, triste e escura,
Sem fonte clara ou plácida verdura,
Enfim, lugar conforme a meu cuidado?

Porque ali, nas entranhas dos penedos,
Em vida morto, sepultado em vida,
Me queixe copiosa e livremente;

Que, pois a minha pena é sem medida,
Ali triste serei em dias ledos
E dias tristes me farão contente.

(Luís de Camões)

She Weeps over Rahoon

Rain on Rahoon falls softly, softly falling,
Where my dark lover lies.
Sad is his voice that calls me, sadly calling,
At grey moonrise.

Love, hear thou
How soft, how sad his voice is ever calling,
Ever unanswered, and the dark rain falling,
Then as now.

Dark too our hearts, O love, shall lie and cold
As his sad heart has lain
Under the moongrey nettles, the black mould
And muttering rain

(James Joyce)

15.5.05

Para ver NASATV em directo.
Escolhendo o RealPlayer, o programa é seguido com legendas, seguramente uma mais-valia para os mais pequenos


Karen Yurkovich Posted by Hello

SONETOS

1
Chaves na mão, melena desgrenhada,

Batendo o pé na casa, a mãe ordena
Que o furtado colchão, fofo e de pena,
A filha o ponha ali ou a criada.

A filha, moça esbelta e aperaltada,
Lhe diz coa doce voz que o ar serena:
– «Sumiu-se-lhe um colchão? É forte pena;
Olhe não fique a casa arruinada...»

– «Tu respondes assim? Tu zombas disto?
Tu cuidas que, por ter pai embarcado,
Já a mãe não tem mãos?» E, dizendo isto,
Arremete-lhe à cara e ao penteado.

Eis senão quando (caso nunca visto!)
Sai-lhe o colchão de dentro do toucado!...

2
Vai, mísero cavalo lazarento,

Pastar longas campinas livremente;
Não percas tempo, enquanto to consente
De magros cães faminto ajuntamento.

Esta sela, teu único ornamento,
Para sinal da minha dor veemente,
De torto prego ficará pendente,
Despojo inútil do inconstante vento.

Morre em paz, que, em havendo algum dinheiro,
Hei-de mandar, em honra de teu nome,
Abrir em negra pedra este letreiro:
«Aqui piedoso entulho os ossos come

Do mais fiel, mais rápido sendeiro,
Que fora eterno, a não morrer de fome».

(Nicolau Tolentino)

O CÃO ATÓMICO

1.
Este cão tem folhas nas orelhas,

com quatro talos
mas o que este cão deveria ter era calos,
e só tem olhos e ossos
e morrinha num dente!
Mas, meu Deus, este cão
quase o diria meu irmão
parece gente!

2.
Este cão é redondo. Está deitado,

rosna com gengivas de uivo.
Dizem-me que foi lobo,
mas perdeu a alcateia
como os homens perderam a razão,
que hoje serve de osso ao cão
escapou ao cogumelo nuclear,
e por isso se foi deitar.

(Vitorino Nemésio)

RESPIRO O TEU CORPO

Respiro o teu corpo:
sabe a lua-de-água
ao amanhecer,
sabe a cal molhada,
sabe a luz mordida,
sabe a brisa nua,
ao sangue dos rios,
sabe a rosa louca,
ao cair da noite
sabe a pedra amarga,
sabe à minha boca.


(Eugénio de Andrade)

14.5.05


Abel Manta Posted by Hello

O PORQUÊ DO DIREITO À DIFERENÇA

Nas pétalas de uma flôr, abertas ao Sol esbanjando beleza, pousou uma abelha, obreira magnífica que na força da colmeia justifica a razão do comportamento isolado.
Nos bagos da romã, pequenos e arredondados, surge a força do fruto, imensa, resultado último da união dos bagos que o compõem.
Nos princípios normativos de uma sociedade que se reconhece num determinado espaço, partilhando um tempo de solidariedade feita de valores, alegrias e outras tantas dores, forja-se a sua força aglutinadora, a resistencia ao egoísmo e egocentrismo, a sua capacidade última de se rever como comunidade, onde as diferenças se esbatem na desgraça e a união resultante deriva do profundo sentido e respeito da individualidade, tal como a abelha e o bago da romã.

PERGUNTA COM RESPOSTA

Se de cada vez que muda um governo se levantam suspeições - que acreditamos são perfeitamente fundadas - que opinião deveremos ter sobre toda a classe política que há 31 anos (des)governa este nosso País?
Mais: se só agora parece ser difícil ficar impune, o que se terá passado nos primeiros 21 anos, quando os políticos eram intocáveis e a impunidade imperava?
O cidadão que todos somos tem a resposta, estou certo.

13.5.05


Bual Posted by Hello

Uma Decisão Acertada Mas Indiciadora Dos Tempos Que Correm...

Na sequência da motivação de João Paulo II - aproximar os fiéis dos seus Santos, garantindo a beatificação de cristãos palpáveis na memória e nos actos, juntando-os a todos os outros que são conhecidos pelas atitudes descritas e pelas Imagens que pontificam nas Igrejas, mas que não estando próximos no tempo de todos nós, nos levariam fácilmente a pensar que tempos houve em que Santos e Milagres "abundavam" na Terra mas, que hoje, por razões várias, só encontramos demónios e ninguém a quem santificar - Bento XVI decidíu e bem, iniciar o processo de beatificação daquele que o mais merece acima de todos os outros, mesmo não estando transcorridos os cinco anos considerados mínimos para o início desse processo.
Contudo, que ninguém se engane: João Paulo II foi o Papa da concórdia, mas a necessidade de beatificações e de aproximação da população à Igreja através de ícones actuais promovem, naturalmente, o receio da presença de tempos de conflito, cujos sinais são de há muito visíveis.
Saúde-se, então, a visão estratégica e pragmática da Igreja Católica Apostólica Romana, na certeza de que, perante semelhante visão e antecipação das dificuldades, prova cabal da sua inteligência e fulgor, contará com todos nós para os combates que se avizinham: ideológicos, culturais e, por fim, políticos (societários).

Triste Sina

a de quem tem de continuar a esgrimir argumentos anti- regime "salazarista", num debate televisivo, 31 anos depois da queda do regime (o tempo da outra Senhora, como ficou conhecido) para suportar a vitória de um candidato nas eleições presidenciais de 2006.
Aconteceu a Fernando Rosas, ao pretender demonstrar (QED) que todos os presidentes até agora eleitos e indicados pelo PS tinham militado nas hostes oposicionistas, e a Dias Loureiro que afirmou, após aquela "brilhante" dedução de Rosas (que poderia ser uma excelente aposta no "Levanta-te e Ri") que também Aníbal Cavaco Silva tinha militado contra o "ancien" regime, afirmando:
"se fôr por aí estamos safos (sic)".

Os tempos agora são outros: daqui a trinta anos, a história (com h pequeno) que agora vivemos será conhecida, garantidamente, como " o tempo da outra Gaija".
nota: a propósito, para uma correcta interpretação de gaija, ler:
TalvezTeEscreva.

Sentir a Maresia no Meio da Serra

Indiferentemente de se tratar de uma atitude pouco coerente e incipiente sob o prisma político, levando a acreditar em absoluto e após tanta asneira e falta de moral, que o problema de Portugal é ter políticos que não têm condições de o ser, porque vêem o País à luz dos interesses pessoais e nunca dos interesses colectivos - mesmo que as medidas tomadas sejam de interesse regional e nacional - e ainda reprovável à luz de qualquer racicocínio intelectualmente sério que se faça, a verdade, verdadinha, é que a ser verdade que Nobre Guedes foi escutado durante cinco meses enquanto ministro e, sabendo todos, que foi minstro durante 7 (sete) meses, o caso cheira, quer se queira quer não, a Mar e Serra.
Lá que cheira, cheira!
Uma referência a Secret Story

Cruzeiro Seixas Posted by Hello

«A Cena do Ódio», excerto

Ergo-me pederasta apupado de imbecis,
divinizo-Me Meretriz, ex-libris do Pecado,
e odeio tudo o que não Me é por Me rirem o Eu!
Satanizo-me Tara na Vara de Moisés!
O castigo das serpentes é-me riso nos dentes,
Inferno a arder o Meu cantar! (...)
Tu, que te dizes Homem! (...)
Vai vivendo a bestialidade na Noite dos meus olhos,
vai inchando a tua ambição-toiro
'té que a barriga te rebente rã. (...)
Hei-de, entretanto, gastar a garganta
a insultar-te, ó besta! (...)
Tu chegas sempre primeiro...
Eu volto sempre amanhã...
Agora vou esperar que morras. (...)
E vós também, nojentos da Polític
que explorais eleitos o patriotismo!
Maquereaux da Pátria que vos pariu ingénuos
e vos amortalha infames!
E vós também, pindéricos jornalistas
que fazeis cócegas e outras coisas
à opinião pública! (...)
Ah! Que eu sinto claramente que nasci
de uma praga de ciúmes.
Eu sou as sete pragas sobre o Nilo
e a alma dos Bórgias a penar!

(Almada Negreiros)
Tu, qu'inventaste a chatice e o balão,
e que farto de te chateares no chão
te foste chatear no ar,
e qu'inda foste inventar submarinos
p'ra te chateares também por debaixo d'água...
Tu, que tens a mania das invenções e Descobertas
.......................
Tu consegues ser cada vez mais besta
e a este progresso chamas Civilização!"

(Almada Negreiros)

12.5.05


Nadir Afonso Posted by Hello

Na busca, errada e errónea, do "bezerro de ouro"...

estar "fora do tempo" não existe. Se a "lei" e a "ordem" vigentes não correspondem à expectativa gerada nos anos verdes, feitos de molduras de sonhos, é porque não o são de facto e só por tácita adesão, (in)voluntária e garantidamente violenta, na alma e no corpo, se poderão considerar como tal.
A não adesão implica estar fora de "tudo". É o "tudo" que não agrada e mote inspirador da rejeição à adesão. Contudo, este "tudo" é quase "nada". E digo "quase" porque, finalmente e em consciência, sabemos que a vida é ditada por pequenos "nadas". A nossa vida, à excepção do nascimento, da morte, da paternidade, do amor e da amizade, é ditada, toda ela, por pequenos "nadas".
Mas fora do "tudo" estão muitos, quase todos. E se digo "quase" é porque dentro deste "tudo" só cabem mesmo aqueles que vivem dos "nadas" - não os que vêem a vida ditada por pequenos "nadas" - e que são eles próprios, em simultâneo, os "tudos" e os "nadas".
Na realidade os que não são "nadas" e não estão inseridos no "tudo", são afinal o "todo", sem o qual o "tudo" nada significa e os "nadas" perdem eficácia.
É na força da vida vivida convictamente, de forma louca e apaixonada intelectual e fisicamente, na existência não truncada, feita e reforçada de convicções, de certezas e dúvidas carregadas na inteligencia e na moral que não se vende, nem se aluga, mas se afirma continuamente que a vida merece ser vivida e permite a sua partilha
Dá-se! Primeiro dá-se, esperando em troca receber, almejando que dando sempre mais do que se recebe, se receba no final mais do que se esperava.
Bom Dia...

Henrique Pousão Posted by Hello

Quem diz que Amor é falso ou enganoso

Quem diz que Amor é falso ou enganoso,
Ligeiro, ingrato, vão desconhecido,
Sem falta lhe terá bem merecido
Que lhe seja cruel ou rigoroso.

Amor é brando, é doce, e é piedoso.
Quem o contrário diz não seja crido;
Seja por cego e apaixonado tido,
E aos homens, e inda aos Deuses, odioso.

Se males faz Amor em mim se vêem;
Em mim mostrando todo o seu rigor,
Ao mundo quis mostrar quanto podia.

Mas todas suas iras são de Amor;
Todos os seus males são um bem,
Que eu por todo outro bem não trocaria.

(Luís de Camões)
Pois as iras de Amor e todos os males que daí advêm quando este se transforma em ódio e despeito são verdadeiros "case study"...

BlahBlahBlah



11.5.05


Alcides Baião Posted by Hello

NADA INTELIGENTE...

a questão levantada em volta da herdade Portucale, pertença do grupo ES, e a dificuldade de a reconverter para utilidade turística - muito embora já existam na área 2 campos de golfe de 18 buracos, que apontam claramente o caminho a seguir - é fortemente elucidativa da manipulação passível de ser exercida, através de forças obscuras, por não serem claros os contornos dos interesses que defendem - Quercus - num Portugal de extremos, onde a permissividade se mistura, perigosamente, com a ortodoxia mais "dura", de um fundamentalismo irracional, tanto quanto a ligeireza com que são tratados os assuntos de Estado.
Os extremos tocam-se, de facto!
Não importa agora se a autorização de abate de cerca de 3.000 sobreiros vem acompanhada de uma obrigação de plantar cerca de 5.000 árvores da mesma espécie, que por sinal já estão plantadas há muito; ou se a criação de 400 postos de trabalho na zona são de enorme importância; ou ainda, se existem em Portugal muitos locais que poderão juntar o útil ao agradável - contribuir para o PIB em mais do que um sector de actividade.
O que importa verdadeiramente é questionar a pertinácia de 3 (três) ministros viabilizarem um empreendimento 4 dias antes de cessarem funções, por imperativo de eleições, já para não mencionar o facto de se encontrarem sómente em funções de gestão.
Cheira mal, quer queiram quer não!
A temporalidade, para além de inoportuna, é altamente questionável.
Mesmo que se pretendam perseguições pessoais, a cheirar a praia e a serra, não é admissível que se tomem medidas que não são essenciais a um governo de gestão - porque implicam interesses económicos - por membros proeminentes da vida governativa, polítca e social do País.
O processo foi célere, demais para os hábitos instituídos, mas foi pertinente e esse facto pesa.
Em simultâneo coloca-se em causa um empreendimento que, em momento algum, questiono como válido, necessário e importante. Os métodos para a sua viabilização não terão sido, contudo e supostamente, os mais indicados e, se assim fôr, igualmente o promotor falhou redondamente.
A preocupação que subjaz, pelo menos na minha óptica, não é determinar do interesse do investimento (que reitero de importante): é determinar se o empreendimento é travado porque os "interlocutores" foram mal escolhidos, no tempo e no espaço.

REFLEXÃO...

a confiança é um valor, passível de ser vulnerável quando relacionado com terceiros, mas inquestionável quando se trata de nós próprios.

10.5.05


Noronha da Costa Posted by Hello

PORTUGAL

Avivo no teu rosto o rosto que me deste,
E torno mais real o rosto que te dou.
Mostro aos olhos que não te desfigura
Quem te desfigurou.
Criatura da tua criatura,
serás sempre o que sou.

E eu sou a liberdade dum perfil
Desenhado no mar.
Ondulo e permaneço.
Cavo, remo, imagino,
E descubro na bruma o meu destino
Que de antemão conheço.

Teimoso aventureiro da ilusão,
Surdo às razões do tempo e da fortuna,
Achar sem nunca achar o que procuro,
Exilado
Na gávea do futuro,
Mais alta ainda do que no passado.

(Miguel Torga)

9.5.05


Carlos de Bragança (Rei de Portugal) Posted by Hello

O Dinheiro: Uma Auto-Estrada Universalmente Aceite

No mundo actual - no nosso mundo e nas nossas vidas - o poder moderno não é um exercício meramente abstracto: assenta básicamente em dinheiro, em fortunas feitas de uma forma rápida, muito rápida, parecendo a todos serem estas as únicas merecedoras dos maiores encómios e os seus titulares pequenos Midas; por contraponto com as fortunas antigas, algumas já ultrapassando o século de existência, normalmente baseadas em factores de produção, ao contrário daquelas, fortemente baseadas na especulação.
O dinheiro surge como estrada universalmente aceite, onde vão dar todos os caminhos e formas de poder, unificador irreal e simultaneamente trivial, da vontade económica mesclada de um poder religioso.
O poder moderno é hoje utilizado fazendo uso da difusão informativa e não da sua retenção. O poder não se centra na limitação do conhecimento de terceiros, "dos outros", mas sim na capacidade de mobilizar o conhecimento "de todos".
Como consequencia surge a banalização da informação. Esta conduz à transformação das relações sociais, como às relações do poder.
As decisões já não são tomadas por alguém, são a consequencia de uma série de etapas no decurso das quais se moldam as decisões.
É precisamente este o terreno onde tem crescido e se tem desenvolvido uma nova forma de corrupção.
Reagindo a uma multitude de informações, perante uma abundancia excessiva de dados, procurando ter em conta os multiplos interesses, quase sempre contraditórios, dos grupos de pressão, o funcionário moderno vê-se cada vez menos como alguém encarregado de fazer prevalecer um interesse público, mas antes como um instrumento social facilitador de um jogo que é, em si próprio, a regra.
Neste cenário, o excesso de informação mata a própria informação e, muito embora, tenha terminado há muito o tempo dos privilégios baseados em títulos nobiliárquicos, esta preferencia clássica, chamemos-lhe assim, reaparece sob outra forma e veste: a abundancia de títulos mata os próprios títulos e a concorrencia elimina os mais "medíocres" e só deixa lugar à sobrevivencia dos "melhores". A questão coloca-se então: como distingui-los?
Vivendo-se na era da informação, da comunicação, aproximando-nos cada vez mais do conhecimento, a esperança de levar a cabo uma tarefa baseada em conceitos meramente técnicos é uma ilusão. Há então que proceder por etapas: mostrar o que se conhece, reintroduzir novas ou antigas fidelidades, conjugar vontades no colmatar do vazio deixado pela ausencia da motivação política, da razão política. Assegurada a qualidade da informação, torna-se essencial a qualidade do contacto, sendo as decisões - como a eleição de pessoas - tomadas à sombra dessa qualidade.
No mundo em que vivemos o poder emana da capacidade relacional muito mais do que do saber; o interesse público "casa-se" com o interesse privado na procura de incrementos de eficácia. São imperceptíveis os deslizamentos através dos quais se passa do contacto à dependencia, da informação à capacidade de influencia. A corrupção é sómente a face visível, tosca e grosseira, de o fazer.
A multiplicação dos escândalos envolvendo bens materiais não é mais do que a consequencia lógica da verdade universalmente aceite, o dinheiro, como medida do triunfo individual ou da sociedade, unidade comúm de medida que permite uma ligação e comunicação imediata com os nossos "semelhantes", pela reverencia e fascinio que compartilham connosco em relação ao dinheiro e à divisão de poder que estão dispostos a estabelecer. Esta será mais ou menos durável no tempo conforme os laços de proximidade se estabeleçam numa maior ou menor base ideológia, seja ela moral, política ou religiosa, ou todas conjuntamente.
E como as iludências aparudem...

Blahblahblah

Silva Porto Posted by Hello

Abel Manta - "Lg. Camões" Posted by Hello

8.5.05

CATILINA

Eu sou o solitário e nunca minto.
Rasguei toda a vaidade tira a tira
E caminho sem medo e sem mentira
À luz crepuscular do meu instinto.

De tudo desligado, livre sinto
Cada coisa vibrar como uma lira,
Eu - coisa sem nome em que respira
Toda a inquietação dum deus extinto.

Sou a seta lançada em pleno espaço
E tenho de cumprir o meu impulso,
Sou aquele que venho e logo passo.

E o coração batendo no meu pulso
Despedaçou a forma do meu braço
Pra além do nó de angústia mais convulso.

(Sophia de Mello Breyner)

6.5.05


John Arbuckle Posted by Hello

Necessidades parvas de afirmação política e pessoal

A questão da meningite, da escola e das crianças (3) internadas ameaça tornar-se numa cena autista, ao nível da discussão e da inteligencia.
Graça Freitas, chefe de divisão das doenças transmissíveis da Direcção-Geral de Saúde (DGS), explica que não há razões médicas nem científicas para encerrar nem o infantário de Amarante, nem a escola Dona Leonor de Lencastre, no Cacém, onde há três alunos internados com meningite. «Do ponto de vista da DGS, dos centros de saúde, não há qualquer necessidade de encerrar as escolas. Seria infinitamente mais simples, ao nível da opinião pública, ter fechado as escolas, ter desinfectado e voltar a abrir. Mas não podemos fazer isso porque não é ético», explica.
Ontem, a Direccção-Geral de Saúde, relatava para os meios de comunicação social os contornos da propagação da doença e da segurança das instalações escolares, utilizando termos como: presumo...penso que....espero que....estamos convencidos que..., e outros dentro da mesma linha que inspiram tudo, menos confiança a quem escuta. Aliás, este tipo discursivo está há largos anos na moda, como forma de alijar responsabilidades mesmo antes que estas existam.
Percebe-se e já todos entendemos, que a referida bactéria não é transmissível através das paredes, do chão, das cadeiras e secretárias ou mesmo do tecto. Somos nós que a transportamos, entendendo-se o "nós" como 10 % da população, e depois, a bactéria encontra campo para se desenvolver ou não.
E assim surgem os casos de meningite.
Percebe-se que as escolas não devam fechar para serem desinfectadas, porque nada há para desinfectar.
O Ministro da Saúde dava conta disso mesmo, esta manhã.
No meio de tanta explicação e certeza uma dúvida assalta-me o espírito: e as crianças? Será que já nenhuma delas é portadora e, simultaneamente, agente transmissor? Não será necessária uma despistagem e, possívelmente, uma quarentena? Só para ter a certeza de que não existe, de todo, risco de contágio ?
Presumo que o fecho das escolas se possa operar tendo como motivação as dúvidas que levanto.
Não é necessário desinfectar as escolas? Óptimo!
Encerram-se, durante os dias necessários para que se perceba que nenhuma das crianças que as frequentava possa padecer de meningite ainda não declarada.
Dir-me-ão: mas para tal bastam 48 horas! Que seja, mas sinceramente, o que é que custa fechar uma, duas, três escolas durante 48 ou 72 horas, como prova: de preocupação humana; de respeito para com as crianças e respectivos pais; de que o Estado é pessoa de bem, preocupado, mesmo que apareça alguém a afirmar que a atitude é, igualmente, demagógica ou mesmo pouco ética? Que seja! Mas se fica toda a gente mais descansada.
Que raio: as escolas podem encerrar porque os professores fazem greve, porque o pessoal auxiliar (no meu tempo as senhoras da limpeza) fazem greve!
As escolas podem manter-se fechadas no início dos anos lectivos, total ou parcialmente, porque não foram colocados professores suficientes ou por atraso no início do ano escolar.
Podem fechar por todas estas razões e mais mil outras, mas não podem fechar porque uma criança já morreu, outras três continuam internadas em estado grave e os pais de todos os outros se encontram, legítimamente, preocupados.
Sinceramente não percebo. Não percebo como uma escola está fechada há dois dias porque os alunos que se apresentam são insuficientes para a abrir (50 numa população de 900) por iniciativa dos pais, mas não pode ser encerrada, pelos mesmos dois dias, acrescidos do fim-de-semana, por vontade do poder político.
Neste país a necessidade de afirmação continua muito elevada e enquanto assim fôr....

Mas há mais......

Graça Freitas afirmou, tranquilizando os pais, que são muito raros os casos em que a meningite causa a morte das crianças, embora e cito: «infelizmente haja excepções que causam a morte e que são dramáticas para as famílias».
Verdadeiramente tranquilizante!

4.5.05


Picabia Posted by Hello

AMOR

Aqueles olhos aproximam-se e passam.
Perplexos, cheios de funda luz,
doces e acerados, dominam-me.
Quem os diria tão ousados?
Tão humildes e tão imperiosos,
tão obstinados!

Como estão próximos os nossos ombros!
defrontam-se e furtam-se,
negam toda a sua coragem.
De vez em quando
esta minha mão,
que é uma espada e não defende nada,
move-se na órbita daqueles olhos,
fere-lhes a rota curta,
poderosa e plácida.

Amor, tão chão de Amor,
que sensível és...
Sensível e violento, apaixonado.
Tão carregado de desejos!

Acalmas e redobras
e de ti renasces a toda a hora.
Cordeiro que se encabrita e enfurece
e logo recai na branda impotência.
...
Ó amor, amor,
que faremos nós de ti,
e tu de nós?

(Irene Lisboa)

Picasso - "Jacqueline com flores" Posted by Hello

CONSTATAÇÃO (4)

A globalização conduzíu à "morte da distância".
Mais do que uma globalização económica, assistimos a uma verdadeira globalização comunicacional. É a troca de ideias, o "transporte das ideias", que vê o seu custo reduzido drásticamente.

CONSTATAÇÃO (3)

O IDE cresceu rapidamente, nos últimos vinte anos, originando deslocalizações e outsourcings de tarefas e produções para países de salários baixos, ou seja, e por outras palavras, os menos qualificados em economias avançadas (caso de Portugal), não beneficiam do suposto desenvolvimento económico que deriva do crescimento, mas vêem-se ultrapassados pela necessidade das margens serem construídas à custa de baixos salários.

CONSTATAÇÃO (2)

A mobilidade do capital é um fenómeno da tríade e só desta.
A economia está longe de ser global.
Se o fosse, haveria um desvio massivo de Investimento Directo Estrangeiro para os Países em Vias de Desenvolvimento e, como se sabe, esse factor económico não se verifica.

CONSTATAÇÃO

Portugal é o país, entre os actuais membros da UE, que apresenta um maior grau de similitude estrutural com os PECO e que evidencia uma perca de vantagem relativa das suas exportações, em termos de qualidade, em relação a todos os PECO (excepto a Eslovénia), ajudando a configurar um cenário de uma concorrência cada vez mais penalizadora, no futuro, para as exportações portuguesas.
Em suma, estamos "feitos".

3.5.05


Alfred Sisley Posted by Hello

CALMA

Que costa é que as ondas contam
E se não pode encontrar
Por mais naus que haja no mar?
O que é que as ondas encontram
E nunca se vê surgindo?
Este som de o mar praiar
Onde é que está existindo?

Ilha próxima e remota,
Que nos ouvidos persiste,
Para a vista não existe.
Que nau, que armada, que frota
Pode encontrar o caminho
À praia onde o mar insiste,
Se à vista o mar é sózinho?

Haverá rasgões no espaço
Que dêem para outro lado,
E que, um deles encontrado,
Aqui, onde há sargaço,
Surja uma ilha velada,
O país afortunado
Que guarda o Rei desterrado
Em sua vida encantada?

(Fernando Pessoa)

Bom Dia...

2.5.05


Parrish Posted by Hello

Morrer Duas Vezes

....
Dor que infligiste com aço afiado,
Várias vezes brandido no ar,
Que senti, fulminante, na carne a entrar
À procura da dor, da morte, do fado.

Vi-me fugir, naufragar no vazio,
Perdido o sentido, perdido o caminho.
Prestes fiquei a entregar-me ao destino
Alma a cair, corpo inerte com frio.

Uma voz noutro mundo proclama
Que entre os povos a guerra acabou,
Que para o homem a doença findou
E que a humanidade, finalmente,
Se não tolera mas ama!

Quero todas estas verdades imensas
Que ouço dentro de mim!
Quero-as como se quer ao jasmim,
Numa infusão de todas as crenças.

Quero, quero, quero!
Mas um sorriso medonho, o teu,
Traz-me de volta, ao inferno,
Faz-me sentir todo o veneno,
Agora só a vingança eu quero!

Agarro-te como se agarrasse o mal,
Surpreendo-te nesse momento
E num rápido movimento
Espeto profunda, a adaga fatal!

Cais sobre o meu torso, pesada.
A alma vejo, foge-te nos olhos,
já não lindos, mas surpresos e receosos,
Na certeza da vida que jaz prostrada.

Morta estás, teu corpo perecendo
Sobre o meu, que à morte resgatei
Na força que no amor busquei.
E, contudo, sinto-me morrendo.
....

(João Fernandes)

Edward Hopper Posted by Hello

1.5.05


A Pedrada no Charco....
ou a vontade imensa de dizer basta e assumir esse sentido. Posted by Hello

A PREOCUPAÇÃO DE MARQUES MENDES

é totalmente justificada!
A questão, pertinente, de saber qual o 1º referendo a realizar - se o do aborto se o da constituição europeia - faz todo o sentido.
O governo socialista e José Sócrates têm de decidir rápidamente e dize-lo sem delongas, ao País, qual o assunto que consideram da maior acuidade política.
Por mim afirmo, que a terem de se realizar os ditos referendos, que seja então o 1º sobre o aborto. Aliás direi mais: não faz sentido realizar um sem o outro.
Senão vejamos: se a lei sobre o aborto for referendada nos termos em que o deseja a esquerda portuguesa e se o SIM for ganhador, o que espero sinceramente atendendo à pertinácia da questão em agenda, temos o problema do referendo sobre a constituição europeia resolvido: mandamos abortar a constituição europeia. Talvez até possamos prescindir deste referendo. Abortamos a constituição e pronto. É pedir muito? Talvez. Faça-se o referendo com a pergunta muito simplificada: Aborta-se? SIM ou NÃO? Com a embalagem que levamos o SIM está garantido!
(De outra forma não percebo como se vai referendar esta matéria, sem se ter explicado minímamente o seu alcance e com a partidocracia do país toda de acordo)

OS EXTREMOS TOCAM-SE

O 1º presidente do CDS é agora ministro socialista.
O último presidente do CDS/PP, e digo último, porque acredito que estejamos perante a morte política do CDS e não tão só porque acabou de ser eleito, diz-nos que irá gerir o partido a partir de Bruxelas onde se encarna a via socializante de Jacques Délors e dos franceses, porque a vida lá é muito melhor, porque se come muito bem, porque o ambiente é muito cosmopolita, muito socialista - digo eu - porque a vida política nacional está uma vergonha e é uma anedota, dizemos todos, porque não se aceita que um líder partidária coloque, sequer, a hipótese de exercer oposição aos bocadinhos, de vez em quando e à distância.
A morte política do CDS poderá contudo, a acontecer, o que me pareece inevitável neste momento, propiciar uma renovação, porque abre um novo espaço político em Portugal que deverá ser prenchido sem tibiezas, por uma direita não-liberal séria, preocupada com o País, com a sua situação económica, mas acima de tudo com soluções sociais e de fraternidade - que rompam com o egoísmo e a hipocrisia do capital numa economia liberal - dentro de um espaço político-geográfico definido: as nossas fronteiras quase novecentistas.
"The priority of work over capital places an obligation in justice upon employers to consider the welfare of the workers before the increase of profits. They have a moral obligation not to keep capital unproductive and in making investments to think first of the common good. The latter requires a prior effort to consolidate jobs or create new ones in the production of goods that are really useful. The right to private property is inconceivable without responsibilities to the common good. It is subordinated to the higher principle which states that goods are meant for all."

Bento XVI
(palavras proferidas ainda na condição de Cardeal)

SONETO

Aqueles claros olhos que chorando
Ficavam, quando deles me partia,
Agora que farão? Quem mo diria?
Se porventura estão em mim cuidando?

Se terão na memória, como ou quando
Deles me vim tão longe de alegria?
Ou se estarão aquele alegre dia
Que torne a vê-los, na alma figurando?

Se contarão as horas e os momentos?
Se acharão num momento muitos anos?
Se falarão coas aves e cos ventos?

Oh, bem-aventurados fingimentos,
Que nesta ausência tão doces enganos
Sabeis fazer aos tristes pensamentos!

(Luis de Camões)

30.4.05


Jack Vettriano, "Dance me to the end of love" Posted by Hello
A arte conceptual o paradoxo da dança um olhar sobre a música a integridade do espaço próximo e distante. A dança.Shubert e Erato.
(Mendes Ferreira)

SONETO

Transforma-se o amador na cousa amada,
Por virtude do muito imaginar;
Não tenho logo mais que desejar,
Pois em mim tenho a parte desejada.

Se nela está a minha alma transformada,
Que mais deseja o corpo de alcançar?
Em si somente pode descansar,
Pois consigo tal alma está liada.

Mas esta linda e pura semideia,
Que, como um acidente em seu sujeito,
Assim coa alma minha se conforma.

Está no pensamento como ideia;
[E] o vivo e puro amor de que sou feito,
Como a matéria simples busca a forma.

Quando de minhas mágoas a comprida
Maginação os olhos me adormece,
Em sonhos aquela alma me aparece
Que para mim foi sonho nesta vida.

Lá numa soidade, onde estendida
A vista pelo campo desfalece,
Corro para ela; e ela então parece
Que mais de mim se alonga, compelida.

Brado: - Não me fujais, sombra benina!
Ela, os olhos em mim cum brando pejo,
Como quem diz que já não pode ser,

Torna a fugir-me; e eu, gritando: - Dina...,
Antes que diga mene, acordo e vejo
Que nem um breve engano posso ter.

(Luis de Camões)
É sempre bom reler Camões!
Helena Monteiro

29.4.05

Fim de Tarde na Primavera...

Patrick Adam Posted by Hello

O BARREIRO E A CUF (3)

Em 1917, após a aquisição de novos terrenos, a CUF dava emprego a 2.000 operários e ocupava uma área de 200.000 m2. Dispunha-se geográficamente no conjunto fábricas, anexos e bairros operários, a Este do Barreiro "velho" e à beira rio, num espaço fechado ao exteriror, de frente para o Tejo, de costas para a Vila.
A República e a I GGuerra conduzem a uma crise económica nacional e internacional, que condicionam o desempenho da unidade industrial, abrandando significativamente o ritmo de crescimento que vinha ostentando. Este facto deve-se, essencialmente, à dificuldade no abastecimento de combustíveis, à paralização do sector dos transportes marítimos, à dificuldade de obtenção de bens de equipamento e à contratação de mão-de-obra técnica e especializada oriunda do estrangeiro. Igualmente a desvalorização da moeda portuguesa implica um aumento no custo de aquisição das matérias-primas e subsidiárias, sobe a inflacção, diminuindo o poder aquisitivo da economia e levando ao encerramento temporário de algumas das unidades fabris.
O ano de 1919 marca a recuperação e alteração do caminho traçado pela CUF, decidido em Assembleia Geral nos seguintes termos: "...diversificar a produção dentro dos ramos existentes e mesmo iniciá-la noutros sectores de actividade - o comércio, os transportes, as indústrias extractivas".
Mais à frente especificava-se a orientação estratégica: "...indústrias dos corpos gordos, óleos de quaisquer espécies, azeites, gorduras,....a indústria dos transportes terrestres, fluviais ou marítimos, ...o comércio de matérias-primas ou outros produtos manufacturados". A CUF mostrava assim a vontade de diversificando, transversalizar a sua actividade e, igualmente importante, verticalizar a sua influencia, desde o controle sobre as matérias-primas até ao consumidor final, ganhando tanto quanto possível independencia nos processos produtivos em que se encontrava envolvida. (continua)

Winslow Homer Posted by Hello

O NAVIO DE ESPELHOS

O navio de espelhos
não navega, cavalga

Seu mar é a floresta
que lhe serve de nível

Ao crepúsculo espelha
sol e lua nos flancos

Por isso o tempo gosta
de deitar-se com ele

Os armadores não amam
a sua rota clara

(vista do movimento
dir-se-ia que pára)

Quando chega à cidade
nenhum cais o abriga

O seu porão traz nada
nada leva à partida

Vozes e ar pesado
é tudo o que transporta

(E no mastro espelhado
uma espécie de porta)

Seus dez mil capitães
têm o mesmo rosto

A mesma cinta escura
o mesmo grau e posto

Quando um se revolta
há dez mil insurrectos

(como os olhos da mosca
reflectem os objectos)

E quando um deles ala
o corpo sobre os mastros
e escruta o mar fundo

Toda a nave cavalga
(como no espaço os astros)

Do princípio do mundo
até ao fim do mundo.

(Mário Cesariny)

27.4.05


John Arbuckle Posted by Hello

NOS 10 ANOS DA AUTO-EUROPA,

e feita a resenha do período decorrido, constata-se que os 5.000 postos de trabalho que o projecto previa se converteram em 3.000; que os 10.000 empregos indirectos não ultrapassam os 5.500. Mas, há que o dizer, o investimento efectuado foi e é de uma imensa importancia para a região onde se insere - habituada que esteve durante décadas a albergar as maiores industrias nacionais - e para a economia do país, sendo responsável por cerca de 60% das exportacões totais de bens com forte incidencia tecnológica, 12,5 % se considerarmos o total das exportações e geradora de 2% do Produto Interno Bruto.
  • Razões de sobejo para que se reconheça a valia do empreendimento, mesmo que se apontem erros na condução estratégica da criação de externalidades, que pudessem conduzir a região de Palmela e o Distrito de Setúbal a gozar dos benefícios de uma zona geográfica, reconhecida internacionalmente, como forte polo económico da industria de componentes e capaz de canalizar novos e duradouros investimentos.
Contudo, a razão deste "post" é outra, para além de constatações!
É a base que nos tem servido de suporte para criticar frontal e abertamente os espíritos comezinhos e pequenos dos nossos políticos, mormente a política seguida pelos sucessivos ministros das finanças, com os expoentes mais radicais personalizados em A. Cavaco Silva e a seguidista M. Ferreira Leite, que nos leva a, uma vez mais, afrontar tão doutos espíritos e questionar, sériamente, as políticas impostas, tantas vezes catalogadas de brilhantes e patrióticas (de brilhante não lhes encontramos nada e de patriótico só a cor encarnada, comum à Bandeira Nacional e ao "sangue" exaurido pelas classes média e baixa portuguesas nestes anos desaproveitados).
  • Senão vejamos: as economias nacionais perderam instrumentos de receita importantes, caso dos direitos aduaneiros; assumiram custos elevados quando por força do tratado de adesão à UE se obrigaram a adquirir aos parceiros europeus produtos básicos, na sua maioria subsidiados, que anteriormente adquiriam a países externos à UE em condições mais vantajosas (desvio de comércio); perderam a capacidade de mexendo na moeda, momentaneamente, criarem condições de aumentar a competitividade dos seus produtos em mercados terceiros, aumentando por via indirecta as receitas fiscais; perderam, por fim, o instrumento taxa de juro.
Os países não são comparáveis a empresas. Os discursos que assim o ditam, são-no por norma efectuados por políticos ou gestores de empresas, que de economia nada percebem, em conferências ou reuniões sectoriais, pretendendo obter efeitos sofisticados para assembleias de gestores e empresarios que, na ausencia de conhecimentos económicos e vontade de pensar, acrescida de uma grande vontade de bajular, aplaudem estrepitosamente tais devaneios.
E os países não são comparáveis a empresas por uma única razão: mesmo que falidos não fecham, não podem mandar toda a gente para casa, porque em casa e no nosso país já estamos todos nós. Esta é a razão!
  • Mas então, se as receitas do estado diminuem drásticamente, não deverá quem governa procurar ainda com mais afinco receitas alternativas que conduzam a uma substituição, no mínimo, daquelas que se deixam de realizar? E dizemos "ainda com mais afinco", por comparação com o gestor que vendo a sua empresa reduzir drásticamente a facturação, procura formas alternativas de manter o volume de negócio, o mesmo é dizer, o volume de receitas, sob o risco de ter de fechar a empresa e mandar toda a gente para casa viver "à custa" do Estado. Daí o "mais afinco" "entchendeu?"
Voltamos então à Auto-Europa:
  • Ficámos a saber, na passagem dos 10 anos da inauguração que, por cada euro financiado pelo estado portugues, a Auto-Europa multiplicou-o catorze vezes e meia (14,5 euros por cada euro subsidiado). Espante-se agora o leitor: o Estado é capaz, através de investimento que não o de mandar cosntruir estradas, pontes, escolas, hospitais e prisões, multiplicar o seu investimento catorze vezes, o mesmo é dizer, o Estado é capaz de multiplicar o NOSSO dinheiro e o que vai buscar EMPRESTADO catorze vezes. Aqui diz o leitor acisado: mas assim o Estado vai criar défice nas contas públicas! POIS VAI! E DEPOIS? Já aqui dissemos que há défice e HÁ DÉFICE! O primeiro é o da despesa não produtiva e tem de ser combatido; o segundo é produtivo e por tanto, BEM-VINDO! e é bem-vindo porque gera receitas futuras e estas por sua vez geram novas receitas. Desta forma o Estado consegue fazer face às despesas com a saúde, a educação, a investigação, o desenvolvimento social, a velhice. O Estado garante dignidade para si, ou seja, para todos nós, através do somatório das receitas fiscais, justas no calculo e na aplicação em cada momento, e nas receitas geradas pelos investimentos directa e indirectamente promovidos pelo estado, eles próprios geradores directos e indirectos de acréscimo nas receitas fiscais.
  • Temos assim défices bons e défices maus. Outra conclusão se tira: o Estado tem de intervir de uma forma mais eficaz na economia e, muito embora custe aos que defendem doutrinas liberais, que tão bem são acolhidas junto do capital, a verdade é que o Estado-Providencia moderno tem de encontrar soluções fora da política económica do "laissez-faire", tem de se tornar mais interventivo, para desempenhar cabalmente o papel económico e social que lhe está reservado.

Por este conjunto de razões se defende a aplicação de uma política conservadora não-liberal, com intervencionismo directo do Estado na vida económica como solução para um Portugal carente, incapaz de gerar investimento e necessitado urgentemente de um abanão forte na desconfiança dos agentes económicos, que o coloque no rumo do crescimento acelerado, gerador de receitas fiscais capazes de, a termo, respeitarem os compromissos assumidos com os cidadãos e que recupere o tempo e oportunidades perdidas. A História repete-se, mas sempre com "nuances" diferentes e com acrescida dificuldade. Porque os tempos são sempre outros, as crises tendencialmente cada vez mais prolongadas e a bonança económica temporalmente mais curta.

26.4.05


Jose Malhoa Posted by Hello

Foice em Seara Alheia, mas aos 80 Anos...

O Doutor Mário Soares afirmou não ser do seu agrado a nomeação de Bento XVI.
Caso Mário Soares fosse católico aceitar-se-ia o comentário e o desconforto, embora necessitasse sempre de esclarecer, de uma forma clara, porque razão não era essa nomeação do seu agrado, porque é uma figura pública e porque a uma figura pública não basta dizer "porque não!".
Não sendo católico - facto de que faz alarde, bastas vezes escudando-se nessa condição para se manifestar em determinadas matérias - não se compreende nem aceita que se pronuncie sobre algo que não lhe diz, efectivamente, respeito.
Mas mais afirmo , baseado na hipocrisia e cinismo que lhe conhecemos de há muito: caso tivesse 50 ou mesmo 60 anos e não 80, não escutaríamos, estou certo, qualquer palavra sobre o assunto, ou a faze-lo, seria decerto com palavras positivas e de esperança. A carreira política estaria primeiro, as influencias também, os favores igualmente. Claro que me estou a referir a um cenário conjuntural em tudo identico ao actual e não ao que se vivia ainda há vinte anos atrás, muito embora as mudanças já começassem a ser visiveis.

AMIGO

Mal nos conhecemos
Inaugurámos a palavra «amigo».

«Amigo» é um sorriso
De boca em boca,
Um olhar bem limpo,
Uma casa, mesmo modesta, que se oferece,
Um coração pronto a pulsar
Na nossa mão!

«Amigo» (recordam-se, vocês aí,
Escrupulosos detritos?)
«Amigo» é o contrário de inimigo!
«Amigo» é o erro corrigido,

Não o erro perseguido, explorado,

É a verdade partilhada, praticada.

«Amigo» é a solidão derrotada!

«Amigo» é uma grande tarefa,
Um trabalho sem fim,
Um espaço útil, um tempo fértil,
«Amigo» vai ser, é já uma grande festa!

(Alexandre O’Neill)